Dismenorreia (cólica menstrual)


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Revisado e atualizado em abril 8, 2026
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Incidência da cólica menstrual

A cólica menstrual, conhecida na medicina como dismenorreia, é uma das queixas ginecológicas mais frequentes entre mulheres em idade reprodutiva.

As cólicas menstruais são classificadas em duas categorias principais:

  • Dismenorreia primária: é a cólica que ocorre sem que exista uma doença ginecológica identificável como causa.
  • Dismenorreia secundária: é aquela associada a condições ginecológicas específicas, como endometriose, miomas uterinos ou infecções pélvicas.

O surgimento das cólicas menstruais costuma ocorrer durante a adolescência, geralmente um ou dois anos após a menarca (primeira menstruação), quando o ciclo ovulatório já está estabelecido. No entanto, também é possível que algumas adolescentes apresentem cólicas desde os primeiros ciclos menstruais.

Estima-se que até 90% das adolescentes e cerca de 25% das mulheres adultas sofram de cólicas menstruais. A prevalência da dismenorreia não varia significativamente entre diferentes grupos étnicos ou nacionalidades, mas, em geral, a intensidade das cólicas tende a diminuir com o avanço da idade.

Embora a dismenorreia não represente um risco direto à saúde, ela pode ter impacto relevante na qualidade de vida. Em algumas mulheres, a dor é tão intensa que interfere nas atividades diárias, nos estudos, no trabalho e nas relações sociais.

Como mencionado anteriormente, as cólicas menstruais podem ser primárias ou secundárias, de acordo com sua origem. Neste artigo, focaremos principalmente na dismenorreia primária, ou seja, na cólica menstrual que ocorre na ausência de uma causa ginecológica identificável. Antes disso, no entanto, é importante entender brevemente o que caracteriza a dismenorreia secundária.

Dismenorreia secundária

Diferentemente da dismenorreia primária, que costuma surgir logo nos primeiros anos após a menarca, a dismenorreia secundária tende a aparecer em mulheres com mais de 20 ou 30 anos de idade, geralmente após um período em que os ciclos menstruais não apresentavam dor significativa.

Para que um quadro de cólica menstrual seja classificado como dismenorreia secundária, é necessário haver uma condição ginecológica identificável como causa direta ou como fator de agravamento da dor. As principais doenças associadas a esse tipo de dismenorreia incluem:

  • Endometriose: crescimento do tecido endometrial fora do útero, causando inflamação, dor e, frequentemente, infertilidade.
  • Miomas uterinos: tumores benignos do útero que podem provocar dor, sangramento intenso e cólicas exacerbadas.
  • Doença inflamatória pélvica (DIP): infecção dos órgãos reprodutivos femininos, geralmente associada a doenças sexualmente transmissíveis, como clamídia ou gonorreia.
  • Estenose do canal cervical: estreitamento anormal do colo do útero, dificultando a saída do fluxo menstrual e aumentando a pressão intrauterina.
  • Uso de dispositivo intrauterino (DIU): especialmente os DIUs de cobre, que podem agravar as cólicas menstruais em algumas mulheres, principalmente nos primeiros meses após a inserção.

A identificação da dismenorreia secundária é fundamental, pois o tratamento depende diretamente da abordagem da causa subjacente. A presença de cólicas intensas que surgem de forma progressiva, após anos de menstruação sem dor, deve sempre ser motivo de avaliação médica detalhada, com investigação por meio de exame físico, ultrassonografia transvaginal e, se necessário, ressonância magnética ou laparoscopia diagnóstica.

Dismenorreia primária

A partir deste ponto, todas as referências do texto à cólica menstrual dizem respeito à dismenorreia primária, ou seja, aquela que ocorre na ausência de doenças ginecológicas detectáveis.

Durante muito tempo, as cólicas menstruais foram negligenciadas no meio médico, sendo frequentemente atribuídas a fatores emocionais ou psicológicos das mulheres. Hoje, no entanto, sabe-se que a dismenorreia primária tem mecanismos fisiológicos bem definidos, sem qualquer relação direta com o estado emocional, personalidade ou estresse da paciente.

Ao longo do ciclo menstrual, o endométrio — revestimento interno do útero — se torna mais espesso e vascularizado, preparando-se para uma possível gravidez. Quando não ocorre fecundação, há uma queda nos níveis hormonais, principalmente de progesterona, que desencadeia a descamação do endométrio, caracterizando o início da menstruação (se você quiser ler sobre o ciclo menstrual: Ciclo menstrual).

Durante esse processo de descamação, o organismo libera substâncias chamadas prostaglandinas, que promovem contrações uterinas com o objetivo de expulsar o tecido endometrial. Essas contrações são fisiológicas, mas, em algumas mulheres, tornam-se intensas a ponto de comprimirem os vasos sanguíneos locais, provocando uma isquemia temporária do tecido uterino — fenômeno que explica a dor associada à cólica. Em certos casos, essa dor pode ser tão intensa que se assemelha a uma “angina do útero”, termo que descreve a dor provocada pela falta de oxigenação do tecido.

Mulheres com dismenorreia primária tendem a apresentar níveis mais elevados de prostaglandinas no fluido menstrual, o que justifica a intensidade das contrações e da dor nesses casos.

Fatores de risco

O principal fator de risco para a dismenorreia primária é a idade. As cólicas menstruais são especialmente comuns em adolescentes e mulheres jovens, sendo mais frequentes antes dos 20 anos.

Com o passar do tempo, principalmente após a gestação ou com o amadurecimento hormonal, a tendência é que a dor diminua ou desapareça. No entanto, isso não acontece com todas — algumas mulheres continuam apresentando cólicas intensas mesmo na vida adulta.

Diversas características individuais e hábitos de vida também estão associados a um maior risco de desenvolver cólicas menstruais intensas. Entre os principais fatores de risco para a dismenorreia, destacam-se:

  • Menarca precoce (primeira menstruação antes dos 12 anos): quanto mais cedo o início dos ciclos menstruais, maior a exposição prolongada aos efeitos hormonais, o que pode favorecer o aparecimento de cólicas (leia: Menarca – primeira menstruação).
  • Índice de massa corporal (IMC) fora da faixa ideal: tanto o baixo peso (IMC < 20) quanto o excesso de peso ou obesidade (IMC > 30) estão relacionados a maior prevalência de dismenorreia (leia: Índice de massa corporal (IMC)).
  • Menstruação volumosa ou prolongada: fluxos menstruais intensos ou com duração superior a 7 dias geralmente estão associados a maiores níveis de prostaglandinas, aumentando o risco de cólicas fortes.
  • Ciclos menstruais irregulares: irregularidades hormonais podem impactar na intensidade das contrações uterinas e na percepção da dor.
  • Tabagismo: mulheres fumantes têm maior risco de apresentar cólicas menstruais mais intensas e persistentes. Acredita-se que o cigarro interfira na oxigenação uterina e na regulação hormonal (leia: Como parar de fumar (adesivos, chicletes, remédios e outras opções)).
  • Histórico familiar de dismenorreia: há evidências de componente genético, ou seja, mulheres cujas mães ou irmãs sofrem de cólicas intensas têm maior probabilidade de apresentar o mesmo problema.
  • Nuliparidade (nunca ter engravidado): mulheres que nunca tiveram filhos tendem a relatar mais episódios de cólica menstrual do que aquelas que já passaram por uma gestação, especialmente parto vaginal.

Além desses fatores, o estresse crônico, a falta de atividade física regular e distúrbios do sono também têm sido associados a um maior desconforto durante o período menstrual, embora não sejam considerados fatores de risco diretos para a dismenorreia primária.

Sintomas da dismenorreia

A cólica menstrual, ou dismenorreia, caracteriza-se por uma dor que costuma iniciar-se poucas horas antes ou logo no início da menstruação, atingindo seu pico nas primeiras 24 a 48 horas e geralmente melhorando de forma espontânea dentro de até 72 horas.

A dor tem caráter intenso, intermitente e em cólica, localizando-se tipicamente na região inferior do abdômen, também chamada de hipogástrio ou região pélvica. Em muitas mulheres, essa dor pode irradiar-se para a parte inferior das costas (lombar), região sacral ou até para a parte anterior das coxas.

Além da dor abdominal, é comum a presença de outros sintomas sistêmicos, que variam de mulher para mulher. Entre os mais relatados, estão:

  • Náuseas e, em alguns casos, vômitos.
  • Diarreia ou fezes amolecidas, relacionadas ao aumento da motilidade intestinal pelas prostaglandinas.
  • Tontura e sensação de fraqueza.
  • Dor de cabeça (cefaleia).
  • Sudorese (suor excessivo).
  • Cansaço, mal-estar geral e irritabilidade.

Em casos mais severos, a dor pode ser incapacitante, dificultando atividades do cotidiano, como trabalhar, estudar ou praticar exercícios físicos. É importante lembrar que a intensidade da dor não necessariamente reflete a gravidade do quadro, mas deve sempre ser avaliada quando persistente ou progressiva.

Para outras possíveis causas de dor abdominal que não estão relacionadas ao ciclo menstrual, consulte também: Dor abdominal – Principais causas.

Tratamento da cólica menstrual

O tratamento da cólica menstrual (dismenorreia primária) visa aliviar a dor e melhorar a qualidade de vida da paciente, utilizando tanto medicamentos quanto medidas não farmacológicas.

Medicamentos

A primeira linha de tratamento para a dismenorreia são os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), que atuam inibindo a produção de prostaglandinas, substâncias diretamente envolvidas nas contrações uterinas e na percepção da dor. Quando iniciados no começo da dor — ou até um dia antes da menstruação em casos previsíveis —, os AINEs apresentam taxas de resposta positivas em até 90% dos casos.

Entre os AINEs comumente utilizados, destacam-se:

  • Ácido mefenâmico (Ponstan®): frequentemente citado como o mais eficaz, embora a superioridade em relação a outros AINEs ainda seja debatida.
  • Ibuprofeno, naproxeno e cetoprofeno: alternativas eficazes, com bom perfil de segurança quando usados por curtos períodos.

Quando o uso de AINEs é contraindicado ou ineficaz, a segunda linha de tratamento são os anticoncepcionais hormonais, que inibem a ovulação e estabilizam os níveis hormonais, reduzindo o volume menstrual e, consequentemente, a produção de prostaglandinas.

As opções hormonais incluem:

Se a paciente não apresentar melhora com as terapias descritas acima, deve-se considerar a possibilidade de dismenorreia secundária, sendo necessária uma investigação ginecológica mais aprofundada.

Tratamentos não medicamentosos

Medidas simples, mas eficazes, podem ser adotadas de forma complementar ou isolada, especialmente nos casos mais leves:

  • Bolsa de água quente: aplicada na região inferior do abdômen, ajuda a relaxar a musculatura uterina e a reduzir a dor.
  • Exercícios físicos regulares: ajudam a liberar endorfinas e melhoram o bem-estar geral, reduzindo a percepção da dor.
  • Hidratação adequada e alimentação equilibrada, com baixo teor de gorduras saturadas e rica em fibras, frutas e vegetais, contribuem para a saúde hormonal e podem aliviar os sintomas.
  • Evitar cafeína e sal em excesso também pode ser benéfico em algumas mulheres sensíveis a esses componentes.

Outras abordagens, como a acupuntura, têm sido estudadas como terapias complementares. Apesar de alguns resultados promissores, ainda não há evidências científicas robustas que comprovem sua eficácia superior ao placebo. Portanto, seu uso pode ser considerado, desde que integrado a um plano de tratamento mais amplo e com expectativas realistas.

Se você quiser informações mais detalhadas sobre o tratamento da cólica menstrual, leia: Tratamento da cólica menstrual.

Perguntas frequentes sobre cólica menstrual (FAQ)

O que é bom para aliviar cólica menstrual forte?

O tratamento mais eficaz são os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), como o ácido mefenâmico, ibuprofeno ou naproxeno, que reduzem a produção de prostaglandinas. Bolsas de água quente, atividade física leve, hidratação e alimentação saudável também ajudam a aliviar os sintomas. Em casos persistentes, anticoncepcionais hormonais podem ser indicados.

Cólica menstrual forte pode ser doença?

Sim. Quando a dor menstrual é muito intensa, incapacitante ou se iniciou após os 20 anos, pode indicar a presença de uma dismenorreia secundária, causada por condições como endometriose, miomas uterinos ou doença inflamatória pélvica. Nesses casos, é importante procurar um ginecologista para investigação.

É normal sentir cólica antes da menstruação?

Sim. Na dismenorreia primária, é comum que a cólica comece algumas horas antes da menstruação e melhore nas primeiras 48 a 72 horas. Se a dor for leve a moderada e responder bem ao tratamento, geralmente não há motivo para preocupação.

Por que algumas mulheres sentem cólica menstrual e outras não?

Isso pode depender de fatores hormonais, genéticos, anatômicos e de estilo de vida. Mulheres com maior produção de prostaglandinas ou com histórico familiar de dismenorreia tendem a sentir mais dor. Outros fatores, como tabagismo, menarca precoce e nuliparidade, também estão associados.

Fazer sexo alivia a cólica menstrual?

Em algumas mulheres, sim. O orgasmo promove contrações uterinas que podem facilitar a expulsão do sangue menstrual e liberar endorfinas, que são analgésicos naturais. No entanto, isso varia de mulher para mulher e nem todas se sentem confortáveis ou têm alívio com a relação sexual nesse período.

Quando a cólica menstrual não é normal?

A dor deixa de ser considerada normal quando é muito intensa, não responde a analgésicos comuns, interfere nas atividades diárias ou aparece após anos de ciclos indolores. Nesses casos, pode haver uma condição ginecológica por trás, e a avaliação médica é essencial.

Qual é a diferença entre cólica menstrual e dor da endometriose?

A cólica menstrual típica (dismenorreia primária) geralmente melhora com analgésicos e ocorre nos primeiros dois ou três dias do ciclo. Já a dor da endometriose tende a ser mais persistente, pode ocorrer fora do período menstrual, não responde bem a analgésicos comuns e vem acompanhada de outros sintomas, como dor durante a relação sexual ou dificuldade para engravidar.


book Referências bibliográficas


Dúvidas de leitores sobre este tema

Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.

Mais comentários dos leitores

  1. Beatriz Santos

    Ouvi dizer que tomar anticoncepcional ajuda na cólica, é verdade? Qual tipo é melhor para aliviar a dor menstrual?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Sim, os anticoncepcionais hormonais são uma das opções mais eficazes no tratamento da dismenorreia primária. Eles reduzem a ovulação e estabilizam os níveis hormonais, o que leva à diminuição da produção de prostaglandinas — substâncias responsáveis pelas contrações uterinas e pela dor.
    As opções mais usadas incluem anticoncepcionais orais combinados, injeções mensais ou trimestrais, implantes subdérmicos e o DIU hormonal com levonorgestrel (Mirena®), que pode até eliminar a menstruação em algumas mulheres, proporcionando alívio significativo da cólica.

  2. Silvia Castro

    Tem alguma alimentação que ajude a aliviar a cólica menstrual?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Sim, a alimentação pode influenciar na intensidade da cólica menstrual. Alguns estudos e observações clínicas mostram que alimentos ricos em ômega-3, como peixes gordurosos, sementes de linhaça e chia, podem ter efeito anti-inflamatório e ajudar a reduzir o desconforto.

    Já frutas, verduras e cereais integrais também são aliados, pois favorecem o equilíbrio hormonal e reduzem a retenção de líquidos.

    Por outro lado, é recomendado evitar o excesso de sal, cafeína, bebidas alcoólicas e alimentos ultraprocessados, que podem piorar os sintomas. Manter-se bem hidratada e com alimentação leve durante o período menstrual costuma ajudar bastante.

    Cabe destacar, no entanto, que dificilmente a alimentação isoladamente consegue tratar quadros de cólica menstrual forte.

  3. Roberta

    Tenho 32 anos e só agora comecei a sentir cólicas menstruais muito fortes, que nem os remédios estão resolvendo direito, isso pode ser normal ou é sinal de alguma doença?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Quando a cólica menstrual intensa surge após os 30 anos, especialmente em mulheres que antes não sentiam dor ou tinham apenas desconforto leve, é importante investigar a possibilidade de dismenorreia secundária.

    Diferente da dismenorreia primária, que costuma começar na adolescência, a dismenorreia secundária é causada por condições ginecológicas específicas, como endometriose, miomas uterinos ou doença inflamatória pélvica.

    Recomendamos agendar uma consulta com um ginecologista. A avaliação clínica, juntamente com exames como a ultrassonografia transvaginal ou, se necessário, ressonância magnética, pode identificar a causa e direcionar o tratamento adequado.

  4. Pakita

    É normal sentir cólica mesmo quando não estou menstruada, tipo no no meio do ciclo?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    A dor no meio do ciclo pode não ser cólica menstrual propriamente dita, mas sim estar relacionada ao processo de ovulação, que ocorre por volta do 14º dia do ciclo em mulheres com ciclos regulares. Essa dor, chamada de mittelschmerz, costuma ser leve e localizada de um dos lados do abdômen.

    No entanto, se a dor for frequente, intensa ou ocorrer em outros momentos do ciclo, é importante procurar avaliação médica. Em alguns casos, pode haver condições como endometriose, cistos ovarianos ou alterações do útero, que causam desconforto mesmo fora da menstruação.

    A cólica menstrual típica (dismenorreia primária) está associada ao início do sangramento e não costuma se estender a outros períodos do ciclo.

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