Faringite estreptocócica

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Resumo do artigo: TL; DR

  • Origem da dor de garganta: as dores de garganta são geralmente causadas por inflamação nas amígdalas ou na faringe (amigdalite ou faringite). Faringoamigdalite ocorre quando ambos estão inflamados.
  • Causas da faringite: maior parte das dores de garganta é de origem viral, mas as infecções bacterianas também são comuns.
  • Streptococcus pyogenes: é o agente mais comum em faringoamigdalites bacterianas, causando cerca de 30% dos casos em crianças e 10% em adultos.
  • Streptococcus pyogenes – Grupo A: é uma das várias espécies de Estreptococos, causadora de várias doenças, desde infecções leves (como faringite estreptocócica) até doenças graves (como febre reumática e fasciíte necrosante).
  • Transmissão: O S.pyogenes é altamente contagioso, transmitido por tosse, espirro, saliva, compartilhamento de talheres/copos e mãos contaminadas.
  • Portadores assintomáticos: alguns indivíduos podem portar a bactéria por semanas ou meses sem desenvolver sintomas, mas podem transmiti-la se a bactéria se tornar ativa.
  • Sintomas da faringite estreptocócica: incluem dor de garganta, febre, dor de cabeça, vermelhidão e pus na faringe e amígdalas, linfonodos inchados e doloridos no pescoço.
  • Diagnóstico: muitas vezes, exames complementares, como teste rápido ou cultura de material da faringe, são necessários para confirmar.
  • Complicações: podem ser graves, incluindo febre reumática, glomerulonefrite pós-estreptocócica, escarlatina, entre outras.
  • Tratamento: antibióticos, como penicilina benzatina ou amoxicilina, são as principais opções; tratamento adequado reduz a duração, a gravidade dos sintomas e o risco de complicações.
  • CID-10: J02.0; CID-11: 1B51.

O que é faringite estreptocócica?

A dor de garganta é um sintoma muito incômodo, que costuma ocorrer tanto em adultos quanto em crianças. Em geral, a dor de garganta é provocada por uma inflamação das amígdalas ou da faringe, quadros que chamamos de amigdalite e faringite, respectivamente. Quando ambos estão inflamados, situação muito comum, dizemos que o paciente tem uma faringoamigdalite.

Na maioria dos casos, a dor de garganta tem origem em uma infecção. Faringites e amigdalites virais são as causas mais comuns de garganta inflamada, mas as infecções bacterianas também são fontes comuns de inflamação na garganta.

Dentre as bactérias que provocam faringite ou amigdalite, o Streptococcus pyogenes (Estreptococo do grupo A) é o que merece mais destaque, não só por ser a forma mais comum de faringoamigdalite bacteriana, mas também porque é a forma de infecção de garganta que mais causa complicações. O S. pyogenes é responsável por cerca de 30% dos casos de faringite nas crianças e 10% nos adultos.

Portanto: a faringite estreptocócica é uma infecção na garganta causada pela bactéria Streptococcus pyogenes, também conhecida como estreptococo do grupo A.

Neste artigo falaremos especificamente das amigdalites e faringites provocadas pelo Streptococcus pyogenes. Abordaremos os seus sintomas, formas de transmissões, métodos de diagnósticos, complicações possíveis e opções de tratamento.

Se você procura informações mais abrangentes sobre todas as causas de dor de garganta, incluindo as faringites de origem viral e as de origem não infecciosa, acesse o seguinte artigo: Dor de Garganta – Causas, Sintomas e Tratamento.

O que é o Streptococcus pyogenes – Estreptococo do grupo A

A bactéria do gênero Streptococcus possui várias espécies diferentes, muitas delas capazes de causar infecções nos seres humanos. Só como exemplos, o Streptococcus pneumoniae é uma causa comum de pneumonia, o Streptococcus agalactiae pode provocar infecções graves em recém-nascidos e o Streptococcus viridans é uma causa comum de endocardite infecciosa.

O Streptococcus pyogenes é uma bactéria que faz parte do grupo A dos estreptococos*. É um dos principais causadores de infecções bacterianas na garganta e na pele em humanos. Essa bactéria é conhecida por provocar várias doenças, que vão desde infecções relativamente leves, como a faringite estreptocócica, erisipela, celulite e o impetigo (uma infecção da pele), até doenças mais graves como a febre reumática, escarlatina e a fasciíte necrosante (também conhecida popularmente como “bactéria comedora de carne”). O S.pyogenes também está relacionado com a psoríase Gutata, uma forma rara de psoríase.

* Os estreptococos são classificados em vários grupos com base em suas características, especialmente a reação a certos testes laboratoriais. Os mais conhecidos são classificados pelo sistema de Lancefield, que os divide em grupos de A a U com base em diferenças em um componente específico da parede celular da bactéria.

O S.pyogenes é a causa mais comum de dor de garganta de origem bacteriana. Se um paciente tem uma inflamação da garganta provocada por uma bactéria, a chance dessa bactéria ser o S. pyogenes é muito grande.

Formas de transmissão

Streptococcus pyogenes é altamente contagioso, podendo ser transmitido através da tosse, espirro, gotículas de saliva emitidas durante a fala ou pelo compartilhamento de talheres ou copos. Mãos contaminadas por secreções respiratórias também são um importante veículo de transmissão do Estreptococo do grupo A (leia: Por que é importante lavar as mãos para evitar infecções?).

Geralmente, as crianças entre 3 e 14 anos são o grupo com maior risco de contaminação. Porém, nem todas as pessoas que se contaminam com o S. pyogenes vão desenvolver inflamação na garganta. Os adultos frequentemente entram em contato com a bactéria e não desenvolvem sintomas.

Há também os casos de pacientes que entram em contato com a bactéria, não desenvolvem sintomas, mas passam a ser carreadoras assintomáticas da bactéria na orofaringe. Na época do inverno, período no qual as pessoas ficam mais tempo juntas em locais fechados, cerca de 20% das crianças em idade escolar tornam-se portadoras assintomáticas do Estreptococo do grupo A nas suas orofaringes.

Esses carreadores assintomáticos podem permanecer com a bactéria por vários meses sem apresentar nenhum problema. Em muitos desses carreadores, a bactéria só se torna ativa quando o paciente desenvolve uma infecção respiratória viral. Nestes casos, é muito difícil fazer a distinção entre uma faringite viral pura ou uma faringite bacteriana oportunista, que se aproveitou de uma inflamação provocada por uma virose para se tornar ativa.

Esses carreadores não costumam ser fonte de transmissão da bactéria enquanto estão assintomáticos. Porém, se em algum momento a bactéria torna-se ativa e provoca infecção da garganta, o risco de contágio torna-se real.

Sintomas da faringite estreptocócica

O período de incubação do Streptococcus pyogenes, ou seja, o intervalo de tempo entre a contaminação e o surgimento dos primeiros sintomas, é de 24 a 72 horas, mas pode ser tão longo quanto 2 semanas em alguns casos.

Os principais sintomas da faringite e/ou amigdalite estreptocócica são a dor de garganta, febre, dor de cabeça e vermelhidão da faringe e amígdalas. Esses sinais e sintomas, porém, não ajudam muito no diagnóstico, já que são comuns a quase todos os tipos de faringite, principalmente às faringoamigdalites de origem viral.

Na verdade, nem sempre é fácil distinguir uma faringite estreptocócica de uma faringite de origem viral. Todavia, alguns achados no exame físico podem ajudar. Por exemplo, os seguintes sinais falam muito a favor de uma faringite por S. pyogenes:

  • Amígdalas inchadas e com pus (presença de placas ou pontos brancos nas amígdalas ou faringe)
  • Faringe inflamada e com pontos de pus.
  • Linfonodos aumentados e dolorosos na região anterior do pescoço, logo abaixo da mandíbula.
  • Presença de petéquias no palato (vários pontinhos vermelhos no céu da boca).
  • Inflamação e inchaço da úvula (conhecida popularmente como campainha ou sininho da garganta).
  • Início abrupto e desenvolvimento rápido dos sintomas.
Fotos de Faringite bacteriana
Características da faringite bacteriana

Porém, como já foi referido anteriormente, é perfeitamente possível um paciente desenvolver uma faringite bacteriana no meio de uma infecção respiratória viral, o que torna a distinção entre as inflamações de garganta de origem vital e bacteriana muito difícil.

Por outro lado, a presença de sintomas característicos de infecção viral, tais como espirros, tosse, coriza, rouquidão, conjuntivite, diarreia ou úlceras na boca, direcionam o diagnóstico mais para um faringoamigdalite viral, como uma gripe ou resfriado.

Os sinais mais específicos de faringite/amigdalite bacteriana são as petéquias no palato e a presença de pus na faringe ou nas amígdalas. Ainda assim, nenhum deles nos permite afirmar com 100% de certeza que estamos diante de uma faringite bacteriana, pois 5 a 10% das inflamações de garganta de origem não bacteriana podem ter esses sinais.

Por isso, em menos de 50% dos casos de inflamação da garganta há um conjunto de sinais e sintomas específicos o suficiente que permitam ao médico fechar o diagnóstico da faringite estreptocócica apenas com o exame físico. Na maioria dos casos, a certeza do diagnóstico só é obtida por meio de exames complementares, como o teste rápido ou a cultura de material da faringe, que apontam a presença do Streptococcus pyogenes na orofaringe, conforme veremos mais adiante.

Foto de amigdalite bacteriana
Amigdalite bacteriana com pus nas amígdalas

O quadro de faringite estreptocócica costuma ter um tempo de duração limitado. Habitualmente, a dor de garganta desaparece dentro de 5 dias, mesmo sem tratamento com antibióticos. Ainda assim, o tratamento com antibióticos está indicado, principalmente nas crianças, pois ele reduz o tempo de doença, alivia os sintomas e, mais importante de tudo, diminui os riscos de complicações.

Complicações

O grande problema das faringites estreptocócicas não costuma ser a inflamação da garganta em si, mas sim o risco de complicações. As crianças são as principais vítimas dessas complicações, sendo elas o grupo que mais necessita de tratamento com antibióticos para prevenção.

Algumas complicações são graves, inclusive com risco de morte, como é o caso da síndrome do choque toxico por Estreptococo. Outras, podem causar lesões de órgãos internos, como os rins no caso da glomerulonefrite pós-estreptocócica, ou o coração na febre reumática. Há também situações mais simples, como a escarlatina, que é uma erupção de pele que costuma ser benigna e de fácil tratamento.

Entre as possíveis complicações da faringoamigdalite estreptocócica, podemos destacar:

É importante destacar que a maioria dos casos de faringoamigdalite estreptocócica não cursam com complicações. Porém, como alguns desses problemas são graves, o uso de antibiótico acaba sendo indicado como forma de prevenção, principalmente nas crianças.

Como é feito o diagnóstico

Identificar corretamente se uma faringite tem origem bacteriana, viral ou não infecciosa é importante na hora de traçar estratégias que visam a prevenção de complicações e a interrupção do contágio para outras pessoas, além de minimizar o uso desnecessário de antibióticos em crianças e adolescentes que têm inflamação de garganta de origem não bacteriana, o que representa a maioria dos casos.

Swab garganta
Swab – coleta de material para detecção do estreptococo

Atualmente, a forma mais utilizada para se detectar uma faringite estreptocócica é através do teste de detecção rápida do Estreptococo do grupo A. Esse teste é feito por meio de um swab (zaragatoa), que é uma espécie de cotonete comprido usado para colher material das amígdalas (veja imagem ao lado). Esse exame consegue identificar a presença do Streptococcus pyogenes na orofaringe e o seu resultado é obtido em alguns minutos. Se o teste for positivo, o paciente deve ser tratado com antibióticos apropriados.

Se o teste for negativo, mas a suspeita de faringite estreptocócica for muito forte, o material colhido pelo swab pode ser enviado para cultura, que é um método mais confiável que o teste rápido. A desvantagem da cultura é o fato do resultado só estar disponível após 48 horas.

Tratamento da faringite estreptocócica

O objetivo do tratamento com antibióticos visa a erradicação do estreptococo do grupo A da orofaringe. A eliminação da bactéria traz os seguintes benefícios:

  • Redução da duração e da gravidade dos sinais e sintomas.
  • Redução da incidência de complicações.
  • Redução do risco de transmissão da bactéria para outras pessoas.

Com apenas 12 a 24 horas após o início do tratamento com antibióticos, a maioria dos pacientes já não é mais capaz de transmitir a bactéria para outras pessoas. Isso significa que a criança pode voltar a frequentar a escola no dia seguinte ao início do tratamento, caso se sinta bem. Em relação aos sintomas, a melhora é sentida em 24 a 48 horas após o início do antibiótico.

Os antibióticos derivados da penicilina devem ser sempre a primeira opção de tratamento, pois eles são os mais efetivos. Os esquemas mais indicados são:

  • Penicilina benzatina por via intramuscular em dose única na dose de 600.000 U para pacientes com menos de 27 quilos ou 1.200.000 U para aqueles com mais de 27 quilos.
  • Penicilina V por via oral na dose de 250 mg, 2 ou 3 vezes por dia para crianças, ou 500 mg 2 vezes por dia para adultos. O tratamento deve ter duração de 10 dias.
  • Amoxicilina por via oral na dose de 25 mg/kg (dose máxima de 500 mg por dose) 2 vezes por dia. O tratamento deve ter duração de 10 dias.

Dentre as 3 opções acima, a melhor de todas é a penicilina benzatina, pois ela é a de mais simples administração e é a mais eficaz na prevenção das complicações, principalmente da febre reumática em crianças.

A amoxicilina pode ser administrada com ou sem ácido clavulânico, dependendo do perfil de resistência do estreptococo na comunidade que o paciente vive.

Para os pacientes com alergia à penicilina, as melhores opções de tratamento são:

  • Cefalexina por via oral na dose de 20 mg/kg (dose máxima de 500 mg por dose) 2 vezes por dia. O tratamento deve ter duração de 10 dias.
  • Azitromicina por via oral na dose de 12 mg/kg (dose máxima de 500 mg por dose) 1 vez por dia. O tratamento deve ter duração de 5 dias.
  • Claritromicina por via oral na dose de 7,5 mg/kg (dose máxima de 250 mg por dose) 2 vezes por dia. O tratamento deve ter duração de 10 dias.

A maioria das pessoas melhora dentro de 48 horas, mas é essencial que o tratamento seja mantido até o final, mesmo que o paciente já esteja completamente assintomático. A interrupção do antibiótico antes do final aumenta o risco da ocorrência de complicações. Como a penicilina benzatina é o único tratamento feito com dose única, ele é a opção com maior taxa de sucesso e de aderência.

Além do antibiótico, o paciente também pode ser medicado com anti-inflamatórios ou analgésicos, visando o controle dos sintomas enquanto os antibióticos não fazem efeito.

Explicamos o tratamento sintomático das faringites em um artigo à parte: Remédios para dor de garganta.


Referências


Autor(es)

Médico graduado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com títulos de especialista em Medicina Interna e Nefrologia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), Universidade do Porto e pelo Colégio de Especialidade de Nefrologia de Portugal.


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COMENTÁRIOS
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15 comentários em “Faringite estreptocócica”

  1. Muito bom, e lembrando, que esses Streptococcus pertencem a flora residente normal da boca, e para evitar o desequilíbrio do organismo, nada mais sensato que se preocupar com a saúde higienizando bem.

    Responder
  2. Bom dia, Doutor

    Terminei o tratamento de faringite fiquei 10 dias tomando amoxicilina, quanto tempo devo esperar para poder beber bebidas álcoolicas após o tratamento?

    Obrigado!

    Responder
  3. Bom dia, Doutor! Estou com pequenos pontos de pûs, faz um dia que estou tomando Azitromicina, por enquanto não fez efeito, mas sei que tem que esperar de dois dias até 3 dias, mas a pergunta é, nesse período de tratamento, posso ficar ou dormir com o ventilador ligado, ou ficar ou dormir com o ar condicionado ligado?!? Lembrando que estou bem em relação à resfriado e tosse, não estou tossindo e nem gripado, respiro normalmente.. Obrigado, abraço!!

    Responder
    • Isso é pessoal. O vento frio e o ar seco provocado pelo ar condicionado podem causar alguma irritação da garganta, agravando os sintomas. Ventilador e ar condicionado não agem contra o antibiótico, nem a favor da bactéria, mas podem influenciar nos sintomas em algumas pessoas. Você pode testar e ver se no seu caso específico tem alguma influência.

      Responder
  4. Excelente matéria.
    Dr., pode haver faringite/amigdalite bacteriana com sintomas de gripe, amígdalas inflamadas e sem manchas no palato?

    Responder
    • Do ponto de vista médico, o melhor é o benzetacil, pois é dose única, tem elevada taxa de cura e é eficaz pra prevenir as complicações.

      Responder
    • Se está te incomodando, procure um otorrinolaringologista para ele indicar um tratamento para retirar os cáseos.

      Responder