Principais informações sobre a raiva humana
A raiva é uma infecção viral que provoca encefalite, inflamação grave do tecido cerebral, e é quase sempre fatal depois que os sintomas neurológicos se iniciam. A doença, porém, pode ser prevenida quando a profilaxia é realizada antes do aparecimento dos sintomas.
Após mordida, arranhão ou contato da saliva de um mamífero com os olhos, a boca ou a pele ferida, lave imediatamente a área com água corrente e sabão por pelo menos 15 minutos e procure uma unidade de saúde.
A profilaxia pode incluir a vacina antirrábica e, nas exposições consideradas graves, o soro ou a imunoglobulina antirrábica. A indicação depende do animal envolvido, do tipo e do local da lesão, da possibilidade de observar o animal e do histórico de vacinação da pessoa.
Cães e gatos saudáveis e disponíveis podem, em determinadas situações, ser observados por dez dias. Se o animal adoecer, morrer ou desaparecer durante esse período, o serviço de saúde deve ser imediatamente informado.
O contato direto com morcegos exige avaliação médica urgente, mesmo quando não existe mordida ou arranhão visível. As lesões provocadas por esses animais podem ser muito pequenas e passar despercebidas.
Não espere pelo aparecimento de sintomas. Quando os sinais neurológicos da raiva começam, a doença já não dispõe de um tratamento comprovadamente eficaz.
O que é a raiva humana?
A raiva é uma zoonose, isto é, uma doença transmitida de animais para seres humanos, causada por vírus do gênero Lyssavirus, da família Rhabdoviridae. É uma das doenças infecciosas mais graves conhecidas, pois, depois que os sintomas neurológicos aparecem, a taxa de mortalidade é de praticamente 100%.
Apesar dessa elevada letalidade, a raiva pode ser prevenida. A primeira vacina contra a doença foi desenvolvida ainda no século XIX, e atualmente a vacinação, associada à imunoglobulina nos casos indicados, é altamente eficaz para impedir o desenvolvimento da infecção quando administrada antes do aparecimento dos sintomas.
Mesmo assim, a raiva ainda provoca aproximadamente 59 mil mortes por ano em todo o mundo, principalmente em regiões onde o acesso à profilaxia após a exposição é limitado.
A transmissão ao ser humano ocorre por mamíferos infectados, geralmente por meio da mordida, que inocula na pele o vírus presente na saliva. Arranhões e o contato da saliva com mucosas ou feridas abertas também podem transmitir a doença.
Após ser inoculado, o vírus pode se multiplicar inicialmente nos tecidos próximos à área exposta e, em seguida, alcançar as terminações nervosas periféricas. A partir daí, desloca-se pelos nervos em direção ao sistema nervoso central.
Ao chegar ao cérebro, o vírus provoca a encefalite rábica, responsável pelos sintomas neurológicos. Nessa fase, a doença é praticamente sempre fatal.
Transmissão
O vírus da raiva é transmitido principalmente pela saliva de mamíferos infectados, geralmente por meio de mordidas. Arranhões que rompem a pele, lambedura de feridas abertas e contato da saliva com os olhos, a boca ou outras mucosas também podem transmitir a doença.
Em escala mundial, os cães ainda são responsáveis pela grande maioria dos casos de raiva humana, principalmente na Ásia e na África. Nos países e regiões que implantaram programas eficazes de vacinação canina, porém, a transmissão por cães caiu acentuadamente. Nas Américas, os morcegos passaram a ter maior importância epidemiológica.
Vários mamíferos podem desenvolver e transmitir raiva, entre eles:
- Cães.
- Morcegos.
- Gatos.
- Furões.
- Raposas.
- Coiotes.
- Guaxinins.
- Gambás.
- Macacos e saguis.
Mamíferos não carnívoros, como porcos, vacas, cabras e cavalos, também podem transmitir a doença, embora esses casos sejam menos frequentes.
Pequenos roedores urbanos ou de criação, como ratos, camundongos, hamsters e porquinhos-da-índia, assim como os coelhos, são considerados animais de baixo risco e não são transmissores habituais da raiva humana.
Animais não mamíferos, como lagartos, peixes, tartarugas e pássaros, não transmitem raiva.
Como o vírus está presente na saliva, o antigo hábito de deixar cães lamberem feridas, além de favorecer infecções bacterianas, pode representar risco de transmissão caso o animal esteja infectado.
Por outro lado, tocar ou alimentar cães e gatos sem ser mordido ou arranhado não transmite raiva. O contato da saliva com a pele íntegra também não oferece risco na maioria das situações, e o contato com sangue, urina ou fezes do animal não é uma forma habitual de transmissão.
Também não há casos comprovados de transmissão da raiva por frutas manipuladas por morcegos.
Os morcegos são uma exceção importante. Qualquer contato direto com um morcego deve ser avaliado por um serviço de saúde, mesmo que a pessoa não identifique mordida, arranhão ou ferida visível, pois essas lesões podem ser muito pequenas e passar despercebidas.
Um morcego apenas voar perto da pessoa, sem tocá-la, não configura exposição (falamos mais sobre o morcego no final do artigo).
Raiva no Brasil
O perfil da raiva humana no Brasil mudou nas últimas décadas. A vacinação de cães reduziu de forma acentuada a transmissão urbana da doença, e os casos provocados pelas variantes caninas tradicionais tornaram-se raros. Atualmente, o principal risco está relacionado à circulação do vírus entre animais silvestres.
Entre 2010 e junho de 2026, foram registrados 54 casos de raiva humana no país. Os morcegos foram os transmissores mais frequentes, seguidos pelos primatas não humanos, principalmente saguis. Também ocorreram casos relacionados a cães, gatos, raposas, bovinos e cervídeos.
Portanto, embora a raiva humana seja atualmente rara no Brasil, a doença não foi eliminada. Mordidas, arranhões ou contato direto com morcegos, saguis, raposas e outros mamíferos silvestres devem sempre ser avaliados por um serviço de saúde.
Raiva em Portugal
Em Portugal, a raiva autóctone foi eliminada há várias décadas. Segundo a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, a doença foi oficialmente erradicada no país em 1961.
O último caso de raiva animal importado ocorreu em 1984, em um cachorro proveniente de Moçambique. Portugal mantém atualmente o estatuto de país livre da infecção pelo vírus clássico da raiva em animais domésticos e silvestres.
O último caso humano conhecido em Portugal ocorreu em 2011, em uma mulher que havia sido mordida por um cão durante uma viagem à Guiné-Bissau. A infecção foi, portanto, adquirida fora do país.
Esse estatuto não torna irrelevante o contato com morcegos. Outros vírus do gênero Lyssavirus, capazes de provocar uma doença semelhante à raiva clássica, podem ser encontrados em morcegos europeus. Por isso, mordidas, arranhões ou contato direto com morcegos em Portugal também devem ser avaliados por um serviço de saúde.
Transmissão da raiva por arranhões
Arranhões podem transmitir raiva quando rompem a pele e existe contato com saliva infectada.
Isso pode ocorrer porque o animal lambe as patas ou porque a saliva entra em contato com a área arranhada. O arranhão não precisa necessariamente provocar sangramento visível para ser considerado uma exposição.
Se o animal apenas encostar a unha na pele sem provocar qualquer lesão, não existe uma porta de entrada para o vírus.
Transmissão da raiva entre humanos
A raiva não é transmitida pelo contato cotidiano com uma pessoa infectada. Abraçar, tocar, conversar, permanecer no mesmo ambiente ou compartilhar objetos com o paciente não oferece risco de transmissão.
Embora o vírus possa estar presente na saliva de uma pessoa com raiva, a transmissão por beijo, mordida ou contato da saliva com mucosas ou feridas é considerada apenas teoricamente possível e não foi confirmada de forma adequada.
Os casos comprovados de transmissão entre seres humanos ocorreram por transplantes de órgãos ou tecidos provenientes de doadores infectados.
Profissionais de saúde ou cuidadores que tenham contato da saliva ou de tecido nervoso do paciente com os olhos, a boca ou uma ferida aberta devem comunicar o acidente para avaliação da necessidade de profilaxia.
A raiva também não costuma ser transmitida por objetos, roupas ou alimentos. O vírus é pouco resistente fora do organismo e perde rapidamente a capacidade de infectar quando a saliva seca ou é exposta à luz solar.
Sintomas da raiva humana
O período entre a exposição ao vírus e o aparecimento dos sintomas é chamado de período de incubação.
Na maioria dos casos, a incubação dura de um a três meses, mas pode variar de aproximadamente uma semana a mais de um ano. Esse intervalo depende de fatores como:
- Local da mordida ou do arranhão.
- Profundidade e extensão da lesão.
- Quantidade de vírus inoculada.
- Variante viral envolvida.
- Proximidade da lesão com o sistema nervoso central.
Lesões na cabeça e no pescoço são especialmente preocupantes pela proximidade do sistema nervoso central. Mordidas e arranhões nas mãos e nos pés também são classificados como exposições graves, entre outros motivos pela rica inervação dessas regiões.
A encefalite, inflamação do encéfalo, é o resultado da instalação e da multiplicação do vírus no sistema nervoso central. Os sintomas neurológicos da raiva incluem:
- Confusão mental.
- Desorientação.
- Agitação.
- Agressividade.
- Alucinações.
- Dificuldade para engolir.
- Espasmos musculares.
- Salivação excessiva.
- Fraqueza e paralisia.
- Convulsões.
Depois que os sintomas neurológicos começam, a doença é quase sempre fatal.
Em resumo, a evolução da raiva pode ser dividida em quatro fases:
1. Incubação
É o período entre a exposição e o aparecimento dos primeiros sintomas. Durante essa fase, a pessoa geralmente não apresenta qualquer alteração.
A duração mais comum é de um a três meses, mas existe grande variação entre os pacientes.
2. Pródromos
São os sintomas inespecíficos que surgem antes da encefalite. Em geral, essa fase dura de dois a dez dias e pode provocar:
- Dor de cabeça.
- Mal-estar.
- Febre baixa.
- Falta de apetite.
- Náuseas e vômitos.
- Dor de garganta.
- Ansiedade e irritabilidade.
Também podem surgir dor, ardência, dormência, formigamento ou coceira no local da mordida ou do arranhão, mesmo que a ferida já esteja cicatrizada.
3. Encefalite
A raiva pode apresentar-se de duas formas principais: furiosa ou paralítica.
Na raiva furiosa, o paciente pode desenvolver agitação, hiperatividade, confusão, alucinações e espasmos dolorosos da musculatura da garganta.
A hidrofobia é um dos sintomas mais característicos. Apesar de o nome significar “medo de água”, o paciente não apresenta propriamente uma fobia. A tentativa de engolir líquidos provoca espasmos dolorosos na garganta, fazendo com que ele evite beber.
Também pode ocorrer aerofobia, na qual correntes de ar ou o simples ato de soprar sobre o rosto desencadeiam espasmos.
Na raiva paralítica, que representa uma parcela menor dos casos, ocorre fraqueza muscular progressiva, geralmente começando perto do local da exposição. O quadro pode ser confundido inicialmente com outras doenças neurológicas, como a síndrome de Guillain-Barré.
4. Coma e óbito
Com a progressão da encefalite, o paciente pode desenvolver paralisia, coma, insuficiência respiratória e parada cardiorrespiratória.
A evolução costuma ser rápida, com óbito em poucos dias ou semanas após o início dos sintomas neurológicos.
Tratamento da raiva humana
Depois que o paciente desenvolve os sintomas da raiva, não existe tratamento comprovadamente capaz de curar a doença de forma confiável. A taxa de mortalidade é de praticamente 100%.
O chamado protocolo de Milwaukee, que incluía coma induzido e diferentes medicamentos antivirais, ficou conhecido após a sobrevivência de uma paciente em 2004. Entretanto, o tratamento falhou em dezenas de outros pacientes e não demonstrou eficácia reprodutível.
Pacientes com suspeita ou confirmação de raiva devem ser internados para suporte intensivo, controle dos sintomas e tratamento das complicações. Sobreviventes são extremamente raros, e muitos permanecem com sequelas neurológicas importantes.
Felizmente, embora a raiva seja quase sempre fatal após o início dos sintomas, existe prevenção eficaz. A vacina e o tratamento profilático com anticorpos são altamente eficientes em impedir o desenvolvimento da doença quando administrados em tempo oportuno.
Cuidados iniciais após possível exposição ao vírus
Em caso de mordida, arranhão ou contato de saliva de um mamífero com uma ferida ou mucosa, lave imediatamente a área com água corrente e sabão por pelo menos 15 minutos.
A lavagem ajuda a retirar saliva, sujeira, bactérias e parte das partículas virais presentes no local.
Após a limpeza, pode-se aplicar um antisséptico, como povidona-iodo ou clorexidina. Não aplique substâncias caseiras, produtos irritantes, pó de café, ervas, ácidos ou outros materiais sobre a ferida.
Se você procura informações sobre os cuidados necessários com feridas provocadas por mordidas de cães, acesse o seguinte link: Mordida de cachorro – Cuidados e Tratamento.
Depois desses primeiros cuidados, procure uma unidade de saúde no mesmo dia para que a equipe avalie a necessidade de vacinação e de aplicação do soro ou da imunoglobulina antirrábica.
A situação vacinal contra o tétano também deve ser verificada. O reforço costuma ser feito a cada dez anos, mas pode ser antecipado para cinco anos em feridas graves ou contaminadas. Algumas mordidas também precisam de tratamento com antibióticos.
Se o animal agressor for um cão ou gato, procure obter informações sobre sua vacinação, condições de saúde e possibilidade de observação. A caderneta de vacinação ajuda na avaliação, mas o fato de o animal estar vacinado não elimina, sozinho, a necessidade de analisar o caso.
Nos acidentes provocados por cães ou gatos saudáveis e que possam ser acompanhados, o animal pode ser mantido em observação durante dez dias.
A eliminação do vírus pela saliva de cães e gatos ocorre apenas nos últimos dias antes do aparecimento dos sintomas e durante a doença. Portanto, se o animal permanecer vivo, saudável e com comportamento normal durante os dez dias, considera-se que ele não estava transmitindo o vírus no momento da agressão.
Se o cão ou gato adoecer, morrer, desaparecer ou apresentar mudança importante de comportamento durante a observação, o serviço de saúde deve ser informado imediatamente.
Entre os possíveis sinais de raiva nos animais estão:
- Agressividade incomum.
- Apatia ou isolamento.
- Salivação excessiva.
- Dificuldade para engolir.
- Alteração do latido ou do miado.
- Andar cambaleante.
- Paralisia.
- Convulsões.
Não tente capturar ou manipular diretamente morcegos, raposas, saguis ou outros animais silvestres. Se for possível manter o animal isolado sem tocá-lo, acione o serviço municipal de Zoonoses ou a Vigilância em Saúde para orientação e captura.
O atendimento médico não deve ser adiado enquanto se tenta localizar, capturar ou examinar o animal.
Mordidas ou arranhões na cabeça, face, pescoço, mãos, pés ou mucosas, assim como lesões profundas, múltiplas ou extensas, são consideradas exposições graves. Esses casos precisam de avaliação urgente, mas a conduta também depende da espécie, das condições do animal e da possibilidade de observá-lo.
O mais importante é entender a gravidade da raiva. Não se deve negligenciar uma mordida ou um arranhão provocado por um mamífero. Não se baseie somente na aparência do animal para decidir se existe risco.
A profilaxia contra a raiva é dividida em profilaxia pré-exposição e profilaxia pós-exposição.
Profilaxia pré-exposição
A profilaxia pré-exposição é o tratamento preventivo para pessoas que ainda não foram expostas ao vírus, mas apresentam risco aumentado de contato.
Ela é feita com a vacina contra a raiva e está indicada principalmente para:
- Médicos veterinários.
- Biólogos, zootecnistas e agrônomos com exposição a animais.
- Profissionais e auxiliares de laboratórios que trabalham com o vírus da raiva.
- Pessoas que trabalham com animais silvestres.
- Profissionais envolvidos na captura de morcegos.
- Funcionários de zoológicos, parques ambientais e centros de reabilitação de animais.
- Espeleólogos e pessoas que frequentam cavernas com risco de contato com morcegos.
- Pessoas que trabalham no resgate e manejo de animais sem histórico conhecido.
- Moradores de comunidades remotas com risco elevado de raiva e acesso difícil à profilaxia.
- Viajantes que realizarão atividades de risco em regiões onde a raiva é frequente e o acesso ao atendimento médico pode ser limitado.
No Brasil, a profilaxia pré-exposição é realizada com duas doses da vacina antirrábica, administradas nos dias 0 e 7.
A vacina pode ser aplicada por via intramuscular ou intradérmica, de acordo com o produto utilizado e a organização do serviço. A via subcutânea não faz parte do esquema recomendado.
Na aplicação intramuscular, a vacina costuma ser administrada no músculo deltoide. Em crianças menores de dois anos, pode ser aplicada na face lateral da coxa. A vacina não deve ser aplicada na região glútea.
Após a profilaxia pré-exposição, o controle sorológico pode ser realizado a partir do 14º dia após a última dose. São considerados satisfatórios títulos de anticorpos iguais ou superiores a 0,5 UI/mL.
A necessidade de repetir a sorologia depende do grau de exposição. Profissionais de alto risco, como aqueles que trabalham diretamente com o vírus em laboratórios ou realizam captura de morcegos, devem repetir o exame periodicamente. Para profissionais de menor risco, como veterinários que trabalham em áreas onde a raiva está controlada, a repetição rotineira da sorologia não costuma ser necessária.
A vacinação pré-exposição não elimina a necessidade de procurar atendimento após uma mordida, arranhão ou outro contato de risco. Se houver indicação de profilaxia pós-exposição, o esquema costuma ser mais simples e não inclui o soro nem a imunoglobulina antirrábica.
Profilaxia pós-exposição
A profilaxia pós-exposição é indicada após um possível contato com o vírus da raiva. Ela pode ser necessária nas seguintes situações:
- Mordida.
- Arranhão que rompa a pele.
- Lambedura sobre ferida aberta.
- Contato da saliva com os olhos, a boca ou outras mucosas.
- Contato direto com morcego.
- Situação em que não seja possível descartar contato com um morcego.
Tocar ou alimentar um cão ou gato, receber uma lambida sobre pele íntegra ou ter contato de sangue, urina ou fezes do animal com pele íntegra não costuma exigir profilaxia.
Os morcegos são uma exceção importante: qualquer contato direto deve ser avaliado, mesmo quando não existe uma mordida, arranhão ou ferida visível.
A profilaxia pode incluir apenas a vacina ou a combinação da vacina com o soro antirrábico equino ou a imunoglobulina humana antirrábica. A escolha depende do tipo de exposição, do animal envolvido e do histórico de vacinação da pessoa.
Pessoas que nunca receberam a vacina antirrábica
Quando a vacinação é indicada para uma pessoa que nunca foi vacinada, o esquema brasileiro habitual utiliza quatro doses:
- Dia 0: primeira dose, administrada no dia do atendimento.
- Dia 3: segunda dose.
- Dia 7: terceira dose.
- Dia 14: quarta dose.
A vacina pode ser administrada por via intramuscular ou intradérmica, conforme o esquema utilizado pelo serviço de saúde. Todas as doses devem ser recebidas, mesmo que a ferida já esteja cicatrizada.
Quando o soro ou a imunoglobulina são indicados?
As exposições consideradas graves podem exigir, além da vacina, o soro antirrábico equino ou a imunoglobulina humana antirrábica.
A vacina estimula o organismo a produzir seus próprios anticorpos, processo que leva alguns dias. O soro e a imunoglobulina fornecem anticorpos prontos, oferecendo proteção imediata durante esse período.
Quando indicados, devem ser administrados preferencialmente no primeiro atendimento. A maior quantidade possível deve ser infiltrada dentro e ao redor das lesões, inclusive quando elas já estiverem cicatrizadas.
Se o soro ou a imunoglobulina não estiverem disponíveis no primeiro dia, ainda podem ser administrados até o sétimo dia após a primeira dose da vacina. Depois desse prazo, deixam de ser indicados porque o organismo já começou a produzir anticorpos em resposta à vacinação.
Pessoas que já foram vacinadas
Quem já recebeu um esquema completo de profilaxia pré-exposição deve procurar atendimento após um novo contato de risco. Quando há indicação de nova vacinação, são administradas duas doses, nos dias 0 e 3.
Para quem já realizou profilaxia pós-exposição, a conduta depende do tempo transcorrido desde o esquema anterior:
- Até 90 dias: se o esquema anterior foi completo, não é indicada nova vacinação. Se estava incompleto, devem ser administradas as doses que faltam.
- Após 90 dias: quem recebeu pelo menos duas doses anteriormente deve receber duas novas doses, nos dias 0 e 3.
Em geral, pessoas previamente vacinadas com esquema completo não recebem soro nem imunoglobulina em uma nova exposição. Quando o esquema anterior não pode ser comprovado, estava incompleto ou existem situações clínicas especiais, a conduta deve ser definida individualmente.
Crianças, gestantes e pessoas imunossuprimidas
A vacina antirrábica pode ser administrada a crianças de qualquer idade, gestantes e mulheres que estejam amamentando. Diante de uma exposição de risco, não há contraindicação que justifique deixar de realizar a profilaxia.
Pessoas imunossuprimidas devem ser avaliadas individualmente, pois podem produzir uma quantidade insuficiente de anticorpos após a vacinação. Nesses casos, recomenda-se a aplicação da vacina por via intramuscular e a realização de sorologia a partir do 14º dia após a última dose.
Nos pacientes com imunossupressão grave, o soro ou a imunoglobulina também podem ser indicados, inclusive em algumas situações de reexposição, conforme a gravidade do contato e a avaliação do serviço de saúde.
Mesmo que tenham se passado dias ou semanas desde a mordida, o arranhão ou outro contato de risco, a pessoa deve procurar atendimento enquanto ainda não apresentar sintomas. O atraso não é motivo para desistir da avaliação.
O fluxograma de tratamento da raiva abaixo é do Ministério da Saúde do Brasil
Morcegos e raiva: um caso à parte
Os morcegos podem transmitir o vírus da raiva e são atualmente uma das principais fontes de raiva humana nas Américas e no Brasil.
O grande problema é que suas mordidas e arranhões podem ser muito pequenos e passar despercebidos, principalmente quando a pessoa estava dormindo.
Por isso, a profilaxia com vacina e soro pode ser indicada nas seguintes situações:
- Mordida ou arranhão provocado por morcego.
- Contato de saliva do morcego com uma ferida ou mucosa.
- Contato direto com o animal, mesmo sem lesão visível.
- Morcego encontrado no quarto de uma pessoa que estava dormindo.
- Morcego encontrado próximo a uma criança pequena, pessoa com alteração cognitiva ou alguém incapaz de dizer se houve contato.
- Qualquer situação duvidosa em que não seja possível descartar mordida, arranhão ou contato direto.
Se a pessoa estava acordada durante todo o tempo, apenas viu o morcego voando e tem certeza de que não houve contato, o episódio não é considerado exposição. Um morcego apenas passar perto, sobrevoar a pessoa ou estar presente no mesmo ambiente, sem contato direto, não transmite raiva.
Urina e fezes de morcegos também não são formas habituais de transmissão da raiva. Entretanto, o acúmulo de fezes de morcegos pode estar associado a outras doenças, como a histoplasmose.
Nunca pegue um morcego com as mãos, mesmo que ele pareça morto, esteja imóvel no chão ou tenha entrado em casa. Afaste crianças e animais domésticos e entre em contato com o serviço de Zoonoses do município.
Como a raiva é uma doença quase sempre fatal, qualquer contato direto ou situação duvidosa envolvendo morcegos deve ser avaliada imediatamente por um serviço de saúde.
- Rabies – Centers for Disease Control and Prevention.
- Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, volume 3, 6ª edição revisada. Brasília, 2024.
- Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 8/2022-CGZV/DEIDT/SVS/MS: atualizações no protocolo de profilaxia pré, pós e reexposição da raiva humana no Brasil.
- Clinical manifestations and diagnosis of rabies – UpToDate.
- When to use rabies prophylaxis – UpToDate.
- Rabies – NIH – U.S. National Library of Medicine.
- World Health Organization. Rabies: fact sheet.
Dúvidas de leitores sobre este tema
Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.
Mais comentários dos leitores
Doutor, nessa ultima terça feira às 15:00 da tarde eu sai do trabalho e estava andando em uma feira aqui perto de casa, porém no meio do caminho eu tive meu pé perfurado por algo que parecia uma unha de um gato ou algo assim, no momento eu só tive o reflexo de tirar e jogar fora o objeto, a minha dúvida é a seguinte, nessa situação eu corro risco caso o animal que soltou aquilo seja contaminado? Considerando que é de rua. Devo procurar uma UBS para a antirrabica?
Doutor, encostei em uma jabuticaba mordida por morcegos, e descartei na sequência continuei comendo as demais frutas sem , a risco de contrair raiva?
Obrigado por seu esclarecimento, fui a ubs aqui do município e me passaram a profilaxia, só que em 2024 tomei o esquema completo com 4 doses, aí hoje tomei uma dose novamente e a próxima seria na sexta-feira, porém é feriado e aqui o município é pequeno e a UBS não vai abrir, posso tomar tranquilamente na segunda sem prejuízo de proteção?
Boa noite, um morcego entrou em minha casa e ao voar acabou resvalando de leve em mim com o bater das asas, bem leve mesmo, existe risco? Minha pele não tem ferimento
Boa tarde, Doutor.
Na repartição onde eu trabalho há uma gata que está aqui já tem alguns meses. Para contextualizar, ela não apresenta nenhum comportamento incomum. Mia normal, come e bebe normal, caminha normal. Neste mês de janeiro nunca aparentou nada de errado em relação à saúde.
Neste último domingo, eu fui tentar pegá-la para remover da sala e a gata, tentando brincar, deu uma mordiscada em minha mão. Rapidamente eu tirei a mão quando percebi, mas senti a ponta do dente tocando em minha palma. Não deixou marca alguma, não perfurou nem arranhou. Imediatamente fui lavar com água e sabão.
A dúvida que eu fico é se corro algum risco de contrair raiva. Também informo que é fácil observar a gata diariamente, visto que ela só fica em uma mesma área. Posso fazer a observação ao longo dos 10 dias e, caso ela não apresente mudança de comportamento, posso descartar uma possível infecção? E se dentro dessa janela de 10 dias ela apresentar algum sintoma como devo proceder?
Eu passei bem próxima de um corpo de gambá (saruê) morto, há algum risco de contrair raiva? Não toquei nem cheguei perto, embora a minha garrafa de água que estava na minha mão tenha passado bem perto. O animal não parecia ter morrido de causas naturais, estava machucado, talvez atropelamento ou foi atacado por outro animal, e também parecia recente, tanto que nem estava cheirando mal.
Dr. Como morcegos voam e mijam, é possível ser contaminado se um morcego urinar em mim enquanto voa?
Dr. um morcego voou perto de mim e senti algo pequeno e úmido caindo sobre meu braço no mesmo momento, poderia ser saliva dele? e se for, o que faço?
Boa-noite, doutor. Eu corro risco de contrair raiva manipulando com a mão com pequenos machucados do dia a dia, como arranhão, uma carne crua que ficou descongelando em água gelada na cozinha com a janela aberta, e que possivelmente um morcego lambeu a carne ou o sangue? Pode fritar e comer essa carne normalmente? Não vi nenhum morcego, estou supondo pois tenho ansiedade
DOUTOR ME AJUDE POR FAVOR
Eu estava passando de moto,ai um morcego tava voando em minha direção so que ele passou por cima de mim, baixo ,eu olhei pro alto quando ele passou,estava ventando muito,uns segundos depois senti algo no meu olho,parecia areia que o vento trouxe ai ficou vermelho, agora tô com medo será que caiu algo do morcego em mim? Será que peguei raiva? Será que precisa da vacina? Sera que caiu algo dele em mim???
URGENTE por favor alguem me responde !! Se eu pisar descalço numa saliva supostamente deixada por um animal infectado corro o risco de me infectar?com raiva?
Se eu pisar em salivas infectadas na rua ou nas calçadas posso trazer a raiva para dentro de casa? Pois eu estava ja rua um cachorro saiu pingando gotas de saliva no chão e babou o chão todo,o animal nao parecia agressivo,so babou e dormiu uns 10 min dps eu pisei onde ele babou,e uns 40 segundos depois eu pisei no meu pé acidentalmente! Teria risco
Ola doutor . Parabéns pelo seu trabalho em trazer de forma tão didatica temas médicos.
A 6 meses atras socorri um gato de rua que havia se acidentado e morreu. Acabei tendo contato com saliva sob pele que creio que estava integra.
Pode ocorrer contaminação dessa forma? 6 meses o virus ainda pode estar incubado ?
Muito obrigado.
Dr hoje cedo um cachorro em um sitio lambeu minha perna ,eu tava de calça jeans so que em baixo do jeans tinha umas feridas na minha perna ,pois arranhei no dia anterior, sera que tem risco? O animal nao parecia doente ele tem dono ,so nao sei se e vacinado, logo apos uns 20 min fui tirar a calça e onde ele lambeu encostou nas minhas feridas!tem risco? Precisa de vacina?
Doutor ,pisei em um morcego que estava morto na rua ,no meio do sol quente, aparentemente morto por atropelamento, só não sei quando ele morreu ,mas não parecia ser naquele momento,e depois encostei a mao na sandalia e encostei em uma ferida,tem risco???? Até o pneu da minha bike encostou nele e depois em mim
Dr, gostaria de saber se o vírus sobrevive por mais de 2 dias na água mineral. Em uma situação hipotética aonde alguém abre o galão de água com uma faca contaminada e coloca no bebedouro. Após 2 dias eu consumo essa água. Posso ser infectada?
Um morcego passou perto do meu rosto, talvez resvalando um pouco apenas no meu cabelo, existe algum risco??
Eu gostaria de saber se existe algum risco de um gato transmitir a raiva de tabela. Por exemplo, comigo, minha gatinha saiu para a rua e voltou para casa com ferimento na pata, acontece que não sei o que ocorreu. acontece que ela me arranhou com essa mesma pata quando coloquei remédio para cicatrização, momentos depois de ela chegar em casa. Algum animal raivoso pode ter mordido a pata dela e ela ter me transmitido através do arranhão usando essa mesma pata que estava ferida? Existe esse risco? Preciso tomar vacina?
Minha namorada foi mordida por um gato de rua e fez o tratamento tomando 4 doses da vacina contra raiva. Durante o período de tratamento da vacina, tive contato com minha namorada através de beijos e relações íntimas. Existe algum risco de uma possível transmissão da raiva, caso o animal estivesse com a doença? Devo tomar a vacina também?
Olá, que site perfeito Deus o abençoe e capacite por tal trabalho. Eu li, mas e bom perguntar.
Moro em um local onde tem pés de manga, e na região aparecem os morcegos por ter muitas árvores. Mas é cidade, capital de MG. Meu medo é das frutas que eles comem a noite e jogam no quintal, onde passamos… Pode ocorrer de pisar e se contaminar? E exemplo de morderem as mangas em sua época, acidentalmente a gente pegar para desfazer, ocorre da saliva molhada continuar devido a água da fruta?
A saliva humana não pode transmitir a raiva? Pois o ser humano é um mamífero, isso é bastante curioso
Dr. Pedro, as fezes do morcego transmitem raiva? Se tiver contato com ferida tem algum risco exclusivo para a raiva?
Olá, Dr. O virus da raiva pode grudar na roupa? Por ex: sentar em um local que algum animal possa ter babado e ainda esteja um pouco úmido
chutei pote de água colocada pra cachorro e gato de rua beber enquanto andava pela calçada e molhou minha perna, e acho que estava com ferida. é preciso tomar vacina?
o álcool 70% inativa o vírus da raiva?
Doutor viajei com meu esposo e dois filhos para uma pousada em região de mata. Hoje de manhã quando acordei escutei um barulhinho e tinham 3 morcegos pequenos pretinhos dentro do nosso quarto, pendurados de cabeça pra baixo no telhado do quarto. Verifiquei meus filhos e não vi nenhuma picada ou mordida, também não vi em mim ou meu esposo. Precisamos procurar um serviço de saúde e tomar a vacina?