Insuficiência renal aguda - hemodiálise

Insuficiência renal é o termo que se aplica quando os rins não conseguem filtrar o sangue adequadamente, provocando um acúmulo de líquidos, sais minerais e de produtos tóxicos que são gerados durante o metabolismo normal do organismo.

A insuficiência renal pode ser crônica ou aguda. A primeira ocorre quando a perda de função dos rins é progressiva e permanente; a segunda é um processo que inicia-se de forma súbita e costuma ter duração inferior a 3 meses, podendo haver recuperação completa ou não da função renal (leia: INSUFICIÊNCIA RENAL CRÔNICA | Sintomas e Tratamento).

Uma insuficiência renal aguda pode ser transformar em crônica se a lesão for muito grave e não houver possibilidade de recuperação completa.

Neste artigo, vamos explicar o que é a insuficiência renal aguda, quais são as suas causas, os seus sintomas e as opções de tratamento.

Como É o funcionamento NORMAL dos rins

Os dois rins filtram em média 180 litros de sangue por dia, mais ou menos 100 ml por minuto. Esse valor é chamado de taxa de filtração glomerular (TFG).

Uma função renal normal é aquela que situa-se entre 70 e 140 ml/min de sangue filtrados por dia. Esse valor varia com idade, tamanho e sexo.

Conforme envelhecemos, nossos rins também diminuem a sua capacidade de funcionamento. Idosos chegam a ter rins 30% menores do que quando eram jovens. Por isso, não é de se estranhar que pessoas mais velhas possam ter taxas de até 60 ml/min sem necessariamente terem alguma doença nos rins. São rins “sadios”, porém velhos e menos resistentes a injúrias.

Como, em média, os rins filtram algo em torno de 100 ml/min de sangue, muitas vezes os médicos usam o valor em percentual para facilitar a compreensão. Deste modo, uma taxa de filtração de 50 ml/min pode ser considerada como rins que funcionam 50%.

Quando falamos em função renal estamos sempre falando nos dois rins. Portanto, se o médico disser que sua função renal é de 40% ou 40 ml/min, isso significa a função total dos dois rins juntos.

Como medir a taxa de filtração glomerular

Não existe um modo de medir a filtração renal diretamente, por isso precisamos lançar mão de exames laboratoriais. O doseamento sanguíneo da creatinina é atualmente a forma mais utilizada para avaliar a função renal (leia: VOCÊ SABE O QUE É CREATININA?). Quanto maior for a concentração de creatinina, mais grave é a disfunção dos rins.

O valor normal da creatinina costuma ficar entre 0,6 e 1,3 mg/dl, podendo variar um pouco para mais ou menos dependendo do laboratório.

Através do valor da creatinina, o médico é capaz de estimar a taxa de filtração glomerular. Isso é feito através de cálculos matemáticos complexos, que não valem a pena serem discutidos aqui. Muitos laboratórios já fazem esse cálculo atualmente e fornecem a taxa de filtração renal estimada junto com o resultado da creatinina.

Porém, no caso da insuficiência renal aguda, o valor creatinina é suficiente para o diagnóstico. O cálculo da taxa de filtração costuma ser usada apenas nos pacientes com insuficiência renal crônica.

Critérios para INSUFICIÊNCIA RENAL AGUDA

Consideramos que um paciente tem uma lesão renal aguda quando ele apresenta pelo menos 1 dos seguintes critérios:

– Aumento de, pelo menos, 0,3 mg/dl no valor da creatinina habitual dentro de 48 horas.
– Aumento de 50% no valor da creatinina habitual em um intervalo de 48 horas.
– Um volume de urina menor do 0,5 ml/kg/hora por pelo menos 6 horas.

Exemplos:
1- Um paciente que tenha uma creatinina habitual de 1,0 mg/dl terá critérios para lesão renal aguda se o seu valor subir para mais de 1,3 mg/dl em 48 horas.
2- Um paciente já com insuficiência renal crônica e com uma creatinina basal de 2,0 mg/dl terá critérios para lesão renal aguda se o valor subir para, pelo menos, 3,0 mg/dl em 48 horas (mais que 50%).
3- Um paciente de 70 quilos que nas últimas 6 horas tenha produzido menos de 210 ml de urina*.

* Uma pessoa saudável pode ficar mais de 6 horas sem urinar, mas isso não significa que ela tenha deixado de produzir urina. A urina foi produzida, ela está apenas armazenada na bexiga. O paciente com insuficiência renal aguda urina menos porque produz menos urina.

Causas de insuficiência renal aguda

Várias são as situações que podem acarretar em lesão renal aguda. As principais são:

– Hipotensão ou choque circulatório.
– Sepse (leia: O QUE É SEPSE?).
– Desidratação.
– Queimaduras extensas (leia: QUEIMADURAS – Graus e Complicações).
– Excesso de diuréticos (leia: PARA QUE SERVEM OS DIURÉTICOS?).
– Rabdomiólise (lesão muscular severa).
– Obstrução renal por um hiperplasia benigna da próstata (leia: HIPERPLASIA BENIGNA DA PRÓSTATA – Causas, Sintomas e Tratamento).
– Insuficiência cardíaca grave (leia: INSUFICIÊNCIA CARDÍACA – CAUSAS E SINTOMAS).
– Glomerulonefrite aguda (leia: O QUE É UMA GLOMERULONEFRITE?).
– Obstrução renal por cálculos.

Além das doenças, vários fármacos são tóxicos para os rins e podem provocar insuficiência renal aguda:

– Anti-inflamatórios (leia: AÇÃO E EFEITOS COLATERAIS DOS ANTI-INFLAMATÓRIOS).
– Antibióticos, principalmente da família dos aminoglicosídeos (gentamicina e amicacina, por exemplo).
– Alguns quimioterápicos.
– Contraste á base de iodo para exames radiológicos.
– Lítio.
– Aciclovir (leia: ACICLOVIR (ZOVIRAX) – Pomada e Comprimido Para Herpes).
– Heroína.
– Agrotóxicos.
– Carambola (leia: CARAMBOLA É TÓXICA PARA RINS E CÉREBRO).
– Ervas chinesas.

Se quiser saber mais sobre drogas que atacam os rins, leia: REMÉDIOS QUE PODEM FAZER MAL AOS RINS.

Sintomas DA INSUFICIÊNCIA RENAL AGUDA

Nem sempre o paciente com insuficiência renal aguda apresenta sintomas claros da doença. Muitas vezes, quando a lesão renal é leve, ela só é detectada através de exames laboratoriais, como a dosagem da creatinina.

Nos casos mais graves, porém, o paciente costuma apresentar sinais e sintomas que surgem pela retenção de água e de toxinas que deixam de ser filtradas pelos rins. São eles:

– Diminuição da produção de urina.
– Retenção de líquidos, causando inchaço nas pernas, tornozelos ou pés.
– Falta de ar.
– Fadiga.
– Confusão mental.
– Náuseas e vômitos.
– Hipertensão arterial.
– Arritmias cardíacas.

Tratamento da insuficiência renal aguda

O tratamento da Insuficiência renal aguda depende da causa. Uma desidratação deve ser tratada com hidratação, lesão renal por fármacos são tratadas com suspensão do medicamento agressor, uma obstrução do trato urinário deve ser tratada como procedimentos que removem a obstrução e assim por diante.

Nos casos mais graves, o paciente pode precisar de hemodiálise. A hemodiálise não trata a insuficiência renal em si, ela apenas remove o excesso de líquidos e toxinas do organismo enquanto os rins não se recuperam (leia: COMO É A SESSÃO DE HEMODIÁLISE). Muitas vezes, as alterações metabólicas do paciente são tão graves, que a hemodiálise é a única forma de manter o paciente vivo nos primeiros dias de doença. Pacientes com edema pulmonar agudo (excesso de líquidos nos pulmões), níveis elevados de potássio no sangue ou acidose metabólica grave são os que mais necessitam de hemodiálise durante uma lesão renal aguda.

Nem todo mundo que desenvolve insuficiência renal aguda precisa de hemodiálise. Quanto mais jovem e saudável for o paciente, maiores são as chances dos seus rins aguentarem injúrias sem que o paciente precise de hemodiálise. Por outro lado, pacientes idosos ou já com algum grau de insuficiência renal crônica frequentemente acabam precisando da hemodiálise quando apresentam alguma lesão renal nova.

A recuperação da insuficiência renal aguda depende de vários fatores, entre eles idade, associação com outras doenças e função renal prévia antes da injúria. Alguns recuperam a função completamente, outros recuperam apenas parcialmente, ficando com função permanentemente abaixo de 60 ml/min. Há ainda aqueles que nada recuperam, tornam-se insuficientes renais crônicos e ficam dependentes de hemodiálise para o resto da vida.

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Médico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (U.F.R.J) em 2002. Especialista em Medicina Interna e Nefrologia. Títulos reconhecidos pela Faculdade do Porto, Ordem dos Médicos de Portugal e Colégio de Nefrologia Português.