Doença de Fabry: o que é, causas, sintomas e tratamento

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O que é a doença de Fabry?

A doença de Fabry, também chamada de doença de Anderson-Fabry, é uma patologia hereditária rara, transmitida de modo recessivo pelo cromossoma X, o cromossoma sexual feminino.

Estima-se que apenas 1 em cada 20 a 40 mil homens apresente a mutação responsável pelos sintomas da doença.

Os pacientes com doenças de Fabry apresentam uma deficiência de uma enzima chamada alfa-galactosidase A, o que acarreta problemas renais, cardíacos e do sistema nervoso.

Neste artigo explicaremos a doença de Fabry, abordando a sua transmissão genética, as suas causas, os sintomas e as opções de tratamento.

Genética

Todos os humanos possuem dois cromossomas sexuais. Os homens possuem um cromossoma sexual Y e um cromossoma sexual X (homens são XY).  Já as mulheres possuem dois cromossomas sexuais X e nenhum cromossoma Y (mulheres são XX).

Cada um dos cromossomas sexuais que possuímos foram transmitidos por um dos pais. Por exemplo, quando um casal tem um filho homem, isso significa que o menino recebeu o cromossoma Y do seu pai e o cromossoma X da mãe, formando, assim, o par XY. Quando o casal tem uma menina, ela recebe um cromossoma X do pai e um cromossoma X da mãe, formando o par XX.

Portanto, como a mãe só é capaz de passar o cromossoma X para os seus filhos, quem “decide” o sexo da criança é sempre o cromossoma de origem paterna. Se o pai passar um Y, será um menino; se ele passar o X, será uma menina.

A doença de Fabry é uma doença transmitida por um cromossoma X defeituoso.

Quando dizemos que o Fabry é uma doença transmitida de modo recessivo pelo cromossoma X, isso significa que para a doença se manifestar nas mulheres elas precisam receber os 2 cromossomas X defeituosos (um do pai e outro da mãe).

Se um cromossoma X for saudável e o outro doente, a mulher não desenvolve a doença, pois o cromossoma saudável a protege desse defeito. Como os homens só apresentam um cromossoma X, eles não têm como ter um outro cromossoma X para protegê-lo. Portanto, basta um cromossoma X defeituoso para que ele desenvolva a doença de Fabry.

Pelo o que foi explicado até aqui, fica fácil entender por que a doença de Fabry é uma patologia que acomete muito mais os homens que as mulheres. Também é fácil entender por que a doença nos homens é sempre herdada da mãe, já que que os humanos do sexo masculino obrigatoriamente recebem o cromossoma Y do pai e cromossoma X da mãe.

Seguindo esse raciocínio, podemos afirmar que os homens que possuem a doença de Fabry não são capazes de transmiti-la a seus filhos homens, dado que esses recebem apenas o seu cromossoma Y. Porém, as filhas de pais com Fabry irão obrigatoriamente receber um cromossoma X defeituoso. Se elas também receberem um cromossoma X doente da mãe, desenvolverão a doença.

Resumindo:

  • A doença de Fabry praticamente só ocorre em homens.
  • Para uma mulher ter Fabry, ela precisa que ambos os pais tenham o cromossoma X defeituoso*.
  • As mulheres costumam ser portadoras assintomáticas do cromossoma X defeituoso, pois o seu outro cromossoma X saudável a protege da doença.
  • São as mulheres portadoras cromossoma X defeituoso que transmitem o defeito para os seus filhos.

* Esse conceito tem mudado nos últimos anos, pois há casos reconhecidos de mulheres com apenas um cromossoma X defeituoso que apresentam graus distintos de manifestações clínica da doença de Fabry.

Causas

Como já dito no início do texto, a doença de Fabry acontece por uma deficiência de uma enzima chamada alfa-galactosidase A (alfa-gal A). Essa é uma enzima presente dentro de nossas células que é responsável pela eliminação de uma substância gordurosa chamada globotriaosilceramida (GB3 ou GL-3).

Na ausência da alfa-gal A, a GB3 se acumula dentro das células, depositando-se em vários tecidos, principalmente nas paredes dos vasos sanguíneos. Por isso, a doença de Fabry faz parte de um grupo de patologias chamado de doenças de depósito.

Todos os sinais e sintomas da doença de Fabry são derivados desse acúmulo de GB3, que pode obstruir vasos sanguíneos, causando isquemias e infartos de órgãos e tecidos.

Sintomas

Os sintomas da doença de Fabry costumam seguir um certa ordem de aparecimento. Os primeiros sinais surgem na infância ou início da adolescência e incluem:

Dores nos membros

A dor ocorre principalmente nas mãos e nos pés. É causada por acometimento dos nervos do sistema nervoso periférico. Normalmente, esse é o primeiro sintoma e pode ser desencadeado por estresse, frio, calor ou atividades físicas extenuantes.

Lesões de pele

Duas lesões são comuns: teleangiectasias e angioqueratomas.

Teleangiectasias
Teleangiectasias

Teleangiectasias são pequenos vasos dilatados na pele, também chamados de aranhas vasculares pelo seu formato. São comumente vistos em pessoas com varizes nas pernas. Já o angioqueratomas são elevações puntiformes arroxadas.

Na doença de Fabry, as duas lesões costumam aparecer juntas, principalmente nas coxas, quadril e em volta do umbigo.

Angioqueratomas - Fabry
Angioqueratomas

Alterações das glândulas sudoríparas

Outro problema comum no Fabry é o acometimento das glândulas sudoríparas, responsáveis pela produção de suor. Os pacientes podem apresentar baixa taxa de transpiração (hipoidrose), elevada temperatura corporal, fadiga intensa e intolerância ao calor.

Alterações oculares

Depósitos de GB3 nos vasos da córnea dos olhos costumam causar a chamada córnea verticilata, uma lesão da córnea que pode ser detectada com exames oftalmológicos especiais (oftalmoscopia de lâmpada de fenda).

Sintomas gastrointestinais

Sintomas gastrointestinais como dor após alimentação, náuseas e diarreia também são comuns.

Rins

50% dos pacientes com doença de Fabry apresentam acometimento renal. Os primeiros sinais são o aumento da produção de urina por incapacidade do rim em reter água. Depois surgem a proteinúria e, mais adiante, insuficiência renal crônica. Boa parte dos pacientes acaba por necessitar de hemodiálise.

Coração

O envolvimento cardíaco costuma se dar na forma de insuficiência cardíaca, arritmias cardíacas, hipertrofia do ventrículo esquerdo e isquemia do miocárdio.

Cérebro

O acometimento do sistema nervoso central pode se dar através de ataques isquêmicos transitórios ou AVC, tonturas, vertigens ou dor de cabeça.

Doença de Fabry nas mulheres

A maioria das mulheres é portadora de apenas um cromossoma X defeituoso e apresenta poucos ou nenhum sintoma da doença de Fabry.

Porém, por fatores ainda não bem conhecidos, existe um pequeno grupo que desenvolve a doença tal como os homens.

Diagnóstico

Por ser uma doença rara e pouco conhecida, inclusive entre os médicos, muitas vezes os pacientes precisam esperar anos entre os primeiros sintomas e o diagnóstico definitivo. Quando há história familiar, o diagnóstico sai mais facilmente, pois a própria família já sugere a hipótese da doença ao médico.

A tríade de alterações renais + angioqueratomas + dor nos membros em crianças ou jovens do sexo masculino, deve sempre levantar a suspeita de doença de Fabry.

O diagnóstico pode ser confirmado através da dosagem da enzima alfa-galactosidase A. A maioria dos pacientes apresenta níveis indetectáveis ou muito reduzidos.

A biópsia de pele ou do rim pode fornecer o diagnóstico naqueles casos atípicos, no quais o médico não pensa inicialmente na doença de Fabry como diagnóstico diferencial.

As mulheres portadoras do gene da doença podem ser assintomáticas e ter níveis de alfa-gal A normais. Nestes casos apenas testes genéticos podem confirmar se a mesma possui o gene da doença, sendo passível de transmissão para seus filhos. A análise genética ainda é feita em pouquíssimos laboratórios.

Tratamento

A doença de Fabry não tem cura. Porém, já existe uma forma sintética da enzima alfa-gal A para administração. As duas marcas atualmente comercializadas são a Replagal® e a Fabrazyme®.

Recentemente, um novo fármaco foi aprovado na Europa e EUA: Migalastat (nome comercial Galafold).

O Migalastat liga-se a determinadas formas instáveis da alfa-gal A, estabilizando a enzima. Isto permite que a enzima seja transportada para áreas da célula onde pode decompor a GL-3.

Atualmente, a expectativa de vida média dos pacientes não tratados está ao redor dos 50 anos. Os medicamentos são muito recentes e ainda não houve tempo para se comprovar diminuição da mortalidade, apesar das evidências de existir redução dos depósitos de GB3 e retardamento da perda de função renal.

Quanto mais cedo for iniciado o medicamento, melhores são os resultados. O tratamento é para vida toda.


Referências


Autor(es)

Médico graduado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com títulos de especialista em Medicina Interna e Nefrologia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), Universidade do Porto e pelo Colégio de Especialidade de Nefrologia de Portugal.


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33 comentários em “Doença de Fabry: o que é, causas, sintomas e tratamento”

  1. Bom dia,

    Dr, uma pessoa diagnostica na família com fabry todos vão ter a doença, minha filha de 9 anos tem muito dor abdominal e minha irma foi diagnosticada com fabry a um ano

    Responder
  2. Minha irma tem doença de fabry, e nao tenho coragem de fazer o teste genética tenho dois filhos qual a possibilidades de não ter a doenças se eu nao fizer pode prejudicar eles

    Responder
    • O ideal é fazer o teste, pois você provavelmente é portadora do gene. Como você teve 2 filhos homens, caso você seja portadora assintomática do gene, cada um deles tem 50% de chance de ter recebido o gene. É importante fazer o diagnóstico precoce.

      Responder
  3. olá

    estou fazendo um trabalho para a faculdade sobre essa doença, aqui foi o lugar onde consegui achar a informações mais completas. obrigada!

    você saberia me informar onde acho mais informações ou artigos sobre?

    falando do fato de mulheres que são heterozigotas mesmo assim apresentarem sintomas por exemplo

    Responder
    • Se você tiver os dois cromossomas X doentes, o risco dele ter a doença é de 100%. Se tiver apenas 1 cromossoma afetado, o risco dele é de 50%.

      Responder
  4. Olá.

    Estou fazendo um trabalho da universidade sobre DOENÇA DE FABRY e preciso de artigos científicos sobre esse tema.

    Pode me indicar um site onde eu encontre esses artigos, ou teria você alguns desses artigos para me ajudar.

    Responder
  5. bom dia Dr. meu filho tem 28 anos e essa semana descobriu essa doença fabry, descobriu depois de um ecocardiograma com contraste de microbolhas, fez pque sentia dores no peito e o coraçao sempre acelerava, fazendo eletrocardiogramas investigando o problema cardiaco e pressao alta ( pressao sempre foi normal ) agora a pressao so fica alta. quero saber se corre risco de ter morte subita, ou corre algum outro risco . obrigada.

    Responder
    • Rosemary, lamento, mas é impossível que eu, à distância, avalie as condições de saúde do seu filho, principalmente em relação ao risco de morte súbita. Só quem tem condições de dar essas informações é o médico que tem investigado a parte cardíaca dele.

      Responder
  6. Boa matéria, só discordo num ponto, não é necessário que para uma mulher ter Fabry, o pai e mãe sejam portadores, somente 1. Minha filha é portadora da doença, pois herdou de meu esposo, que herdou da mãe dele…

    Responder
    • Realmente esse conceito tem vindo a mudar nos últimos anos. Algumas mulheres que antigamente eram consideradas apenas carreadoras do cromossoma defeituoso podem apresentar graus diferentes de doença. Mas isso é individual e tem a ver com a o grau de atividade do cromossoma X saudável. No homem, a doença sempre ocorre, já nas mulheres com apenas 1 cromossoma X defeituoso, a doença pode ou não ocorrer.

      Responder
  7. Boa matéria sobre uma doença rara =)
    Sou estudante de medicina e estava assistindo House MD. Na 6ª temporada, episódio 3, é abordada a DF. Como acompanho seu site há algum tempo, pensei logo: Será que no MDSaúde tem algo a respeito?!
    Uma boa iniciativa trazer a público algumas doenças de menor prevalência =)

    Responder
  8. Dr. Pedro, após ler o seu artigo que achei excelente, ficou uma dúvida, todo diagnóstico para angioqueratoma, significa a doença de Fabry ou existem outros tipos?

    Responder
  9. ola dr Pedro…gostaria de saber como esta o estudo no Brasil a respeito da doença de Fabry? Como é esse acordo do Brasil com Alemanha sobre o tratamento de Fabry? E se tem uma media de quantas pessoas,no Brasil, ja tem esse diagnostico?

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