Principais informações sobre a hipertensão arterial
Hipertensão arterial é o nome dado à elevação persistente da pressão do sangue nas artérias.
Tanto no Brasil quanto em Portugal, considera-se hipertensão quando a pressão medida no consultório é persistentemente igual ou superior a 140/90 mmHg, o popular “14 por 9”.
Uma única medição de 14/9 geralmente não é suficiente para confirmar hipertensão. O diagnóstico deve ser confirmado por novas medições ou pela avaliação da pressão fora do consultório.
A hipertensão normalmente não provoca sintomas. Dor de cabeça, tontura, palpitações ou mal-estar não são formas confiáveis de saber se a pressão está elevada.
Quando não é adequadamente tratada, a hipertensão aumenta o risco de AVC, infarto, insuficiência cardíaca, doença renal crônica, lesões da retina e comprometimento cognitivo.
Mudanças na alimentação, controle do peso, atividade física e redução do consumo de sal fazem parte do tratamento.
Pessoas com hipertensão confirmada a partir de 140/90 mmHg geralmente têm indicação de tratamento medicamentoso associado às mudanças no estilo de vida.
As metas de tratamento são rigorosas. No Brasil, recomenda-se pressão abaixo de 130/80 mmHg para a maioria dos hipertensos. Em Portugal, a meta preferencial é pressão sistólica entre 120 e 129 mmHg e diastólica entre 70 e 79 mmHg, quando esses valores são bem tolerados.
Uma pressão muito elevada não significa automaticamente uma emergência hipertensiva. A emergência ocorre quando a elevação da pressão está associada a lesão aguda de órgãos, como cérebro, coração, rins, retina ou grandes vasos.
O que é hipertensão arterial?
A pressão arterial é a força que o sangue exerce contra as paredes das artérias enquanto circula pelo organismo.
Quando medimos a pressão, obtemos dois valores. Por exemplo, uma pressão de 120/80 mmHg, popularmente chamada de “12 por 8”, apresenta:
- Pressão sistólica: 120 mmHg, que representa a pressão nas artérias quando o coração se contrai e bombeia sangue.
- Pressão diastólica: 80 mmHg, que representa a pressão nas artérias enquanto o coração relaxa entre os batimentos.
A hipertensão arterial ocorre quando essa pressão permanece elevada de forma persistente.
O problema não é simplesmente ter um número mais alto no aparelho. Quando o sangue exerce uma pressão excessiva contra as paredes das artérias durante meses ou anos, essa sobrecarga mecânica pode provocar alterações e lesões progressivas nos vasos sanguíneos. A parede arterial pode se tornar mais espessa e rígida, e o revestimento interno dos vasos pode perder parte de sua capacidade normal de regular o fluxo sanguíneo.

Com o passar do tempo, essas alterações vasculares ajudam a explicar por que a hipertensão aumenta o risco de infarto, AVC, doença renal, insuficiência cardíaca e outras complicações. Por isso, mesmo quando não provoca sintomas, uma pressão persistentemente elevada não deve ser considerada inofensiva.
No Brasil e em Portugal, considera-se hipertensão arterial quando a pressão medida no consultório médico é persistentemente igual ou superior a 140/90 mmHg. Esse limite não é universal: algumas diretrizes, como as dos Estados Unidos e do Canadá, atualmente classificam valores a partir de 130/80 mmHg como hipertensão. Por isso, um mesmo valor de pressão pode receber classificações diferentes conforme a diretriz utilizada.
Isso significa que encontrar uma pressão de 14/9 ou 15/9 em uma única medição não é suficiente, na maioria dos casos, para afirmar que uma pessoa tem hipertensão.
Dor, ansiedade, esforço físico recente, consumo de álcool, cafeína ou cigarro, falta de repouso antes da aferição e até o uso de um manguito inadequado podem modificar temporariamente a pressão.
A hipertensão pode aparecer em qualquer idade, embora se torne progressivamente mais frequente com o envelhecimento. Seu desenvolvimento costuma resultar da interação entre predisposição genética, idade, excesso de peso, alimentação, consumo excessivo de sal, sedentarismo, consumo excessivo de álcool e outros fatores ambientais e metabólicos.
A pressão alta pode permanecer sem causar sintomas durante muitos anos. Nesse período, porém, as alterações vasculares e a sobrecarga imposta aos órgãos podem progredir silenciosamente, afetando principalmente coração, cérebro, rins e olhos.
A hipertensão primária, responsável pela grande maioria dos casos, não costuma ter uma cura definitiva, mas pode ser muito bem controlada. Já algumas formas de hipertensão secundária, provocadas por uma doença ou condição identificável, podem melhorar bastante ou até desaparecer quando sua causa é corrigida.
Os critérios apresentados neste artigo referem-se principalmente aos adultos. Crianças, adolescentes e gestantes têm critérios próprios.
Explicamos a hipertensão durante a gravidez em outro artigo: Hipertensão na gravidez.
Por que a pressão arterial aumenta?
A pressão dentro das artérias depende principalmente de dois fatores:
- A quantidade de sangue que o coração bombeia a cada minuto.
- A resistência que os vasos oferecem à passagem desse sangue.
De forma simplificada, a pressão arterial sobe quando o coração passa a bombear mais sangue, quando as pequenas artérias ficam mais contraídas ou estreitas, quando há excesso de líquido circulando ou quando as grandes artérias perdem elasticidade.
Na maioria das pessoas com hipertensão, esses mecanismos aparecem combinados.
Aumento da resistência dos vasos
As arteríolas são vasos sanguíneos de pequeno calibre que possuem músculo em suas paredes e conseguem contrair ou relaxar continuamente. Dessa forma, o organismo regula quanto sangue chega a cada tecido e ajuda a controlar a pressão arterial.
Essa contração é um mecanismo normal. Durante uma hemorragia ou uma situação de estresse, por exemplo, o organismo pode contrair determinadas arteríolas para redistribuir o fluxo sanguíneo e preservar a pressão. Durante o exercício, algumas regiões também apresentam vasoconstrição, enquanto os vasos dos músculos em atividade se dilatam para receber mais sangue.
Vários mecanismos do organismo controlam o calibre das arteríolas. Alguns fazem esses vasos relaxarem; outros favorecem sua contração.
Na hipertensão, esse equilíbrio pode ficar deslocado para a vasoconstrição. Sinais enviados pelo sistema nervoso, hormônios que controlam a pressão e substâncias produzidas pela própria parede das artérias podem fazer as arteríolas permanecerem mais contraídas do que o necessário.
Quando isso acontece, o sangue encontra maior resistência para circular, favorecendo a elevação da pressão arterial.
Entre os mecanismos envolvidos estão o sistema nervoso simpático e hormônios como a angiotensina II. Na hipertensão primária, porém, geralmente não existe uma única alteração responsável pelo problema. Vários mecanismos costumam atuar ao mesmo tempo.
Os rins também têm papel importante nesse processo, pois ajudam a controlar a quantidade de sódio e água no organismo e participam de sistemas hormonais que influenciam o calibre dos vasos. Por isso, a hipertensão primária costuma resultar da combinação de alterações renais, nervosas, hormonais e vasculares.
Quando as arteríolas se contraem, seu calibre interno diminui. Como o sangue encontra maior resistência para atravessar esses vasos, é necessária uma pressão maior para manter o fluxo adequado pelos tecidos.
Esse aumento da resistência vascular periférica é um dos principais mecanismos responsáveis pela elevação da pressão arterial.

É importante não confundir esse estreitamento funcional das arteríolas com o “entupimento” provocado por placas de colesterol. Uma pessoa pode ter hipertensão mesmo sem apresentar obstruções ateroscleróticas importantes.
Além disso, se a pressão elevada e os estímulos vasoconstritores persistirem durante anos, as próprias arteríolas podem sofrer remodelamento: suas paredes tornam-se mais espessas e o lúmen pode permanecer menor mesmo quando o músculo não está ativamente contraído. Dessa forma, uma alteração inicialmente mais funcional pode acabar adquirindo também um componente estrutural, contribuindo para perpetuar a resistência vascular elevada.
Retenção de sal e água
Os rins têm papel central no controle da pressão arterial porque regulam a quantidade de sódio e água presente no organismo.
Quando o corpo retém sódio, tende também a reter água. Isso pode aumentar o volume de sangue circulante, aumentar o retorno de sangue ao coração e elevar a quantidade de sangue bombeada a cada minuto.
Em pessoas saudáveis, os rins conseguem compensar um aumento do volume eliminando mais sódio e água pela urina. Em muitos pacientes hipertensos, porém, essa regulação fica deslocada: o organismo precisa de uma pressão arterial mais elevada para conseguir eliminar adequadamente o excesso de sódio.
Esse mecanismo, conhecido como pressão-natriurese, ajuda a explicar por que os rins são tão importantes no desenvolvimento e na manutenção da hipertensão.
O consumo excessivo de sal pode ainda contribuir para hipertensão por outros mecanismos, incluindo alterações das pequenas artérias, disfunção do endotélio e aumento da rigidez vascular.
Leitura sugerida: Sal em excesso: por que faz mal e quanto consumir por dia.
Aumento da atividade do sistema nervoso e dos hormônios que controlam a pressão
O organismo possui vários mecanismos para ajustar continuamente a pressão arterial de acordo com suas necessidades.
O sistema nervoso simpático, por exemplo, pode fazer o coração bater mais rápido e com mais força, além de provocar contração dos vasos sanguíneos. Essas respostas ajudam a manter a circulação em situações como estresse, exercício, hemorragia ou desidratação.
Os rins também participam desse controle por meio de hormônios. Um dos principais mecanismos é o sistema renina-angiotensina-aldosterona, que pode contrair os vasos e fazer os rins reterem mais sódio e água, contribuindo para elevar a pressão quando necessário.
Na hipertensão, esses sistemas podem ficar excessivamente ativados ou inadequadamente regulados, contribuindo para manter os vasos mais contraídos, aumentar o volume de sangue circulante e sustentar uma pressão arterial mais elevada.
Perda de elasticidade das grandes artérias
As grandes artérias, principalmente a aorta, normalmente são elásticas e funcionam como um amortecedor da pressão gerada a cada batimento cardíaco.
Quando o coração se contrai e ejeta sangue, a aorta se distende e absorve parte dessa energia. Depois, durante o relaxamento do coração, ela retorna progressivamente ao seu tamanho original e ajuda a manter o fluxo e a pressão durante a diástole.
Com o envelhecimento e determinadas doenças, as grandes artérias tornam-se mais rígidas e perdem parte dessa capacidade de expansão.
Como consequência, cada contração do coração provoca um aumento maior da pressão sistólica, porque uma parte maior da energia da ejeção passa a ser transmitida diretamente como aumento da pressão. Ao mesmo tempo, o retorno elástico durante a diástole diminui, reduzindo a sustentação da pressão nessa fase.
O resultado típico é pressão sistólica mais alta, pressão diastólica normal ou até mais baixa e aumento da pressão de pulso. Esse mecanismo ajuda a explicar a hipertensão sistólica isolada, situação muito comum em pessoas idosas.

Qual é a principal causa mecânica da hipertensão?
Não existe uma única resposta válida para todos os pacientes.
Em algumas pessoas, há maior tendência à retenção de sódio e água. Em outras, predomina o aumento da resistência das pequenas artérias. Com o envelhecimento, a perda de elasticidade das grandes artérias também ganha importância. Alterações renais, hormonais, nervosas e vasculares frequentemente participam ao mesmo tempo.
Por isso, a hipertensão arterial deve ser entendida como uma alteração do sistema que regula a pressão, e não simplesmente como excesso de sangue dentro das artérias ou estreitamento dos vasos.
Os mecanismos descritos até aqui explicam como a pressão aumenta. A próxima questão é entender por que esses mecanismos ficam alterados. É nesse ponto que dividimos a hipertensão em primária e secundária.
Causas e fatores de risco da hipertensão arterial
A hipertensão pode ser dividida em dois grandes grupos: hipertensão primária e hipertensão secundária.
A diferença entre elas está na origem do problema.
Na hipertensão primária, não existe uma única doença responsável pela pressão alta. Diversos fatores atuam ao longo dos anos sobre os mecanismos que regulam a pressão.
Na hipertensão secundária, por outro lado, existe uma doença, medicamento ou outra condição identificável que desempenha papel importante na elevação da pressão.
Hipertensão primária
A hipertensão primária, também chamada de hipertensão essencial, corresponde à grande maioria dos casos.
Isso não significa que ela surja “sem causa”. Significa que não existe uma única doença que possa ser apontada como responsável pela hipertensão.
O que ocorre é uma combinação de predisposição genética, envelhecimento, hábitos de vida e fatores ambientais e metabólicos que, ao longo do tempo, altera os mecanismos de controle da pressão arterial.
Por exemplo, uma pessoa geneticamente predisposta pode apresentar maior sensibilidade ao sal, maior tendência à retenção de sódio pelos rins, maior atividade de sistemas que contraem os vasos ou alterações progressivas da parede das artérias. Excesso de peso, sedentarismo e alimentação inadequada podem reforçar esses mecanismos.
Em outras palavras, os fatores de risco não atuam todos da mesma maneira, mas acabam convergindo para os mecanismos explicados anteriormente: maior retenção de sódio e água, aumento da resistência vascular, alterações hormonais e nervosas e perda de elasticidade das artérias.
Entre os principais fatores associados ao desenvolvimento da hipertensão primária estão:
- Histórico familiar de hipertensão.
- Predisposição genética.
- Aumento da idade.
- Excesso de peso e obesidade.
- Consumo excessivo de sal.
- Alimentação pouco saudável.
- Baixa ingestão de alimentos ricos em potássio.
- Sedentarismo.
- Consumo excessivo de bebidas alcoólicas.
- Fatores sociais e ambientais que dificultam uma alimentação saudável, atividade física regular e acesso adequado aos cuidados de saúde.
Ter um ou mais desses fatores não significa que a pessoa obrigatoriamente desenvolverá hipertensão. Eles apenas aumentam a probabilidade de que os mecanismos de regulação da pressão se tornem inadequados ao longo do tempo.
Tabagismo, diabetes e colesterol elevado também merecem muita atenção em quem tem hipertensão, mas não devem ser apresentados simplesmente como causas diretas da pressão alta. Eles frequentemente coexistem com a hipertensão e, quando presentes, aumentam ainda mais o risco de infarto, AVC e outras complicações cardiovasculares.
Hipertensão secundária
A hipertensão secundária ocorre quando existe uma doença, medicamento ou outra condição identificável que é responsável, pelo menos em grande parte, pela elevação da pressão arterial.
A diferença é importante porque, nesses casos, não basta apenas baixar a pressão com medicamentos. Sempre que possível, é preciso também identificar e tratar a causa.
Um exemplo simples é o hiperaldosteronismo primário. Nessa doença, as glândulas suprarrenais produzem aldosterona em excesso. Esse hormônio faz os rins reterem mais sódio e água, favorecendo a elevação da pressão.
Na estenose da artéria renal, uma ou ambas as artérias que levam sangue aos rins ficam estreitadas. O rim afetado passa a receber menos sangue e interpreta essa redução como se a pressão arterial do organismo estivesse baixa.
Como resposta, ele libera renina, iniciando uma sequência hormonal que aumenta a produção de angiotensina II e aldosterona. A angiotensina II contrai os vasos sanguíneos, enquanto a aldosterona faz os rins reterem mais sódio e água.
O resultado é uma combinação de maior resistência vascular e maior volume circulante, que eleva a pressão arterial.
Já na apneia obstrutiva do sono, episódios repetidos de interrupção da respiração durante a noite estimulam o sistema nervoso simpático e outros mecanismos capazes de elevar a pressão.
Ou seja, as causas da hipertensão secundária são diferentes, mas muitas vezes acabam elevando a pressão pelos mesmos mecanismos descritos na seção anterior.
Entre as causas mais importantes estão:
- Doenças dos rins, que podem alterar o controle do sódio, da água e de hormônios que regulam a pressão.
- Hiperaldosteronismo primário, causado pela produção excessiva de aldosterona.
- Apneia obstrutiva do sono.
- Estreitamento das artérias renais, chamado hipertensão renovascular.
- Doenças da tireoide.
- Síndrome de Cushing, caracterizada por excesso de cortisol.
- feocromocitoma, tumor raro que pode produzir grandes quantidades de hormônios semelhantes à adrenalina.
- Coarctação da aorta, uma alteração congênita que provoca estreitamento de uma região da aorta.
- Medicamentos e outras substâncias capazes de elevar a pressão arterial, como anti-inflamatórios não esteroides, corticoides, descongestionantes nasais ou orais com ação vasoconstritora, anticoncepcionais hormonais que contêm estrogênio, estimulantes, ciclosporina e tacrolimo, além de drogas como cocaína e anfetaminas.
A possibilidade de hipertensão secundária deve ser considerada especialmente quando a pressão:
- Surge em uma pessoa muito jovem.
- Aparece de forma abrupta.
- Atinge valores muito elevados.
- Piora rapidamente depois de um período de bom controle.
- Permanece acima da meta apesar do uso adequado de vários medicamentos.
- Vem acompanhada de alterações laboratoriais ou sintomas sugestivos de uma doença específica.
Identificar uma causa secundária pode mudar significativamente o tratamento. Quando a doença responsável pode ser corrigida, a pressão frequentemente se torna mais fácil de controlar e, em alguns casos, pode até voltar ao normal sem necessidade permanente de medicamentos anti-hipertensivos.
Para saber mais, leia: Causas da hipertensão arterial.
Como é feito o diagnóstico da hipertensão arterial?
A pressão arterial varia naturalmente ao longo do dia e pode subir temporariamente por diversos motivos, como estresse, ansiedade, dor, esforço físico recente, consumo de cafeína ou álcool, tabagismo, falta de repouso antes da aferição e erros na técnica de medição.
Por isso, o diagnóstico de hipertensão procura demonstrar que existe uma elevação persistente da pressão arterial, e não apenas um pico ocasional.
De modo geral, quando a pressão medida no consultório é igual ou superior a 140/90 mmHg, o resultado deve ser confirmado por novas medições realizadas corretamente em ocasiões diferentes ou por métodos de avaliação fora do consultório, como medições domiciliares padronizadas ou MAPA.
Assim, encontrar uma pressão de 14/9 ou 15/9 em uma única ocasião geralmente não é suficiente para estabelecer o diagnóstico de hipertensão. Da mesma forma, uma única medição normal no consultório não exclui a doença, pois algumas pessoas apresentam pressão elevada apenas fora do ambiente médico.
Existem exceções. Quando os valores estão muito elevados ou há sinais de lesão aguda de órgãos, a avaliação deve ser mais rápida e não se deve simplesmente aguardar novas medições ao longo de dias ou semanas.
MAPA e medição da pressão em casa
Medir a pressão fora do consultório ajuda a confirmar o diagnóstico e permite identificar situações que podem passar despercebidas nas consultas.
A MAPA — Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial — utiliza um aparelho que permanece preso ao braço durante cerca de 24 horas.
O equipamento mede automaticamente a pressão várias vezes enquanto a pessoa realiza suas atividades habituais e também durante o sono.
A MAPA permite avaliar:
- A média da pressão durante 24 horas.
- A pressão durante o período acordado.
- A pressão durante o sono.
- Hipertensão do avental branco.
- Hipertensão mascarada.
- Comportamento da pressão durante a noite.
- Eficácia do tratamento anti-hipertensivo.
A pressão também pode ser avaliada por meio de medições padronizadas realizadas em casa.
Quando essas medições seguem um protocolo definido, com várias aferições realizadas durante alguns dias, elas fornecem uma estimativa muito mais confiável da pressão habitual do que uma medida ocasional.
No Brasil, esse tipo de avaliação formal é frequentemente chamado de MRPA — Monitorização Residencial da Pressão Arterial. Em outros protocolos, utiliza-se simplesmente a expressão medição ou automedição domiciliar da pressão arterial.
O importante é entender que não se trata de medir a pressão uma única vez quando surge dor de cabeça, tontura ou mal-estar. Para ajudar no diagnóstico, são necessárias várias medições realizadas corretamente e em condições padronizadas.
Quais valores indicam pressão alta na MAPA e nas medições em casa?
Os valores utilizados fora do consultório são diferentes daqueles utilizados durante uma consulta médica.
Na MAPA, consideram-se elevados, de modo geral:
| Período avaliado | Pressão considerada elevada |
|---|---|
| Média de 24 horas | ≥ 130/80 mmHg |
| Período acordado | ≥ 135/85 mmHg |
| Durante o sono | ≥ 120/70 mmHg |
Para as medições domiciliares, o limite pode variar conforme o protocolo utilizado. Algumas recomendações adotam média a partir de 130/80 mmHg, enquanto outras utilizam 135/85 mmHg. Por isso, o resultado deve ser interpretado de acordo com o método e o protocolo usados para realizar as medições. A diretriz brasileira de 2025, por exemplo, utiliza 130/80 mmHg para a MRPA.
A interpretação da MAPA também não é feita simplesmente contando quantas medições ficaram acima do normal. O mais importante é analisar as médias da pressão nos diferentes períodos, além do comportamento da pressão durante o dia e o sono.
Quais valores de pressão são considerados normais?
Para a pressão medida no consultório, Brasil e Portugal utilizam o mesmo limite para o diagnóstico de hipertensão: 140/90 mmHg ou mais. A principal diferença entre os dois países está na forma de classificar os valores abaixo desse limite.
No Brasil, considera-se pressão normal aquela abaixo de 120/80 mmHg. Valores entre 120–139 mmHg de pressão sistólica e/ou 80–89 mmHg de pressão diastólica são classificados como pré-hipertensão.
Em Portugal, a classificação é um pouco diferente: valores abaixo de 120/70 mmHg são considerados pressão arterial não elevada, enquanto valores a partir de 120/70 mmHg e abaixo de 140/90 mmHg são classificados como pressão arterial elevada.
Na prática, porém, a mensagem é semelhante: o risco cardiovascular aumenta progressivamente à medida que a pressão sobe, mesmo antes de atingir o limite utilizado para diagnosticar hipertensão. Por isso, valores acima da faixa ideal já justificam maior atenção aos hábitos de vida e aos demais fatores de risco cardiovascular.
Alguns exemplos ajudam a entender:
- 11 por 6 (110/60 mmHg): não é hipertensão e está dentro da faixa considerada adequada nos dois países.
- 12 por 8 (120/80 mmHg): não é hipertensão, mas já não pertence à faixa considerada ideal; é classificada como pré-hipertensão no Brasil e pressão arterial elevada em Portugal.
- 13 por 8 (130/80 mmHg): também não é hipertensão no consultório no Brasil ou em Portugal, mas está acima da faixa considerada ideal.
- 13 por 9 (130/90 mmHg): está na faixa de hipertensão porque a pressão diastólica atingiu 90 mmHg.
- 14 por 8 (140/80 mmHg): está na faixa de hipertensão porque a pressão sistólica atingiu 140 mmHg.
- 14 por 9 (140/90 mmHg): está na faixa de hipertensão.
Como mostram os exemplos de 13/9 e 14/8, não é necessário que a pressão sistólica e a diastólica estejam elevadas ao mesmo tempo. Se apenas uma delas atingir a faixa de hipertensão, a medida já é considerada elevada.
É importante lembrar que estar na faixa de hipertensão em uma única medição não significa necessariamente já ter o diagnóstico da doença. Na maioria dos casos, é preciso confirmar que a elevação é persistente por meio de novas aferições ou de medições realizadas fora do consultório.
Para saber mais, leia: Valores normais da pressão arterial.
Hipertensão do avental branco
A hipertensão do avental branco, também chamada de hipertensão do jaleco branco no Brasil ou hipertensão da bata branca em Portugal, ocorre quando a pressão está elevada no consultório, mas permanece normal quando medida adequadamente fora dele, por MAPA ou medições domiciliares.
O nome vem do fato de que algumas pessoas apresentam uma elevação transitória da pressão durante a consulta médica. Ansiedade, tensão ou simplesmente a reação ao ambiente de atendimento podem contribuir para esse aumento, mesmo quando o paciente não se percebe especialmente nervoso.
Por isso, quando a pressão está repetidamente alta no consultório, mas há dúvida se ela permanece elevada no dia a dia, a medição fora do ambiente médico é importante para confirmar o diagnóstico e evitar tratamento desnecessário.
A hipertensão do avental branco não é, porém, um achado que deva ser simplesmente ignorado. Essas pessoas apresentam maior probabilidade de desenvolver hipertensão sustentada ao longo do tempo e devem manter acompanhamento periódico da pressão, além de cuidados com peso, alimentação, atividade física e outros fatores de risco cardiovascular.
Hipertensão mascarada
A hipertensão mascarada é o oposto da hipertensão do avental branco: a pressão parece normal durante a consulta médica, mas fica elevada quando medida fora do consultório, em casa ou durante as atividades habituais.
Esse quadro merece atenção porque pode dar a falsa impressão de que a pressão está normal, atrasando o diagnóstico e o tratamento.
A hipertensão mascarada é particularmente relevante em pessoas com maior risco cardiovascular ou quando existem sinais de lesão causada pela pressão alta apesar de medidas normais no consultório.
Nessas situações, a avaliação fora do ambiente médico, por meio de MAPA ou medições domiciliares padronizadas, ajuda a confirmar o diagnóstico.
Quando identificada, a hipertensão mascarada não deve ser considerada um achado benigno, pois está associada a maior risco de complicações cardiovasculares e lesões de órgãos-alvo.
Quais exames são feitos após o diagnóstico?
Confirmar que uma pessoa tem hipertensão é apenas uma parte da avaliação.
Depois do diagnóstico, o médico procura responder a três perguntas principais:
- Existem outros fatores que aumentam o risco cardiovascular?
- A hipertensão já provocou lesões nos rins, coração, vasos ou outros órgãos?
- Existe alguma doença específica que possa estar causando a hipertensão?
A avaliação inicial costuma incluir exames como:
- Creatinina.
- Cálculo da taxa de filtração glomerular.
- Exame de urina.
- Relação albumina/creatinina na urina.
- Potássio.
- Glicemia.
- Hemoglobina glicada, quando indicada.
- Colesterol e triglicerídeos.
- Eletrocardiograma.
A pesquisa de creatinina, taxa de filtração glomerular, albuminúria e alterações cardíacas faz parte da avaliação de lesões de órgãos-alvo tanto nas recomendações brasileiras quanto portuguesas.
Outros exames, como ecocardiograma, ultrassonografia dos rins, exames das artérias renais, testes hormonais ou avaliação do fundo do olho, podem ser solicitados conforme os achados iniciais, a idade, a gravidade da hipertensão e a suspeita de alguma causa secundária.
Pressão arterial elevada causa sintomas?
Um dos principais problemas da hipertensão arterial é o fato de ela geralmente não provocar sintomas, mesmo quando permanece elevada durante anos.
Não existe um sintoma típico que permita saber se a pressão está normal ou alta sem realmente medi-la.
Achar que é possível adivinhar se a pressão está elevada com base na presença ou ausência de sintomas como dor de cabeça, cansaço, dor na nuca, dor nos olhos, sensação de peso nas pernas, tontura ou palpitações é um erro muito comum.
Uma pessoa que não costuma medir a pressão porque se sente bem pode perfeitamente ser hipertensa e não saber.
Da mesma forma, alguém que já sabe que tem hipertensão pode ter a falsa impressão de que a doença está controlada apenas porque não apresenta sintomas.
Não existe maneira confiável de avaliar a pressão arterial sem medi-la com um aparelho apropriado.
Algumas pessoas realmente apresentam dor de cabeça, mal-estar ou outros sintomas quando a pressão sobe muito. Isso, porém, não transforma esses sintomas em um indicador confiável.
Além disso, a relação pode ocorrer no sentido inverso: dor, ansiedade e mal-estar também podem elevar temporariamente a pressão.
Portanto, quando alguém apresenta dor de cabeça e pressão elevada ao mesmo tempo, nem sempre é possível afirmar que a dor foi causada pela hipertensão.
Para saber mais, leia: Sintomas da hipertensão arterial.
Com que frequência devemos medir a pressão arterial?
Como a hipertensão é frequentemente assintomática, a pressão deve ser medida periodicamente mesmo em pessoas aparentemente saudáveis.
As recomendações oficiais apresentam uma pequena diferença entre Brasil e Portugal.
No Brasil, a Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial recomenda que, idealmente, todos os adultos tenham a pressão medida pelo menos uma vez por ano.
Em Portugal, a Direção-Geral da Saúde recomenda a avaliação da pressão pelo menos a cada três anos em adultos com menos de 40 anos e anualmente a partir dos 40 anos.
Na prática, pessoas com pressão previamente elevada, histórico familiar de hipertensão, excesso de peso, diabetes, doença cardiovascular, doença renal ou outros fatores de risco podem precisar de acompanhamento mais frequente.
Para quem já tem diagnóstico de hipertensão, não existe uma frequência domiciliar única que sirva para todos.
A necessidade de medir a pressão em casa depende do grau de controle, dos medicamentos utilizados, de mudanças recentes no tratamento e das demais condições clínicas.
Os aparelhos automáticos de braço são adequados para uso domiciliar, desde que sejam modelos clinicamente validados e tenham manguito compatível com o tamanho do braço. A recomendação de utilizar equipamentos validados consta também da norma portuguesa.
Para saber como fazer a aferição corretamente, leia: Como medir a pressão arterial.
Complicações da hipertensão arterial
A hipertensão mal controlada pode provocar lesões progressivas nos vasos sanguíneos e em diversos órgãos. O risco aumenta quanto maiores forem os valores da pressão e quanto mais tempo ela permanecer elevada sem tratamento adequado.
Entre as principais complicações estão:
- AVC isquêmico ou hemorrágico.
- Infarto do miocárdio e doença coronariana.
- Insuficiência cardíaca.
- Fibrilação atrial e outras arritmias.
- Doença renal crônica.
- Retinopatia hipertensiva.
- Doença arterial periférica.
- Aneurisma e dissecção da aorta.
- Comprometimento cognitivo e demência vascular.
Um ponto importante é que essas alterações em órgãos importantes podem começar antes do aparecimento de sintomas. Albuminúria, redução da função renal, hipertrofia do ventrículo esquerdo e alterações da retina são exemplos de lesões que podem ser detectadas durante a avaliação do paciente hipertenso.
Por isso, o objetivo do tratamento não é apenas reduzir os números mostrados pelo aparelho de pressão. O principal benefício é diminuir o risco de lesões permanentes no coração, cérebro, rins, olhos e vasos sanguíneos.
Explicamos com mais detalhes como a pressão alta afeta cada órgão no artigo: Complicações da hipertensão arterial.
As lesões causadas pela hipertensão são reversíveis?
Depende do tipo e da gravidade da lesão.
Algumas alterações iniciais, como albuminúria e hipertrofia ventricular esquerda, podem diminuir quando a pressão é adequadamente controlada.
Entretanto, lesões já estabelecidas, como um AVC, perda importante da função renal ou determinados danos do coração, cérebro ou retina, podem ser permanentes.
Por isso, o melhor momento para controlar a hipertensão é antes do aparecimento das complicações, e não apenas quando elas começam a causar sintomas.
Crise hipertensiva: quando a pressão alta é uma emergência?
Uma elevação muito importante da pressão precisa ser avaliada com atenção, mas o valor mostrado pelo aparelho, isoladamente, não define uma emergência hipertensiva.
As recomendações atuais do Brasil e de Portugal utilizam como referência uma pressão de aproximadamente 180/110 mmHg ou mais para uma elevação importante, mas a gravidade depende principalmente da presença ou ausência de lesão aguda de órgãos.
Emergência hipertensiva
A emergência hipertensiva ocorre quando uma elevação importante da pressão arterial está acompanhada de lesão aguda e progressiva de algum órgão, como cérebro, coração, aorta, rins ou retina. Portanto, não é apenas o valor da pressão que define a emergência, mas principalmente o que essa elevação está provocando no organismo.
Entre as principais situações associadas estão:
- AVC ou encefalopatia hipertensiva.
- Infarto ou outra síndrome coronariana aguda.
- Edema agudo de pulmão.
- Dissecção da aorta.
- Insuficiência renal aguda.
- Retinopatia hipertensiva grave.
- Pré-eclâmpsia ou eclâmpsia.
Nessas situações, é necessária avaliação hospitalar imediata, pois a pressão precisa ser reduzida de forma controlada enquanto a complicação responsável pela emergência é identificada e tratada.
Pressão muito alta sem lesão aguda de órgãos
Uma pessoa pode apresentar pressão de 180/110 mmHg, 190/110 mmHg ou até mais elevada sem estar diante de uma emergência hipertensiva.
Nesses casos, apesar de a pressão estar muito alta, não há sinais de lesão aguda e progressiva de órgãos, como cérebro, coração, rins ou aorta. Essa situação era tradicionalmente chamada de urgência hipertensiva, mas atualmente prefere-se a expressão elevação importante da pressão arterial sem lesão aguda de órgão-alvo.
A conduta é diferente da emergência hipertensiva. A pressão não precisa ser reduzida em poucos minutos ou horas e não deve ser baixada abruptamente por conta própria, pois uma queda excessivamente rápida pode reduzir a irrigação de órgãos importantes. Em geral, o tratamento é ajustado com medicamentos por via oral e acompanhamento ambulatorial precoce.
O que fazer se a pressão estiver 18 por 11 ou mais?
Se uma medição em casa mostrar pressão igual ou superior a 180/110 mmHg, a primeira medida é repetir a aferição corretamente após alguns minutos de repouso, principalmente se a pessoa estiver ansiosa, com dor ou tiver acabado de realizar esforço físico.
Se a pressão permanecer muito elevada, é recomendável procurar orientação médica para avaliar a causa da elevação, confirmar se realmente não há lesão aguda de órgãos e ajustar o tratamento quando necessário.
Se junto com a pressão muito alta houver dor no peito, falta de ar importante, perda de força, dificuldade para falar, confusão mental, convulsões, alteração da consciência, dor súbita e intensa no peito ou nas costas ou alteração visual aguda, a avaliação deve ser imediata em um serviço de emergência.
Portanto, uma pressão de 18/11 é um valor importante e não deve ser ignorado, mas não significa automaticamente uma emergência hipertensiva. O que diferencia a emergência é principalmente a presença de lesão aguda de órgãos, e não apenas o número mostrado pelo aparelho.
Para saber mais, leia: Crise hipertensiva.
Como é feito o tratamento da hipertensão arterial?
O tratamento da hipertensão tem como principal objetivo reduzir o risco a longo prazo de AVC, infarto, insuficiência cardíaca, doença renal e outras complicações cardiovasculares.
Ele combina mudanças no estilo de vida e, quando indicado, medicamentos anti-hipertensivos.
Mudanças no estilo de vida
As medidas não medicamentosas são importantes tanto para quem já tem hipertensão quanto para pessoas cuja pressão está acima da faixa ideal, mas ainda não atingiu o limite de 140/90 mmHg.
As principais medidas incluem:
- Perder peso quando existe sobrepeso ou obesidade.
- Reduzir o consumo de sal.
- Priorizar frutas, hortaliças, legumes, leguminosas e cereais integrais.
- Reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados.
- Praticar atividade física regularmente.
- Reduzir o comportamento sedentário.
- Limitar o consumo de bebidas alcoólicas.
- Não fumar.
- Manter ingestão adequada de potássio pela alimentação, quando não houver contraindicação.
- Tratar condições associadas, como apneia obstrutiva do sono.
Tanto as recomendações brasileiras quanto portuguesas indicam limitar o consumo de sal a cerca de 5 gramas por dia, o equivalente a aproximadamente uma colher de chá rasa distribuída entre todo o sal presente nos alimentos consumidos durante o dia.
É importante lembrar que a maior parte do sódio da alimentação não vem necessariamente do sal adicionado à mesa.
Embutidos, refeições prontas, sopas instantâneas, salgadinhos, molhos, temperos industrializados e diversos alimentos ultraprocessados podem conter grandes quantidades de sódio.
Em relação à alimentação como um todo, tanto o padrão DASH quanto a dieta mediterrânea são boas referências de alimentação saudável para pessoas com pressão elevada.
A norma portuguesa destaca especificamente a dieta mediterrânea, com predomínio de frutas e hortaliças, leguminosas e cereais integrais.
Para atividade física, uma meta prática para a maioria dos adultos é realizar pelo menos 150 minutos por semana de exercício aeróbico de intensidade moderada, complementado, quando possível, por exercícios de força. Essa recomendação também consta da norma portuguesa de 2026.
Essas medidas não devem ser encaradas como um tratamento de pouca importância.
A combinação de alimentação adequada e exercício pode produzir uma redução clinicamente significativa da pressão e também melhora outros fatores de risco cardiovascular.
Quando é necessário tomar medicamentos para hipertensão?
Para a maioria das pessoas com hipertensão confirmada, isto é, pressão persistentemente igual ou superior a 140/90 mmHg, o tratamento inclui medicamentos anti-hipertensivos associados às mudanças no estilo de vida.
Isso significa que, atualmente, não é necessário que todo paciente passe vários meses tentando controlar a pressão apenas com dieta, exercício e redução do sal antes de iniciar tratamento farmacológico.
Quando a pressão ainda está abaixo de 140/90 mmHg, a indicação de medicamentos depende principalmente do risco cardiovascular global e das doenças associadas.
Nesse ponto, há uma pequena diferença entre as recomendações do Brasil e de Portugal.
No Brasil, pessoas com pressão entre 130–139/80–89 mmHg e alto risco cardiovascular podem ter indicação de medicamentos se permanecerem nessa faixa após cerca de três meses de mudanças no estilo de vida.
Em Portugal, o tratamento farmacológico pode ser iniciado mais precocemente em pessoas com pressão classificada como elevada quando o risco cardiovascular estimado em dez anos é de 10% ou mais.
Esses critérios servem como orientação geral. A decisão deve considerar também idade, presença de doença cardiovascular, diabetes ou doença renal, fragilidade, risco de hipotensão, outros medicamentos em uso e tolerância ao tratamento.
Qual é a meta da pressão arterial durante o tratamento?
Para a maioria das pessoas que já estão em tratamento para hipertensão, manter a pressão apenas abaixo de 140/90 mmHg não é mais considerado o objetivo ideal.
As recomendações atuais apontam para um controle mais rigoroso, desde que bem tolerado.
No Brasil, a meta geral é manter a pressão abaixo de 130/80 mmHg.
Em Portugal, a meta preferencial é uma pressão sistólica entre 120 e 129 mmHg e diastólica entre 70 e 79 mmHg, quando esses valores são tolerados.
Na prática, as duas recomendações são bastante semelhantes: para a maioria dos pacientes tratados, procura-se manter a pressão abaixo de 130/80 mmHg, sem provocar tonturas, desmaios, quedas ou outros efeitos adversos relacionados à pressão excessivamente baixa.
A meta deve ser individualizada em algumas situações, principalmente em pessoas muito idosas ou frágeis, pacientes com hipotensão ao ficar de pé e indivíduos que desenvolvem sintomas quando a pressão é reduzida de forma mais intensa.
Portanto, o objetivo do tratamento não é atingir determinado número a qualquer custo, mas reduzir ao máximo o risco de AVC, infarto, insuficiência cardíaca e doença renal mantendo boa tolerância ao tratamento.
Se hipertensão começa em 140/90, por que o tratamento tenta baixar a pressão para menos de 130/80?
Porque o critério utilizado para diagnosticar uma doença não precisa ser igual à meta utilizada depois que ela é tratada.
O limite de 140/90 mmHg é utilizado para definir hipertensão no consultório tanto no Brasil quanto em Portugal.
Depois que a hipertensão está diagnosticada, porém, reduzir a pressão para níveis menores proporciona maior proteção cardiovascular para a maioria dos pacientes que tolera o tratamento.
Por isso, as recomendações atuais adotam metas inferiores ao limite usado no diagnóstico.
Se a pressão normalizou, posso parar o remédio?
Na imensa maioria das vezes, não. Uma das causas frequentes de perda do controle da hipertensão é o paciente suspender os medicamentos porque percebeu que a pressão voltou ao normal.
Frequentemente, a pressão está normal justamente porque o tratamento está funcionando. Ao interromper o medicamento, ela pode voltar a subir.
Em alguns pacientes que perdem bastante peso ou fazem mudanças importantes e sustentadas no estilo de vida, pode ser possível reduzir doses ou até retirar medicamentos.
Essa decisão, porém, deve ser tomada com acompanhamento médico e monitorização da pressão.
Remédios para hipertensão arterial
Existem várias classes de medicamentos capazes de reduzir a pressão arterial. A escolha depende não apenas do valor da pressão, mas também da idade, presença de outras doenças, função renal, risco cardiovascular, possíveis efeitos adversos e uso de outros medicamentos.
As principais classes utilizadas no tratamento inicial da hipertensão são:
- Diuréticos tiazídicos ou semelhantes aos tiazídicos, como hidroclorotiazida, clortalidona e indapamida.
- Inibidores da enzima conversora da angiotensina (IECA), como enalapril, lisinopril, ramipril e captopril.
- Bloqueadores dos receptores da angiotensina II (BRA ou ARA II), como losartana, valsartana, candesartana e olmesartana.
- Bloqueadores dos canais de cálcio, como anlodipina, nifedipina e felodipina.
Essas classes podem ser usadas isoladamente ou em associação, de acordo com as características de cada paciente. As recomendações atuais do Brasil e de Portugal seguem, de modo geral, essa mesma estratégia.
Os betabloqueadores também são importantes, mas costumam ser preferidos quando existe uma indicação adicional para seu uso, como doença coronariana, infarto prévio, insuficiência cardíaca ou determinadas arritmias.
Muitos pacientes precisam de mais de um medicamento para atingir a meta de pressão. Por esse motivo, para boa parte dos hipertensos, o tratamento pode começar já com dois medicamentos de classes diferentes em doses baixas, de preferência combinados em um único comprimido quando essa apresentação estiver disponível. A terapia combinada facilita o controle da pressão e permite atuar simultaneamente sobre mecanismos diferentes que participam da hipertensão.
Isso não significa necessariamente que a hipertensão seja grave. Como a pressão arterial é regulada por vários mecanismos, a combinação de doses menores de dois medicamentos pode ser mais eficaz e melhor tolerada do que aumentar muito a dose de apenas um deles.
Em algumas situações, porém, começar com apenas um medicamento pode ser mais apropriado, como em pacientes com elevação discreta da pressão e baixo risco cardiovascular, pessoas muito idosas ou frágeis e indivíduos com maior risco de hipotensão.
Uma associação que deve ser evitada é o uso simultâneo de um IECA com um BRA/ARA II, pois bloquear o mesmo sistema por essas duas vias não aumenta o benefício cardiovascular ou renal e eleva o risco de efeitos adversos.
Depois de iniciar o tratamento, as doses e combinações podem ser ajustadas progressivamente até que a pressão atinja a meta com boa tolerância.
Quando a pressão permanece acima da meta apesar do uso correto de vários medicamentos, é preciso avaliar se o paciente está tomando os remédios regularmente, se a pressão está sendo medida corretamente, se existem medicamentos ou substâncias elevando a pressão e se há alguma causa secundária. Em alguns casos, pode tratar-se de hipertensão arterial resistente. A avaliação de adesão, causas secundárias e necessidade de ajuste do tratamento faz parte da abordagem recomendada nas diretrizes atuais.
Para conhecer as principais classes, indicações, contraindicações e efeitos colaterais, leia: Remédios para pressão alta.
- European Society of Cardiology. 2024 ESC Guidelines for the Management of Elevated Blood Pressure and Hypertension.
- Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025. Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedade Brasileira de Hipertensão e Sociedade Brasileira de Nefrologia.
- Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 001/2026, de 04/03/2026 — Abordagem Diagnóstica e Terapêutica da Pessoa com Hipertensão Arterial.
- High Blood Pressure in Adults: Screening – U.S. Preventive Services Task Force.
- Overview of hypertension in adults – UpToDate.
- Hypertension in adults: Initial management – UpToDate.

Dúvidas de leitores sobre este tema
Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.
Mais comentários dos leitores
Sou magra, faço exercício e quase não uso sal. Mesmo assim posso ter hipertensão?
Minha pressão às vezes está 12 por 8 e em outros momentos chega a 15 por 9. Posso ser hipertenso mesmo tendo várias medidas normais?
Minha pressão costuma dar 15 por 7. Como o segundo número está normal, isso é uma hipertensão menos grave?
Bom dia,
Gostaria de saber se crise de refluxo e ansiedade pode aumentar pressão arterial.
Obrigada desde já…
Olá! estou feliz por achar seus artigos, quanta informações legais, que bom que está compartilhando, parabens.
Qual e o órgão afetado pela hipertensão?