Exames para diagnóstico e seguimento do diabetes

Autor(a): Dr. Pedro Pinheiro

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Exames para avaliar a glicemia

O diabetes mellitus é definido por níveis elevados de glicemia (glicose no sangue), e o controle glicemia é um componente integral no tratamento do diabetes.

Há pelo duas décadas existem evidências científicas de que o rigoroso controle dos níveis de glicose no sangue pode prevenir complicações microvasculares do diabetes, tais como a nefropatia diabética (lesão renal), a retinopatia diabética (lesão dos olhos) e a neuropatia diabética (lesão dos nervos periféricos).

O controle glicêmico intensivo precoce em pessoas com diabetes recém-diagnosticado também pode ter um benefício a longo prazo na redução do risco de infarto do miocárdio, morte relacionada ao diabetes e morte em geral.

Portanto, para otimizar o tratamento e o prognóstico a longo prazo do pacientes diabéticos, além do diagnóstico precoce, é preciso também um seguimento contínuo da taxa de glicose sanguínea.

Atualmente, dispomos de algumas opções de testes para quantificar a glicose no sangue. Os mais usados ​​são:

  • Teste de glicemia em jejum.
  • Teste aleatório de glicemia.
  • Glicemia pós-prandial.
  • Teste oral de tolerância à glicose (TOTG).
  • Hemoglobina glicada (HbA1C).
  • Frutosamina.
  • Glicemia capilar.
  • Monitoramento contínuo da glicemia.

Glicemia em jejum

O exame da glicemia em jejum é modo clássico de diagnosticar o diabetes mellitus. Consideramos jejum, neste caso, a ausência de consumo de calorias por pelo menos 8 horas.

Quando em jejum, o níveis de glicose no sangue devem estar abaixo do 100 mg/dL. Este é o valor normal e desejado para todos.

Quando a glicemia em jejum encontra-se entre 100 e 125 mg/dL, dizemos que este paciente apresenta glicemia de jejum alterada, também chamada de hiperglicemia não diabética ou, mais didaticamente, pré-diabetes. O termo pré-diabetes pode ser empregado baseado no fato de que 1 a cada 4 pacientes com glicemia de jejum alterada, desenvolverão critérios para diabetes mellitus dentro de 3 a 5 anos. Se o paciente tiver outros fatores de risco como obesidade e história familiar, o risco é ainda maior.

Quando a glicemia em jejum encontra-se acima do 126 mg/dL em pelo menos 2 análises de sangue coletadas em momentos diferentes, temos critério para o diagnóstico do diabetes.

A glicemia em jejum é atualmente usada apenas para o diagnóstico. Nos pacientes com diabetes mellitus já em tratamento, o seu uso é mais limitado, pois nos fornece apenas o valor da glicemia no momento da coleta, não sendo possível saber como ela estava nos dias anteriores.

Para o seguimento do diabetes o melhor exame atualmente é a hemoglobina glicada, explicada em detalhes mais abaixo.

Glicemia sem jejum

O melhor exame para o diagnóstico do diabetes é a medição da glicemia realizada com jejum de pelo menos 8 horas. Eventualmente, o paciente pode dosar sua glicemia sem estar em jejum, e às vezes, esse valor pode ser útil.

Quando nos alimentamos, em questão de minutos, nossa corrente sanguínea recebe uma carga de glicose, elevando rapidamente a nossa glicemia. Após uma alimentação, fatalmente nossa glicemia estará acima de 126 mg/dL, o que obviamente não indica diabetes.

Assim como o sangue recebe um banho de glicose, nosso pâncreas também libera uma carga de insulina para que essa glicose toda possa ser aproveitada pelo nosso organismo. Deste modo, a nossa glicemia permanece mais ou menos controlada, não ultrapassando o valor de 200 mg/dL em momento algum, retornando ao valores normais após mais ou menos 3 horas.

Por isso, qualquer glicemia que se encontre acima de 200 mg/dL, mesmo após uma refeição, é indicativa do diabetes. Se o paciente já tiver sintomas de diabetes, o diagnóstico pode ser fechado mesmo sem a solicitação da glicemia em jejum para confirmação.

Falamos sobre os sintomas do diabetes no artigo: 10 sintomas do diabetes (primeiros sinais de aviso).

Glicemia pós-prandial de 2h

O grande problema das dosagens de glicemia sem jejum é a falta de padronização. Cada indivíduo consome uma quantidade diferente de calorias e o exame é feito com diferentes tempos de intervalo entre a última refeição.

Para evitar confusões, existe um exame chamado de glicemia pós-prandial que funciona da seguinte maneira: os pacientes vão ao laboratório e colhem uma amostra de sangue para avaliar a glicemia de jejum. Após esta coleta, o laboratório fornece uma bebida com uma quantidade fixa de glicose (75 g) e ao final de 2 horas, uma nova amostra de sangue será coleta para aferição da sua glicemia.

Este exame serve para avaliar com está a sua secreção de insulina após uma carga de glicose. A glicemia pós-prandial normal é aquela que, após 2 horas, se encontra abaixo dos 140 mg/dL.

Valores entre 140 e 199 mg/dL indicam intolerância a glicose e são um sinal de que o seu organismo não está lidando corretamente com a elevação do glicose após as refeições. Normalmente indica resistência à ação da insulina.

A intolerância a glicose também é considerada um estágio pré-diabetes, mesmo que a glicemia em jejum esteja abaixo de 100 mg/dL.

Valores acima de 200 mg/dL na glicemia pós-prandial são indicativos de diabetes.

Teste oral de tolerância à glicose com curva glicêmica

O teste oral de tolerância à glicose (TOTG) é uma versão modificada da glicemia pós-prandial, usada para o diagnóstico do diabetes que se desenvolve na gravidez, chamado diabetes gestacional. É normalmente realizado entre a 24ª e 28ª semanas de gestação.

O teste é feito da seguinte maneira. Uma primeira amostra de sangue é colhida em jejum. É, então, oferecido uma bebida com 100 g de glicose. Novas amostras de sangue são coletadas após 1 e 2 horas.

De acordo com a International Association of Diabetes in Pregnancy Study Group, o diabetes gestacional é diagnosticado quando os resultados excedem dois ou mais dos seguintes valores:

  • Glicemia de jejum maior que 92 mg/dL
  • Glicemia de 1 hora maior que 180 mg/dL
  • Glicemia de 2 horas maior que 153 mg/dL

Este tipo de exame só tem valor em grávidas.

Para saber mais sobre o diabetes na gravidez, leia: Diabetes gestacional.

Hemoglobina glicada

Ao contrário dos exames acima, que servem principalmente para o diagnóstico do diabetes mellitus, a hemoglobina glicada, também chamada de hemoglobina glicosilada, hemoglobina A1c ou HbA1c, é um exame habitualmente usado para avaliar o controle da glicemia nos pacientes já com o diagnóstico firmado de diabetes.

A hemoglobina glicada é um exame extremamente útil, pois serve para avaliar o estado da glicemia nos últimos 2-3 meses.

Quando dosamos a glicemia em jejum nos pacientes diabéticos o seu resultado indica apenas como está o controle do diabetes nas últimas horas.

Por exemplo, um paciente passa os últimos 3 meses sem dieta e usando os medicamentos para o diabetes de modo irregular, mas 48 horas antes das análises resolve tomar os remédios de modo correto. Quando ele for dosar a glicemia em jejum é possível que esta se encontre dentro ou próximo da normalidade, dando a falsa ideia de que seu diabetes está bem controlado. No entanto, se a hemoglobina glicada também for dosada, esta estará claramente alterada, indicando que, na verdade, o diabetes não está sendo tratado como seria suposto.

Como funciona a hemoglobina glicada?

A hemoglobina é a principal proteína das nossas hemácias (glóbulos vermelhos). Quando a taxa de glicose no sangue encontra-se elevada, parte da hemoglobina começa a ligar-se à esse excesso de glicose circulante, transformando-se em hemoglobina glicada, ou seja, hemoglobina ligada a glicose. Como as hemácias tem uma vida de 3 a 4 meses, este é o tempo em que cada uma fica exposta a glicose no sangue, fazendo com que a hemoglobina glicada seja um espelho da glicemia média nos últimos 3 meses.

Os valores normais de hemoglobina glicada, para pessoas sem diabetes, ficam entre 4% e 5,6%.

Um diabetes bem controlado é aquele que apresenta valores abaixo de 7%. Níveis acima de 7% estão associados a um maior risco de complicações como doenças cardiovasculares, renais, dos nervos periféricos e dos olhos.

A partir dos valores da hemoglobina glicada é possível estimar a taxa média de glicose nos últimos três meses, conforme podemos ver na tabela abaixo:

HbA1cGlicemia média (variação):
5% 97 mg/dL (76–120)
6% 126 mg/dL (100–152)
7% 154 mg/dL (123–185)
8% 183 mg/dL (147–217)
9% 212 mg/dL (170–249)
10% 240 mg/dL (193–282)
11% 269 mg/dL (217–314)
12% 298 mg/dL (240–347)

Nos últimos anos, o uso da hemoglobina A1c tornou-se cada vez mais comum como forma de diagnóstico de diabetes mellitus.

Estudos mostram que a HbA1c é tão confiável quanto a glicemia de jejum para esse fim, e a hemoglobina glicada ainda tem a vantagem de não precisar ser coletada em jejum.

Para o diagnóstico de diabetes, o paciente deve realizar dois exames, coletados em dias diferentes, com hemoglobina glicada maior que 6,5%. Não basta apenas fazer apenas um teste, é necessário confirmação com um novo resultado.

Dois testes com valores de HbA1c entre 5,7 e 6,4% são indicativos de pré-diabetes. Dois testes com valores de HbA1c acima de 6,5% são indicativos de diabetes.

Para saber mais sobre a hemoglobina glicada, leia: HEMOGLOBINA GLICADA – O que é, valores normais e como baixar.

Frutosamina

Outras proteínas além da hemoglobina sofrem glicosilação, ou seja, ligação com a glicose. Frutosamina é o nome que damos a esse complexo proteína-glicose, sendo a principal proteína a albumina.

A dosagem da frutosamina nos fornece uma estimativa da glicemia nas últimas 4 a 6 semanas, pois a vida média de uma albumina é de apenas 1 mês, não sendo assim, tão boa quanto a hemoglobina glicada.

A frutosamina, porém, pode ser muito útil nos pacientes com anemia, em uso de eritropoietina, doenças da hemoglobina ou insuficiência renal crônica, situações que podem causar erros na medição da hemoglobina glicada.

O valor normal da frutosamina varia de um laboratório para o outro.

Glicemia capilar

A glicemia capilar é aquele exame no qual avaliamos a glicemia atual através de uma pequena gota de sangue e um aparelhinho para a leitura da concentração de glicose sanguínea.

Este é excelente e prático modo de avaliar mais de uma vez ao dia a variação da glicemia, permitindo fazer ajustes pontuais na dose e no horário dos medicamentos antidiabéticos, principalmente da insulina.

A glicemia capilar não deve ser usada para o rastreio do diabetes na população em geral. Sua relação com os resultados da glicemia pela análise laboratorial do sangue não são tão corretas. Vários fatores podem levar a uma leitura errada, como uma mão não propriamente limpa, um mau armazenamento das tiras, sujeira no aparelho, mãos do paciente muito frias, etc. Além disso, a glicemia nos capilares do dedos costuma estar sempre um pouco mais alta que a glicemia do sangue nas veias.

Portanto, a glicemia capilar serve para o seguimento do diabetes, mas não para o seu diagnóstico.

Monitorização contínua de glicose

Recentemente, surgiu uma nova maneira de monitorar os valores de glicose no sangue, chamada monitorização contínua de glicose (MCG).

O sistema de monitorização contínua da glicose é um dispositivo que mede os níveis de glicose continuamente, em tempo real.

Os dispositivos de MCG consistem em um sensor que possui um filamento flexível, que é inserido sob a pele do abdômen ou da parte superior do braço, e um transmissor que envia o sinal para o receptor, que exibe o valor na tela de um celular ou receptor compatível .

Os sistemas MCG obtêm medições a cada 5 minutos e indicam com um gráfico as mudanças na glicemia.

A principal diferença dos medidores de glicemia capilar – que medem a glicose no sangue – é que os sistemas MCG medem a glicose no líquido intersticial, ou seja, no espaço entre as células.

Os dispositivos MCG podem ser usados ​​em conjunto com uma bomba de insulina. Após as refeições, o dispositivo mede a glicose no sangue e a bomba de insulina reage a esse resultado fornecendo a dose apropriada de insulina.

Todos os dispositivos de monitorização contínua da glicose em tempo real alertam o paciente quando surgem episódios de hipoglicemia ou hiperglicemia.

O sensor do MCG é fixado com um adesivo e tem uma vida útil de 6 a 14 dias, dependendo do modelo em questão. Quando os prazos terminam, o dispositivo de MCG é removido e um novo deve ser implantado.


Referências


Autor(es)

Médico graduado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com títulos de especialista em Medicina Interna e Nefrologia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), Universidade do Porto e pelo Colégio de Especialidade de Nefrologia de Portugal.

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