Resumo
Principais pontos sobre a sepse
- A sepse é uma complicação grave de uma infecção, na qual a resposta do organismo torna-se desregulada e começa a provocar disfunção de um ou mais órgãos.
- Popularmente, ela é muitas vezes chamada de “infecção generalizada”, embora essa expressão não seja tecnicamente precisa.
- A sepse pode surgir a partir de infecções relativamente comuns, como pneumonia, infecção urinária, infecções abdominais, meningite ou infecções da pele.
- O risco é maior em idosos, recém-nascidos, pessoas internadas, imunossuprimidos e pacientes com doenças crônicas.
- Os principais sinais de alerta incluem alteração do estado mental, queda da pressão arterial, respiração acelerada, falta de ar, redução da quantidade de urina, prostração intensa e alterações da temperatura corporal.
- A sepse é uma emergência médica.
- O tratamento inclui controle rápido da infecção, geralmente com antimicrobianos, além de líquidos pela veia e suporte dos órgãos quando necessário. Sem tratamento precoce, pode evoluir para falência de múltiplos órgãos e choque séptico.
O que é sepse?
A sepse é uma condição potencialmente fatal que surge quando a resposta do organismo a uma infecção torna-se desregulada e começa a provocar lesão e disfunção de órgãos.
Popularmente, a sepse costuma ser chamada de “infecção generalizada”, “infecção no sangue” ou “septicemia”, embora essas expressões não sejam tecnicamente precisas. A sepse não significa necessariamente que a infecção tenha se espalhado por todo o organismo nem que existam microrganismos circulando no sangue.
Em circunstâncias normais, o sistema imunológico combate uma infecção de forma localizada e organizada. Na sepse, porém, a reação à infecção deixa de ser adequadamente controlada e passa a interferir no funcionamento da circulação, dos vasos sanguíneos, da coagulação, do metabolismo e de diferentes órgãos.
Na definição atualmente utilizada para adultos, conhecida como Sepsis-3, sepse é uma disfunção orgânica com risco de vida causada por uma resposta desregulada do hospedeiro (o paciente) a uma infecção.
Portanto, sepse e bacteremia não são a mesma coisa. Bacteremia significa presença de bactérias na corrente sanguínea. Um paciente pode apresentar bacteremia sem desenvolver sepse e, da mesma forma, pode ter sepse sem que as culturas de sangue demonstrem a presença de bactérias.
Sintomas e sinais de alerta da sepse
Os sintomas da sepse variam conforme o local da infecção, o microrganismo envolvido, a idade do paciente e a gravidade do quadro.
Nos estágios iniciais podem ocorrer:
- Febre ou temperatura corporal anormalmente baixa.
- Calafrios.
- Batimentos cardíacos acelerados.
- Respiração mais rápida que o habitual.
- Cansaço intenso e prostração.
- Perda de apetite.
- Náuseas ou vômitos, dependendo da origem da infecção.
À medida que surge disfunção dos órgãos, podem aparecer sinais mais preocupantes, como:
- Confusão mental, desorientação ou sonolência excessiva.
- Redução da produção de urina.
- Falta de ar.
- Queda da pressão arterial.
- Pele fria, pálida, pegajosa ou com manchas arroxeadas.
- Redução do nível de consciência.
- Queda do número de plaquetas no hemograma.
- Alterações da função renal, hepática ou da coagulação nos exames de sangue.
Idosos e pessoas imunossuprimidas podem apresentar manifestações menos típicas. Nesses pacientes, prostração intensa, confusão mental ou piora súbita do estado geral podem ser os primeiros sinais, mesmo na ausência de febre.
Nos quadros mais graves, as alterações dos vasos sanguíneos e da circulação podem provocar queda importante da pressão arterial e redução do fluxo de sangue para os tecidos, quadro que pode levar ao choque séptico (explicado mais adiante). Além disso, o aumento da permeabilidade dos vasos favorece o extravasamento de líquido, podendo contribuir para edema, inclusive edema pulmonar.
A combinação de alterações circulatórias, inflamatórias, metabólicas e da microcirculação pode comprometer rins, pulmões, fígado, coração e cérebro (quadro chamado de falência múltipla de órgãos). Também pode ocorrer coagulação intravascular disseminada (CIVD), condição na qual há ativação anormal da coagulação, com formação de pequenos trombos e, paradoxalmente, aumento do risco de sangramentos.
Atenção: não existe um sintoma isolado que confirme ou exclua sepse. Uma pessoa com infecção que desenvolve confusão mental, falta de ar, queda da pressão arterial, redução importante da urina ou piora rápida do estado geral deve ser avaliada com urgência.
Causas: como a sepse se desenvolve?
Sempre que nosso organismo é invadido por microrganismos, o sistema imunológico é ativado para combater esses agentes. Uma das estratégias das células de defesa é liberar substâncias que desencadeiam uma resposta inflamatória.
A inflamação é uma reação natural e necessária para combater infecções e reparar tecidos lesionados. Vermelhidão, calor, inchaço e dor são consequências do aumento do fluxo sanguíneo e da atividade das células de defesa na região afetada.
No caso das infecções, grande parte desses sinais decorre da resposta do próprio sistema imunológico, embora os microrganismos e algumas das substâncias por eles produzidas também possam provocar lesão direta dos tecidos. A vermelhidão, a dor, o calor e a presença de pus em uma ferida infectada são manifestações dessa interação entre o sistema imunológico e os germes invasores.
As infecções geralmente começam em uma região específica do organismo. Entre os focos que mais frequentemente podem dar origem à sepse estão:
- Pneumonia: infecção do pulmão.
- Pielonefrite: infecção dos rins.
- Infecções abdominais, como peritonite, apendicite complicada ou infecção das vias biliares.
- Infecções da pele e dos tecidos subcutâneos, como erisipela ou celulite infecciosa.
- Meningite e outras infecções do sistema nervoso central.
O que é sepse pulmonar ou sepse de foco pulmonar?
As expressões sepse pulmonar e sepse de foco pulmonar indicam que a infecção que desencadeou a sepse começou nos pulmões, geralmente como uma pneumonia. A sepse continua sendo uma condição sistêmica, com disfunção de órgãos; o termo “pulmonar” apenas identifica o local de origem da infecção.
O mesmo raciocínio vale para expressões como sepse urinária, sepse abdominal ou sepse de foco cutâneo, que indicam onde se iniciou a infecção responsável pelo quadro.
Essas infecções podem permanecer localizadas e ser controladas pelo organismo ou pelo tratamento. Entretanto, em alguns pacientes, a resposta à infecção torna-se desregulada e começa a provocar alterações sistêmicas.
É importante entender que não é necessário que as bactérias invadam o sangue em grande quantidade para que surja sepse.
Pequenas bacteremias transitórias podem ocorrer até em situações cotidianas, como após determinados procedimentos odontológicos ou mesmo durante a escovação dos dentes, sem que isso provoque qualquer doença. Por outro lado, pacientes com pneumonia, pielonefrite ou outras infecções graves podem desenvolver sepse mesmo que as hemoculturas permaneçam negativas.
Na sepse, o principal problema é a resposta inadequada do organismo. Há disfunção do revestimento interno dos vasos sanguíneos, alteração da distribuição do fluxo sanguíneo, ativação da coagulação e prejuízo da microcirculação. Com isso, os órgãos podem deixar de receber ou utilizar adequadamente oxigênio e nutrientes.
Em termos mais técnicos, a sepse envolve alterações complexas do sistema imunológico, com produção e regulação anormal de mediadores como TNF-α, IL-6 e IL-1β, ativação do sistema complemento, lesão endotelial e formação de microtrombos. Ao mesmo tempo, algumas etapas da doença podem cursar com redução da capacidade de resposta do sistema imunológico.
A gravidade depende tanto das características da infecção quanto das condições do paciente. Uma pessoa previamente saudável pode conseguir controlar uma infecção que, em um paciente idoso, imunossuprimido ou portador de várias doenças crônicas, pode desencadear uma resposta muito mais grave.
Diagnóstico da sepse
O diagnóstico de sepse não é feito por um único sintoma ou exame de sangue. Ele depende da combinação de uma infecção suspeita ou confirmada com sinais de que essa infecção está provocando uma nova disfunção em um ou mais órgãos.
Em adultos, a definição atualmente utilizada é a do Sepsis-3, publicada em 2016. Segundo esse consenso, sepse é uma disfunção orgânica potencialmente fatal causada por uma resposta desregulada do organismo a uma infecção.
Na prática, o médico precisa responder a duas perguntas principais:
- Existe uma infecção suspeita ou confirmada?
- Essa infecção está provocando uma nova disfunção de órgãos?
Para avaliar a segunda pergunta, o Sepsis-3 utiliza o escore SOFA.
Os critérios descritos a seguir referem-se aos adultos. Crianças e recém-nascidos têm critérios próprios. Em crianças e adolescentes, os critérios internacionais atuais utilizam o Phoenix Sepsis Score para avaliar a disfunção orgânica associada à infecção.
Critérios do Sepsis-3
Para a definição de sepse em adultos, dois elementos são fundamentais:
1. Infecção suspeita ou confirmada
A sepse sempre ocorre no contexto de uma infecção. Ela pode ser bacteriana, viral, fúngica ou causada por outros agentes infecciosos.
Não é necessário identificar imediatamente o microrganismo responsável. Em muitos casos, o diagnóstico de infecção é inicialmente clínico, e o tratamento precisa ser iniciado antes que os resultados das culturas estejam disponíveis.
2. Disfunção orgânica provocada pela infecção
O Sepsis-3 utiliza o SOFA (Sequential Organ Failure Assessment) para quantificar o grau de disfunção dos órgãos.
No contexto de uma infecção suspeita ou confirmada, um aumento agudo de pelo menos 2 pontos no SOFA em relação ao valor basal é o critério operacional utilizado pelo Sepsis-3 para caracterizar a disfunção orgânica compatível com sepse.
Isso não significa que o diagnóstico seja feito automaticamente pela soma de pontos. O médico também precisa avaliar se a alteração dos órgãos pode realmente ser atribuída à infecção.
Por exemplo, um paciente pode apresentar creatinina elevada porque já possui doença renal crônica. Nesse caso, o valor elevado não significa necessariamente que a infecção tenha provocado uma nova disfunção renal. O que importa é a piora em relação ao estado habitual do paciente.
Quando não existe disfunção orgânica prévia conhecida, costuma-se considerar um SOFA basal igual a zero.
SOFA
O SOFA avalia seis sistemas do organismo:
- Sistema respiratório.
- Coagulação.
- Fígado.
- Sistema cardiovascular.
- Sistema nervoso central.
- Rins.
Cada sistema recebe de 0 a 4 pontos, conforme o grau de comprometimento. A pontuação total pode variar de 0 a 24.
Quanto maior o SOFA, maior é a disfunção orgânica. Além do valor inicial, a evolução da pontuação também é importante: um SOFA que aumenta ao longo das horas ou dias indica piora do funcionamento dos órgãos.
1. Sistema respiratório
O comprometimento respiratório é avaliado pela relação entre a pressão arterial de oxigênio (PaO₂) e a fração de oxigênio inspirado (FiO₂), chamada relação PaO₂/FiO₂.
Quanto menor for essa relação, pior está a capacidade dos pulmões de oxigenar o sangue.
- ≥ 400: 0 pontos.
- 300 a 399: 1 ponto.
- 200 a 299: 2 pontos.
- 100 a 199 com suporte respiratório: 3 pontos.
- < 100 com suporte respiratório: 4 pontos.
Uma relação PaO₂/FiO₂ baixa indica comprometimento da oxigenação, mas não significa, isoladamente, que o paciente obrigatoriamente precise de ventilação mecânica.
2. Coagulação
A coagulação é avaliada pela quantidade de plaquetas no sangue:
- ≥ 150.000/mm³: 0 pontos.
- 100.000 a 149.000/mm³: 1 ponto.
- 50.000 a 99.000/mm³: 2 pontos.
- 20.000 a 49.000/mm³: 3 pontos.
- < 20.000/mm³: 4 pontos.
A queda das plaquetas pode ser um sinal de ativação anormal da coagulação e de maior gravidade da sepse.
3. Função hepática
O funcionamento do fígado é avaliado pela concentração de bilirrubina no sangue:
- < 1,2 mg/dL: 0 pontos.
- 1,2 a 1,9 mg/dL: 1 ponto.
- 2,0 a 5,9 mg/dL: 2 pontos.
- 6,0 a 11,9 mg/dL: 3 pontos.
- ≥ 12,0 mg/dL: 4 pontos.
4. Sistema cardiovascular
O sistema cardiovascular é avaliado pela pressão arterial e pela necessidade de medicamentos vasopressores para mantê-la adequada:
- Pressão arterial média (PAM) ≥ 70 mmHg: 0 pontos.
- PAM < 70 mmHg: 1 ponto.
- Dopamina ≤ 5 µg/kg/min ou dobutamina em qualquer dose: 2 pontos.
- Dopamina > 5 até 15 µg/kg/min ou noradrenalina/adrenalina ≤ 0,1 µg/kg/min: 3 pontos..
- Dopamina > 15 µg/kg/min ou noradrenalina/adrenalina > 0,1 µg/kg/min: 4 pontos.
5. Sistema nervoso central
O estado neurológico é avaliado pela Escala de Coma de Glasgow:
- Glasgow 15: 0 pontos.
- Glasgow 13 a 14: 1 ponto.
- Glasgow 10 a 12: 2 pontos.
- Glasgow 6 a 9: 3 pontos.
- Glasgow < 6: 4 pontos.
Alterações como confusão mental, sonolência ou redução do nível de consciência podem refletir comprometimento do sistema nervoso pela sepse.
6. Função renal
A função dos rins é avaliada pela creatinina sérica ou pela quantidade de urina produzida:
- Creatinina < 1,2 mg/dL: 0 pontos.
- Creatinina 1,2 a 1,9 mg/dL: 1 ponto.
- Creatinina 2,0 a 3,4 mg/dL: 2 pontos.
- Creatinina 3,5 a 4,9 mg/dL ou débito urinário < 500 mL/dia: 3 pontos.
- Creatinina ≥ 5,0 mg/dL ou débito urinário < 200 mL/dia: 4 pontos.
Outros exames usados na investigação
O SOFA ajuda a determinar se existe disfunção dos órgãos, mas ele não responde a todas as perguntas necessárias no atendimento de um paciente com suspeita de sepse.
Também é preciso descobrir:
- Onde está a infecção.
- Qual microrganismo pode estar causando o quadro.
- Qual é a gravidade da doença.
- Quais órgãos estão comprometidos.
- Se existe algum foco que precise de drenagem ou cirurgia.
É para essas finalidades que são utilizados exames como hemograma, função renal e hepática, eletrólitos, exames de coagulação, culturas e exames de imagem.
As hemoculturas procuram identificar bactérias ou fungos circulando na corrente sanguínea. Elas devem ser colhidas o mais precocemente possível, preferencialmente antes do início dos antimicrobianos, desde que isso não provoque atraso relevante no tratamento.
Uma hemocultura negativa não exclui sepse, pois muitos pacientes com sepse não apresentam microrganismos detectáveis no sangue.
Dependendo do foco suspeito, também podem ser solicitadas culturas de urina, secreções respiratórias, líquor, secreções de feridas ou outros materiais.
Exames de imagem, como radiografia, ultrassonografia e tomografia computadorizada, podem ajudar a localizar infecções como pneumonia, abscessos, obstruções das vias urinárias ou biliares e infecções intra-abdominais.
Portanto, culturas e exames de imagem são fundamentais para investigar a causa da sepse, mas não são, isoladamente, critérios para o diagnóstico.
Nota: em 2025 foi publicada uma versão atualizada do escore, chamada SOFA-2. Entretanto, os critérios do Sepsis-3 descritos acima continuam baseados no SOFA original, de modo que é essa versão que apresentamos nesta seção.
Qual é o papel do lactato?
O lactato sanguíneo é frequentemente medido em pacientes com suspeita de sepse porque sua elevação pode estar associada a maior gravidade e a alterações importantes da circulação e do metabolismo.
Ele ajuda a identificar pacientes de maior risco e também pode ser utilizado para acompanhar a resposta ao tratamento.
Porém, lactato elevado não significa automaticamente sepse. Diversas outras condições podem aumentar seus níveis, e um lactato normal também não é suficiente para excluir a doença.
O lactato não faz parte do critério utilizado para diagnosticar sepse pelo Sepsis-3. Ele, porém, participa da definição de choque séptico, como veremos adiante.
E o qSOFA?
O qSOFA (quick SOFA) costuma causar confusão por causa da semelhança do nome com o SOFA, mas os dois têm funções diferentes.
Enquanto o SOFA é utilizado para quantificar a disfunção dos órgãos, o qSOFA é uma avaliação rápida destinada principalmente a identificar pacientes com infecção que apresentam maior risco de evolução desfavorável.
Ele utiliza apenas três dados clínicos:
- Frequência respiratória ≥ 22 respirações por minuto.
- Alteração do estado mental.
- Pressão arterial sistólica ≤ 100 mmHg.
Cada item vale 1 ponto.
A presença de dois ou mais desses achados aumenta a preocupação com possível deterioração clínica e indica a necessidade de uma avaliação mais completa.
Entretanto, o qSOFA não faz parte do critério diagnóstico de sepse. Um paciente pode ter sepse mesmo apresentando qSOFA de 0 ou 1.
Por sua sensibilidade limitada, as diretrizes atuais não recomendam que o qSOFA seja utilizado isoladamente como principal ferramenta hospitalar de rastreamento da sepse. Quando se utiliza um único escore para triagem, outros sistemas de alerta precoce são preferidos ao qSOFA.
Portanto, a diferença pode ser resumida da seguinte forma:
- SOFA: mede a disfunção dos órgãos e participa do critério operacional do Sepsis-3 para o diagnóstico de sepse.
- qSOFA: é uma ferramenta rápida de alerta para identificar pacientes potencialmente mais graves, mas não confirma nem exclui sepse.
Em resumo, no diagnóstico de sepse, o raciocínio principal é: existe uma infecção e ela está provocando uma nova disfunção de órgãos? O SOFA ajuda a medir essa disfunção. As culturas ajudam a identificar o microrganismo, os exames de imagem ajudam a localizar o foco, o lactato auxilia na avaliação da gravidade e o qSOFA funciona apenas como um sinal de alerta rápido.
O que é choque séptico?
O choque séptico é uma forma particularmente grave de sepse, na qual as alterações circulatórias, celulares e metabólicas são intensas e estão associadas a risco muito elevado de morte.
Nos adultos, o choque séptico é identificado quando, apesar de reposição adequada de líquidos, o paciente necessita de medicamentos vasopressores para manter a pressão arterial média em pelo menos 65 mmHg e apresenta lactato sanguíneo acima de 2 mmol/L.
O lactato elevado não deve ser entendido simplesmente como uma medida direta da “falta de oxigênio nos tecidos”. Na sepse, sua elevação pode resultar de uma combinação de alterações da perfusão, resposta ao estresse, produção aumentada e redução da depuração.
O choque séptico exige tratamento imediato, com controle da infecção, correção das alterações circulatórias e suporte dos órgãos comprometidos.
Fatores de risco e prognóstico
Qualquer pessoa com uma infecção pode desenvolver sepse, mas algumas condições aumentam o risco:
- Idade avançada.
- Recém-nascidos e crianças muito pequenas.
- Diabetes mellitus.
- Doença renal crônica.
- Cirrose hepática.
- Insuficiência cardíaca.
- Doenças pulmonares crônicas.
- Câncer.
- Imunossupressão causada por doenças ou medicamentos.
- Transplante de órgãos.
- Desnutrição.
- Obesidade.
- Hospitalização recente ou prolongada.
- Uso de cateteres, sondas e outros dispositivos invasivos.
- Cirurgias recentes.
O prognóstico depende de vários fatores, como idade, doenças prévias, origem da infecção, número de órgãos comprometidos, presença de choque e rapidez com que o tratamento é iniciado.
Quanto maior for a disfunção dos órgãos e mais prolongada a instabilidade circulatória, maior será o risco de complicações e morte.
Em quanto tempo a sepse pode matar?
Não existe um número fixo de horas ou dias para uma pessoa com sepse evoluir para óbito. A velocidade de progressão depende da origem e da gravidade da infecção, dos órgãos comprometidos, das condições de saúde do paciente e da rapidez com que o tratamento é iniciado.
Em quadros graves, a deterioração clínica pode ocorrer em poucas horas, com evolução para choque séptico e falência de múltiplos órgãos. Por esse motivo, diante de sinais sugestivos de sepse, não se deve aguardar para observar a evolução em casa.
A sepse é contagiosa?
Não. A sepse em si não é contagiosa. Ela é uma resposta do organismo a uma infecção. O que eventualmente pode ser transmitido para outras pessoas é a infecção que deu origem ao quadro.
Por exemplo, algumas pneumonias, meningites e infecções virais podem ser contagiosas. Outras causas frequentes de sepse, como pielonefrite, infecção das vias biliares ou abscessos internos, normalmente não são transmitidas de pessoa para pessoa.
Portanto, as medidas de isolamento ou prevenção dependem do microrganismo responsável pela infecção, e não do fato de o paciente ter desenvolvido sepse.
Tratamento da sepse e do choque séptico
A sepse e o choque séptico são emergências médicas. O tratamento deve começar rapidamente, ao mesmo tempo em que a equipe procura identificar a origem da infecção e avalia quais órgãos estão comprometidos.
As principais medidas são:
1. Antimicrobianos
Quando há choque séptico ou quando a sepse é considerada provável ou definida, os antimicrobianos devem ser administrados imediatamente, idealmente dentro da primeira hora após o reconhecimento do quadro.
Quando existe apenas a possibilidade de sepse e o paciente não apresenta choque, pode ser realizada uma investigação rápida para diferenciar infecção de outras causas. Se a suspeita persistir, as diretrizes recomendam que o tratamento antimicrobiano seja iniciado dentro de três horas.
Na maioria das sepses bacterianas, inicia-se tratamento empírico com antibióticos capazes de cobrir os microrganismos mais prováveis, levando em conta o local da infecção, as doenças do paciente, hospitalizações recentes e os padrões locais de resistência bacteriana.
Se possível, as culturas são colhidas antes da primeira dose, desde que isso não provoque atraso relevante no início do tratamento.
Quando o agente infeccioso e sua sensibilidade aos medicamentos são conhecidos, o esquema deve ser ajustado e, sempre que possível, ter seu espectro reduzido.
2. Reposição de líquidos
Pacientes com sinais de hipoperfusão provocada pela sepse ou com choque séptico recebem líquidos pela veia para melhorar a circulação e a chegada de sangue aos órgãos.
Os cristaloides são a primeira opção para a reposição volêmica. As diretrizes atuais sugerem preferir soluções cristaloides balanceadas, como o Ringer lactato, ao soro fisiológico 0,9%, sempre que não houver uma razão específica para utilizar outra solução.
Apesar do nome, o Ringer lactato pode ser utilizado mesmo quando o lactato sanguíneo está elevado. O lactato presente na solução é metabolizado pelo organismo e não causa a acidose láctica observada nos pacientes graves.
Nos adultos com hipoperfusão causada pela sepse ou choque séptico, a diretriz de 2026 sugere uma reposição inicial de pelo menos 30 mL/kg de cristaloide nas primeiras três horas. Esse volume, porém, não deve ser interpretado como uma quantidade obrigatória e fixa para todos os pacientes.
A resposta ao tratamento precisa ser reavaliada frequentemente para decidir se o paciente necessita de mais líquidos ou de outras medidas, como vasopressores. Essa reavaliação é especialmente importante em pacientes com insuficiência cardíaca, doença renal ou outras condições que aumentem o risco de congestão e acúmulo excessivo de líquidos.
Após a reposição inicial, a decisão de administrar mais volume deve ser individualizada de acordo com a resposta circulatória do paciente.
3. Vasopressores
Quando a pressão arterial continua baixa apesar da reposição inicial de líquidos, são utilizados medicamentos vasopressores.
A noradrenalina é o medicamento de primeira escolha no choque séptico. O alvo inicial habitual é manter a pressão arterial média em torno de 65 mmHg.
Se forem necessárias doses progressivamente maiores de noradrenalina, pode-se associar vasopressina. Se a pressão permanecer inadequada apesar dessas medidas, a adrenalina pode ser acrescentada.
Nos casos de choque muito instável, o vasopressor pode precisar ser iniciado ao mesmo tempo que a reposição de líquidos. Também não é necessário atrasar seu início aguardando a obtenção de um acesso venoso central; em determinadas situações, ele pode ser administrado inicialmente por acesso venoso periférico sob monitorização adequada.
4. Controle do foco da infecção
Antibióticos isoladamente nem sempre são suficientes para controlar a infecção.
Alguns pacientes precisam de procedimentos para eliminar a origem da sepse, como:
- Drenagem de um abscesso.
- Retirada de um cateter infectado.
- Desobstrução das vias urinárias ou biliares.
- Cirurgia de uma perfuração intestinal.
- Remoção de tecidos necrosados ou infectados.
Quando existe um foco que exige intervenção, o controle deve ser realizado o mais rapidamente possível. As diretrizes atuais sugerem que, quando indicado, seja feito preferencialmente nas primeiras horas, idealmente em até cerca de seis horas após o diagnóstico.
5. Suporte dos órgãos
Dependendo da gravidade, podem ser necessárias medidas como:
- Oxigênio ou ventilação mecânica em caso de insuficiência respiratória.
- Hemodiálise quando há insuficiência renal com indicação de terapia renal substitutiva.
- Transfusão de sangue em situações específicas.
- Tratamento das alterações da coagulação.
- Controle de distúrbios metabólicos e eletrolíticos.
Nem todo paciente com sepse precisa ser internado em uma UTI. Entretanto, pacientes com choque séptico ou disfunção orgânica que exija monitorização e suporte intensivos devem ser encaminhados para terapia intensiva. Quando há indicação de UTI, a recomendação atual é que a admissão ocorra rapidamente, idealmente em até seis horas.
6. Corticosteroides e outras medidas
Nos adultos com choque séptico, as diretrizes atuais sugerem o uso de corticosteroides intravenosos. A hidrocortisona é o medicamento mais utilizado, geralmente na dose total de 200 mg por dia, administrada em doses divididas ou por infusão contínua. O momento ideal para início varia conforme a evolução do choque e a necessidade de vasopressores.
Outras medidas frequentemente utilizadas incluem:
- Controle da glicemia: insulina é indicada quando a glicemia atinge ou ultrapassa 180 mg/dL, evitando-se controle excessivamente rigoroso que aumente o risco de hipoglicemia.
- Prevenção de tromboembolismo venoso: geralmente com heparina de baixo peso molecular, salvo contraindicações.
- Nutrição: quando possível, prefere-se iniciar a alimentação enteral precocemente, habitualmente nas primeiras 72 horas.
- Reavaliações frequentes: pressão arterial, lactato, débito urinário, oxigenação e outros indicadores são acompanhados para verificar a resposta ao tratamento.
Sepse tem cura? Pode deixar sequelas?
Sim. Muitos pacientes se recuperam da sepse, principalmente quando a infecção é reconhecida e tratada precocemente.
A recuperação, porém, varia bastante. Pacientes que tiveram choque séptico, falência de vários órgãos ou permaneceram muito tempo internados em UTI podem precisar de semanas ou meses para retornar às suas condições anteriores.
Após a alta, algumas pessoas apresentam:
- Fraqueza muscular.
- Cansaço persistente.
- Perda de capacidade física.
- Falta de apetite e perda de peso.
- Alterações do sono.
- Dificuldade de memória ou concentração.
- Ansiedade, depressão ou outros problemas emocionais.
Esse conjunto de alterações é por vezes chamado de síndrome pós-sepse e pode estar relacionado tanto à própria doença quanto ao período prolongado de hospitalização e terapia intensiva.
Nem todos os pacientes ficam com sequelas permanentes. Muitas dessas alterações melhoram progressivamente com o tempo, mas alguns pacientes necessitam de fisioterapia, reabilitação, acompanhamento nutricional ou avaliação de problemas cognitivos e emocionais.
As diretrizes atuais recomendam que os sobreviventes de sepse sejam avaliados após a alta quanto a problemas físicos, cognitivos e emocionais que possam ter surgido durante ou após a internação.
Qual é o CID da sepse?
Na CID-10, a sepse não possui um único código. As categorias A40 e A41 incluem diferentes formas de sepse de acordo com o microrganismo causador. Quando o agente não está especificado, o código A41.9 corresponde à sepse ou septicemia não especificada.
- Prescott HC, Antonelli M, Alhazzani W, et al. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock 2026. Critical Care Medicine. 2026.
- Singer M, Deutschman CS, Seymour CW, et al. The Third International Consensus Definitions for Sepsis and Septic Shock (Sepsis-3). JAMA. 2016;315:801-810.
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É possível ter sepse sem sintoma algum? Suspeita de pneumonia sem febre, sem dor, apenas tosse com secreção verde e no inicio dor de garganta (que já passou). Idade: 18.
Minha santa irmã, minha defensora, minha VIDA, veio a falecer em 25/05/2015 no HOSPITAL PASTEUR no MEIER – RJ, com apenas 26 anos !!!! Ela já tinha colangite esclerosante e retocolite ulcerativa e contraiu uma pneumonia no inicio desse ano. Começou a tratar da pneumonia no HCSG, recebeu alta em apenas uma semana, e teve que voltar a ser internada novamente num estado mais avançado. Concluindo: chegou em choque séptico, mas o estado em que ela ficou, foi deplorável, e triste demais. É um tipo de cena, que nunca esquecerei, uma jovem que teve que fica entubada, em seguida traqueostomia, não falava mais, so me olhava tipo pedindo ajuda…. Que dor meu Deus !
Doutor meu tio esta na uti e esta entubado com uma bacteria no pulmao mas ja esta com uma sonda alimentar mas antis disso ele estava tussindo muito e com sanque tem possibilidade doutor dele voltar para casa