Principais informações sobre a celulite
A celulite é uma alteração muito comum da superfície da pele, principalmente nas coxas e nádegas, e acomete a maioria das mulheres após a puberdade.
Ela surge principalmente pela interação entre a gordura subcutânea, a pele e os septos fibrosos que tracionam a pele para baixo, formando as depressões características.
Mulheres magras e fisicamente ativas também podem ter celulite. Exercícios e perda de peso podem melhorar o aspecto da pele, mas não eliminam os septos responsáveis pelas depressões.
Cremes, massagens, chás e suplementos têm efeito limitado ou não comprovado e não conseguem eliminar a celulite.
Entre os procedimentos com melhores evidências estão subcisão, ondas acústicas, radiofrequência e alguns tipos de laser. O tratamento mais adequado depende do tipo de alteração predominante.
O que é celulite?
A celulite, aquelas irregularidades na pele que proporcionam uma aparência semelhante à casca de laranja, é uma alteração extremamente comum, principalmente nas mulheres. Na medicina estética, ela também recebe nomes como hidrolipodistrofia ginóide ou lipodistrofia ginóide.
As regiões mais afetadas são as coxas, quadris e nádegas — o popular bumbum —, mas a celulite também pode aparecer no abdômen e em outras áreas do corpo.
Apesar da enorme quantidade de cremes, aparelhos, massagens, suplementos e procedimentos oferecidos para acabar com a celulite, nenhum tratamento consegue garantir sua eliminação completa e permanente.
Isso não significa que nada funcione. Atualmente, existem procedimentos capazes de reduzir de forma significativa algumas formas de celulite. O problema é que tratamentos diferentes atuam em componentes diferentes do problema, e boa parte da propaganda comercial mistura melhora real com promessas exageradas.
Neste artigo vamos explicar por que a celulite aparece e o que realmente se sabe sobre exercícios, cremes, chás, massagens, radiofrequência, laser, subcisão e outros tratamentos.
Celulite estética não é a mesma coisa que celulite infecciosa
Antes de continuarmos, é importante desfazer uma confusão de nomes. Em português, a palavra celulite pode ser utilizada para duas condições completamente diferentes.
A celulite abordada neste artigo é a celulite estética, caracterizada por ondulações e depressões da pele, principalmente nas coxas e nádegas. Na maioria dos casos, ela não provoca sintomas e representa essencialmente uma alteração da aparência da pele.
Já a celulite infecciosa é uma doença completamente diferente: trata-se de uma infecção bacteriana da pele e do tecido subcutâneo, geralmente acompanhada de vermelhidão, calor, inchaço e dor.
A confusão ocorre porque, em português, utilizamos a palavra “celulite” para as duas condições. Em inglês, elas recebem nomes diferentes: cellulite para a alteração estética e cellulitis para a infecção.
Daqui em diante, sempre que utilizarmos a palavra celulite estaremos nos referindo à celulite estética.
Por que a celulite aparece?
Durante muito tempo, a celulite foi explicada simplesmente como gordura que “empurrava” a pele para cima enquanto fibras de tecido conjuntivo a puxavam para baixo. Essa explicação não está completamente errada, mas hoje sabemos que o mecanismo é mais complexo.
Sob a pele existe uma camada de tecido adiposo dividida por estruturas de tecido conjuntivo chamadas septos fibrosos. Esses septos ajudam a conectar a pele aos planos mais profundos.
Nas regiões com celulite, determinados septos exercem tração sobre a superfície da pele. Ao mesmo tempo, o tecido adiposo situado entre eles exerce pressão na direção contrária. O resultado é uma superfície irregular, com áreas deprimidas ao lado de regiões mais elevadas.

Estudos anatômicos e exames de imagem mostram que a organização tridimensional desses septos é diferente entre homens e mulheres. Nas mulheres, a arquitetura do tecido subcutâneo favorece mais a formação dessas depressões, o que ajuda a explicar por que a celulite é tão mais frequente no sexo feminino.
Além dos septos fibrosos, outros fatores podem contribuir para o aspecto da pele, como a quantidade de gordura subcutânea, a espessura da derme e a flacidez da pele.
Por isso, duas pessoas podem apresentar aquilo que popularmente chamamos de celulite por mecanismos um pouco diferentes. Uma pode ter depressões bem delimitadas causadas principalmente pela tração dos septos, enquanto outra apresenta ondulações mais difusas associadas à gordura localizada e flacidez.
Essa diferença é importante porque influencia a escolha do tratamento.
A celulite também não deve ser confundida com gordura localizada. É possível reduzir gordura sem eliminar a celulite e é possível ter muita celulite mesmo sendo magra.
Da mesma forma, celulite e estrias são alterações diferentes. As estrias são lesões lineares decorrentes do rompimento de estruturas da derme, enquanto a celulite produz depressões e ondulações da superfície da pele.
Fatores que favorecem o aparecimento da celulite
A celulite surge quase exclusivamente após a puberdade e acomete aproximadamente 80 a 90% das mulheres adultas em algum grau.
A predisposição genética parece ter papel importante. Algumas mulheres desenvolvem celulite mesmo sendo magras, praticando exercícios regularmente e mantendo hábitos de vida saudáveis.

A influência hormonal também é provável, principalmente pela forte predominância feminina e pelo surgimento após a puberdade, mas atribuir a celulite simplesmente ao estrogênio é uma explicação excessivamente simplificada.
O aumento da gordura subcutânea pode tornar as irregularidades mais evidentes, motivo pelo qual ganho de peso frequentemente piora a aparência da celulite. Entretanto, obesidade não é necessária para que ela apareça.
Com o envelhecimento, a diminuição da espessura e da elasticidade da pele também pode deixar as depressões mais evidentes.
Tabagismo, dieta rica em gorduras, sal ou carboidratos, baixa ingestão de líquidos e estresse são frequentemente relacionados à celulite. Entretanto, as evidências de que sejam fatores de risco independentes são limitadas, e nenhum deles deve ser considerado uma causa direta da celulite. A ideia de que a celulite seja provocada pelo “acúmulo de toxinas” também não tem fundamento científico.
Graus de celulite
Existem várias escalas para classificar a intensidade da celulite. Uma das mais conhecidas é a classificação de Nürnberger-Müller, que divide o aspecto da pele em quatro graus.
- Grau 0: a pele permanece lisa tanto em pé quanto deitada e não aparecem depressões mesmo ao pinçar a região.
- Grau 1: a pele parece normal em repouso, mas o aspecto de casca de laranja surge quando a região é comprimida entre os dedos ou quando há contração da musculatura.
- Grau 2: as irregularidades já são visíveis espontaneamente quando a pessoa está em pé, mas desaparecem ou ficam muito menos evidentes quando ela se deita.
- Grau 3: as depressões e ondulações mais acentuadas, que permanecem claramente visíveis tanto em pé quanto deitada.

Existem escalas mais detalhadas utilizadas em estudos clínicos, que avaliam também o número e a profundidade das depressões, a aparência da superfície e a presença de flacidez.
Algumas fontes utilizam outras classificações, inclusive escalas numeradas de 1 a 4. Por isso, é possível encontrar referências a “celulite grau 4”. Os números de diferentes escalas não devem ser comparados diretamente.
Na prática, mais importante que simplesmente dar um número à celulite é identificar qual componente está causando a alteração estética: depressões focais provocadas pelos septos, flacidez, excesso de gordura, irregularidades difusas ou uma combinação desses fatores.
Tratamento da celulite
Não existe um tratamento único que funcione para todas as pessoas porque os componentes responsáveis pela aparência da celulite não são exatamente os mesmos em todos os casos.
Também é importante ajustar as expectativas. O objetivo do tratamento é reduzir a aparência da celulite, e não prometer uma pele permanentemente lisa e sem nenhuma irregularidade.
Nas últimas décadas, várias técnicas foram estudadas. Algumas apresentam resultados razoavelmente consistentes; outras produzem apenas mudanças discretas ou temporárias; e muitas continuam sendo comercializadas apesar de evidências científicas fracas.
Exercícios físicos e academia ajudam a diminuir a celulite?
Sim, exercícios podem tornar a celulite menos evidente, mas não porque “quebram” ou queimam diretamente a celulite.
O treinamento de força aumenta a massa muscular das coxas e nádegas e pode deixar o contorno corporal mais firme. Exercícios aeróbicos também ajudam na redução da gordura corporal quando associados a uma dieta adequada.
Portanto, agachamentos, avanços, elevação pélvica e outros exercícios para glúteos e coxas podem melhorar o aspecto da região ao aumentar a musculatura, mas nenhum exercício específico consegue romper os septos fibrosos que formam as depressões da celulite.
Isso explica por que mulheres muito magras, atletas ou frequentadoras regulares de academia podem continuar apresentando celulite.
Em pessoas com sobrepeso, a perda de peso pode reduzir sua visibilidade. Entretanto, emagrecimentos importantes podem provocar flacidez da pele e, em algumas pessoas, tornar determinadas depressões até mais aparentes.
Dieta, alimentos e chás eliminam a celulite?
Não existe uma dieta específica capaz de eliminar a celulite.
Uma alimentação saudável é importante para manter um peso adequado e pode contribuir indiretamente para melhorar o contorno corporal, principalmente quando existe excesso de gordura. Entretanto, nenhum alimento conhecido dissolve os septos fibrosos ou modifica especificamente a estrutura responsável pela celulite.
O mesmo raciocínio vale para os chás.
Chá verde, chá de hibisco, centella asiática e várias outras preparações são frequentemente divulgados como tratamentos contra a celulite por terem propriedades diuréticas, antioxidantes ou por supostamente aumentarem o metabolismo.
Até o momento, não há boa evidência de que beber qualquer tipo de chá tenha um efeito clinicamente relevante sobre a celulite.
Um chá pode eventualmente contribuir para a ingestão de líquidos ou fazer parte de uma estratégia alimentar para controle do peso. Isso é diferente de tratar diretamente a celulite.
Também não existe nenhuma necessidade de fazer uma dieta “detox”. A celulite não é provocada pelo acúmulo de toxinas no tecido adiposo.
Suplementos alimentares funcionam?
A evidência ainda é insuficiente para recomendar suplementos como tratamento da celulite.
Alguns ensaios clínicos com formulações específicas de peptídeos de colágeno mostraram pequenas melhoras na aparência da pele após vários meses de uso. Entretanto, esses resultados não podem ser extrapolados para qualquer suplemento de colágeno disponível no mercado.
Portanto, afirmar que “colágeno acaba com a celulite” vai muito além do que os estudos permitem concluir.
Também não existem evidências convincentes para a maioria dos suplementos vendidos com alegações de eliminar toxinas, melhorar a circulação ou “queimar a gordura da celulite”.
Creme anticelulite funciona?
Os cremes estão entre os tratamentos mais procurados porque são simples, relativamente baratos e não invasivos. O problema é que seu efeito costuma ser pequeno.
Entre os ingredientes mais estudados estão os retinoides e as metilxantinas, principalmente a cafeína.
Produtos contendo retinol podem aumentar discretamente a espessura da pele ao longo de vários meses, tornando algumas irregularidades menos aparentes. O resultado, quando ocorre, costuma ser modesto e exige uso prolongado.
Produtos com cafeína podem provocar alterações temporárias na hidratação e na aparência da pele, deixando a superfície um pouco mais lisa. O efeito tende a desaparecer quando o uso é interrompido.
Portanto, cremes podem atuar como complemento em casos leves, mas não rompem os septos fibrosos e dificilmente produzirão grande melhora em depressões profundas.
Também é preciso lembrar que cosméticos podem causar irritação ou dermatite de contato em pessoas suscetíveis.
Produtos com retinoides devem ser evitados durante a gravidez, pois esses derivados da vitamina A apresentam risco teratogênico quando há exposição sistêmica; embora a absorção pela pele seja pequena, seu uso tópico não é recomendado por precaução.
Massagem e drenagem linfática
Massagens podem deixar a pele temporariamente mais lisa e reduzir algum inchaço da região, mas não modificam de forma permanente a arquitetura dos septos fibrosos.
A drenagem linfática pode ser útil quando existe edema associado, porém retenção de líquidos não é a causa principal da celulite. Uma pessoa sem edema não deve esperar que a drenagem elimine suas depressões na pele.
A Endermologie® é uma forma de massagem mecânica associada à sucção. Alguns estudos mostram pequenas melhoras e outros não demonstram benefício relevante. Quando existe resultado, ele tende a ser temporário e exige manutenção.
Ondas acústicas e ondas de choque
A terapia por ondas acústicas é uma das técnicas não invasivas com evidência mais consistente de melhora da celulite.
O aparelho aplica ondas mecânicas sobre a região afetada. São necessárias várias sessões e a melhora costuma ser parcial.
Estudos randomizados e revisões sistemáticas demonstram redução das irregularidades em parte das pacientes, embora ainda exista bastante variação entre equipamentos, protocolos e formas de medir os resultados.
Não se trata, portanto, de uma técnica que “acabe” definitivamente com a celulite, mas pode ser uma alternativa razoável para quem procura um procedimento não invasivo.
Radiofrequência
A radiofrequência aquece controladamente os tecidos mais profundos da pele e pode estimular remodelamento de colágeno, aumentar a firmeza da pele e produzir alterações no tecido adiposo superficial.
Estudos recentes colocam a radiofrequência entre as modalidades não invasivas mais promissoras para celulite, principalmente quando existe associação com flacidez e irregularidade difusa da pele.
Ainda assim, os resultados variam bastante entre os diferentes aparelhos. Geralmente são necessárias várias sessões e ainda faltam bons estudos de longo prazo para definir quanto tempo a melhora persiste.
Laser
Existem vários tipos de laser utilizados para celulite, e não é correto agrupá-los como se fossem um único tratamento.
Lasers aplicados externamente apresentam resultados variáveis. Já algumas técnicas minimamente invasivas introduzem uma pequena fibra de laser no tecido subcutâneo para romper septos fibrosos e estimular a produção de colágeno.
Alguns estudos demonstram melhora que pode persistir por um ano ou mais, mas são procedimentos mais invasivos, mais caros e sujeitos a complicações como hematomas, dor e alterações da pigmentação.
Subcisão
A subcisão é uma das técnicas mais lógicas para tratar depressões bem delimitadas da celulite, porque atua diretamente no mecanismo responsável por elas.
Após anestesia local, uma agulha, lâmina ou dispositivo específico é introduzido sob a pele para seccionar o septo fibroso que está puxando aquela região para baixo. Quando a tração é liberada, a depressão pode subir e tornar-se menos visível.
Estudos com dispositivos de subcisão guiada demonstraram manutenção do resultado por um a três anos em muitas pacientes, período consideravelmente maior que o observado com vários tratamentos não invasivos.
Isso não significa que toda celulite deva ser tratada com subcisão. A técnica funciona melhor para depressões focais provocadas por septos identificáveis. Ondulações difusas causadas principalmente por flacidez ou excesso de gordura podem responder pouco.
Hematomas, dor, edema e alterações temporárias ou persistentes da pigmentação podem ocorrer. O procedimento deve ser realizado por profissional médico treinado.
Injeções, mesoterapia e carboxiterapia
A mesoterapia consiste na aplicação de diferentes substâncias dentro do tecido subcutâneo. Como não existe uma fórmula padronizada e as substâncias utilizadas variam muito entre profissionais, é difícil estabelecer sua eficácia ou segurança.
Há poucos estudos de boa qualidade e existem relatos de inflamação, nódulos, infecção, reações alérgicas e alterações da pele. Por isso, não é uma das opções com melhor sustentação científica.
A carboxiterapia, que consiste na injeção de dióxido de carbono sob a pele, apresentou alguma melhora em pequenos estudos, mas a evidência disponível ainda é limitada.
Durante alguns anos também foi utilizada nos Estados Unidos uma colagenase injetável desenvolvida especificamente para romper os septos da celulite. Os ensaios clínicos demonstraram eficácia, mas o fabricante interrompeu a comercialização do produto em 2022 devido principalmente à intensidade imprevisível dos hematomas e ao risco de manchas prolongadas na pele.
Criolipólise, ultrassom e redução de gordura
Outro erro frequente é imaginar que qualquer procedimento capaz de destruir gordura também tratará a celulite.
Criolipólise, ultrassom e outros métodos de redução de gordura localizada podem modificar o volume do tecido adiposo, mas isso não significa que consigam liberar os septos responsáveis pelas depressões.
Por isso, a melhora da gordura localizada e a melhora da celulite devem ser consideradas objetivos diferentes.
Liposucção
A lipoaspiração remove gordura subcutânea, mas não trata diretamente os septos fibrosos responsáveis pela celulite.
A lipoaspiração convencional não é indicada como tratamento isolado da celulite e, em alguns casos, pode até deixar as irregularidades mais visíveis.
Isso não significa que procedimentos cirúrgicos nunca possam fazer parte do tratamento. Em casos selecionados, técnicas de remodelamento corporal podem ser associadas à liberação dos septos ou a outros procedimentos. A indicação, porém, deve ser individualizada.
Afinal, é possível acabar completamente com a celulite?
Atualmente, não existe tratamento capaz de garantir a eliminação completa e permanente de toda celulite.
Algumas depressões focais provocadas por septos fibrosos podem apresentar melhora importante e relativamente duradoura com subcisão. Ondulações mais difusas podem responder a radiofrequência, ondas acústicas ou determinados tipos de laser. Exercícios, perda de peso quando indicada e melhora da composição corporal também podem tornar a pele mais uniforme.
A escolha depende de saber exatamente o que está causando o aspecto que incomoda a paciente.
Em uma pessoa, o principal problema pode ser a tração dos septos; em outra, a flacidez; em outra, o excesso de gordura; e muitas apresentam uma combinação desses fatores. Por isso, tratamentos combinados frequentemente fazem mais sentido do que procurar uma única técnica milagrosa.
Se a região apresentar dor importante, sensibilidade exagerada, inchaço persistente ou facilidade para formar hematomas, não presuma que tudo seja apenas celulite. Condições como o lipedema podem produzir alterações no contorno das pernas e precisam de avaliação médica específica.
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Dúvidas de leitores sobre este tema
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Olá! Muito obrigada pelo artigo! Você poderia escrever algo semelhante, sobre a verdade sobre os os tratamentos para as estrias? Obrigada!
Estou fazendo meu TCC – revisão de literatura.
Mas que fique claro celulite dói sim, pois trata-se de uma inflamação!
O Dr. tem celulite?