Colchicina – Indicações, doses e efeitos adversos

O que é a colchicina?

A colchicina (colquicina em Portugal) é um fármaco derivado da planta Colchicum autumnale ou açafrão-do-prado, que há séculos é utilizada como terapia medicinal contra doenças articulares devido à sua ação anti-inflamatória.

Apesar de utilizada desde os povos antigos e de estar presente no mercado desde 1961, a eficácia da colchicina só começou a ser cientificamente comprovada a partir da década de 1980 com a publicação dos primeiros estudos controlados sobre a droga no tratamento das crises de gota, uma forma de artrite que surge quando há deposição de cristais de ácido úrico nas articulações.

Explicamos a doença gota e os riscos do ácido úrico elevado nos artigos:

Curiosamente, a colchicina só foi aprovada para uso nos Estados Unidos pelo FDA em 2009. Até então, ela era utilizada como medicamento não aprovado, sem informações de prescrição, recomendações de dosagem ou advertências de interações medicamentosas devidamente estabelecidas.

Apesar de utilizada há séculos, a comprovação por estudos científicos criteriosos fazia falta porque a colchicina apresenta um perfil de efeitos colaterais bem extenso e doses tóxicas eram frequentemente prescritas.

De fato, a colchicina é definida como um fármaco de índice terapêutico estreito, ou seja, a dose na qual a substância exerce seus efeitos benéficos é muito próxima da dose na qual ela passa a ser tóxica.

A colchina talvez seja uma das substâncias que melhor ilustra a frase atribuída a Paracelso (1493-1541): “Todas as substâncias são venenos; não existe uma que não seja veneno. A dose certa diferencia um veneno de um remédio”.

Indicações

A colchicina é um medicamento devidamente aprovado para apenas duas situações:

  • Tratamento da Febre familiar do Mediterrâneo.
  • Prevenção e tratamento da artrite gotosa (Gota).

O medicamento também é frequentemente prescrito, mas de forma off-label, para as seguintes condições:

  • Doença de Behçet.
  • Artrite por depósito de cristais de pirofosfato de cálcio (pseudogota).
  • Pericardite aguda ou recorrente.
  • Prevenção da Síndrome pós-pericardiotomia.
  • Prevenção secundária na doença isquêmica cardíaca.
  • Síndrome de Sweet (dermatose neutrofílica febril aguda).
  • Vasculite cutânea de pequenos vasos idiopática.
  • Doença de Peyronie.

Tratamento para gota

A colchicina é uma substância que apresenta potente efeito anti-inflamatório. Seu mecanismo de ação ainda não está totalmente esclarecido, mas se dá através da inibição de vários processos envolvidos na produção de inflamação pelo organismo, incluindo ação inibitória sobre células de defesa, como neutrófilos e monócitos.

A colchicina não age diretamente sobre a causa da gota, que são os níveis elevados de ácido úrico no sangue. Para esse efeito, outros medicamentos devem ser utilizados, como alopurinol, febuxostat ou probenecid.

A colchicina age exclusivamente no controle da inflamação da gota. Portanto, sua principal indicação é o tratamento da crise aguda de gota.

Por ser um fármaco com índice terapêutico estreito e com frequentes efeitos adversos, atualmente damos preferência aos corticoides, como prednisona, ou aos anti-inflamatórios não esteroides no tratamento agudo da gota. A colchicina costuma ficar reservada como opção para quando esses dois fármacos não podem ser utilizados.

Tratamento da Covid-19

Alguns estudos pequenos têm sugerido eficácia da colchicina como tratamento precoce da covid-19, porém essa utilização ainda carece de evidências mais robustas.

Em 23 de Janeiro de 2021, o Instituto de Cardiologia de Montreal divulgou press release sobre um estudo clínico chamado COLCORONA. Nessa divulgação, eles afirmam ter finalizado um ensaio clínico controlado com mais de 4000 pacientes no qual demonstraram que o uso precoce da colchicina reduziria em 25% as hospitalizações, 50% a necessidade de ventilação mecânica e 44% a mortalidade geral.

É importante destacar que esses dados ainda não foram publicados em nenhum jornal científico de grande impacto nem foram submetidos ao processo de revisão por pares (peer-review). Portanto, por mais que a notícia seja promissora, até o momento ela não é nada mais do que uma informação ainda sem comprovação científica.

Como a colchicina é um fármaco com elevado risco de toxicidade e grande número de interações medicamentosas, o seu uso deve ser evitado sem o devido aconselhamento médico.

Quando o estudo COLCORONA for publicado em algum jornal médico para devida avaliação da comunidade científica, este artigo será atualizado.

Nomes comerciais

A colchicina pode ser encontrada na forma genérica ou através dos seguintes nomes comerciais:

  • Cixin.
  • Colchicine.
  • Colchis.
  • Cocichimil.
  • Colcitrat
  • Goltrite.

A apresentação mais comum no Brasil é a de comprimidos de 0,5 mg. Em Portugal, a apresentação mais comum é a de comprimidos de 1,0 mg.

Doses indicadas

Prevenção da gota

Posologia: 0,5 mg uma a três vezes ao dia (a cada 24 horas, de 12 em 12 horas ou de 8 em 8 horas).

Tratamento da crise de gota

Posologia:

Dia 1: 1,0 a 1,5 mg ao primeiro sinal de crise de gota, seguido de mais uma dose de 0,5 mg após 1 hora. Esquema alternativo: 0,5 mg 3 vezes ao dia no primeiro dia da crise.

Dia 2 em diante: 0,5 mg uma ou duas vezes ao dia até a resolução da crise. Alguns especialistas continuam o medicamento por mais 2 a 3 dias após a resolução do quadro.

Nota: historicamente, regimes com doses mais altas têm sido administrados para crises de gota, como 0,5 mg a 1,5 mg, seguido de 1 comprimido a intervalos de 1 ou 2 horas, até que ocorra o alívio da dor ou aparecimento de efeitos colaterais, como diarreia, vômitos ou cólicas abdominais.

No entanto, os regimes de alta dose têm sido cada vez menos indicados, pois não se mostraram mais eficazes do que os regimes de baixa dose e ainda apresentam maior risco de toxicidade.

Febre familiar do Mediterrâneo

Nota: para prevenção de ataques e prevenção do desenvolvimento e progressão da amiloidose.

Posologia:

Inicial: 1 a 1,5 mg/dia em dose única diária; se doses únicas diárias não forem toleradas, administre em doses divididas. Pode-se considerar uma dose inicial mais baixa de 0,5 mg com subsequente aumento da dose para melhorar a tolerância.

Titulação: aumentar a dose em incrementos de 0,5 mg conforme indicação clínica; a titulação é recomendada em pacientes com crises mais frequentes do que a cada 3 meses e/ou com marcadores inflamatórios persistentemente elevados. Em geral, um período de 3 meses de dosagem estável de colchicina é aconselhado antes de avaliar a resposta, embora um esquema de titulação mais rápido possa ser considerado com base na frequência das crises.

Dose máxima indicada: 3 mg/dia.

Efeitos colaterais

Efeitos gastrointestinais, incluindo náuseas, vômitos, cólicas e diarreia, são as reações adversas mais comuns associadas à terapia com colchicina. Os sintomas geralmente desaparecem rapidamente após a redução da dose ou descontinuação do tratamento.

Até 20% dos pacientes apresentam efeitos gastrointestinais.

Efeitos adversos graves

As manifestações tóxicas associadas à colchicina incluem, rabdomiólise, mielossupressão, coagulação intravascular disseminada, lesão de células nos sistemas renal, hepático, circulatório e nervoso central. Em casos de grave intoxicação, o paciente pode falecer.

Estes efeitos graves ocorrem mais frequentemente com acumulação excessiva ao longo do tempo ou superdosagem do medicamento.

Overdose

A dose de colchicina a partir da qual há toxicidade significativa varia de acordo com cada pessoa.

Intoxicações fatais já foram relatadas em pacientes após a ingestão de uma dose tão baixa quanto 7 mg em um período de 4 dias, enquanto outros pacientes teriam sobrevivido após a ingestão de mais de 60 mg.

Um estudo com 150 pacientes que receberam overdose de colchicina descobriu que aqueles que ingeriram menos de 0,5 mg/kg sobreviveram e tenderam a ter apenas reações adversas mais leves, como sintomas gastrointestinais. Já aqueles que ingeriram de 0,5 a 0,8 mg/kg tiveram reações adversas mais graves, incluindo mielossupressão. Houve 100% de mortalidade entre os pacientes que ingeriram mais de 0,8 mg/kg.

Contraindicações

Pacientes com insuficiência renal ou hepática não devem tomar colchicina se já utilizam medicamentos que inibem a glicoproteína-P ou inibidores do CYP3A4 (fornecemos uma lista mais abaixo, na seção de interações medicamentosas), devido ao risco de toxicidade fatal.

Colchicina não deve ser tomada em conjunto com suco de toranja, pois o mesmo aumenta a toxicidade do medicamento.

O medicamento deve ser evitado em grávidas e lactantes, exceto nas pacientes com Febre familiar do Mediterrâneo quando não houver outras alternativas de tratamento disponíveis.

Interações medicamentosas

A colchicina deve ser evitada em conjunto com medicamentos que sejam do grupo dos inibidores da glicoproteína-P ou dos inibidores do citocromo P-450 CYP3A4. Os mais comuns estão listados abaixo:

  • Atazanavir.
  • Atorvastatina.
  • Azitromicina.
  • Cetoconazol.
  • Ciclosporina.
  • Claritromicina.
  • Digoxina.
  • Diltiazem.
  • Efavirenz.
  • Eritromicina.
  • Goldenseal (Hydrastis canadensis).
  • Indinavir.
  • Itraconazol.
  • Loperamida.
  • Lopinavir.
  • Pravastatina.
  • Ritonavir.
  • Rosuvastatina.
  • Saquinavir.
  • Sinvastatina.
  • Tacrolimus.
  • Toranja.
  • Verapamil.
  • Voriconazol.

Nota: a lista acima não está completa, inclui apenas os medicamentos mais comuns. Converse com o seu médico antes de iniciar o tratamento.


Referências


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Médico graduado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com títulos de especialista em Medicina Interna e Nefrologia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e pela Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN). Títulos reconhecidos pela Universidade do Porto e pelo Colégio da Especialidade de Nefrologia de Portugal.