Crohn e retocolite

A Doença de Crohn e a retocolite ulcerativa são duas doenças distintas, apesar de clinicamente semelhantes, classificadas sobre o nome de doença inflamatória intestinal.

As causas ainda não estão totalmente esclarecidas mas sabe-se que, tanto a doença de Crohn, quanto a retocolite ulcerativa, apresentam influencias de fatores genéticos e ambientais.

Atualmente a teoria mais aceita é de que haveria um mau funcionamento do sistema imune, desencadeado provavelmente por alguma infecção viral ou bacteriana, que passaria equivocadamente a atacar elementos normais do trato digestivo como bactérias, alimentos e células, levando a um estado de inflamação crônica dos intestinos, em um processo semelhante às doenças auto-imunes (leia: DOENÇA AUTOIMUNE).

As doenças inflamatórias intestinais são mais comuns nos países do hemisfério norte e na população de origem judaica. Surge normalmente entre os 15 e 40 anos. Homens e mulheres são igualmente acometidos. 25% dos pacientes com doença inflamatória intestinal apresentam pelo menos um parente de 1º grau também portador da doença.

Não se conseguiu ainda comprovar nenhuma ligação da doença com algum tipo de dieta ou com estresse emocional. Também não há comprovação em relação a influência dos anticoncepcionais.

Curiosamente o tabagismo apresenta influencia antagônica entre as duas doenças, aumentando o risco de se desenvolver Crohn, enquanto parece diminuir a incidência de retocolite.

Alguns trabalhos sugerem que uso de anti-inflamatórios poderia favorecer o surgimento de doenças inflamatórias intestinais (leia: AÇÃO E EFEITOS COLATERAIS DOS ANTI-INFLAMATÓRIOS), enquanto que pessoas que retiraram o apêndice apresentariam menor incidência. São dados que ainda necessitam de maior investigação.

Diferenças entre a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa

Diferenças entre a doença de Crohn e retocolite ulcerativa

A Doença de Crohn é uma doença inflamatória intestinal que pode acometer qualquer ponto do trato digestivo, desde a boca até o ânus. Porém, 80% dos pacientes apresentam lesão do íleo distal e região íleo cecal que são respectivamente a porção final do intestino delgado e a região de transição entre intestino delgado e cólon.

A doença de Crohn se caracteriza por uma inflamação em todas as camadas da parede do intestino, com lesões difusas ao longo do trato digestivo. Uma característica típica do Crohn é apresentar áreas de intestino saudável entre áreas inflamadas.

Já a retocolite ulcerativa ataca somente o cólon e reto, poupando as outras regiões do trato digestivo. Na retocolite a lesão costuma ser contínua e acomete apenas a camada mais superficial da mucosa do intestino, levando à inflamação e formação de úlceras.

Sintomas do Crohn e da retocolite ulcerativa

Apesar de serem duas doenças diferentes, os sintomas são muito parecidos. Os mais comuns são:

– Diarreia (leia: DIARREIA | SINAIS DE GRAVIDADE E TRATAMENTO).
– Perda de sangue nas fezes (leia: SANGUE NAS FEZES E HEMORRAGIA DIGESTIVA).
– Dor abdominal.
– Febre (leia: O QUE SIGNIFICA E POR QUE TEMOS FEBRE ?).
– Emagrecimento.
– Cansaço.
– Anemia (leia: SINTOMAS DA ANEMIA).

Apesar das semelhanças nos sintomas, alguns achados clínicos são mais comuns no Crohn e outros na retocolite.

Como a doença de Crohn acomete todas as camadas da parede do intestino, é mais comum a ocorrência de fístulas, obstruções e perfurações do trato digestivo.

A perfuração intestinal causa um quadro grave pois propicia o contato das fezes e suas bactérias com a cavidade abdominal. Costuma causar com peritonite e sepse grave (leia: O QUE É SEPSE E CHOQUE SÉPTICO?).

As fístulas são comunicações entre dois órgãos que surgem devido à processos inflamatórios. No Crohn, as fístulas podem ligar o intestino à vagina, bexiga, outras regiões do próprio intestino e ou até para a pele.

Como já explicado, a doença de Crohn pode acometer qualquer ponto do trato digestivo. Porém, a inflamação da região do reto é característica da retocolite, podendo ou não ocorrer no Crohn. Um quadro sugestivo de doença inflamatória intestinal com ausência de lesão no reto praticamente sela o diagnóstico de Crohn.

A presença de úlceras no cólon é típico da retocolite, mas também podem ocorrer no Crohn.

Fezes com sangue ocorre nas duas doenças, mas é mais comum na retocolite ulcerativa.

O curso clínico da doença costuma ser mais brando na retocolite que no Crohn. Porém, é importante destacar que nas duas doenças podem haver casos agressivos e casos mais brandos.

As doenças inflamatórias intestinais se manifestam com períodos de exacerbação (crises) intercalados por períodos de pouca ou nenhuma sintomatologia. A período de remissão pode durar de semanas a meses.

Como no Crohn o acometimento do íleo e da região íleo-cecal é muito comum, o quadro pode muitas vezes lembrar uma apendicite, já que é neste sítio que se encontra o apêndice (leia: SINTOMAS DA APENDICITE).

Manifestações extra-intestinais da doença de Crohn e da retocolite ulcerativa

Além dos sintomas causados pela inflamação do trato gastrointestinal, as doenças inflamatórias intestinais também cursam com sintomas em outros sistemas do organismo. Os mais descritos são:

– Lesões de pele: Pioderma gangrenoso e eritema nodoso.
– Lesões oculares: Uveítes, irites e episclerites.
– Lesões músculo-esqueléticas: Artrites e espondilite anquilosante.
– Amiloidose.
– Trombose e embolias (leia: EMBOLIA PULMONAR).
– Colangite esclerosante.

Doença inflamatória intestinal e câncer

Tanto no Crohn, quanto na retocolite, o risco de câncer de cólon é 2 a 5 vezes maior que a população geral.

Em média, 5% dos portadores de doença inflamatória intestinal apresentarão câncer cólon-retal. O risco é maior quanto mais longa for a doença e quanto mais grave e extenso for a inflamação do cólon.

Por isso, após mais ou menos 8 anos de diagnóstico de Crohn ou retocolite, indica-se a realização de colonoscopias anuais para detecção precoce dos tumores de cólon.

Diagnóstico do Crohn e da retocolite ulcerativa

Doença de Crohn na colonoscopia

Atualmente o diagnóstico das doenças inflamatórias intestinais é realizado através da colonoscopia com biópsia (leia: EXAME COLONOSCOPIA).

Os achados de ulcerações, pseudopólipos, granulomas associados a sinais de inflamação da mucosa intestinal ajudam a estabelecer o diagnóstico, que é confirmado posteriormente com o resultado das biópsias.

Tratamento da doença de Crohn e da retocolite ulcerativa

O tratamento das doenças inflamatórias intestinais visa o controle da inflamação e consequentemente a melhora dos sintomas.

As duas drogas mais comumente usadas, são a Sulfalazina e o 5-aminosalicilato (5-ASA), conhecido também como Asacol® e Pentasa®.

Antibióticos como metronidazol e ciprofloxacina também são muitas vezes usados.

Em casos mais graves pode-se usar imunossupressores como corticoides em doses altas, Azatioprina, 6-mercaptopurina e Metotrexate.

Uma nova classe de droga, chamada de anti-TNF foi recentemente incorporada ao arsenal de tratamento para o Crohn e retocolite. As 3 drogas desta classe usadas são o Infliximab, Adalimumab e Certolizumab.

Ainda não existe uma dieta que comprovadamente auxilie nas doenças inflamatórias intestinais. O que se indica é avaliar individualmente quais alimentos exacerbam os sintomas para evitá-los. Mas não há uma relação de alimentos que faça mal ou bem universalmente.

Orienta-se a evitar o cigarro e também anti-inflamatórios comuns.

Na doença de Crohn onde as fístulas, perfurações e obstruções são comuns, muitas vezes é necessário a cirurgia para retirada do segmento acometido.

Por defeitos na absorção de alimentos, é comum o doente com Crohn desenvolver algumas deficiências nutricionais e desnutrição. Esses pacientes muitas vezes desenvolvem osteoporose (leia: SINTOMAS E TRATAMENTO DA OSTEOPOROSE) por deficiência de cálcio e vitamina D.

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Médico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (U.F.R.J) em 2002. Especialista em Medicina Interna e Nefrologia. Títulos reconhecidos pela Faculdade do Porto, Ordem dos Médicos de Portugal e Colégio de Nefrologia Português.