Doenças do cigarro e como parar de fumar

Autor(a): Dr. Pedro Pinheiro

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Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

Introdução

Atualmente, cerca de 1 bilhão de pessoas em todo o planeta são fumantes. Estima-se que nas próximas duas décadas esse número se elevará para 1.6 bilhão, com grande contribuição dos países mais pobres, onde o consumo de tabaco tem aumentado e já representa a maior fonte de lucros da indústria tabagista.

Tamanho consumo faz com que o cigarro seja atualmente a principal causa de morte prevenível em todo mundo. Uma em cada dez mortes de adultos está relacionada ao tabaco. Isto significa 6 milhões de óbitos por ano, 14 mil mortes por dia ou 1 morte a cada 6 segundos por doenças causadas pelo fumo.

Para se ter uma ideia da tragédia que é o cigarro, em todo o mundo morrem mais pessoas de doenças relacionadas ao tabagismo do que de AIDS, álcool, drogas ilegais, assassinatos, suicídios e acidentes automobilísticos juntos.

O cigarro é diretamente responsável por:

  • Nove em cada 10 mortes por câncer de pulmão.
  • Três em cada 10 mortes por qualquer tipo de câncer.
  • Três em cada 10 mortes por doenças cardiovasculares.
  • Oito em cada 10 casos de DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica), como o enfisema pulmonar ou a bronquite crônica.
  • Uma em cada 2 mortes de fumantes.

Custos do tabagismo

Os gastos anuais no mundo com os problemas de saúde  causados pelo tabagismo ultrapassam os 200 bilhões de dólares. Pessoas que fumam consomem em média 40% mais recursos dos sistemas de saúde que os não fumantes. Enquanto isso, empresas que comercializam cigarros, como a Philip Morris, apresentam lucro maior que a Nike e o McDonald’s.

O Brasil gasta perto de meio bilhão de reais no tratamento das doenças relacionadas ao fumo. Nos EUA trabalhos mostram que a cada dólar investido em programas de prevenção ao fumo, poupa-se 50 dólares do sistema de saúde.

Perigos do cigarro

As principais causas de morte relacionadas ao tabaco são as doenças cardiovasculares, o câncer de pulmão e a DPOC (enfisema e bronquite cônica).

Um fumante de longa data tem sua expectativa de vida reduzida em cerca de 13 anos, e pelo menos 50% dos fumantes morrerão de alguma doença diretamente causada pelo cigarro. Nos EUA 1/3 das doenças cardiovasculares, incluindo infartos e AVC, são causadas pelo cigarro.

Um simples cigarro contém cerca de 600 substâncias. Ao ser aceso, o processo de combustão transforma essas 600 substâncias em mais de 7000 produtos químicas, sendo, pelo menos, 400 delas sabidamente tóxicas ao organismo e cerca de 70 reconhecidamente carcinogênicas (i.e. que causam câncer). Entre as substâncias nocivas que absorvemos quando fumamos um cigarro podemos citar: ácido acético, metanol, chumbo, tolueno, arsênio, metano, amônia, cadmium, hexamina, monóxido de carbono, alcatrão e nicotina.

O cigarro também provoca deposição de material radioativo nos pulmões dos fumantes. Uma pessoa que fuma 1 maço e meio de cigarro por ano recebe uma quantidade de radiação ionizante equivalente a 4000 radiografias de tórax. Temos um texto que fala exclusivamente sobre a radiação do cigarro: VOCÊ SABIA QUE CIGARROS SÃO RADIOATIVOS?

Principais doenças e problemas relacionadas ao cigarro

Todas as doenças listadas abaixo ocorrem com maior frequência em indivíduos que fumam:

Fumo passivo

Já está comprovado que o fumo passivo pode levar às mesmas doenças do fumo ativo. Por isso, as leis antitabagismo, cada vez mais restritivas em todo mundo, não são apenas uma questão de não-fumantes incomodados com o cheiro da fumaça dos fumantes. É uma questão de saúde pessoal e pública.

Irmãs gêmeas idênticas: a da direita é fumante; a da esquerda nunca fumou.

Cânceres de pulmão em não-fumantes são pouco comuns, mas boa parte destes acometem pessoas que moram na mesma casa de um fumante. 90% dos cânceres de pulmão ocorrem em fumantes, os restantes 10% ficam em boa parte com os fumantes passivos.

Um não-fumante casado com um fumante tem 20% mais de chances de morrer de câncer de pulmão e doenças cardiovasculares que não-fumantes não expostos ao fumo passivo. Não fumantes que vivem com fumantes apresentam uma mortalidade até 15% maior que pessoas sem contato frequente com o cigarro.

Filhos de pais que fumam, expostos ao fumo passivo intradomiciliar por pelo menos 25 anos, tem o dobro de chances de desenvolver câncer de pulmão.

Recém-nascidos expostos ao cigarro durante a gestação apresentam quase 4 vezes mais chances de morte súbita. O risco de má formação fetal em mães fumantes também é maior. Mulheres grávidas expostas ao fumo passivo apresentam bebês com baixo peso ao nascerem.

Benefícios de parar de fumar

Os seguintes benefícios são alcançados quando se para de fumar:

  • Após 72 horas: melhora a respiração.
  • 1 mês: aumenta a perfusão de sangue para a pele, melhorando sua aparência.
  • 3 a 9 meses: os problemas respiratórios, como a tosse, desaparecem. A função pulmonar aumenta em 10%.
  • 1 ano: risco de infarto cai pela metade.
  • 10 anos: risco de câncer de pulmão cai pela metade.
  • 15 anos: risco de infarto é igual ao de não fumantes.

Após 15 anos de abstinência do cigarro, o risco de câncer cai em 90%, todavia, nunca será igual ao de quem nunca fumou.

ATENÇÃO: não existe quantidade segura de cigarros nem cigarro light. Quem fuma está sujeito a todos esses riscos, seja apenas um cigarro ou três maços por dia. Obviamente, quanto maior a quantidade, maior o risco.

Alguns trabalhos científicos tentaram avaliar o benefício da redução da carga tabágica em até 50% como alternativa para aqueles que tem dificuldade em largar o fumo. Nenhum conseguiu mostrar vantagens, a mortalidade permanece a mesma. Os benefícios só ocorrem para quem abandona de vez o vício.

Como parar de fumar

Cerca de 20% da população adulta é fumante. 70% destes, quando questionados, expressam desejo de parar de fumar e 40% afirmam já terem tentado pelo menos uma vez largar o vício. A taxa de sucesso, porém, é menor que 10%.

A nicotina é uma substância psicoativa capaz de causar grande dependência física. A ausência de nicotina na circulação de pessoas viciadas em cigarros causa intenso desejo de fumar e sintomas de abstinência como:

  • Irritabilidade.
  • Insônia.
  • Angústia.
  • Aumento do apetite.
  • Ansiedade.
  • Dificuldade de concentração.
  • Depressão

Algumas substâncias como café e álcool sevem como gatilhos para o desejo de fumar.

Na hora que se decide tentar parar de fumar é importante lembrar que o ato de fumar além de ser uma dependência física, é também um comportamento adquirido, que podemos simplificar chamando “força do hábito”.

Por isso, o tratamento psicológico pode ser tão importante quanto o medicamentoso, descrito seguir. A pessoa tem que realmente desejar para de fumar.

Reposição de nicotina

Pode-se oferecer nicotina sem o cigarro através de adesivos de pele, gomas de mascar (pastilha elástica) ou spray nasal.

A quantidade de nicotina oferecida desta maneira é menor que no cigarro, por isso, acaba sendo mais fácil abandonar o tabaco e depois a reposição de nicotina do que cortar o fumo e a nicotina de uma só vez.

Bupropiona (Zyban)

A bupropiona é um antidepressivo especialmente eficaz no controle da dependência da nicotina. O tratamento é normalmente feito com 12 a 24 semanas de uso da droga.

Temos um artigo específico sobre a bupropiona, que pode ser acessado através do seguinte link: Bupropiona – Remédio para parar de fumar.

Vareniclina

A Vareniclina é uma droga que age nos receptores cerebrais de nicotina, “enganando” o cérebro que julga que está recebendo nicotina. O tratamento também dura 12 a 24 semanas.

Atenção: Tanto a Vareniclina como a Bupropiona são drogas, por isso, podem apresentar efeitos colaterais e apresentam algumas contraindicações. Não se deve tomar esses medicamentos por conta própria, sem avaliação médica, sob o risco de graves efeitos adversos.

O tratamento da dependência do cigarro é realizado com aconselhamento médico associado a terapia medicamentosa. Quando se dissocia um do outro, os resultados não são bons.

Cigarros eletrônicos

Apesar de serem cada vez mais populares, os cigarros eletrônicos não são considerados uma boa opção para quem deseja parar de fumar. Primeiro porque eles não parecem ser seguros; segundo porque estudos mostram que 77% dos usuários do cigarro eletrônico permanecem fumando os cigarros convencionais.

Explicamos os cigarros eletrônicos em detalhes no seguinte artigo: Cigarro eletrônico faz mal?


Referências


Autor(es)

Médico graduado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com títulos de especialista em Medicina Interna e Nefrologia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), Universidade do Porto e pelo Colégio de Especialidade de Nefrologia de Portugal.

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