Glândula de Bartholin: cisto, abscesso e bartolinite

Autor(a): Dr. Pedro Pinheiro

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Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

O que é a glândula de Bartholin?

As glândulas de Bartholin são duas glândulas que se localizam na vulva, porção externa da genitália feminina, e têm como função a produção de um fluido mucoso que serve para lubrificar e umidificar a vulva, principalmente durante o ato sexual.

Os ductos que transportam os fluidos produzidos pela glândula possuem cerca de 2,5 cm de comprimento e os seus orifícios de saída, por onde efetivamente são secretados o muco, possuem 0,5 cm de diâmetro.

Para facilitar a identificação anatômica das glândulas, se você pensar na vagina como um relógio, os orifícios de saída estarão localizados na marca das 4h e 8h.

Em condições normais, as glândulas de Bartholin são pequenas e não costumam ser visíveis nem palpáveis. Costumam ter o tamanho de uma ervilha, raramente excedendo 1 cm de diâmetro.

Localização anatômica das glândulas de Bartholin
Localização anatômica das glândulas de Bartholin

Durante a excitação sexual e a relação sexual, as glândulas de Bartholin secretam muco lubrificante vaginal. Devido à presença de outras glândulas, incluindo as glândulas de Skene, a remoção de uma glândula de Bartholin não afeta de forma relevante a lubrificação vaginal.

As doenças da glândula de Bartholin ocorrem basicamente quando a saída de um ou ambos os ductos fica obstruída, impedido a eliminação do muco produzido. As duas complicações mais frequentes que surgem deste problema são o cisto de Bartholin e o abscesso da glândula de Bartholin. Falaremos um pouco sobre cada uma das duas.

Os tumores sólidos benignos e malignos da glândula de Bartholin são muito raros e, portanto, não serão abordados neste artigo.

O que é o cisto de Bartholin?

Se o orifício de saída da glândula de Bartholin torna-se obstruído, todo o muco por ela produzido acaba ficando retido ao redor da própria glândula, criando um cisto, que nada mais é do que uma tumoração com conteúdo líquido no seu interior. Esse cisto é chamado cisto de Bartholin.

Cerca de 2% das mulheres em idade fértil desenvolvem cisto de Bartholin. As crianças não costumam desenvolver esse problema, porque as glândulas de Bartholin não começam a funcionar até a puberdade. Da mesma forma, os cistos são incomuns após a menopausa, pois as glândulas tendem a se atrofiar e perder função com a idade.

Sintomas

Quando o cisto é pequeno, ele costuma passar despercebido, pois além de não ser facilmente visível ou palpável, ele também é indolor na maioria dos casos.

Quando o cisto cresce para além de 1 cm de diâmetro, e esse processo pode levar de meses a anos, a mulher pode notar o surgimento de uma pequena tumoração (um carocinho) em um dos seus pequenos lábios. O cisto, nesses casos, costuma ser papável e visível, porém mantém-se indolor.

Cistos maiores que 3 cm de diâmetro podem causar algum desconforto ao toque ou dor durante a relação sexual. Quanto maior for o cisto, maior é a chance dele causar desconforto, inclusive ao andar ou sentar.

Tratamento

Nenhum tratamento se faz necessário nos casos de cistos assintomáticos. A paciente pode apenas fazer banhos de assento com água morna e manter a região limpa para evitar sua contaminação. Na imensa maioria dos casos, o cisto desaparece espontaneamente após alguns dias.

Se o cisto crescer muito e estiver causando algum desconforto, seja físico ou estético, ele pode ser drenado através de uma pequena incisão.

Nas mulheres com mais de 45 anos, fase da vida em que esse tipo de cisto começa a ser incomum, é importante o médico avaliar a lesão com cuidado, pois ele pode ser, na verdade, um tumor, e não um cisto simples. Nesses casos, é prudente realizar uma incisão na lesão para podermos fazer uma biópsia e ter certeza de que não se trata de um carcinoma da vulva (leia também: O que são carcinoma e adenocarcinoma?).

O que é o abscesso da glândula de Bartholin?

O abscesso da glândula de Bartholin é uma complicação que surge quando o líquido aprisionado dentro do cisto de Bartholin contamina-se com bactérias e torna-se purulento. Essa complicação também é chamada bartholinite, cujo termo significa inflamação das glândulas de Bartholin.

Abscesso e cisto de Bartholin
Abscesso e cisto de Bartholin

Os abscessos nem sempre são precedidos por cistos perceptíveis e ocorrem três vezes mais frequentemente.

A bactéria que mais comumente infecta o cisto e provoca abscesso da glândula de Bartholin é a Escherichia coli, a mesma que habitualmente provoca os quadros de infecção urinária. Bactérias que normalmente habitam nossa pele, tais como Staphylococcus aureus e Streptococcus spp, também podem ser a causa.

As bactérias que provocam a gonorreia e a clamídia, ambas doenças sexualmente transmissíveis, também podem ser o agente infeccioso responsável pela formação do abscesso.

Sintomas

Ao contrário do cisto, o abscesso é uma tumoração que provoca intensos sintomas. A dor, o inchaço, a vermelhidão e o calor local são as principais características do quadro. Febre não é tão frequente e só ocorre em cerca de 20% dos casos.

Em algumas situações, o abscesso pode drenar espontaneamente, liberando um líquido purulento. Ao ser drenado, os sintomas costumam desaparecer.

Se além do abscesso, a paciente também apresentar corrimento vaginal amarelado ou esverdeado, o ginecologista deve sempre pensar em uma DST como a causa da bartholinite (leia: Tipos de Corrimento Vaginal: Branco, Amarelo, Marrom…).

Tratamento

De maneira oposta ao cisto, que costuma ser assintomático e não requer tratamento específico, o abscesso da glândula de Bartholin habitualmente requer intervenção médica.

Se o abscesso for pequeno e pouco doloroso, a lesão pode ser tratada com banhos de assento frequentes, com duração de 15 minutos, 3 a 4 vezes por dia. Esse procedimento ajuda na drenagem espontânea do pus. Mesmo quando o banho de assento não é suficiente para tratar o abscesso, ele ajuda no alívio dos sintomas.

Na maioria dos casos, porém, o abscesso precisa mesmo de uma intervenção médica, como a drenagem cirúrgica. Esse procedimento é feito com uma simples incisão na lesão, realizada sob anestesia local.

Após o pus ter sido todo drenado, o ginecologista implanta um pequeno cateter de borracha dentro do cisto, que serve para evitar que haja reacúmulo de pus. Esse cateter é retirado após 6 semanas.

Se a paciente não tiver febre e se a drenagem do pus tiver sido feita eficazmente, não é preciso prescrever antibióticos.

Caso o médico ache necessário utilizar antibióticos, ele pode escolher um dos seguintes esquemas:

  • Trimetoprim-sulfametoxazol 160 mg/800 mg de 12/12 horas por 5 a 7 dias.
  • Trimetoprim-sulfametoxazol 160 mg/800 mg de 12/12 horas + amoxicilina-clavulanato 875 mg de 12/12 horas por 5 a 7 dias.
  • Trimetoprim-sulfametoxazol 160 mg/800 mg de 12/12 horas + metronidazol 500 mg de 8/8h por 5 a 7 dias.
  • Doxiciclina 100 mg de 12/12 horas + amoxicilina-clavulanato 875 mg de 12/12 horas por 5 a 7 dias.
  • Doxiciclina 100 mg de 12/12 horas + metronidazol 500 mg de 8/8h por 5 a 7 dias.

Se a causa do abscesso da glândula de Bartholin tiver sido uma DST, como a gonorreia ou a clamídia, o tratamento com antibioterapia dirigida a essas infecções está indicado, pois a simples cura do abscesso não significa que a DST terá sido tratada.

Se após um tratamento bem-sucedido a paciente voltar a apresentar recorrência do abscesso, uma técnica cirúrgica alternativa, chamada marsupialização, pode ser tentada.

Neste tipo de cirurgia, também realizada sob anestesia local, o médico faz uma pequena incisão na lesão e depois sutura as suas bordar com a pele, de forma a manter um pequeno orifício permanentemente aberto para que os fluidos produzidos pela glândula de Bartholin não tenham mais risco de ficarem retidos.

Se a técnica de marsupialização falhar, e a paciente voltar a apresentar episódios de bartholinite, a solução final é uma cirurgia para retirada da glândula de Bartholin. Raramente é preciso chegar a esse recurso mais radical.


Referências


Autor(es)

Médico graduado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com títulos de especialista em Medicina Interna e Nefrologia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), Universidade do Porto e pelo Colégio de Especialidade de Nefrologia de Portugal.

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