Doença da arranhadura do gato: o que é, sintomas e tratamento


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Revisado e atualizado em outubro 15, 2025
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O que é a doença da arranhadura do gato?

A chamada doença da arranhadura do gato é uma infecção provocada por arranhões de gatos infectados com a bactéria Bartonella henselae.

A Bartonella henselae é transmitida para os gatos através das pulgas e não costuma provocar sintomas nos felinos. Os filhotes com menos de 1 ano são o grupo com maior risco de ter infecção ativa.

A infecção felina pela bactéria é extremamente comum, mesmo em gatos domésticos.

Um estudo na Califórnia mostrou que 3 em cada 4 gatos já estiveram infectados com a bactéria e cerca de 20% ainda tinham a bactéria ativa e eram capazes de transmitir a infecção para humanos. Outros estudos mostram que pelo menos 40% dos gatos terão contato com a bactéria em algum momento da vida.

Todos os gatos infectados apresentam aparência saudável, sendo impossível saber de antemão quais estão contaminados com a bactéria.

Nos humanos, a infecção pela Bartonella é mais comum em crianças, idosos e pacientes com o sistema imunológico fraco. Nos adultos saudáveis, a infecção costuma ser assintomática ou com sintomas brandos.

A doença ocorre no mundo inteiro. Nos Estados Unidos, a estimativa é de 22 mil casos novos por ano. Nos países de clima úmido e quente, a doença é ainda mais comum, pois o clima favorece a proliferação e transmissão de pulgas.

Transmissão

A doença da arranhadura do gato, como o próprio nome sugere, é habitualmente transmitida pelo arranhão de gatos infectados. Essa, porém, não é a única via.

Mordidas ou lambidas em feridas na pele, boca ou olhos também podem transmitir a bactéria. A picada da pulga contaminada pode ser também uma forma de transmissão, mas essa via nunca foi efetivamente comprovada.

A transmissão para os humanos é até 15 vezes mais comum quando o arranhão é feito por gatos com menos de 1 ano de idade.

Mais de 90% dos pacientes com doença da arranhadura do gato relatam um histórico recente de contato com gato, geralmente filhote, e cerca de 75% desses pacientes lembram de terem sido mordidos ou arranhados.

Raramente, a doença pode ser transmitida por cães. Isso ocorre porque a pulga dos gatos (Ctenocephalides felis) também pode parasitar os cachorros. Os gatos, porém, são o reservatório favorito da bactéria.

Sintomas

Lesão de inoculação

A doença da arranhadura do gato tipicamente começa com o surgimento de um ou mais pápulas ou nódulos de coloração avermelhada ou escurecida com 3 a 5 mm de diâmetro no local do arranhão.

Ferida de inoculação da doença da arranhadura do gato
Ferida de inoculação

Esses nódulos, chamados de lesão de inoculação, demoram de 3 a 10 dias para surgirem e duram de 1 a 3 semanas.

Linfadenopatia

Após o desaparecimento da lesão de inoculação, surge o sinal característico da doença, que é o aumento de um ou mais linfonodos (gânglios) próximo da região do arranhão ou mordida.

Os locais mais comuns são os linfonodos localizados nas axilas, pescoço ou atrás da orelha, pois a maioria das mordidas e arranhões ocorre nos braços ou mãos. Nos pacientes arranhados nas pernas, a virilha é um local comum de linfadenopatia.

Os gânglios aumentados costumam ser dolorosos, avermelhados e com tamanhos que variam de 1 a 10 cm. Alguns desses linfonodos podem supurar e drenar pus.

A linfadenopatia geralmente desaparece de um a quatro meses, mas há casos descritos de linfonodos aumentados por mais de um ano.

Linfadenopatia da doença da arranhadura do gato
Linfadenopatia da doença da arranhadura do gato

A lesão de inoculação e a linfadenopatia são as duas manifestações mais comuns da doença da arranhadura do gato e ocorrem mais frequentemente em crianças com menos de 15 anos.

Outros sinais e sintomas

Além da linfadenopatia, aproximadamente 50% dos pacientes também apresentam sintomas sistêmicos inespecíficos, tais como:

  • Mal-estar.
  • Cansaço.
  • Febre.
  • Anorexia.
  • Dor de cabeça.
  • Dor de garganta.
  • Dor nas articulações.

Nos idosos, a infecção pela Bartonella henselae pode provocar um quadro atípico, com sintomas menos claros. Mal-estar generalizado e febre de origem obscura são sintomas comuns nos idosos, e até 1 em cada 4 pacientes acima de 60 anos não apresenta aumento dos linfonodos.

Idosos, crianças pequenas e pacientes com imunossupressão apresentam maior risco de desenvolver infecção em algum órgão, como fígado, baço, endocardite (infecção das válvulas do coração) ou meningite.

A tabela abaixo resume os principais sintomas da doença, a frequência e o tempo de duração.

SintomaFrequência (%)Dias de duração
Linfadenopatia10014-180
Linfadenopatia sem
outros sintomas
5214-180
Lesão de inoculação59-937
Febre32-606
Cansaço2913
Dor de cabeça134
Perda de peso145
Aumento do baço1211
Dor de garganta 52
Rash na pele58.5
Aumento das
parótidas
2
Conjuntivite4.5

Complicações

Existem várias complicações possíveis da doença da arranhadura do gato, felizmente, elas são raras e só costumam ocorrer em pacientes com problemas graves no sistema imunológico.

Encefalopatia

Encefalopatia é o acometimento do sistema nervoso central e pode surgir quando a bactéria alcança a corrente sanguínea e chega ao cérebro.

Pacientes com encefalopatia tipicamente desenvolvem confusão mental e desorientação de rápida evolução, que pode progredir para coma.

O quadro costuma surgir aproximadamente uma a seis semanas após a linfadenopatia. A maioria dos pacientes apresenta convulsões e alguns desenvolvem achados neurológicos focais, tais como perda força ou paralisia de metade do corpo, como resultado de vasculite cerebral.

Em alguns casos, a encefalopatia resulta em dano cerebral permanente ou até morte.

Neurorretinite

Neurorretinite é uma inflamação do nervo óptico e da retina que ocorre em 1 a 2% dos casos. Febre, mal-estar e visão turva em um dos olhos é a apresentação mais comum.

A visão geralmente melhora após o término da infecção. Alguns pacientes podem ficar com alterações permanentes na visualização de cores e contrastes.

Síndrome oculoglandular de Parinaud

A síndrome oculoglandular de Parinaud é uma infecção ocular que ocorre em 2 a 8% dos pacientes. A doença da arranhadura dos gatos é uma das causas mais comuns dessa síndrome.

O quadro clínico é de linfadenopatia associada à infecção da conjuntiva, pálpebra ou superfície da pele ao redor dos olhos. As queixas mais comuns incluem conjuntivite, sensação de corpo estranho e lacrimejamento excessivo, que pode ser purulento e abundante em alguns pacientes.

Diagnóstico

Nos casos típicos, com lesão de inoculação e linfonodos aumentados, basta também haver história de contato com gatos para o médico poder iniciar o tratamento. A história e os sintomas típicos bastam.

A confirmação pode ser feita por exames de sangue conhecidos como sorologia (pesquisa de anticorpos) ou PCR (pesquisa do DNA da bactéria).

Raramente é necessário fazer biópsia do linfonodo para fechar o diagnóstico.

Tratamento

Apesar da doença ser auto-limitada na maioria dos casos, alguns especialistas sugerem tratamento com antibiótico para todos os pacientes com sintomas, como forma de reduzir o risco de complicações e acometimento dos órgãos.

Muitos médicos, porém, só prescrevem antibiótico nos casos com linfadenopatia grande e dolorosa ou em pacientes idosos ou imunossuprimidos.

Crianças com poucos sintomas não costumam receber antibióticos.

Antibióticos

O esquema antibiótico mais utilizado é Azitromicina 500 mg no primeiro dia, seguido por 250 mg por mais 4 dias.

Nas crianças, as doses são ajustadas de acordo com o peso. O esquema mais prescrito é:

  • Crianças com menos de 45 kg: 10 mg/kg no dia 1, seguido de 5 mg/kg por quatro dias;
  • Crianças com mais de 45 kg: 500 mg no dia 1, seguido de 250 mg por quatro dias (igual aos adultos).

Outros opções de antibióticos incluem:

  • Claritromicina 500 mg 12/12 horas por 7 a 10 dias.
  • Rifampicina 300 mg 12/12 horas por 7 a 10 dias.
  • Ciprofloxacino 500 mg 12/12 horas por 7 a 10 dias (somente para adultos).
  • Sulfametoxazol-trimetoprim 160/800 mg de 12/12 horas por 7 a 10 dias.

A infecção pela Bartonella henselae costuma provocar imunidade permanente. Isso significa que o paciente só tem a doença uma vez na vida, pois desenvolve anticorpos de forma eficiente contra a bactéria.

Prevenção

A forma mais simples de prevenir a doença da arranhadura do gato é evitar contato direito com gatos, principalmente os filhotes e os gatos de rua. Essa é a forma de prevenção mais indicada para pessoas com sistema imunológico fraco ou idosos com múltiplas doenças.

Para os donos de gatos, o ideal é deixá-los sempre dentro de casa, evitando contato com gatos de rua. O controle frequente das pulgas com medicamentos também é importante.


Referências



Dúvidas de leitores sobre este tema

Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.

Mais comentários dos leitores

  1. Nilson Santos Pires

    Bom dia. Fui arranhado pelo gato. Estou com o local com feridas e inflamado. Dói muito.

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro (CRM RJ 73009-2) Autor

    Arranhão de gato que evolui com ferida inflamada, dor importante, vermelhidão ou inchaço precisa ser avaliado presencialmente por um médico, pois pode estar havendo infecção bacteriana da pele. Em alguns casos, é necessário usar antibióticos, fazer limpeza adequada da ferida ou até drenar se houver pus.

    Também é importante verificar se a vacina do tétano está em dia e se há necessidade de avaliação para raiva, principalmente se o gato for desconhecido, de rua, estiver doente ou não puder ser observado.

  2. Renata Vaz

    Olá, peguei a bateria bartonela. Atacou minha visão do olho direito.

  3. Linara Alcântara Holanda

    Fui arranhada por um gato, o local inchou e ficou roxo na hora e dias depois está com um pequeno gânglio. É caso para medicação ou somente esperar sarar?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    É caso para investigar. Pode ser necessário tratar.

  4. Carlos jose pacheco

    Essa doença do gato costuma deixa os pés inchado

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Não é um sintoma habitual.

  5. DANILE MOURA

    Ficou tudo muito bem esclarecido qto a rangadura e que devo procurar o médico para meu filho, para receitar o antibiótico se achar necessário. Mas qto ao gato? Tem algum tratamento para ele? Posso tratar meu filho e continuar com o gato pq intedi que ele adquirí imunidade, mas o gato pode continuar transmitido para outros pessoas da casa?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    O gato precisa ser avaliado pelo veterinário, até porque a origem da doença pode ser a pulga do gato.

  6. Luanda Carvalho

    Algum médico pode me ajudar? Meu marido foi arranhado e tá ficando feio e crescendo, tá tomando cefalexina e traxonol, vcs recomendam outro remédio?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Luanda, não posso receitar pela Internet. O que eu posso sugerir é que você procure um médico e explique que uso da cefalexina não está dando resultado. Não me parece que seja o antibiótico mais indicado nesse caso.

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