Hemoglobina glicada HbA1c: entenda os resultados

Autor(a): Dr. Pedro Pinheiro

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Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

O que é a hemoglobina glicada?

A dosagem da hemoglobina glicada, também chamada de hemoglobina glicosilada, hemoglobina A1c ou simplesmente HbA1c, é um exame de sangue muito utilizado para o acompanhamento dos pacientes diabéticos, por ser ele uma forma eficaz de avaliar os níveis médios da glicose sanguínea nos últimos 2 ou 3 meses.

A dosagem regular da hemoglobina glicada nos ajuda a saber se tratamento do diabetes mellitus está sendo eficaz para controlar a glicemia (nível de glicose no sangue), ajudando, assim, a reduzir o risco de complicações oriundas do diabetes mellitus mal controlado, tais como cegueira, amputações e doenças cardiovasculares.

A hemoglobina glicada também pode ser utilizada para o diagnóstico do diabetes, apesar de a glicemia em jejum ainda ser o exame mais utilizado para esse fim.

Neste artigo vamos explicar o que é a hemoglobina glicada, para que ela serve, quais são os seus valores normais e o que o paciente deve fazer quando a hemoglobina glicada estiver muito alta.

Como a hemoglobina glicada estima a glicemia média?

A hemoglobina é uma proteína presente em todas as nossas hemácias, que são as células responsáveis pelo transporte de oxigênio na circulação sanguínea.

Nos pacientes com diabetes, principalmente naqueles mal controlados que apresentam glicemia persistentemente elevada, o excesso de glicose acaba por facilitar a ocorrência de um processo chamado glicação da hemoglobina, que nada mais é do que a ligação das moléculas de glicose à hemoglobina circulante, formando um complexo chamado hemoglobina glicada.

A hemoglobina tem uma vida média de 3 meses. Após esse tempo, ela é destruída junto com as hemácias no baço, um órgão localizado na região superior do abdômen esquerdo. 

Como o processo de glicação da hemoglobina é irreversível, isso significa que uma vez glicada, a hemoglobina assim permanecerá até ser destruída.

Quanto mais elevada for a glicemia, maior será a formação de hemoglobina glicada. Portanto, pacientes com diabetes descontrolado têm hemoglobina A1c elevada, enquanto pacientes com diabetes bem controlado têm valores de hemoglobina A1c dentro da faixa considerada adequada. 

Sendo assim, os níveis de hemoglobina glicada nos ajudam, indiretamente, a identificar o quão eficaz está sendo o tratamento e como tem andado a glicemia do paciente nos últimos 2 ou 3 meses.

O teste da HbA1c conta o número de células vermelhas do sangue que estão glicadas, ou seja, ligadas a uma molécula de glicose. Se um paciente tem uma hemoglobina glicada de 7%, por exemplo, isso significa que 7 de cada 100 células vermelhas do seu sangue estão glicadas.

Nos indivíduos não diabéticos, o valor da hemoglobina A1c costuma ser menor que 5,6%. Nos pacientes com diabetes descontrolado, a HbA1c pode chegar a valores acima de 12%.

Para que serve?

Imagine a seguinte situação: um paciente pouco aderente ao tratamento passou os últimos meses sem seguir a dieta e esteve tomando os medicamentos para o diabetes de forma irregular. Nesse período, sua glicose esteve descontrolada, muito acima do nível desejável. Faltando uma semana para o exame, o paciente resolve, então, aderir à dieta e passa a tomar os medicamentos corretamente. No dia de colher o sangue, sua glicose em jejum está controlada.

Se não existisse a hemoglobina glicada, e o médico utilizasse apenas o resultado da glicemia em jejum, ele poderia julgar que o tratamento da diabetes do paciente está adequado, uma vez que a sua glicemia em jejum encontra-se dentro da faixa desejada. Porém, como a hemoglobina glicada representa a glicemia média nos últimos 2-3 meses, é fácil para o médico identificar que, apesar da glicemia em jejum adequada no dia do exame, a glicemia esteve complemente descontrolada nos últimos meses.

Portanto, atualmente, a hemoglobina glicada é o exame mais importante no acompanhamento do paciente diabético, pois é ela quem vai sinalizar se o tratamento proposto está sendo eficaz ou não.

Em geral, os médicos solicitam a dosagem da HbA1c entre 2 e 4 vezes por ano, conforme as características clínicas de cada paciente.

Mas a hemoglobina A1c não serve apenas para o seguimento do paciente diabético. Conforme veremos mais à frente, ela também pode ser utilizada como forma de diagnosticar o diabetes.

Valores normais

Existe uma diferença entre os conceitos de valor normal e valor desejável da hemoglobina A1c. Valor normal é aquele que ocorre nos indivíduos saudáveis, que não são diabéticos. Nestes, o valor da hemoglobina glicada costuma ficar entre 4,0 e 5,6%. Essa é a faixa considerada normal.

Como já referido, os pacientes portadores de diabetes mellitus apresentam uma taxa de glicação da hemoglobina bem mais alta que o normal. Portanto, não é esperado que a hemoglobina A1c dos pacientes diabéticos esteja dentro dos valores normais. Nos diabéticos, o valor desejável de HbA1c é até 7%, bem mais alto, portanto, que o limite de 5,6% dos indivíduos não-diabéticos.

O valor de 7% foi definido como ideal porque a partir deste ponto as complicações do diabetes começam a se tornar mais frequentes.

Sendo assim, os valores da hemoglobina glicada são interpretados da seguinte forma:

  • 4,0 a 5,6%: resultado normal. Valor esperado para pessoas não diabéticas.
  • Entre 5,7 e 6,4%: resultado anormal, que indica pré-diabetes, ou seja, elevado risco do paciente desenvolver diabetes a curto prazo.
  • Entre de 6,5 e 7,0% em pacientes sem diagnóstico de diabetes: resultado anormal, que indica diabetes (ver diagnóstico do diabetes mais adiante para saber mais detalhes).
  • Entre de 6,5 e 7,0% em pacientes sabidamente diabéticos e em tratamento: resultado desejado, que indica controle adequado da glicemia.
  • Entre de 7,0% e 7,9%: resultado anormal para adultos diabéticos, mas que pode ser tolerado em pacientes idosos ou crianças, pois esses fazem parte de um grupo com maior risco de desenvolver episódios de hipoglicemia com a medicação para o diabetes.
  • Acima de 8,0%: resultado anormal, que indica diabetes mal controlado.

O que é a padronização IFCC de HbA1c?

Tradicionalmente, a HbA1c é relatada como uma porcentagem da hemoglobina total. A Federação Internacional de Química Clínica e Medicina Laboratorial (IFCC) estabeleceu um novo sistema de medição de referência para a padronização mundial da HbA1c.

A IFCC recomenda que a concentração de HbA1c seja informada em mmol de HbA1c por mol de hemoglobina, ou seja, em mmol/mol.

Essa alteração visa padronizar e facilitar a comparação dos resultados de HbA1c de diferentes laboratórios e ensaios de pesquisa clínica em todo o mundo.

Portanto, muitos laboratórios atualmente divulgam o resultado da hemoglobina glicada de duas formas distintas:

  • A tradicional forma percentual de relatar os valores de HbA1c é conhecida como unidades DCCT (Diabetes Control and Complications Trial).
  • Os novos valores em mmol/mol são conhecidos como unidades da IFCC (International Federation of Clinical Chemistry).

Relação da hemoglobina glicada com a glicemia em jejum

A partir do resultado da HbA1c, podemos também estimar como andou, em média, a glicemia ao longo dos últimos 2 ou 3 meses.

A tabela a seguir mostra a relação entre os valores de HbA1c (DCCT e IFCC) e a glicemia diária média.

HbA1c (DCCT)HbA1c (IFCC) Glicemia média
4,0%20 mmol/mol68 mg/dl
5,0% 31 mmol/mol97 mg/dl
5,5%36,6 mmol/mol111 mg/dl
6,0%42 mmol/mol126 mg/dl
6,5%47,5 mmol/mol140 mg/dl
7,0%53 mmol/mol154 mg/dl
7,5%58,5 mmol/mol169 mg/dl
8,0%64 mmol/mol183 mg/dl
8,5%69 mmol/mol197 mg/dl
9,0%75 mmol/mol212 mg/dl
9,5%80 mmol/mol226 mg/dl
10%86 mmol/mol240 mg/dl
10,5%91 mmol/mol255 mg/dl
11%97 mmol/mol269 mg/dl
11,5%102 mmol/mol283 mg/dl
12%108 mmol/mol298 mg/dl
13%118,6 mmol/mol362 mg/dl
14%129,5 mmol/mol355 mg/dl

Hemoglobina glicada como forma de diagnóstico do diabetes mellitus

Nos últimos anos tem se tornado cada vez mais comum a utilização da hemoglobina A1c como forma de diagnosticar o diabetes mellitus.

Estudos têm mostrado que a HbA1c é tão confiável quanto a glicemia em jejum para este fim, sendo que a hemoglobina glicada ainda tem a vantagem de não precisar de jejum para ser colhida.

Para o diagnóstico do diabetes é preciso que o paciente tenha dois exames, colhidos em dias diferentes, com hemoglobina glicada acima de 6,5%. Não basta apenas um exame, é preciso a confirmação.

Dois exames com valores de HbA1c entre 5,7 e 6,4% são indicativos de pré-diabetes (leia: Pré-diabetes – Diagnóstico, riscos e tratamento).

Se você quiser saber mais sobre esse assunto, explicamos as diversas formas de diagnosticar o diabetes no seguinte artigo: Diagnóstico do diabetes mellitus.

O que fazer para baixar a hemoglobina glicada?

Como já foi exaustivamente explicado neste artigo, o valor da hemoglobina A1c é o resultado do controle do diabetes nas últimas 8 a 12 semanas. Se um paciente tem uma hemoglobina glicada elevada, especialmente se ela estiver acima de 8%, isso é um sinal de que o tratamento do seu diabetes deve ser revisto, pois ele não está sendo eficaz.

O primeiro ponto é confirmar se o paciente tem sido aderente à dieta proposta e ao tratamento medicamentoso. Muitas vezes, não é o medicamento que está na dose errada, mas sim a adesão do paciente ao mesmo. Se o diabético não faz dieta e não toma os medicamentos da forma correta, não há estratégia terapêutica que consiga controlar a hemoglobina A1c.

Outro fator que deve ser explorado é a atividade física e o controle do peso corporal. Nem sempre é necessário aumentar a dose dos medicamentos ou alterar o tipo de remédio que o paciente usa. A perda de peso e a atividade física regular podem ser suficientes para ajudar a baixar os valores da HbA1c.

Situações que podem interferir no resultado

A hemoglobina glicada é um exame bastante confiável. Porém, algumas situações podem causar falsas elevações nos seus valores, como, por exemplo:

  • Alcoolismo.
  • Insuficiência renal.
  • Anemia por deficiência de ferro.
  • Anemia por carência de vitamina B12 ou ácido fólico.

Referências


Autor(es)

Médico graduado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com títulos de especialista em Medicina Interna e Nefrologia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), Universidade do Porto e pelo Colégio de Especialidade de Nefrologia de Portugal.

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