DOR PÉLVICA CRÔNICA NAS MULHERES

O que é a dor pélvica crônica?

Chamamos de dor pélvica crônica (DPC) um tipo de dor que ocorre abaixo do umbigo, em mulheres não grávidas, dura mais de seis meses e é grave o suficiente para causar incapacidade funcional ou necessitar de tratamento médico.

A DPC pode ser intermitente (vai e volta) ou constante. Às vezes, a dor segue um ciclo regular, como, por exemplo, surgindo sempre durante a menstruação. Ela também pode ocorrer apenas em determinados momentos, como antes ou depois de comer, ao urinar ou durante o sexo.

A dor pélvica crônica pode ter múltiplas causas; ela pode ser um sintoma de uma outra doença ou pode ser uma condição por si só, não havendo uma causa aparente.

Aproximadamente 1 em cada 7 mulheres sofre de DPC e cerca de 10% das consultas de Ginecologia são motivadas por dor pélvica.

Causas

A DPC é frequentemente o resultado de múltiplas causas de dor sobrepostas, cada uma contribuindo mais ou menos para o surgimento da dor. Por exemplo, uma mulher pode ter endometriose e cistite intersticial ao mesmo tempo.

Nos casos de DPC, é mais comum que a paciente tenha mais de uma condição médica do que apenas uma. E as mulheres com mais de uma causa geralmente têm mais dor do que mulheres com apenas uma.

Apesar de ser um problema habitualmente investigado e tratado pelo ginecologista, a dor pélvica crônica pode ter origem em órgãos fora do sistema reprodutor feminino.

As principais causas de dor pélvica crônica são:

  • Origem ginecológica:
    • Endometriose.
    • Leiomioma.
    • Adenomiose.
    • Cistos ovarianos.
    • Síndrome do ovário remanescente.
    • Doença inflamatória pélvica.
    • Doença adesiva pélvica.
    • Síndrome de dor pós-ligadura tubária.
  • Origem urológica:
    • Cistite intersticial / síndrome da bexiga dolorosa.
    • Cistite por radiação.
    • Câncer de bexiga.
    • Síndrome uretral.
    • Cistite de repetição.
    • Urolitíase.
  • Origem gastrointestinal:
    • Síndrome do intestino irritável.
    • Doença inflamatória intestinal.
    • Carcinoma colorretal.
    • Doença celíaca.
    • Hérnias abdominais / pélvicas.
  • Origem musculoesquelética:
    • Dor miofacial da parede abdominal.
    • Mialgia por tensão do assoalho pélvico
    • Fibromialgia.
    • Coccigodinia (dor no cóccix).
    • Síndrome do piriforme.
  • Origem neurológica:
    • Infarte do nervo cutâneo da parede abdominal.
    • Neuralgia do pudendo.
    • Alodinia.
  • Origem vascular:
    • Varicosidades vulvares.
    • Síndrome da congestão pélvica.

Vamos falar resumidamente sobre as causas mais comuns.

Endometriose

A endometriose é a causa ginecológica mais comum da DPC. Essa doença é caracterizada pela existência de tecido uterino fora do útero, como nos ovários, trompas ou cavidade abdominal.

Esses depósitos anômalos de tecido uterino respondem normalmente ao ciclo menstrual e sangram todo mês, da mesma forma que o útero faz. Esse sangramento fora do local provoca inflamação, cicatrização e aderências.

Explicamos a endometriose em detalhes no artigo: Endometriose – o que é, sintomas e tratamento.

Adenomiose

A adenomiose é uma doença semelhante à endometriose. Neste caso, a presença do tecido de útero não ocorre em outros órgãos, mas sim dentro do miométrio, que é a camada muscular do próprio útero.

Portanto, podemos dizer que a adenomiose é uma endometriose que ocorre no próprio útero. Os sintomas são semelhantes, com dor e inflamação local que surge a cada ciclo menstrual.

Para mais informações sobre a adenomiose, leia: Adenomiose uterina – sintomas, causas e tratamento.

Miomas

Os miomas são pequenos tumores benignos que podem surgir no útero. Dor pélvica crônica pode surgir quando os miomas sofrem torção, são muito grandes ou quando degeneram por falta de vascularização adequada.

A maioria das mulheres com mioma não apresenta dor. Dentre as que queixam-se de DPC, cerca de 15% tem miomas uterinos.

Falamos sobre os miomas no artigo: Mioma uterino – o que é, causas, sintomas e tratamento.

Doença inflamatória pélvica

A doença inflamatória pélvica (DIP) é uma infecção dos órgãos reprodutores femininos superiores, como útero, trompas de Falópio e ovários.

A DIP costuma surgir como complicação de uma doença sexualmente transmissível, principalmente clamídia ou gonorreia.

Até 30% das mulheres com DIP desenvolvem dor pélvica crônica.

Para mais informações sobre a doença inflamatória pélvica, leia: Doença inflamatória pélvica – causas, sintomas e tratamento.

Síndrome do intestino irritável

A síndrome do intestino irritável é um distúrbio gastrointestinal caracterizado por dor abdominal e alterações do trânsito intestinal, sem que haja qualquer causa identificável.

Aproximadamente 10% da população geral tem sintomas compatíveis com a síndrome do intestino irritável. Essa condição é duas vezes mais comum nas mulheres que nos homens e é provavelmente a causa mais comum de dor pélvica crônica nas mulheres.

Para saber mais, leia: Síndrome do intestino irritável – causas, sintomas e tratamento.

Fibromialgia

A fibromialgia é uma doença que se caracteriza por dores difusas envolvendo músculos, tendões e ligamentos. A paciente com fibromialgia tem múltiplas dores pelo corpo e se sente constantemente exaurida.

Além da dor muscular e da sensibilidade excessiva em muitas áreas do corpo, as pacientes fibromiálgicas também costumam sofrer de fadiga, sono excessivo, dores de cabeça e distúrbios do humor, como depressão e ansiedade.

Para saber mais sobre fibromialgia: Fibromialgia – sintomas, pontos de dor e tratamento.

Cistite intersticial

A cistite intersticial, também chamada de síndrome da bexiga dolorosa, é uma condição que afeta principalmente as mulheres e se caracteriza por dores recorrentes na região da bexiga, muito semelhantes àquelas que surgem nos quadros de infecção urinária.

A cistite intersticial, porém, não é causada por nenhuma infecção. Há uma corrente que trata a síndrome da bexiga dolorosa como uma variante de outras síndromes dolorosas, tais como a síndrome do intestino irritável ou a fibromialgia. Na verdade, é comum o paciente ter duas ou até essas três doenças ao mesmo tempo.

Falamos com detalhes da cistite intersticial no artigo: Cistite intersticial – síndrome da bexiga dolorosa.

Sintomas

Como a dor pélvica crônica pode ser provocada por diversas doenças diferentes, o quadro clínico pode variar bastante.

O sintoma comum a todos os casos é a dor na região pélvica. Mas mesmo essa dor pode ser descrita de diversas maneiras diferentes. Quando a paciente é solicitada a localizar a dor, ela pode passar a mão sobre toda a região pélvica, mostrando que a dor é difusa, ou simplesmente apontar para um único ponto, conseguindo dizer exatamente de onde vem a dor.

A descrição das características da dor também varia muito. A paciente pode descrevê-la como uma dor forte ou fraca, constante ou intermitente, em pontadas, cólicas, como um peso, queimação ou sensação de pressão dentro da pelve.

É comum haver agravamento da dor durante o ato sexual, micção, evacuação, durante exercício ou após longos períodos sentada ou em pé.

Em alguns casos, a dor pode ser tão forte, que a paciente não consegue trabalhar, estudar ou até mesmo dormir.

Diagnóstico

Como existem muitas causas possíveis, e muitas vezes nenhuma delas é identificada, o diagnóstico da DPC pode ser desafiador para o médico.

Além de uma história clínica detalhada e um exame físico e ginecológico bem feito, o ginecologista pode solicitar alguns exames complementares. Os mais comuns são:

  • Testes laboratoriais: incluem exames de sangue, urina e amostras colhidas durante o exame ginecológico. Esses testes servem para investigar possíveis infecções, como DST e cistite.
  • Ultrassonografia abdominal e pélvica: esse exame é útil para detectar miomas, massas ou cistos nos ovários, útero ou trompas de Falópio. Se necessário, o exame pode ser complementado com tomografia computadorizada (TC) ou ressonância magnética (RM).
  • Laparoscopia: é um procedimento cirúrgico no qual o médico faz uma pequena incisão no abdômen e insere um fino tubo ligado a uma pequena câmara (laparoscópio). Esse procedimento pode ser útil no diagnóstico de algumas causas de dor pélvica crônica, como endometriose e doença inflamatória pélvica crônica. O laparoscópio permite que o médico veja diretamente os órgãos pélvicos e verifique se há tecidos anormais ou sinais de infecção. Se a laparoscopia for normal, o médico pode então se concentrar nas causas não-ginecológicas da dor pélvica.

Tratamento

A dor pélvica crônica tem vários tratamentos possíveis que podem ser combinados, se necessário. O objetivo do tratamento é reduzir os sintomas e melhorar a qualidade de vida da paciente.

Se o médico puder identificar uma causa específica para a DPC, o tratamento deve focar essa causa. No entanto, se a origem da dor não puder ser identificada, o tratamento deve se concentrar no controle da dor e dos sintomas associados.

Medicamentos

  • Analgésicos e anti-inflamatórios: fármacos para aliviar a dor, como ibuprofeno, dipirona ou paracetamol, podem proporcionar alívio parcial da dor pélvica. A medicação para dor sozinha, no entanto, raramente resolve o problema da dor crônica, apenas causa alívio temporário.
  • Relaxante muscular: em algumas mulheres, relaxantes musculares, como a ciclobenzaprina, ajudam a controlar a dor.
  • Tratamentos hormonais: quando a dor pélvica crônica está relacionada a fases específicas do ciclo menstrual, a prescrição de pílulas anticoncepcionais ou outros anticonceptivos hormonais podem ajudar a aliviar a dor.
  • Antibióticos: se a origem da dor for uma infecção ginecológica, o tratamento deve ser feito com antibióticos.
  • Antidepressivos: alguns tipos de antidepressivos podem ser úteis para a dor crônica, como amitriptilina ou nortriptilina. Esses medicamentos podem ajudar a melhorar a dor pélvica crônica, mesmo em mulheres que não têm depressão.

Tratamento não medicamentoso

O tratamento não farmacológico costuma ser muito importante e envolve várias técnicas. As mais comuns são:

  • Terapia física.
  • Técnicas de relaxamento.
  • Psicoterapia.
  • Dispositivos de estimulação nervosa.
  • Acupuntura.

Cirurgia

Algumas causas ginecológicas da dor pélvica podem ser tratadas com cirurgia. Por exemplo, endometriose, cistos ovarianos ou miomas.


Referências


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