23 de setembro de 2013

ALERGIA À PENICILINA

A penicilina é o mais antigo dos antibióticos, tendo sido descoberta em 1928 pelo médico Alexander Fleming. Quase 100 anos depois do seu desenvolvimento, a penicilina e seus derivados continuam sendo amplamente utilizados na prática médica como uma das principais armas contra infecções bacterianas.

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A alergia às penicilinas é uma situação tão comum que 1 em cada 10 pacientes refere ser alérgico a esta classe de antibióticos.

Neste texto abordaremos os seguintes pontos sobre a alergia à penicilina:

  • O que são as penicilinas.
  • Reações adversas às penicilinas.
  • Sintomas da alergia à penicilina.
  • Tipos de alergia às penicilinas.
  • Diagnóstico da alergia à penicilina.
  • Reação cruzada às penicilinas.
  • Tratamento dos pacientes alérgicos à penicilina.

O que são as penicilinas

A penicilina foi o primeiro antibiótico a ser usado em larga escala no mundo. Hoje em dia, quando falamos em penicilina já não nos referimos mais àquele antibiótico descoberto no iníco do século XX, mas sim ao grande grupo de antibióticos desenvolvidos a partir daquela primeira droga.

Portanto, quando falamos que um paciente é alérgico à penicilina, queremos dizer que o paciente é, na verdade, alérgico a todos os antibióticos da família da penicilina, que são:

Amoxicilina
Ampicilina
PenicilinaAzlocilina
Carbenicilina
Cloxacilina
Dicloxacilina
Mezlocilina
Nafcilina
Oxacilina
Penicilina G
Penicilina V
Penicilina Benzatina (Benzetacil)
Piperacilina
Ticarcilina

Apesar de serem da mesma família, as diferentes penicilinas possuem atividades contra bactérias e infecções distintas. Por exemplo, a amoxicilina é frequentemente usada para infecções respiratórias simples, enquanto a piperacilina costuma ser indicada para diversos tipos de infecção hospitalar.

As penicilinas mais próximas do antibiótico originalmente descoberto por Alexander Fleming são as Penicilina G, Penicilina V e Penicilina Benzatina (Benzetacil). Devido ao grande grau de resistência bacteriana, estes antibióticos são muito pouco usados atualmente, ficando restritos ao tratamento da sífilis (leia: SÍFILIS | Sintomas e tratamento) e de algumas infecções de garganta (leia: DOR DE GARGANTA | FARINGITE | AMIGDALITE).

Reações adversas às penicilinas

Dizemos que o paciente tem alergia à penicilina somente quando o mesmo desenvolve uma reação alérgica, ou seja, uma reação do sistema imunológico, após receber algum antibiótico da família da penicilina.

Este conceito parece óbvio, mas não é. A penicilina, como qualquer outra droga, pode causar efeitos colaterais que nada têm a ver com reações imunológicas, não sendo, portanto, reações alérgicas. Na verdade, as reações não alérgicas, como queimação no estômago, mal estar, náuseas, diarreia, tontura, dor de barriga, etc., são muito mais frequentes que as reações alérgicas propriamente ditas. O problema é que muitos pacientes interpretam estas reações como um sinal de alergia e passam a se rotular como “alérgicos à penicilina”.

Muitas dessas pessoas chegam aos seus médicos e já avisam logo que são alérgicas. Nem sempre o profissional de saúde perde o tempo necessário avaliando se a reação que o paciente teve à penicilina realmente se encaixa em um quadro de alergia. Deste modo, a informação errada, criada por uma pessoa leiga, acaba sendo equivocadamente ratificada pelo médico, tornando-se uma verdade descrita nos prontuários e atestados médicos.

O fato é que estatisticamente 1 em cada 10 pacientes se considera alérgico às penicilinas. Todavia, quando vamos estudar adequadamente seus sistemas imunológicos, descobrimos que até 90% destas pessoas NÃO são realmente alérgicas às penicilinas, não havendo nenhuma contraindicação ao uso desta classe de antibióticos.

Além do diagnóstico equivocado de alergia, há um outro dado importante que contribui para esta falsa estatística: a alergia à penicilina pode desaparecer com o tempo. Cerca de 80% dos pacientes que tiveram um quadro de alergia a um antibiótico da família da penicilina podem deixar de ser alérgicos se ficarem 10 ou mais anos sem ter contato com este antibiótico. Portanto, se você teve um quadro de alergia a uma penicilina na infância e nunca mais foi exposto a essa classe de antibióticos, é bem possível que não seja mais alérgico, podendo voltar a usar a penicilina sem nenhum perigo.

Sintomas da alergia à penicilina

Já sabemos, então, que nem toda reação adversa provocada pelo uso de penicilina pode ser considerada uma reação alérgica.

As alergias, também chamadas de reação de hipersensibilidade, são reações de origem imunológica, que ocorrem por uma resposta inapropriada e exagerada do sistema imune a algumas estruturas presentes nos medicamentos.

Entre os sinais e sintomas típicos da alergia à penicilina podemos citar:

  • Urticária – caracterizada por placas avermelhadas com relevo na pele, que coçam muito (leia: URTICÁRIA | Sintomas e tratamento).
  • Rash cutâneo – caracterizado por manchas vermelhas pelo corpo, sem relevo e sem comichão.
  • Prurido – caracterizado por uma coceira intensa, sem necessariamente haver lesões visíveis na pele.
  • Angioedema – inchaço de mucosas, como lábios, olhos, boca e língua.

Em casos graves é possível haver choque anafilático, caracterizado por queda na pressão arterial, dificuldade de respirar causada por intenso espasmo das vias aéreas (broncoespasmo) e edema da laringe (leia: CHOQUE ANAFILÁTICO | Causas e sintomas). Esse quadro é uma emergência médica e pode levar o paciente ao óbito se não for tratado rapidamente.

Tipos de alergia às penicilinas

Quando um paciente desenvolve um quadro sugestivo de alergia à penicilina é importante tentar determinar o intervalo de tempo entre o uso da droga e o aparecimento dos sintomas de alergia.

Chamamos de reações de hipersensibilidade imediata aquelas reações alérgicas que surgem na primeira hora após o contato com a penicilina. Já as reações de hipersensibilidade tardia ocorrem várias horas ou até dias depois da exposição à droga. Geralmente, o paciente já fez uso do antibiótico por vários dias antes de ter qualquer reação.

Essa distinção é importante, pois as reações imediatas são causadas por um anticorpo chamado IgE, sendo as mais perigosas devido ao risco de causarem reações anafiláticas. Pacientes com história de reações de hipersensibilidade imediata não devem ser reexpostos a tratamentos com penicilinas. As reações tardias são geralmente benignas e não costumam causar reações alérgicas mais graves.

Diagnóstico da alergia à penicilina

Na maioria dos casos, os médicos aceitam como verdadeira a informação de alergia trazida pelo paciente. Devido ao medo de processos legais, a maioria dos médicos opta por não prescrever antibióticos da família da penicilina se o paciente se rotular como alérgico, mesmo que os sintomas descritos não sejam propriamente de alergia.

Em alguns casos porém, a confirmação da alergia torna-se útil. Exemplos:
- Nos casos de sífilis, a penicilina ainda é o antibiótico mais efetivo e seu uso deve ser indicado sempre que possível.
- Pacientes com infecção de garganta ou sinusite de repetição acabam precisando de antibióticos mais fortes se não puderem tomar penicilinas.
-  Um paciente com história de alergia ocorrida há muitos anos já pode não ser mais alérgicos, não sendo necessário evitar as penicilinas em infecções mais simples.

O teste mais usado para diagnóstico da alergia à penicilina é o teste cutâneo. Este teste consiste na aplicação de uma quantidade mínima de penicilina no tecido subcutâneo. Se o paciente for alérgico, uma pequena reação alérgica irá aparecer no local da aplicação após cerca de 15 a 20 minutos.

Os tetes cutâneos devem ser administrados somente por médicos imunoalergistas, de preferência em ambiente hospitalar. Esse teste é contraindicado em pacientes que já tiveram reação alérgica grave à penicilina, como necrólise epidérmica tóxica ou síndrome de Stevens-Johnson (leia: SÍNDROME DE STEVENS-JOHNSON).

Se o teste for negativo, ou seja, se não houver reação alguma à injeção, o paciente não apresenta alergia à penicilina, podendo voltar a fazer uso deste antibiótico com segurança. Apenas 1% dos pacientes com teste negativo apresentam sinais de alergia grave ao voltarem a tomar penicilina. Em geral, para se ter certeza, pedimos que o paciente tome um comprimido de penicilina e espere no hospital por cerca de 2 horas para descartamos qualquer reação alérgica mais séria.

Reação cruzada às penicilinas

Quando o paciente descobre ser alérgico a uma penicilina, ele deve ser encarado como alérgico a todas as outras também. O paciente não é somente alérgico a amoxacilina ou a benzetacil, ele é alérgico às penicilinas em geral.

As cefalosporinas são uma classe de antibióticos que apresentam algumas semelhanças estruturais com as penicilinas. As penicilinas e as cefalosporinas são didaticamente agrupadas em uma grande grupo de antibióticos chamado de antibióticos betalactâmicos.

Inicialmente, todo paciente alérgico às penicilinas deve também ser encarado como alérgico às cefalosporinas. Na verdade, apenas cerca de 10% apresentam alergia para essas duas classes, mas sem a realização dos testes cutâneos é impossível saber  quem é alérgico somente às penicilinas e quem tem alergia às duas classes de antibióticos.

Para saber mais sobre outros antibióticos, leia: ANTIBIÓTICOS | Tipos, resistência e indicações

Tratamento dos pacientes alérgicos à penicilina

Os pacientes com alergia às penicilinas não devem mais ser tratados com essa classe de antibiótico. Apesar desta restrição significar a impossibilidade de usar antibióticos muito comuns, como amoxicilina, oxacilina e piperacilina, na maioria das infecções é possível arranjar em esquema antibiótico alternativo eficaz.

Porém, se o médico achar que o tratamento com um derivado da penicilina é essencial para a cura de uma determinada infecção, o mesmo pode lançar mão de um procedimento chamado dessensibilização à penicilina.

Esse procedimento consiste na administração, dentro de um ambiente hospitalar, de penicilina em doses crescentes a cada 15 minutos de forma a “acostumar” o organismo à droga, impedindo temporariamente que haja alguma reação alérgica. A primeira administração é feita habitualmente com 0,01% da dose normal. Após sucessivos intervalos de 15 minutos, administra-se o dobro da dose anterior até que se chegue a dose plena desejada para tratar uma infecção.

Por exemplo, se dose normal for de 500 mg em cada comprimido, a dessensibilização é inciada com uma dose de 0,05mg. Após 15 minutos administra-se 0,10mg; após mais 15 minutos, 0,20mg, e assim por diante, até chegar a 500mg. O processo todo demora algo em torno de 4 horas. O paciente, então, pode tomar os comprimidos em dose habitual durante o tempo determinado pelo médico (por exemplo: 500mg a cada 8 horas por 10 dias)

É importante destacar que esse procedimento tem efeito temporário. Se o paciente ficar 24 a 48 horas sem tomar o antibiótico, a dessensibilização perde efeito e o paciente volta a não poder tomar antibióticos à base de penicilina.

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  • janaina leone

    bom dia doutor sou janaina estou gravida de 4 meses e eu tenho sifilis so que eu so alergica a penecelina queria saber se tem um antibiotico para o meu tratamento obrigado estou na espera

    • https://plus.google.com/u/0/113288925849694682313/posts Pedro Pinheiro

      Não, tem que fazer a dessensibilização e tratar com penicilina mesmo.

  • http://www.zueirasemlimites.com.br/ Zueiro Sem Limite

    Quando eu era bebê minha mãe me levou ao hospital pra tomar uma penicilina. E tive uma reação alérgica que desmaiei. Tinha 1 ano e hoje tenho 29.
    Será que alguém já viu um vaso assim? Pois se tenho alguma infecção ou é eritromicina ou azitromicina, uma garganta com pus demora pra sumir…..

    • https://plus.google.com/+PedroPinheiro/ Dr. Pedro Pinheiro – MD.Saúde

      Se eu fosse você faria um teste de sensibilidade. É provável que você não tenha alergia alguma.

  • Truth Always Win

    “…estes antibióticos são muito pouco usados atualmente, ficando restritos ao tratamento da sífilis e de algumas infecções de garganta.”
    Isso não é bem verdade. Para comprovar isso, basta ir a um posto de saúde. A cada 10 pacientes que passam pelo pronto atendimento, pelo menos 5 são medicados com Benzetacil.

    • https://plus.google.com/+PedroPinheiro/ Dr. Pedro Pinheiro – MD.Saúde

      Isso é uma estatística publicada em algum estudo ou é apenas um chute? Duvido que 50% das consultas terminem com prescrição de Benzetacil.

  • Cely Lima

    Qual Antibiótico é apropriado para um paciente que contraiu Tuberculose e tem alergia à Penicilina?

    • https://plus.google.com/+PedroPinheiro/ Dr. Pedro Pinheiro – MD.Saúde

      O tratamento habitual da tuberculose não inclui penicilina.

  • cristianeamelia@ig.com.br

    Boa noite fiz uma cirurgia de lipo no culote com sedação e anestesia local depois de 3 horas apareceu umas manchas vermelhas na pele e já faz 16 dias e ainda estou com alegia eu ja fiz varias cirurgia e nunca deu nenhuma reação.

  • germano

    ola doutor os coqueteis anti hiv podem ser ingeridos por pessoas que toma rivotril 0.5 e citalopram 20 mg e que ´são alergicas a penicilinas pois sou homossexual e tomo esses medicamentos mas não tenho hiv alias dia 22/10 eu e meu parceiro transamos meu anos sagrou bem pouco mas la dentro mas sempre transamos com camisinha pois posso ter pego o hiv se ele for soro positivo pois ele é meu unico parceiro foi meu primeiro alias mas ele ja teve outros mas segundo eles todos com camisinha ele pode ter o hiv ( detalhe ele tem o hpv isso seria um risco maior a mim ou a ele ) detalhe ele comigo sempre é ativo e com os outros parceiros que ele teve antes de mim ele era versatil uma pessoa com hpv é + propença a ter hiv ou não desde já agradeço

  • Lidia Nobre

    Realmente, site excelente… Rico em informações, essenciais para nos futuros profissionais da area da saúde. Parabens, pelo site :)

  • Doris

    queria realmente parabenizar vocês que o blog MD SAÚDE tirá nossa dúvidas as mesma falando com o médico e não fiquei sátisfeita,por isso vim tira as minhas dúvidas correndo atraz de perguntas e reposta que encontrei aqui deste já agradecida

  • Segudo Alves Enf

    Parabens Dr. Pedro Pinheiro e Dra. Renata Campos pelo seu dia…hoje no dia do médico não poderia deixar de parabenizar a vcs do blog MDSAÙDE, que tanto nos ajudam com essas trocas de informações, esses artigos maravilhosos, assuntos altamente interessantes para nós da área da saúde, obrigado por me audar no meu desenvolvimento profissional…parabens a todos.

  • Eduardofmb

    A alergia à penicilina pode envolver reação de hipersensibilidade tardia do tipo IV e portanto testes cutâneos não são fidedignos para excluir alergia.

    • https://plus.google.com/+PedroPinheiro/ Dr. Pedro Pinheiro – MD.Saúde

      O valor preditivo negativo do teste é muito alto. Mas realmente não é 100%. O teste não é indicado se o paciente já tiver tido reações do tipo IV grave como síndrome de Stevens-Johnson