dispepsia

Dispepsia é o nome usado para descrever uma variedade de sintomas originados no estômago, que incluem queimação, dor, indigestão, indisposição gástrica, plenitude, enfartamento, estômago distendido, etc.

Estima-se que anualmente pelo menos 1/4 da população apresente sintomas relacionados ao estômago, mas menos de 10% destes pacientes procuram ajuda médica.

Neste texto iremos abordar as seguintes pontos sobre os sintomas do estômago:

  • O que é o estômago.
  • O que é dispepsia.
  • Quais são os sintomas do estômago.
  • Que doenças causam sintomas do estômago.
  • Remédios que causam dispepsia.
  • Tratamento da dor de estômago

Neste artigo abordaremos apenas os sintomas relacionados a doenças do estômago. Para saber sobre outras causas de dor abdominal, leia: DOR NA BARRIGA | DOR ABDOMINAL | Principais causas.

O que é o estômago?

Para entender algumas das doenças e dos sintomas do estômago é necessário conhecer um pouquinho da anatomia e do funcionamento deste órgão. Serei breve nesta descrição para o texto não ficar maçante.

O estômago é um órgão muscular, oco e elástico, capaz de se dilatar para receber os alimentos, localizado no quadrante superior esquerdo do abdômen.

Quando engolimos um alimento, este desce pelo esôfago e chega ao estômago. Entre o estômago e o esôfago existe um esfincter, uma espécie de válvula que impede o retorno do alimento de volta para o esôfago, mesmo que o paciente fique de cabeça para baixo.

O estômago secreta ácido clorídrico e enzimas que digerem, especialmente, as proteínas contidas nos alimentos. Ao contrário do que se imagina, quase não há absorção de alimentos no estômago, apenas um pouco de carboidratos simples e aminoácidos. O papel do estômago é digerir, ou seja, quebrar moléculas grandes em moléculas pequenas, para que estas possam ser absorvidas mais à frente nos intestinos.

O estômago é um órgão musculoso, capaz de se contrair, auxiliando na digestão e na passagem dos alimentos para o resto do trato digestivo.

O que é dispepsia?

Dispepsia é um termo que compreende uma série de sintomas relacionados ao estômago. A dispepsia está geralmente associada ao que os pacientes costumam referir como indigestão ou dor de estômago.

Entre os sintomas que estão incluídos no termo dispepsia, podemos citar: queimação ou dor na região do estômago, sensação de plenitude após refeições, sensação de estômago distendido, excesso de arrotos, azia, saciação precoce (não conseguir comer um prato sem sentir-se cheio antes de terminá-lo), náuseas e sensação de má digestão.

Doenças do estômago que provocam dispepsia

A dispepsia está habitualmente associada a quadros de gastrite ou úlcera gástrica, porém, mesmo doenças fora do estômago podem causá-la, como síndrome do intestino irritável, cólica biliar e esofagite. A dispepsia também pode ser causada por medicamentos, como anti-inflamatórios e alguns antibióticos. Vamos falar um pouco das principais doenças que provocam sintomas estomacais.

a. Gastrite

Gastrite significa inflamação do estômago. A gastrite pode ser aguda, quando se desenvolve rapidamente, ou crônica, quando a inflamação se instala lentamente e persiste por vários meses. A gastrite aguda é normalmente causada por álcool, anti-inflamatórios e intoxicações alimentares. A gastrite crônica costuma ter como causa a infecção pela bactéria H.pylori (leia: H.PYLORI (Helicobacter pylori) | Sintomas e tratamento).

O sintoma mais comum da gastrite é a queimação na “boca do estômago”. A gastrite pode piorar ou melhorar após alimentação. Cada paciente reage de um jeito diferente às refeições. A queimação no estômago é o sintoma mais comum, mas qualquer um dos sintomas englobados no termo dispepsia pode surgir em um paciente com gastrite (leia: SINTOMAS DE GASTRITE).

As gastrites se não tratadas podem evoluir com erosões da mucosa do estômago, levando à formação das úlceras.

b. Úlcera péptica

As úlceras pépticas são aquelas causadas pela ação do ácido clorídrico na parede do duodeno, estômago ou esôfago. As duas principais causas de úlceras são abuso de anti-inflamatórios e a infecção pela bactéria H.pylori.

Os sintomas da úlcera péptica ocorrem habitualmente quando o estômago está vazio. Após uma refeição, os alimentos permanecem no estômago por duas a três horas. Porém, o estimulo à secreção do ácido persiste durante até cinco horas, ou seja, em períodos no qual o estômago já encontra-se vazio. Este é o momento em que a úlcera começa a causar sintomas. Os sintomas da úlcera péptica também podem ocorrer durante a noite, habitualmente entre às 23h e 2h, quando ocorre uma estimulação natural da secreção de ácido pelo estômago. É característico das úlceras a melhora dos sintomas após o paciente comer algum alimento.

Assim como nos casos de gastrite, as úlceras costumam causar um queimação ou dor na região do estômago, porém, qualquer sintoma de dispepsia é possível. Períodos de dispepsia, que duram algumas semanas, alternando com períodos livres de dor, por semanas ou meses, é uma característica das úlceras pépticas.

A intensidade da dor estomacal não é suficiente para distinguir uma gastrite de uma úlcera. A úlcera não necessariamente é mais sintomática que a gastrite.

Para saber mais sobre úlceras e gastrite, leia: GASTRITE | ÚLCERA GÁSTRICA.

c. Refluxo gastroesofágico

A doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) ocorre sempre que o esfíncter que separa o estômago do esôfago encontra-se incompetente, permitindo o refluxo de suco gástrico, extremamente ácido, em direção ao esôfago.

Os sintomas mais comuns da DRGE são azia e regurgitação. Deve-se suspeitar de refluxo em todo paciente com dispepsia que apresentar azia ou regurgitação como principais queixas.

Para saber mais sobre a doença do refluxo gastroesofágico, leia: HÉRNIA DE HIATO | Refluxo gastroesofágico.

d. Câncer de estômago

O câncer do estômago é uma causa incomum de dispepsia. No entanto, nos pacientes com mais de 45 anos de idade, principalmente se forem fumantes e portadores da bactéria H.pylori, esta possibilidade de diagnóstico deve ser levada em conta.

Existem alguns “sintomas de alarme” que levantam a suspeita de malignidade gástrica quando associados à dispepsia, são eles:

– Perda de peso não intencional.
– Vômitos persistentes.
– Dificuldade para engolir.(leia: DISFAGIA – DIFICULDADE PARA ENGOLIR).
– Anemia ou deficiência de ferro inexplicada (leia: ANEMIA | Sintomas e causas).
– Sangue nas fezes (leia: SANGUE NAS FEZES | Hemorragia digestiva).
– Massa abdominal palpável.
– História familiar de câncer do estômago.
– Icterícia (leia: ICTERÍCIA | Neonatal e adulto).

e. Medicamentos

Alguns medicamentos podem provocar dispepsia ou piorar os sintomas de uma dispepsia já existente.

Drogas como Aspirina (AAS) e outros anti-inflamatórios podem causar lesão diretamente na parede do estômago, levando à dispepsia por gastrite aguda (leia: ANTI-INFLAMATÓRIOS | Ação e efeitos colaterais).

Várias outras drogas têm sido implicados como causa de dispepsia, como digoxina, ferro, bloqueadores dos canais de cálcio (ex: Adalat e amilodipina), teofilina, corticoides, metformina, alendronato, orlistat, suplementos de potássio, acarbose e certos antibióticos, incluindo a eritromicina e metronidazol.

Muitos medicamento à base de “ervas naturais” também podem provocar sintomas estomacais, entre os mais famosos está o Ginkgo biloba (leia: GINKGO BILOBA – Propriedades e Benefícios). Bebidas alcoólicas e cigarro também são causas de dispepsia.

f. Parasitoses

Algumas parasitoses podem provocar sintomas muito parecidos com os de uma gastrite.  O exemplo mais comum é a estrongiloidíase, causada pelo helminto Strongyloides stercolaris, que pode provocar dor abdominal na região do estômago, mal estar e enjoos. A diarreia, sinal que costuma ajudar no diagnóstico das parasitoses, nem sempre está presente (leia: ESTRONGILOIDÍASE | Strongyloides stercoralis).

Dispepsia funcional

Dispepsia funcional é o nome dado ao quadro de dispepsia crônica sem causa identificada. É o caso dos pacientes que apresentam dor de estômago, sem que a investigação médica seja capaz de identificar qualquer problema que a justifique. O paciente tem dor de estômago mas não é possível descobrir a causa mesmo após extensa investigação.

Em geral, há 4 fatores normalmente relacionados à presença da dispepsia funcional:

– Problemas motores nos músculos gástricos, que lentificam o esvaziamento do estômago.
– Alterações psicológicas, principalmente depressão e ansiedade.
– Aumento da sensibilidade do estômago. O estômago normalmente se distende quando comemos. No entanto, algumas pessoas são sensíveis a esse estiramento e sentem dor ou desconforto estomacal após as refeições.
– Presença do H.pylori. Alguns pacientes podem apresentar dispepsia pelo H.pylori, mesmo não havendo sinais de gastrite ou úlcera gástrica.

Tratamento dos sintomas do estômago

O tratamento da dispepsia deve ser focado na sua causa. A endoscopia digestiva alta geralmente distingue as diversas doenças gástricas que provocam sintomas.

Os inibidores da bomba de prótons são drogas que agem diminuindo a secreção de ácido pelo estômago. As mais conhecidas são o omeprazol, pantoprazol, esomeprazol e lansoprazol. Estes medicamentoso estão indicados tanto na gastrite, quanto nas úlceras, no refluxo e até na dispepsia funcional. Antiácidos também podem ser úteis (leia: REMÉDIOS PARA O ESTÔMAGO  e OMEPRAZOL – Para que Serve, Como Tomar e Efeitos Colaterais).

Nos pacientes com H.pylori, o tratamento da bactéria pode melhorar os sintomas, mesmo nos pacientes com dispepsia funcional, sem sinais de gastrite. Porém, nem sempre a bactéria é a responsável pela dispepsia e muitos paciente mantêm os sintomas mesmo após a eliminação da mesma.

Deve-se evitar uso de anti-inflamatórios ou qualquer outro medicamento que provoque sintomas no estômago. Quem fuma deve parar.

No paciente com histórico de depressão ou ansiedade, o tratamento destas doenças ajuda a melhorar a dispepsia.

Em relação à dieta, deve-se evitar alimento gordurosos, café, refrigerantes e bebidas alcoólicas. Perder peso para quem está com sobrepeso ou obeso também é importante (leia: TRATAMENTO DA OBESIDADE | Dieta para emagrecer). Evite refeições muito grandes. O ideal é comer menos, porém com mais frequência (5 ou 6 vezes por dia) para evitar de deixar o estômago vazio por muitas horas. Se você tem azia, evite deitar-se logo depois de comer. Pelo menos 1 hora de intervalo é desejável.

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Médico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (U.F.R.J) em 2002. Especialista em Medicina Interna e Nefrologia. Títulos reconhecidos pela Faculdade do Porto, Ordem dos Médicos de Portugal e Colégio de Nefrologia Português.