Doar sangue

Em todos os hospitais do mundo, diariamente, são realizadas transfusões sanguíneas. Não existe sangue artificial, nem outra substância que possa substituí-lo; portanto, para que haja transfusão, é preciso que haja doação.

A doação de sangue é um ato voluntário de generosidade ainda pouco difundido na população. Estima-se que apenas 1 a cada 30 pessoas seja doadora, uma proporção muito pequena, ainda mais quando se sabe que 1 a cada 3 indivíduos, eventualmente, necessitará de uma transfusão de algum componente do sangue ao longo de sua vida.

DOAÇÃO DE SANGUE

O ato de doar sangue deve ser sempre voluntário, porém, nem todos os candidatos estão aptos para serem doadores, o que só aumenta a necessidade de um volume maior de candidatos.

Os requisitos básicos para doar sangue são:

– Estar bem de saúde.
– Ter mais de 18 e menos de 60 anos (acima de 60 e entre 16 e 18 anos há critérios especiais).
– Pesar mais que 50 kg.
– Homens não podem doar sangue 2 vezes em um espaço menor que 60 dias, respeitando o limite máximo de 4 doações por ano.
– Mulheres não podem doar sangue 2 vezes em um espaço menor que 90 dias, respeitando o limite máximo de 3 doações por ano.
– Mulheres não podem estar grávidas, nem amamentando.
– Mulheres não podem ter tido um aborto ou parto há menos de 3 meses.

Se você se enquadra nestes requisitos, já pode se candidatar (ou recandidatar) à doação. Para que o procedimento não traga riscos nem ao doador, nem ao receptor do sangue, algumas outras condições devem ser respeitadas.

Não podem doar sangue

– Diabéticos insulinodependentes (leia: DIABETES MELLITUS | DIAGNÓSTICO E SINTOMAS).
– Pessoas que têm ou tiveram sífilis (leia: SÍFILIS | SINTOMAS E TRATAMENTO).
– Pessoas que têm ou tiveram hepatite viral após os 10 anos de idade (leia: AS DIFERENÇAS ENTRE AS HEPATITES).
– Pessoas com câncer (leia: CÂNCER (CANCRO) | SINTOMAS E DEFINIÇÕES).
– Portadores do vírus HIV (leia: SINTOMAS DO HIV E AIDS (SIDA)).
– Pessoas com doença pulmonar, como DPOC (leia: DPOC | ENFISEMA E BRONQUITE CRÔNICA).
– Pessoas com insuficiência renal crônica (leia: INSUFICIÊNCIA RENAL CRÔNICA | SINTOMAS).
– Pessoas com passado de tuberculose extrapulmonar (ler: TUBERCULOSE | SINTOMAS E TRATAMENTO).
– Pessoas com antecedentes de AVC (leia: AVC | ACIDENTE VASCULAR CEREBRAL | DERRAME CEREBRAL).
– Portadores do vírus HTLV I ou HTLV II.
– Pessoas que tiveram malária ou que tenham morado em região endêmica nos últimos 6 meses.
– Pessoas com doença de Chagas ou que tenham contato com o inseto barbeiro (leia: DOENÇA DE CHAGAS).
– Portadores de doenças autoimunes (leia: DOENÇA AUTOIMUNE).
– Pessoas que sofrem de epilepsia (leia: EPILEPSIA | CRISE CONVULSIVA).
– Pessoas com doenças psiquiátricas que gerem inimputabilidade jurídica.
– Pessoas com comportamento de risco tais como não usar preservativos em relações sexuais, ter tido mais de dois parceiros sexuais nos últimos 3 meses ou ser usuário de drogas injetáveis.

ATENÇÃO: homossexualidade não é impedimento para doar sangue. Não há motivos científicos para impedir a doação sangue baseado na orientação sexual do indivíduo. Isso é lei:

PORTARIA Nº 1.353, DE 13 DE JUNHO DE 2011 – § 5º A orientação sexual (heterossexualidade, bissexualidade, homossexualidade) não deve ser usada como critério para seleção de doadores de sangue, por não constituir risco em si própria. (http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2011/prt1353_13_06_2011.html).

Impedimentos temporários para doação de sangue

Algumas situações impedem a doação apenas temporariamente. Neste caso, o candidato pode será orientado a retornar ao banco de sangue quando já não mais tiver nenhum tipo de impedimento. Abaixo, listo as principais situações que podem impedir a doação de sangue apenas de modo temporário.

– Estar em jejum. O doador deve se alimentar tendo apenas o cuidado para não ingerir comidas muito gordurosas dentro das 4 horas que antecedem a doação.
– Hipertensão não controlada. Para poder doar sangue é preciso que no momento da coleta a pressão arterial esteja abaixo de 180 x 100 mmHg (leia: HIPERTENSÃO (PRESSÃO ALTA) | SINTOMAS E TRATAMENTO)
– Diabetes tipo 2 descontrolado.
– Ter sido tatuado ou colocado piercing há menos de 1 ano (leia: BODY PIERCING | PERIGOS E COMPLICAÇÕES).
– Nova tatuagem há menos de 1 ano.
– Ter realizado sessão de acupuntura sem material descartável há pelo menos 1 ano.
– Atraso menstrual em mulheres em idade fértil (leia: 15 CAUSAS PARA MENSTRUAÇÃO ATRASADA).
– Diarreia na última semana (leia: TRATAMENTO CASEIRO DA DIARREIA).
– Resfriado: somente após estar 1 semana sem sintomas.
– Tuberculose pulmonar nos últimos 5 anos.
– Dengue no último mês (leia: DENGUE | MOSQUITO DA DENGUE | Sintomas e tratamento)
– Ter ingerido bebida alcoólica até 24 horas antes da doação.
– Não ter dormido por pelo menos 6 horas na noite anterior a doação.
– Ter recebido transfusão de sangue há menos de 1 ano.
– Pessoas com doença febril não devem se candidatar a doação de sangue até estarem clinicamente curadas (leia: O QUE SIGNIFICA E POR QUE TEMOS FEBRE ?)
– 90 dias após parto normal e 180 dias após parto cesariano.

Vacinação e doação de sangue

Uma das dúvidas mais frequentes é em relação a vacinações antes da doação. Algumas vacinas, principalmente aquelas com vírus ou bactérias vivas não podem ser tomadas logo antes da doação, uma vez que o paciente a receber o sangue pode ser um imunossuprimido, que ficaria exposto a estes germes.

Em geral, as recomendações quanto às vacinas são as seguintes:

a) Vacinas com vírus ou bactérias vivos atenuados

– Pólio Oral (Sabin), Febre Tifoide Oral, Sarampo, Caxumba (Parotidite), Febre amarela, BCG = Intervalo mínimo de 3 semanas para doação de sangue
– Rubéola, Varicela (Catapora), Varíola = Intervalo mínimo de 4 semanas para doação de sangue

b) Vacinas com vírus ou bactérias mortas ou com toxoides

– Cólera, Pólio (Salk), Difteria, Tétano, Coqueluche, Meningite, Hepatite A, Pneumococo, Febre Tifoide (Injetável), Leptospirose, Brucelose, Peste = Intervalo mínimo de 48 horas para doação de sangue.
– Haemophilus influenzae, Hepatite B recombinante, Influenza (gripe) = Intervalo mínimo de 4 semanas para doação de sangue.
– Vacinação contra raiva humana após exposição a animal suspeito = Intervalo mínimo de 1 ano para doação de sangue (leia: RAIVA HUMANA | Transmissão, sintomas e vacina).

Leia Também:
VACINAS – Calendário de vacinação, efeitos colaterais.

Cirurgias e tempo de intervalo para doação de sangue

– Extração dentária = 72 horas
– Cirurgias de pequeno porte como para apendicite (leia: APENDICITE | Sintomas e causas), correções de hérnias, retirada das amígdalas (leia: DOR DE GARGANTA | FARINGITE | AMIGDALITE), cirurgia de varizes, etc. = 3 meses
– Cirurgias de médio e grande porte como colecistectomia (retirada da vesícula), nefrectomia (retirada de um rim), histerectomia (retirada do útero), nódulo de mama, ressecção de aneurismas, politraumatismos, etc. = 6 meses a 1 ano
– Cirurgia cardíaca, pneumectomia (retirada de um pulmão), gastrectomia (retirada do estômago), esplenectomia (retirada do baço) = inaptidão definitiva.

Esses intervalos podem mudar de acordo com a avaliação feita pelo banco de sangue.

Remédios que contraindicam a doação de sangue

Na maioria dos casos, estar tomando remédios não contraindica a doação, uma vez que concentração da droga por unidade de sangue costuma ser baixa. Muitas vezes o que contraindica a doação é a doença que está sendo tratada e não o próprio medicamento. Por exemplo, pessoas tomando antibióticos não devem doar sangue por causa da infecção que está ativa e não somente pelo fato de haver antibiótico circulante no sangue.

Existem, porém, algumas poucas drogas que são contraindicadas para doação de sangue por causarem má formações em fetos mesmo quando em concentrações muito pequenas no sangue, o que é preocupante para grávidas que possam vir a precisar de transfusão sanguínea.

  •  Isotrentinoína (Roacutan®) usada para o tratamento da acne (leia: ACNE | CRAVOS | ESPINHAS | Causas e tratamento) e a Finasterida usada para hiperplasia benigna de próstata (leia: CÂNCER DE PRÓSTATA | HIPERPLASIA BENIGNA DA PRÓSTATA) e calvície (leia: CALVÍCIE | QUEDA DE CABELO | Causas e tratamento) não podem ter sido administradas nos últimos 30 dias antes da doação.
  • Dutasterida, também usada para hiperplasia benigna de próstata não pode ter sido tomada nos últimos 6 meses
  • A Acitretina usada na psoríase não pode ter sido tomada nos últimos 3 anos. Alguns bancos de sangue consideram o uso da Acitretina como contraindicação definitiva, independente do tempo de suspensão.
  • O Etretinato, também usado na psoríase, contraindica a doação para o resto da vida, já que ainda é possível detectá-lo no sangue mesmo vários anos após o fim do tratamento.

Pacientes em uso de coagulantes como Varfarina e Heparina também não devem doar sangue. Pacientes que usaram aspirina ou anti-inflamatórios nos últimos 5 dias ou clopidogrel e/ou ticlopidina nas últimas 2 semanas, também não estão aptos a doar.

Como é feita a doação de sangue

O candidato é primeiramente questionado sobre sua atual condição de saúde e seu histórico clínico à procura de dados que possam contraindicar a doação de sangue, seja temporariamente ou de modo permanente. É também realizada uma rápida avaliação dos sinais vitais e uma gota de sangue é retirada do dedo para determinação do grupo sanguíneo e para saber se o paciente está com anemia. (leia: ANEMIA |CAUSAS E SINTOMAS).

Durante a doação são retirados cerca de 450 ml de sangue, o volume de uma bolsa de sangue. O procedimento todo, desde a entrevista à doação do sangue propriamente dita, dura menos de 1 hora.

O volume de sangue retirado é sempre o mesmo, pois as bolsas são padronizadas com uma quantidade exata de anticoagulante. Qualquer volume de sangue a mais ou a menos pode resultar em um sangue sem qualidade para a transfusão.

Doar sangue é seguro?

Todo o material usado para coleta do sangue é esterilizado e descartável, não havendo risco de contrair doenças.

Cerca de 7% a 8% do nosso peso equivale ao volume de sangue circulante. Ou seja, em uma pessoa de 50 quilos há algo em torno de 4 litros de sangue dentro dos vasos. Os 450ml de sangue doados seriam, portanto, aproximadamente 10% do volume de sangue circulante. Por isso, pessoas muito magras não devem ser doadoras, pois a quantidade necessária para preencher um bolsa ultrapassa o limite de segurança.

O corpo repõe:
– em 24 horas a quantidade de líquido doada;
– em 4 semanas a quantidade de hemácias (glóbulos vermelhos);
– os estoques de ferro somente em 60-90 dias, daí o intervalo mínimo obrigatório entre as doações.

Mantidos os cuidados acima, a doação de sangue é um procedimento praticamente inócuo. Eventualmente pode ocorrer uma equimose (mancha roxa) no braço, no local da punção, sem maiores consequências. Alguns indivíduos mais ansiosos podem desmaiar durante a picada, mas como esta é feita já com o candidato deitado, não ocorrem maiores problemas. (leia: DESMAIO, SÍNCOPE E REFLEXO VAGAL).

Nas pessoas mais magras, pode ocorrer um certo grau de cansaço nas primeiras 24h após a doação do sangue.

Que doenças serão testadas no meu sangue doado?

– HIV, hepatite B, hepatite C, doença de chagas, sífilis, HTLV I e II. Se qualquer uma dessas doenças for detectada, o sangue será desprezado e o doador contactado e informado sobre a necessidade de repetir as sorologias.

Orientações após a doação

– Assegure-se de ter uma boa hidratação nas 24h subsequentes a doação. Beba bastante líquido e evite bebidas alcoólicas.
– Alimente-se bem.
– Não fume na primeira hora após a doação.
– Não faça atividades desgastantes no primeiro dia.
– Se tiver sentindo tonturas, deite-se e coloque as pernas apoiadas para cima. Isto deverá ser suficiente.
– O curativo pode ser removido após 4 horas.

Observações finais

– Doar sangue não engorda nem emagrece.
– Doar sangue não vicia nem cria dependência.
– Doar sangue não afina nem engrossa o sangue.
– Mulheres podem doar sangue durante o período menstrual.
– Não se pega doenças doando sangue.

DOE SANGUE! Não custa nada, é rápido e você poderá salvar várias vidas.

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Médico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (U.F.R.J) em 2002. Especialista em Medicina Interna e Nefrologia. Títulos reconhecidos pela Faculdade do Porto, Ordem dos Médicos de Portugal e Colégio de Nefrologia Português.