Resumo
Principais pontos sobre a gripe
- A gripe é uma infecção respiratória causada principalmente pelos vírus Influenza A e Influenza B.
- O quadro típico começa de forma súbita, com febre, tosse, dor muscular, dor de cabeça e intenso mal-estar, embora nem todo paciente apresente febre.
- Os sintomas mais intensos costumam ocorrer nos primeiros dias, mas a recuperação completa pode levar de 10 a 14 dias. A tosse ou o cansaço podem persistir por mais tempo.
- A maioria das pessoas jovens e saudáveis se recupera sem tratamento antiviral específico.
- Pessoas com maior risco de complicações ou com doença grave devem ser avaliadas precocemente. Nos pacientes hospitalizados ou com doença grave, complicada ou progressiva, ter ultrapassado 48 horas de sintomas não exclui a indicação de tratamento antiviral.
- A transmissão ocorre principalmente por partículas respiratórias, incluindo gotículas e aerossóis.
- A vacinação anual é a principal medida de prevenção contra a gripe e também reduz o risco de formas graves da doença.
O que é gripe (influenza)?
A gripe é uma infecção respiratória aguda causada pelos vírus influenza. Os vírus Influenza A e Influenza B são os responsáveis pelas epidemias sazonais de gripe. O Influenza C também pode infectar seres humanos, principalmente crianças, mas geralmente provoca quadros mais leves e tem importância muito menor na gripe sazonal.
Os vírus Influenza infectam as células das vias respiratórias e podem causar desde quadros leves até infecções intensas, com febre, tosse, dor de garganta, dor de cabeça, dores musculares, cansaço e prostração. Uma característica comum da gripe causada pelos vírus A e B é o início relativamente súbito dos sintomas, muitas vezes com manifestações gerais mais intensas do que as observadas em outras viroses respiratórias.
A influenza ocorre em todo o mundo e costuma apresentar maior circulação em determinadas épocas do ano, provocando epidemias sazonais. Embora a maioria das pessoas se recupere sem complicações, a doença pode causar pneumonia, piora de doenças crônicas, hospitalização e, nos casos mais graves, insuficiência respiratória e morte.
O Influenza A inclui subtipos como H1N1 e H3N2, enquanto os vírus Influenza B são classificados em linhagens. Diferentes variantes podem circular ao mesmo tempo em uma mesma temporada. Explicaremos os diferentes tipos de influenza mais ao final do artigo, incluindo os termos gripe A, gripe K, gripe aviária, gripe suína, etc.
É importante também não confundir gripe com qualquer quadro que popularmente seja chamado de “virose” ou “estado gripal”. Resfriados e outras infecções respiratórias podem causar sintomas semelhantes, e nem sempre é possível identificar o vírus responsável apenas pela apresentação clínica.
Temos um artigo específico sobre esse tema: Diferenças entre gripe e resfriado.
Como a gripe é transmitida?
A transmissão da influenza ocorre principalmente pelas partículas respiratórias liberadas por uma pessoa infectada.
Essas partículas podem ser produzidas ao tossir e espirrar, mas também ao falar e respirar. Não é necessário que o paciente esteja tossindo continuamente para transmitir o vírus.
Existem partículas relativamente maiores, chamadas de gotículas, que tendem a permanecer próximas à pessoa que as produziu, e partículas menores, chamadas aerossóis, que podem permanecer suspensas no ar por mais tempo. Ambas podem conter o Influenza.
O risco de transmissão costuma ser maior quanto mais próxima uma pessoa está de alguém infectado, pois a concentração de partículas respiratórias tende a ser maior nas proximidades da fonte.
Entretanto, ao contrário do que se preconizava alguns anos atrás, hoje sabemos que não existe uma distância exata, como 1 ou 2 metros, a partir da qual o risco de transmissão da gripe se torne desprezível ou desapareça. Partículas respiratórias maiores tendem a se depositar mais rapidamente e são especialmente importantes no contato próximo, enquanto partículas menores podem permanecer suspensas no ar e ser inaladas a distâncias maiores.
O risco depende também do tempo de exposição, da ventilação do ambiente, da quantidade de pessoas presentes e da intensidade com que a pessoa infectada fala, tosse, espirra ou respira. Por isso, permanecer a mais de dois metros de alguém com gripe reduz o risco, mas não elimina a possibilidade de transmissão, principalmente em locais fechados e mal ventilados.

A transmissão também pode ocorrer indiretamente pelas mãos e por objetos contaminados, embora essa via seja considerada menos importante que a transmissão pelas partículas respiratórias.
Quando uma pessoa com gripe tosse, espirra ou limpa secreções do nariz com as mãos, o vírus pode contaminar seus dedos e as palmas. Se ela tocar outra pessoa ou objetos ao seu redor, pode transferir o vírus para essas superfícies. A infecção pode ocorrer posteriormente quando alguém toca o local contaminado e leva as mãos ao nariz, à boca ou aos olhos.
O vírus influenza pode permanecer viável por algum tempo fora do organismo, mas esse período varia bastante conforme o tipo de superfície, a temperatura, a umidade, a cepa viral e a quantidade de vírus presente.
Em estudos experimentais clássicos, os vírus Influenza A e B permaneceram viáveis por cerca de 24 a 48 horas em superfícies duras e não porosas, como plástico e aço inoxidável, e por menos de 8 a 12 horas em materiais porosos, como papel, tecido e lenços.
Esses números devem ser interpretados apenas como estimativas obtidas em condições experimentais. Haver vírus sobre uma superfície não significa que ele permaneça durante todo esse período em quantidade suficiente para causar infecção. Na prática, a capacidade de transmissão tende a diminuir progressivamente com o tempo.
Por isso, lavar as mãos regularmente e evitar tocar os olhos, o nariz e a boca com as mãos não higienizadas continuam sendo medidas úteis para reduzir o risco de transmissão. A limpeza de superfícies frequentemente tocadas também pode ajudar, principalmente quando há uma pessoa doente no ambiente.
Leitura sugerida: Como lavar as mãos corretamente e quando usar álcool em gel.
Qual é o período de incubação da gripe?
O período de incubação, que corresponde ao intervalo entre o contato com o vírus e o aparecimento dos primeiros sintomas, costuma variar de um a quatro dias, com média de aproximadamente dois dias.
Por quanto tempo a gripe é contagiosa?
A capacidade de transmitir o vírus não começa exatamente junto com os primeiros sintomas.
A eliminação viral pode começar pouco antes do aparecimento dos sintomas e costuma atingir seus níveis mais elevados durante os primeiros dias da doença, especialmente nas primeiras 24 a 48 horas.
Depois disso, a capacidade de transmissão tende a diminuir progressivamente. Na maioria dos adultos imunocompetentes, a fase de maior contagiosidade já terminou ao longo da primeira semana, embora a eliminação viral possa persistir por mais tempo em algumas pessoas.
Esses números não funcionam como um relógio. Crianças pequenas, pacientes com doença grave e principalmente pessoas imunossuprimidas podem eliminar o vírus por períodos mais prolongados.
Além disso, melhora clínica, recuperação completa e fim da capacidade de transmissão não são exatamente o mesmo momento.
Uma pessoa pode continuar cansada ou tossindo mesmo quando a fase de maior contagiosidade já passou.
Quais são os sintomas da gripe?
A apresentação clássica da gripe é o aparecimento relativamente abrupto de vários sintomas ao mesmo tempo. Os mais frequentes são:
- Febre.
- Calafrios.
- Tosse, geralmente seca no início.
- Dor de cabeça.
- Dor muscular e nas articulações.
- Cansaço e prostração.
- Dor de garganta.
- Coriza ou congestão nasal.
- Perda de apetite.
Os sintomas podem surgir de forma tão súbita que alguns pacientes conseguem dizer exatamente a hora e o que estavam fazendo quando ficaram doentes.
Nos primeiros dias, a sensação de doença pode ser bastante intensa. É comum o paciente relatar que estava bem pela manhã e poucas horas depois já apresentava febre, dor no corpo e necessidade de permanecer deitado.
A intensidade dos sintomas da gripe varia bastante. Algumas pessoas apresentam apenas um quadro respiratório leve, enquanto outras ficam claramente debilitadas durante vários dias.

A gripe sempre causa febre?
Não. A febre é muito comum e faz parte da apresentação clássica da influenza, mas sua ausência não exclui gripe.
Isso é particularmente importante nos idosos, nos pacientes imunossuprimidos e, em menor grau, em pessoas previamente vacinadas contra a gripe. Nesses grupos, a apresentação pode ser menos típica, com predomínio de fraqueza, perda de apetite, tontura, prostração ou piora do estado geral.
Nos idosos, confusão mental ou alteração do comportamento também podem fazer parte da apresentação da gripe.
Portanto, afirmar que uma pessoa “não pode estar com gripe porque não teve febre” não é correto.
Vômitos e diarreia podem ocorrer?
Podem, principalmente em crianças.
Sintomas gastrointestinais, como vômitos, diarreia e dor abdominal não são as manifestações predominantes da influenza no adulto, mas podem fazer parte do quadro, especialmente na população pediátrica.
Excepcionalmente, algumas variantes do vírus influenza podem provocar sintomas gastrointestinais com maior frequência também nos adultos. Isso ocorreu, por exemplo, durante a pandemia de Influenza A(H1N1)pdm09 de 2009, quando vômitos e diarreia foram relatados com frequência maior do que a habitualmente observada na gripe sazonal.
Quando os sintomas digestivos são intensos e predominam claramente sobre os sintomas respiratórios, outras causas, inclusive outras infecções virais que não a gripe, devem ser consideradas.
Como a gripe se manifesta nas crianças?
Nas crianças maiores, o quadro pode ser semelhante ao observado nos adultos: febre, tosse, dores musculares, cefaleia e prostração.
Nos menores, porém, o diagnóstico pode ser mais difícil. Bebês e crianças pequenas não conseguem descrever dor muscular ou dor de cabeça e podem apresentar apenas febre, irritabilidade, sonolência, redução do apetite e sintomas respiratórios.
Como já referido, vômitos e diarreia também são mais frequentes nas crianças do que nos adultos.
Quanto tempo dura a gripe?
Uma das confusões mais frequentes sobre a gripe é considerar que começar a melhorar significa já estar totalmente recuperado.
Em adultos com gripe não complicada, febre e sintomas gerais costumam ser mais intensos nos primeiros dias e, a partir daí, começam a diminuir progressivamente. Isso não significa que todos estejam completamente recuperados no quarto ou quinto dia.
A recuperação completa pode levar de 10 a 14 dias. Tosse, cansaço, fraqueza ou menor disposição para atividades físicas podem permanecer por mais tempo, eventualmente durante algumas semanas.
Nas crianças, a melhora costuma ocorrer ao longo de aproximadamente uma semana, mas a tosse também pode persistir depois que a febre e o mal-estar desapareceram.
Portanto, uma pessoa que está sem febre, mas ainda apresenta tosse e cansaço dez dias após o início da gripe, não está necessariamente tendo uma complicação ou uma “gripe que não cura”.
Mais importante que o número de dias é a evolução dos sintomas
A trajetória da doença costuma ser mais informativa que um prazo rígido.
Na evolução esperada, o paciente apresenta uma fase inicial de sintomas mais intensos e depois uma melhora progressiva.
São situações diferentes:
- Melhorar devagar: a febre desaparece, o estado geral melhora, mas ainda permanecem tosse e cansaço.
- Não melhorar: febre alta, prostração ou sintomas respiratórios permanecem intensos, mesmo depois de vários dias.
- Piorar progressivamente: a falta de ar aumenta, o estado geral deteriora ou surgem novos sintomas.
- Melhorar e depois voltar a piorar: o paciente parece estar se recuperando, mas a febre retorna ou a tosse e a falta de ar pioram novamente.
As três últimas situações merecem maior atenção, pois podem indicar pneumonia ou outra complicação.
Quais são as complicações da gripe?
A maior parte dos pacientes se recupera sem complicações. Quando elas ocorrem, a mais importante é a pneumonia.
Além de comprometer diretamente os pulmões, a influenza pode favorecer uma infecção bacteriana e pode também descompensar doenças que o paciente já apresentava.
Pneumonia causada pela gripe
Existem três situações principais:
- A pneumonia viral primária é provocada pelo próprio vírus influenza e costuma se manifestar como persistência ou agravamento da febre, da falta de ar e dos sintomas respiratórios.
- A pneumonia bacteriana secundária ocorre quando uma bactéria aproveita as alterações nas defesas das vias respiratórias provocadas pela infecção viral. Um padrão sugestivo é o paciente começar a melhorar da gripe e, depois, apresentar novamente febre, piora da tosse, expectoração e deterioração do estado geral.
- Existe ainda a pneumonia mista, na qual vírus e bactéria participam simultaneamente do processo.

É importante entender que a gripe não “vira uma bactéria”. A influenza continua sendo uma infecção viral; o que pode ocorrer é o aparecimento de uma nova infecção bacteriana como complicação.
Entre as bactérias frequentemente envolvidas na pneumonia bacteriana estão Streptococcus pneumoniae, Staphylococcus aureus e Streptococcus pyogenes.
Piora de doenças que já existiam
A gripe pode descompensar várias doenças crônicas.
Pacientes com asma ou DPOC podem desenvolver broncoespasmo e piora importante da falta de ar. Pessoas com insuficiência cardíaca ou doença coronariana também podem apresentar descompensações durante a infecção.
A influenza também está associada a um aumento temporário do risco de eventos cardiovasculares, incluindo infarto do miocárdio. Esse risco é especialmente relevante em idosos e em pessoas com doença cardiovascular prévia ou fatores de risco, como hipertensão, diabetes e dislipidemia.
Outras complicações
Otite média e sinusite podem ocorrer, especialmente nas crianças.
Miocardite e pericardite são possíveis, mas são complicações incomuns.
Complicações neurológicas também podem ocorrer, embora sejam raras. Entre elas estão encefalite, encefalopatia e, mais raramente, meningite viral. Convulsões febris também podem ocorrer, principalmente em crianças.
A síndrome de Guillain-Barré pode ocorrer após algumas infecções virais, incluindo influenza.
Dor muscular é muito comum na gripe. Já a verdadeira miosite — inflamação dos músculos — é bem menos frequente, e rabdomiólise é uma complicação rara.
Nos quadros mais graves, a influenza pode provocar insuficiência respiratória, síndrome do desconforto respiratório agudo, sepse e disfunção de múltiplos órgãos.
Quem tem maior risco de complicações da gripe?
Qualquer pessoa pode apresentar complicações da influenza, inclusive adultos jovens previamente saudáveis. O risco, porém, não é igual para todos.
Os principais grupos com maior risco de desenvolver formas graves ou complicações da gripe incluem:
- Crianças menores de 5 anos, principalmente as menores de 2 anos.
- Pessoas com 65 anos ou mais.
- Gestantes e mulheres nas primeiras duas semanas após o parto.
- Pessoas com asma, DPOC ou outras doenças pulmonares crônicas.
- Pessoas com doenças cardíacas, como insuficiência cardíaca ou doença coronariana.
- Pessoas com diabetes mellitus e outras doenças metabólicas.
- Pessoas com doença renal crônica.
- Pessoas com doenças hepáticas crônicas, incluindo cirrose.
- Pessoas com doenças hematológicas, incluindo anemia falciforme.
- Pessoas com doenças neurológicas ou neuromusculares que possam dificultar a respiração, a deglutição ou a eliminação das secreções respiratórias.
- Pessoas imunossuprimidas devido a doenças ou tratamentos, incluindo pacientes com HIV/AIDS, câncer, transplantados, pessoas em quimioterapia ou em uso de medicamentos imunossupressores.
- Pessoas com obesidade classe III, definida no adulto por índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 40 kg/m².
- Crianças e adolescentes menores de 19 anos em uso prolongado de aspirina ou outros medicamentos contendo salicilatos.
- Moradores de instituições de longa permanência.
Pertencer a um desses grupos não significa que a gripe necessariamente será grave. Significa que o risco de complicações é maior e que o limiar para procurar avaliação médica deve ser mais baixo, pois esses pacientes têm maior indicação de tratamento antiviral precoce.
Quando procurar atendimento médico?
A maioria dos adultos jovens e previamente saudáveis com um quadro leve de gripe não precisa procurar um serviço de urgência.
Por outro lado, alguns sinais sugerem doença mais grave e justificam avaliação imediata, independentemente de quantos dias de sintomas o paciente tenha.
Sinais de alerta
Procure atendimento médico com urgência diante de manifestações como dificuldade para respirar, falta de ar importante, coloração azulada ou acinzentada dos lábios, dor ou pressão persistente no peito, confusão mental, dificuldade importante para despertar, desmaio, convulsão, sinais de desidratação relevante ou deterioração acentuada do estado geral.
Também merece avaliação o paciente que não consegue ingerir líquidos adequadamente ou que apresenta redução importante do volume de urina.
Não se deve aguardar vários dias para procurar atendimento se o quadro já apresenta sinais de gravidade.
Quando é indicada uma avaliação mais precoce?
Mesmo sem sinais de emergência, convém procurar orientação médica quando:
- O paciente pertence a um grupo com maior risco de complicações.
- A febre persiste por mais de três a cinco dias.
- A febre desaparece e depois retorna.
- O quadro inicialmente melhora e volta a piorar.
- Os sintomas continuam progredindo em vez de melhorar.
- Há piora de uma doença crônica, como asma, DPOC ou insuficiência cardíaca.
- Surgem falta de ar, dor no peito ou tosse progressivamente mais intensa.
Esses prazos não significam que seja necessário esperar três ou cinco dias diante de sintomas preocupantes. Eles servem para mostrar que uma gripe que mantém febre importante sem tendência de melhora merece reavaliação.
Sinais de alerta nas crianças
Além dos sinais já descritos, nos bebês e crianças é importante observar manifestações que elas próprias não conseguem relatar.
Esforço para respirar, retração das costelas durante a respiração, dificuldade para beber líquidos, redução importante da urina, sonolência excessiva, pouca interação com os responsáveis ou piora evidente do estado geral justificam avaliação médica.
Outro sinal que merece atenção é a criança que, durante uma gripe, passa a apresentar dor muscular muito intensa nas pernas e se recusa a andar. Como já descrito, o influenza pode, raramente, provocar miosite.
Bebês muito pequenos com febre precisam de avaliação específica pela idade, independentemente de a hipótese inicial ser gripe.
Como é feito o diagnóstico da gripe?
O diagnóstico de influenza leva em consideração os sintomas, a época do ano, a circulação do vírus na comunidade, a presença de casos próximos e as características do paciente.
Durante períodos de grande circulação da influenza, um adulto jovem, saudável e com quadro típico pode muitas vezes receber o diagnóstico clínico sem necessidade de teste laboratorial. Nesse grupo, diferenciar com precisão influenza de outras viroses respiratórias geralmente não modifica a conduta, já que o tratamento costuma ser apenas sintomático. Por isso, a confirmação laboratorial rotineira tende a oferecer pouco benefício clínico nesses casos.
Em outros pacientes, porém, saber qual vírus está provocando o quadro pode ser essencial para definir o tratamento.
É necessário fazer teste para gripe em todos os casos?
Não. O teste é mais útil quando o resultado pode alterar o tratamento ou outras decisões, como nos pacientes com maior risco de complicações, nos casos graves, nos pacientes hospitalizados, quando há suspeita de pneumonia ou quando é importante diferenciar influenza de outras infecções respiratórias.
O diagnóstico também pode ser útil para orientar medidas de controle em surtos ou decidir sobre prevenção em pessoas vulneráveis que tiveram contato próximo com o paciente.
O fato de a pessoa ter sido vacinada não elimina a possibilidade de gripe e não deve, sozinho, ser utilizado para descartar a investigação.
Qual é o melhor exame para diagnosticar gripe?
O exame é feito a partir de uma amostra de secreção das vias respiratórias, geralmente coletada com um swab introduzido pelo nariz, podendo atingir a nasofaringe, região localizada no fundo da cavidade nasal. Dependendo do teste utilizado, também podem ser aceitas amostras da parte anterior do nariz ou da garganta.
Os testes para influenza podem ser divididos, de forma simplificada, em dois grupos principais: testes moleculares e testes de antígeno.
Os testes moleculares, como a PCR, detectam o material genético do vírus e são os exames mais sensíveis para confirmar influenza. Alguns precisam ser processados em laboratório e podem levar algumas horas, mas atualmente também existem testes moleculares rápidos, capazes de fornecer o resultado em cerca de 15 a 30 minutos.
Já os testes rápidos de antígeno procuram proteínas do vírus na secreção respiratória. Eles costumam ser mais simples e baratos e também podem fornecer resultado em poucos minutos, porém apresentam menor sensibilidade que os testes moleculares, ou seja, têm maior chance de dar falso-negativo — um resultado negativo mesmo quando a pessoa realmente está com influenza.
Portanto, quando se fala em “teste rápido para gripe”, é importante saber qual método está sendo utilizado: ele pode ser um teste molecular rápido, mais sensível, ou um teste rápido de antígeno, mais sujeito a resultados falso-negativos.
Um teste negativo exclui gripe?
Depende do tipo de teste e do contexto clínico.
Um teste rápido de antígeno negativo não exclui influenza, porque esse método pode deixar de detectar alguns casos verdadeiros. Quando a suspeita clínica é alta, principalmente durante períodos de grande circulação do vírus, um resultado negativo pode precisar ser confirmado por um teste molecular.
Mesmo os testes moleculares, que são mais sensíveis, podem ocasionalmente apresentar resultado falso-negativo. Isso pode acontecer, por exemplo, quando a amostra é coletada de forma inadequada, muito tarde no curso da doença ou em um local das vias respiratórias onde há pouco vírus naquele momento.
Nos pacientes com indicação clara de tratamento antiviral, especialmente nos casos hospitalizados, graves, progressivos ou com maior risco de complicações, o início do tratamento não deve ser adiado enquanto se aguarda a confirmação laboratorial.
Como tratar a gripe?
É útil separar o tratamento em dois objetivos diferentes:
- Tratamento sintomático, ou seja, apenas controlar os sintomas e aguardar que a doença melhore com o passar dos dias.
- Tratamento antiviral, que reduz a multiplicação do vírus e pode encurtar a duração da doença e, principalmente nos pacientes com maior risco ou com quadros graves, reduzir o risco de complicações.
A maioria das pessoas jovens e saudáveis apresenta gripe autolimitada e se recupera com tratamento sintomático.
Tratamento dos sintomas
Repouso relativo, ingestão adequada de líquidos e medicamentos para aliviar febre, cefaleia e dores musculares costumam ser suficientes nos casos leves.
Paracetamol, dipirona ou anti-inflamatórios, como o ibuprofeno, podem ser utilizados em pacientes que não apresentem contraindicações específicas a esses medicamentos.
A febre faz parte da resposta do organismo à infecção. O objetivo do antitérmico é principalmente melhorar o desconforto do paciente, e não obrigatoriamente normalizar a temperatura a qualquer custo.
Cuidado com os antigripais combinados
Muitos medicamentos vendidos como “antigripais” contêm uma combinação de analgésico, antitérmico, anti-histamínico e descongestionante.
Eles podem aliviar sintomas, mas não eliminam o vírus influenza nem encurtam necessariamente a infecção.
Um problema frequente é o paciente utilizar um antigripal que já contém paracetamol e, sem perceber, tomar também outro medicamento com paracetamol separadamente. Isso aumenta o risco de ultrapassar a dose segura.
Por isso, é importante verificar os princípios ativos de cada produto e não apenas o nome comercial.
Importante: crianças e adolescentes com suspeita de influenza não devem receber aspirina ou outros salicilatos por causa da associação com a síndrome de Reye, uma complicação rara, porém potencialmente grave.
Quando os antivirais são indicados?
Os antivirais contra a influenza são mais úteis quando iniciados precocemente, mas nem toda pessoa com gripe precisa tomá-los.
De forma prática, o tratamento antiviral é indicado principalmente em três situações:
- Pacientes hospitalizados por influenza, independentemente de há quantos dias os sintomas começaram.
- Pacientes com doença grave, complicada ou em piora, mesmo que estejam sendo tratados fora do hospital. Isso inclui, por exemplo, pessoas que desenvolvem falta de ar importante, pneumonia ou piora de uma doença crônica, como asma, DPOC ou insuficiência cardíaca.
- Pessoas com maior risco de complicações da gripe, mesmo que o quadro ainda pareça leve. Fazem parte desse grupo, por exemplo, idosos, crianças pequenas, gestantes, imunossuprimidos e pessoas com determinadas doenças crônicas, como asma, diabetes, cardiopatias, doença renal crônica, cirrose ou anemia falciforme.
Nesses pacientes, o antiviral deve ser iniciado o mais cedo possível e, quando a suspeita de influenza é suficientemente forte, não é necessário esperar o resultado do exame para começar o tratamento.
Já em adultos jovens, saudáveis e com gripe leve e sem complicações, o antiviral geralmente não é necessário. Quando iniciado nas primeiras 48 horas, costuma reduzir a duração dos sintomas em aproximadamente um dia. Por isso, nesses pacientes, o médico pode decidir caso a caso se vale a pena utilizá-lo.
Alguns exemplos ajudam a entender:
- Uma pessoa de 25 anos, saudável, com febre, dor no corpo e tosse há um dia, mas respirando normalmente e sem sinais de complicação, geralmente pode ser tratada apenas com medicamentos para aliviar os sintomas.
- Uma pessoa de 70 anos com os mesmos sintomas deve ser avaliada precocemente para tratamento antiviral, pois a idade aumenta o risco de complicações.
- Uma gestante com suspeita de influenza também deve receber tratamento antiviral precocemente, mesmo que o quadro inicialmente pareça leve.
- Um adulto com quadro de diabetes, insuficiência cardíaca, doença renal crônica ou imunossupressão também apresenta maior indicação de tratamento antiviral.
- Um adulto jovem e previamente saudável que, após alguns dias de gripe, desenvolve falta de ar ou pneumonia passa a ter indicação de tratamento antiviral, mesmo que já tenham se passado mais de 48 horas desde o início dos sintomas.
Passaram-se 48 horas. O antiviral não funciona mais?
Não. Os antivirais proporcionam maior benefício quando iniciados nas primeiras 48 horas, especialmente nos casos de gripe não complicada. Porém, esse prazo não é um limite absoluto.
Em pacientes hospitalizados, com doença grave, complicada ou progressiva, ou com fatores importantes de risco para complicações, o tratamento ainda pode ser indicado mesmo quando os sintomas começaram há mais de dois dias.
Portanto, alguém com falta de ar, pneumonia, piora progressiva ou fatores importantes de risco não deve deixar de procurar atendimento simplesmente porque a gripe começou há três, quatro ou mais dias.
Oseltamivir, baloxavir e zanamivir
O oseltamivir, conhecido principalmente pelo nome comercial Tamiflu® e também disponível em versões genéricas, é o antiviral mais tradicionalmente utilizado e o medicamento com maior experiência acumulada no tratamento da influenza.
Existem outras opções, como baloxavir (Xofluza®), zanamivir (Relenza®) e, em situações específicas, peramivir. Esses medicamentos não são completamente intercambiáveis e sua disponibilidade varia entre os países.
Nos pacientes hospitalizados ou com influenza grave ou progressiva, o oseltamivir é geralmente a opção preferencial e pode ser administrado por via oral ou, quando necessário, por uma sonda que leve o medicamento diretamente ao estômago.
O zanamivir inalatório, por exemplo, pode desencadear broncoespasmo e não é uma opção adequada para pacientes com asma ou DPOC.
O baloxavir tem a conveniência de administração em dose única em determinados pacientes com gripe não complicada, mas possui limitações em algumas populações, como pacientes imunossuprimidos, além da possibilidade de surgimento de resistência.
Durante a gravidez, o oseltamivir é o antiviral preferencial. O baloxavir não é recomendado para gestantes ou durante a amamentação devido à ausência de dados suficientes sobre segurança e eficácia nessas situações.
A escolha do antiviral depende de idade, gravidez, doenças associadas, gravidade do quadro, função renal, disponibilidade do medicamento e padrões de resistência. Por isso, o uso deve ser orientado por um profissional de saúde.
Antibióticos tratam gripe?
Não. Antibióticos não têm ação contra o vírus influenza e não aceleram a recuperação de uma gripe sem complicações bacterianas.
Isso não significa que nunca sejam utilizados durante uma gripe. Como já vimos, uma infecção bacteriana pode ocorrer simultaneamente ou surgir como complicação, principalmente na forma de pneumonia.
Nessa situação, o antibiótico é prescrito para tratar a infecção bacteriana associada, e não a influenza propriamente dita.
Corticoides ajudam?
Corticoides não devem ser utilizados rotineiramente como tratamento da influenza.
Eles podem ter indicação por outro motivo. Um paciente com asma, por exemplo, pode necessitar de corticoide para tratar uma exacerbação da doença desencadeada pela infecção viral. Isso é diferente de utilizar corticoide simplesmente porque o paciente está com gripe.
Vitamina C trata gripe?
Não há evidência convincente de que doses elevadas de vitamina C sejam capazes de tratar a influenza ou reduzir de maneira clinicamente relevante sua duração.
Uma alimentação adequada é importante durante qualquer doença, mas suplementos vitamínicos não substituem as medidas de suporte, a vacinação ou o tratamento antiviral quando este está indicado.
Quando posso voltar ao trabalho ou à escola?
Como regra prática, uma pessoa com gripe deve evitar trabalho, escola e outros locais públicos enquanto estiver febril e na fase mais sintomática.
O retorno costuma ser considerado quando há melhora global dos sintomas e a pessoa permanece pelo menos 24 horas sem febre, sem necessidade de antitérmicos.
Isso não significa que o risco de transmissão seja literalmente zero. Nos cinco dias seguintes ao retorno às atividades, é prudente manter alguns cuidados adicionais, especialmente boa ventilação dos ambientes, higiene das mãos e maior cautela no contato com pessoas vulneráveis.
O uso de máscara, principalmente em ambientes fechados, lotados ou durante contato próximo com pessoas de maior risco, também pode reduzir a possibilidade de transmissão nesse período (falamos mais das máscaras logo abaixo).
Como prevenir a gripe?
A prevenção da gripe não depende de uma única medida.
Vacinação, redução do contato durante a fase aguda da doença, boa ventilação dos ambientes, higiene das mãos e utilização adequada de proteção respiratória em situações de maior risco atuam de forma complementar.
Vacina contra a gripe
A vacinação é a principal estratégia de prevenção contra a influenza e suas complicações.
Os vírus influenza sofrem alterações ao longo do tempo. Por isso, redes internacionais de vigilância acompanham continuamente quais variantes estão circulando e utilizam essas informações para definir a composição das vacinas das temporadas seguintes.
A necessidade de vacinação anual ocorre por dois motivos principais: os vírus mudam e a proteção imunológica também diminui com o passar do tempo.
A proteção não surge imediatamente após a aplicação. O sistema imunológico leva aproximadamente duas semanas para desenvolver uma resposta adequada.
A vacina não impede todas as infecções, mas, mesmo quando não evita completamente a gripe, pode reduzir a probabilidade de doença grave e complicações.
Também é importante lembrar que a vacina contra influenza não protege contra todos os vírus respiratórios que popularmente chamamos de “gripe”. Uma pessoa vacinada pode ter um resfriado, COVID-19, infecção pelo vírus sincicial respiratório ou outras viroses e acreditar, erroneamente, que “a vacina da gripe não funcionou”.
Existem diferentes tipos de vacina contra influenza. As mais utilizadas são as vacinas injetáveis inativadas, produzidas com vírus que não são capazes de se multiplicar no organismo. Por isso, a vacina da gripe não causa gripe.
Também existem outras formulações, como vacinas de vírus vivo atenuado administradas por via nasal em alguns países e faixas etárias. Essas diferenças explicam por que nem todas as vacinas contra influenza têm exatamente a mesma composição ou forma de administração.
Temos um artigo específico com informações detalhadas sobre a vacina da gripe.
Máscaras ajudam a prevenir a gripe?
Sim. O uso de máscara pode reduzir a transmissão da influenza, principalmente em ambientes fechados, lotados ou mal ventilados.
A máscara pode ajudar de duas formas. Quando utilizada por uma pessoa infectada, reduz a quantidade de partículas respiratórias contendo vírus que são liberadas no ambiente ao respirar, falar, tossir ou espirrar. Quando utilizada por uma pessoa saudável, também pode reduzir a quantidade de partículas infecciosas que chegam às vias respiratórias.
A proteção depende bastante do tipo de máscara e, principalmente, de como ela se ajusta ao rosto. Máscaras frouxas ou com espaços laterais permitem maior passagem de ar sem filtração.
Em geral:
- Máscaras de pano oferecem menor proteção.
- Máscaras cirúrgicas ou descartáveis proporcionam proteção intermediária, especialmente quando ficam bem ajustadas ao rosto.
- Respiradores PFF2, N95 ou KN95 oferecem maior capacidade de filtração e melhor proteção quando utilizados corretamente.
O uso de máscara é particularmente útil quando:
- A própria pessoa está com sintomas de gripe e precisa permanecer próxima de outras pessoas.
- Há contato próximo com alguém infectado.
- A pessoa pertence a um grupo com maior risco de complicações e está em ambiente fechado ou lotado durante um período de alta circulação de influenza.
- Há grande circulação de vírus respiratórios na comunidade.
- O ambiente é fechado, pouco ventilado ou reúne muitas pessoas.
A máscara não precisa ser utilizada isoladamente. Sua proteção é maior quando combinada com outras medidas, como vacinação, boa ventilação dos ambientes e evitar contato próximo durante a fase mais contagiosa da doença. Da mesma forma, quando várias pessoas em um mesmo ambiente utilizam máscaras adequadamente, o efeito sobre a redução da transmissão tende a ser maior, pois diminui tanto a quantidade de partículas respiratórias liberadas por pessoas infectadas quanto a quantidade inalada pelas demais.
Outras medidas de prevenção
Quando alguém está com sintomas de gripe, reduzir o contato próximo com outras pessoas — especialmente idosos, bebês, gestantes e imunossuprimidos — ajuda a diminuir a transmissão.
Em ambientes fechados, aumentar a renovação do ar é útil porque reduz a concentração de partículas respiratórias suspensas.
Cobrir tosse e espirros, evitar tocar desnecessariamente os olhos e o nariz e higienizar as mãos continuam sendo medidas úteis.
Temos um artigo separado sobre como prevenir a gripe com essas medidas em mais detalhes.
Existe medicamento para prevenir gripe após contato com uma pessoa infectada?
Sim. Em algumas situações pode ser utilizada a chamada profilaxia antiviral pós-exposição. É importante não confundi-la com o tratamento da gripe, pois são estratégias utilizadas em momentos diferentes.
- Profilaxia pós-exposição: é utilizada em uma pessoa que teve contato relevante com alguém com influenza, mas ainda não apresenta sintomas. Quando indicada, deve ser iniciada o mais cedo possível, idealmente até 48 horas após a exposição.
- Tratamento antiviral: é utilizado quando a pessoa já apresenta sintomas de gripe. O benefício costuma ser maior quando o medicamento é iniciado nas primeiras 48 horas após o começo dos sintomas, embora pacientes hospitalizados, com doença grave ou com alto risco de complicações possam se beneficiar mesmo quando o tratamento começa mais tarde.
Portanto, são dois prazos diferentes: 48 horas após o contato para iniciar a profilaxia e 48 horas após o início dos sintomas como período ideal para iniciar o tratamento.
Na profilaxia pós-exposição, o medicamento mais utilizado é o oseltamivir (Tamiflu®). O zanamivir (Relenza®) também pode ser utilizado, embora não seja adequado para pessoas com asma ou DPOC por causa do risco de broncoespasmo. Em alguns países, o baloxavir (Xofluza®) também é aprovado para profilaxia após contato com uma pessoa infectada.
O esquema de profilaxia não é necessariamente igual ao utilizado para tratar a gripe. Com o oseltamivir, por exemplo, o medicamento costuma ser administrado uma vez ao dia na profilaxia, geralmente por 7 dias após a última exposição, enquanto no tratamento da influenza é geralmente utilizado duas vezes ao dia por 5 dias.
A profilaxia pós-exposição não é indicada rotineiramente para todas as pessoas que tiveram contato com alguém gripado. Ela pode ser considerada principalmente em situações selecionadas, como em pessoas com risco muito elevado de desenvolver complicações após uma exposição relevante, por exemplo alguns pacientes gravemente imunossuprimidos, ou em determinadas situações envolvendo contatos domiciliares de pessoas extremamente vulneráveis.
Se já tiverem passado mais de 48 horas desde a exposição e a pessoa continuar sem sintomas, em geral não se inicia a profilaxia antiviral de rotina. Uma alternativa é observar atentamente o aparecimento de sintomas e, caso eles surjam, iniciar rapidamente o tratamento antiviral, se houver indicação.
Se uma pessoa que já está fazendo profilaxia desenvolver febre, tosse, dores no corpo ou outros sintomas sugestivos de influenza, a situação também muda: ela deve ser avaliada como um possível caso de gripe e o esquema utilizado passa a ser o de tratamento, e não o de prevenção.
A profilaxia antiviral não substitui a vacinação e deve ser decidida individualmente por um profissional de saúde.
Quais são os tipos de vírus influenza?
Existem quatro tipos de vírus influenza: A, B, C e D. Entretanto, eles não têm a mesma importância para a saúde humana.
Os vírus Influenza A e B são os principais responsáveis pela gripe sazonal. O Influenza C também pode infectar seres humanos, principalmente crianças, mas costuma provocar quadros mais leves e não está associado às epidemias sazonais típicas. Já o Influenza D infecta principalmente bovinos e não é considerado uma causa estabelecida de gripe em seres humanos.
Influenza A
O Influenza A é o tipo com maior diversidade e o único capaz de provocar pandemias de gripe.
Ele pode infectar seres humanos e diversos outros animais, incluindo aves, porcos e cavalos. Essa ampla variedade de hospedeiros facilita o surgimento de novas variantes.
Os vírus Influenza A são classificados em subtipos de acordo com duas proteínas presentes em sua superfície:
- Hemaglutinina (H).
- Neuraminidase (N).
É dessa classificação que surgem nomes como H1N1, H3N2, H5N1 e H7N9.
Existem muitos subtipos de Influenza A na natureza, mas atualmente os dois que circulam de forma habitual entre seres humanos e provocam gripe sazonal são:
- Influenza A(H1N1)pdm09.
- Influenza A(H3N2).
Os vírus H5N1 e H7N9, por exemplo, são vírus de origem aviária que ocasionalmente infectam seres humanos, mas não apresentam atualmente transmissão sustentada entre pessoas capaz de torná-los vírus comuns da gripe sazonal.
O Influenza A tem uma característica especialmente importante: ocasionalmente surge um vírus suficientemente diferente daqueles que já circulam entre seres humanos.
Se esse novo vírus conseguir se transmitir eficientemente de pessoa para pessoa e encontrar uma população com pouca imunidade, pode surgir uma pandemia de influenza.
Foi isso que aconteceu diversas vezes ao longo da história recente.
- A pandemia de 1918, conhecida como gripe espanhola, foi provocada por um vírus Influenza A(H1N1).
- Em 1957, surgiu um novo vírus A(H2N2), responsável pela chamada gripe asiática. Esse vírus substituiu o H1N1 que circulava anteriormente entre seres humanos.
- Em 1968, surgiu o A(H3N2), responsável pela pandemia conhecida como gripe de Hong Kong. O H3N2 passou a circular de forma sazonal e seus descendentes continuam provocando gripe até hoje.
- Em 2009, surgiu um novo vírus A(H1N1), geneticamente diferente do H1N1 sazonal que circulava naquele momento. Ele provocou a pandemia de 2009 e ficou popularmente conhecido como vírus da gripe A ou “gripe suína”.
O vírus de 2009 não desapareceu após o fim da pandemia. Seus descendentes passaram a fazer parte da circulação sazonal e hoje são denominados A(H1N1)pdm09. Portanto, quando atualmente se diagnostica uma gripe por H1N1, isso não significa que esteja ocorrendo uma nova pandemia. O H1N1pdm09 tornou-se um dos vírus habituais da gripe sazonal.
Falamos sobre a gripe A no artigo: Gripe A (H1N1 e H3N2): sintomas, transmissão e tratamento.
O que é a gripe K?
A chamada “gripe K” não é um novo tipo de gripe nem um novo subtipo de Influenza A.
O nome se refere ao subclado K do vírus Influenza A(H3N2). Ele deriva de uma das ramificações evolutivas do H3N2 e foi inicialmente classificado como J.2.4.1.
A partir de 2025, o subclado K aumentou rapidamente de frequência e se disseminou por várias regiões do mundo. Durante a temporada de gripe de 2025–2026, tornou-se uma das principais variantes do H3N2 em circulação e contribuiu para o início mais precoce da temporada de influenza em diversos países.
Os sintomas provocados pelo subclado K são os mesmos da gripe causada por outros vírus H3N2: febre, tosse, dor de garganta, dores musculares, cefaleia e cansaço, entre outras manifestações.
Até o momento, não há evidência de que a gripe K constitua uma nova doença ou tenha adquirido um mecanismo diferente de transmissão. Sua importância epidemiológica decorre principalmente de sua rápida disseminação e das alterações antigênicas que acumulou em relação às variantes de H3N2 que circulavam anteriormente.
Essas mudanças também explicam por que a composição das vacinas contra influenza precisa ser revista periodicamente.
Influenza B
O Influenza B também causa epidemias sazonais e pode provocar doença grave, hospitalizações e mortes. Porém, não há registro de pandemias causadas por Influenza B; apenas os vírus Influenza A são conhecidos por terem causado pandemias.
Ao contrário do Influenza A, ele não é dividido em subtipos H e N. Historicamente, os vírus Influenza B que circulavam em seres humanos eram classificados em duas grandes linhagens:
- B/Victoria.
- B/Yamagata.
Atualmente, a linhagem B/Victoria continua circulando. Já não há detecções confirmadas de circulação natural da linhagem B/Yamagata desde março de 2020, e a Organização Mundial da Saúde considera que sua inclusão nas vacinas contra influenza deixou de ser necessária.
O Influenza B sofre alterações genéticas e antigênicas ao longo do tempo, mas geralmente de forma mais lenta que o Influenza A, principalmente quando comparado ao H3N2.
Influenza C
O Influenza C também pode causar infecções respiratórias em seres humanos, principalmente em crianças.
Em geral, provoca doença mais leve e não desempenha papel importante nas epidemias sazonais de gripe. Por esse motivo, recebe muito menos atenção em campanhas de vacinação e sistemas de vigilância do que os vírus Influenza A e B.
Influenza D
O Influenza D foi identificado mais recentemente e infecta principalmente bovinos e outros animais.
Até o momento, não é considerado uma causa estabelecida de doença por influenza em seres humanos e não participa das epidemias sazonais de gripe.
Por que uma pessoa pode ter gripe mais de uma vez?
Os vírus influenza sofrem pequenas alterações genéticas continuamente. Quando essas mudanças modificam as proteínas reconhecidas pelo sistema imunológico, os anticorpos produzidos contra infecções anteriores ou vacinas antigas podem reconhecer o vírus de forma menos eficiente.
Esse processo é chamado deriva antigênica (antigenic drift).
A deriva antigênica ocorre progressivamente e é um dos principais motivos pelos quais uma pessoa pode ter gripe várias vezes durante a vida e por que a composição da vacina contra influenza precisa ser atualizada regularmente.
O Influenza A também pode sofrer mudanças muito maiores. Por meio de fenômenos como o rearranjo de segmentos do seu material genético, pode surgir um vírus bastante diferente daqueles que já circulam na população.
Quando um novo vírus Influenza A consegue se transmitir de forma sustentada entre seres humanos e encontra uma população com pouca imunidade, existe o potencial para o surgimento de uma pandemia.
Além disso, diferentes tipos e subtipos podem circular em uma mesma temporada. Portanto, alguém que teve influenza A pode posteriormente adquirir influenza B, por exemplo.
- UpToDate — Seasonal influenza in adults: Clinical manifestations and diagnosis. Revisão da literatura até agosto de 2026.
- UpToDate — Seasonal influenza in nonpregnant adults: Treatment. Revisão da literatura até agosto de 2026.
- UpToDate — Infection control measures for prevention of seasonal influenza. Revisão da literatura até agosto de 2026.
- UpToDate — Seasonal influenza in children: Clinical features and diagnosis.
- UpToDate — Influenza: Epidemiology and pathogenesis.
- UpToDate — Seasonal influenza in adults: Role of antiviral prophylaxis for prevention.
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC) — Influenza Antiviral Medications: Summary for Clinicians.
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC) — Recommendations for Obstetric Health Care Providers Related to Use of Antiviral Medications for the Treatment and Prevention of Influenza.
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC) — Precautions When Sick.
- Infectious Diseases Society of America (IDSA) — Clinical Practice Guidelines for Seasonal Influenza.
- World Health Organization (WHO) — Clinical practice guidelines for influenza.
- World Health Organization — Seasonal influenza – Global situation. Disease Outbreak News, 10 December 2025.
- World Health Organization — Recommendations for influenza vaccine composition for the 2026–2027 northern hemisphere season. February 2026.
- World Health Organization — Recommended composition of influenza virus vaccines for use in the 2026 southern hemisphere influenza season. September 2025.
Dúvidas de leitores sobre este tema
Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.
Mais comentários dos leitores
Estou com uma gripe a mais de um mês, tenho muita coriza, tosse, e de vez em quando sinto uma dor nas costa, isso pode ser pneumonia?