Melatonina: o que é, doses e efeitos colaterais

Autor(a): Dr. Pedro Pinheiro

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Tempo estimado de leitura: 7 minutos.

O que é a melatonina?

A melatonina, também conhecida como hormônio do sono, é um hormônio produzido pela glândula pineal, que é uma pequena glândula localizada na região central do cérebro, no meio dos dois hemisférios cerebrais. Essa substância age sobretudo no próprio cérebro, sendo responsável pelo controle dos ciclos de sono e vigília.

À noite, quando está escuro, a produção de melatonina aumenta, induzindo o cérebro a sentir sono. Durante o dia, quando está claro, a secreção de melatonina reduz-se, fazendo com que fiquemos mais despertos. A simples exposição à luz durante a noite ou ao escuro durante o dia pode alterar o ritmo de produção da melatonina.

A ação natural da melatonina sobre a indução do sono inspirou a criação de formas sintéticas do hormônio, cujo objetivo seria criar um fármaco que ajudasse a combater a insônia sem provocar os efeitos colaterais dos medicamentos habitualmente utilizados para esse fim, como o Zolpidem e os benzodiazepínicos (ex: Estazolam, Lorazepam, Triazolam, Clonazepam e outros).

No Brasil, o hormônio do sono tem estado no centro de uma grande polêmica, pois apesar de a sua comercialização não ser autorizada pela Anvisa, ela tem se tornado cada vez mais popular, principalmente pela ampla divulgação que a substância tem tido nos meios de comunicação de massa. Divulgação essa que é feita frequentemente de modo sensacionalista e com pouco critério científico.

Neste artigo vamos falar especificamente sobre o hormônio do sono. Se você procura informações sobre a insônia, acesse o seguinte link: INSÔNIA – Causas e Tratamento.

Como funciona a melatonina natural

Como já explicado na introdução deste artigo, a melatonina é um hormônio produzido no cérebro que é responsável pelo controle do ritmo circadiano do nosso organismo. 

O ritmo circadiano é o nosso relógio interno de 24 horas, que determina o ritmo dos processos biológicos do nosso organismo ao longo de um dia inteiro (controla, entre outros, a temperatura corporal, a secreção de hormônios e a pressão arterial). O ritmo circadiano desempenha um papel crítico na definição de quando vamos adormecer e quando vamos acordar.

A produção do hormônio do sono começa a se elevar ao entardecer, atingindo o seu pico entre as 23h e as 3h da manhã. Após o pico, os níveis de melatonina caem rapidamente, preparando o organismo para acordar no início da manhã. Ao redor das 8h-9h da manhã, os níveis de melatonina encontram-se no seu valor mínimo e assim permanecerão até o início da tarde.

É sempre importante destacar que a melatonina tem um importante papel no controle do ciclo sono-vigília, mas não é o único fator que controla o momento em que sentimos sono. Nem todo mundo com insônia tem deficiência na produção do hormônio do sono.

A melatonina é produzida a partir do triptofano, um aminoácido presente em diversos alimentos, tais como laticínios, carnes, amendoim, ovos, ervilha, etc. Não há evidências científicas, porém, de que o consumo de alimentos ricos em triptofano aumente os níveis sanguíneos de melatonina ou que ajudem no tratamento da insônia. Da mesma forma, o consumo de alimentos ricos em melatonina, como vinho, frutas, cereais e azeite, também não apresenta evidências sólidas de que possa ser útil na indução do sono.

Situações que podem interferir com a produção natural do hormônio do sono

Diversas situações podem interferir no ciclo natural da melatonina, incluindo trabalho noturno, jet lag, idade avançada, exposição frequente à luz artificial durante a noite, problemas de visão, etc.

Vamos explicar sucintamente algumas dessas situações:

Idade

A secreção de melatonina pela glândula pineal varia significativamente com a idade. No ser humano, o hormônio do sono começa a ser secretado ao redor do 4.º mês de vida, coincidindo com a consolidação do sono no período da noite. A partir desta idade, a capacidade de secreção noturna de melatonina aumenta rapidamente, atingindo um pico entre as idades de 1 e 3 anos. A partir de então, a produção desce ligeiramente, estabilizando-se num patamar que persiste durante toda a vida adulta.

Conforme envelhecemos, a secreção noturna de melatonina começa a sofrer um declínio. Uma pessoa de 70 anos, apresenta níveis noturnos de hormônio do sono cerca de 75% mais baixos que durante sua juventude. Esta queda costuma ocorrer pela calcificação progressiva da glândula pineal, que vai tornando-se cada vez menos capaz de secretar o hormônio.

Influência da luz

A secreção noturna de melatonina pode ser inibida pela exposição à luz durante a noite, mesmo em pequena intensidade, principalmente se as pupilas estiverem dilatadas.

Estudos mostram que o comprimento de onda entre 446 e 447 nm, percebido por nós como luz azul, é o tipo de luz que mais suprime a secreção de melatonina. Esse comprimento de onda de luz é muito comum nas luzes LED e nos aparelhos eletrônicos, tais como e-books, tablets, computadores, smartphones, etc.

Por conta desse fato, muitas pessoas têm adquirido óculos com lentes de coloração laranja, que ajudam a bloquear a luz azul, reduzindo, assim, o efeito inibitório das luzes artificias sobre a secreção noturna de melatonina.

Apesar de ser uma solução aceitável, as lentes laranjas bloqueiam também outros comprimentos de onda, que não só o azul, tornando-se um pouco desconfortáveis para serem usados em ambientes com baixa iluminação.

Uma alternativa mais cara, porém mais efetiva, é adquirir óculos com lentes que filtram exclusivamente os comprimentos de onda azul, que têm maior ação sobre a secreção do hormônio do sono.

Uma opção também eficaz é comprar luzes de cor vermelha para iluminação noturna, pois o vermelho faz parte do comprimento de onda que parece ser o que menos inibe a produção de melatonina. Todavia, assim como os óculos laranjas, não é muito confortável usar luzes vermelhas como fonte de iluminação noturna.

Medicamentos

Alguns fármacos e substâncias podem inibir a produção da melatonina. O mais conhecido é o propranolol, um medicamento da classe dos beta-bloqueadores, muito usado para o tratamento da hipertensão e de problemas cardíacos. A cafeína e o álcool também são substâncias que interferem com a secreção da melatonina.

Cegueira

Pessoas cegas que não conseguem detectar a presença da luz do dia podem ter uma produção de melatonina desregulada. Quanto mais grave é a deficiência visual, maior é o risco de transtornos do sono.

Melatonina sintética

A melatonina sintética, ou seja, a melatonina artificial criada em laboratórios, foi desenvolvida como uma potencial forma de tratar a insônia, servindo como alternativa mais econômica e com menos efeitos colaterais que os medicamentos habitualmente utilizados para esse fim.

Assim como a melatonina natural, a melatonina vendida comercialmente apresenta dois efeitos: ajuda na indução do sono e na sua manutenção durante a noite. A melatonina também serve para regularizar o sono nos trabalhadores noturnos, que precisam dormir de dia.

Inicialmente vendida como suplemento alimentar em boa parte do mundo, o hormônio do sono rapidamente se tornou popular e passou a ser uma rentável fonte de lucro para as empresas que a produziam.

Porém, como a melatonina era tratada pelas entidades reguladoras como um simples suplemento alimentar, e não como um medicamento, a falta de uma rigorosa fiscalização sobre o produto acabou gerando diversos problemas, tais como contaminação de amostras, comprimidos com doses excessivas (mais elevadas do que a descrita na embalagem), falta de controle sobre as doses indicadas, falsa propaganda em relação aos seus reais benefícios, dissimulação em relação à sua origem sintética (vender como natural um produto produzido em laboratório), adição de outras substâncias de forma oculta na fórmula, etc.

Como não era encarada como remédio, o fabricante não precisava comprovar cientificamente sua eficácia contra nenhuma doença, nem mesmo contra a insônia, principal indicação da melatonina. Não demorou para que a forma sintética do hormônio ganhasse ares de substância milagrosa, passando a ser tratada como solução para diversos problemas, como depressão, doença de Parkinson, envelhecimento e até como tratamento do câncer ou HIV.

Por conta dos abusos, a partir da década de 2000 vários países, incluindo os integrantes da União europeia, passaram a tratar a melatonina como droga, exigindo estudos científicos sobre eficácia e segurança, além de proibir sua comercialização sem prescrição médica. Nos EUA, entretanto, a melatonina continua sendo tratada como suplemento alimentar, podendo ser adquirida livremente.

Falaremos sobre a proibição da comercialização da melatonina no Brasil ao final deste artigo.

Como tomar

Existem atualmente duas formas diferentes de melatonina:

  • Melatonina sintética de rápida ação (forma mais comum) ou de liberação prolongada.
  • Análogos da melatonina: Ramelteon e Tasimelteon.

Melatonina

A melatonina pode ser encontrada em diversas dosagens: 0,5 mg, 1 mg, 2 mg, 3 mg, 5 mg ou 10 mg.

A dose de melatonina capaz de simular a produção natural do hormônio é de 0,1 a 0,5 mg por dia. Como a dose comercializada mais baixa é de 1 mg, o mais indicado é que no início do tratamento o paciente tome meio comprimido de 1 mg 30 minutos antes de ir para a cama.

Se não houver resultado, a dose pode ser aumentada progressivamente até 3 a 5 mg por dia (na maioria dos casos, a dose até 1 mg é mais que suficiente).

Alguns fabricantes sugerem desde o início doses bem mais elevadas do hormônio, tais como 5 ou 10 mg por dia. Com essas doses, porém, os níveis de melatonina no sangue chegam a ficar até 60 vezes acima dos valores de melatonina natural. Estas doses não têm nenhuma evidência de serem mais efetivas e ainda causam um aumento na incidência de efeitos colaterais.

A dose recomendada da melatonina de ação prolongada é de 2 mg, que deve ser tomada 1 ou 2 horas antes de ir para cama.

Para aliviar os efeitos do jet lag, a dose sugerida é de 3 mg na noite da chegada ao novo destino, mantendo o medicamento por mais 2 a 5 noites, conforme desejado. As formas de liberação rápida parecem ser mais efetivas que as de liberação lenta.

Análogos da melatonina

Os análogos de melatonina são substâncias que não são a melatonina, mas agem nos receptores cerebrais da melatonina, exercendo efeitos semelhantes, porém mais intensos. O Ramelteon e Tasimelteon são dois análogos da melatonina comercializados nos EUA, mas cuja venda não foi autorizada na União europeia por falta de comprovação científica em relação à sua eficácia.

Não existem estudos clínicos comparando a ação da melatonina sintética com a do Ramelteon ou do Tasimelteon.

Evidências científicas

Os estudos científicos controlados sobre a melatonina apresentam resultados contraditórios. Este fato se deve porque nem todo tipo de insônia responde ao tratamento com o hormônio do sono e nem toda insônia é provocada por uma deficiência na produção de melatonina.

Há muitos estudos que não conseguiram provar que a melatonina é superior ao placebo no tratamento da insônia crônica. Outros mostraram que a melatonina sintética reduz em apenas cerca de 7 minutos o tempo que o paciente leva para pegar no sono em comparação com o placebo.

As situações nas quais os estudos têm demonstrado que a melatonina funciona melhor que o placebo são:

  • Tratamento dos efeitos do jet lag.
  • Síndrome do atraso das fases do sono – que é um tipo de distúrbio do sono que faz com que o paciente demore muito para dormir (geralmente depois de 1 ou 2 da manhã) e no dia seguinte tenha dificuldade de acordar e ser produtivo na parte da manhã.
  • Insônia em pacientes com níveis mais baixos de hormônio do sono noturno.
  • Regularização do sono para pessoas que trabalham de madrugada e precisam dormir de dia.
  • Regularização do sono para pessoas com deficiência visual.

Apesar de não ser a droga milagrosa contra a insônia que os meios de comunicação frequentemente propagam, o hormônio do sono é uma boa opção de tratamento, já que em doses baixas o risco de efeitos colaterais é pequeno e, mesmo quando a reposição de melatonina não é a melhor opção de tratamento, o seu efeito placebo acaba sendo suficiente para muitos pacientes.

Efeitos colaterais do hormônio do sono

A melatonina é uma substância com baixa incidência de efeitos colaterais. Quando estes ocorrem, a causa habitualmente é a utilização de doses elevadas (acima de 3 mg) ou pela presença de substâncias ocultas na fórmula.

Entre os efeitos colaterais mais relatados podemos citar: dor de cabeça, sono fragmentado, aumento da incidência de pesadelo, tontura, náuseas, sensação de estar dopado, sonolência durante o dia e elevação dos níveis do hormônio prolactina.

Há relatos de casos de crise convulsiva em crianças que tomaram doses elevadas de hormônio do sono.

A melatonina vendida na Europa é um medicamento com produção mais controlada que a vendida nos EUA, sendo a versão mais segura de ser consumida.

Melatonina no Brasil – Por que a Anvisa proíbe sua comercialização?

Cada vez mais popular no Brasil, a venda da melatonina é proibida pela Anvisa (deixou de ser em outubro de 2021. Ver nota ao final do texto).

Apesar da intensa gritaria nas redes sociais contra a entidade reguladora, o motivo da proibição é simples: até hoje nenhuma empresa brasileira entrou com processo na Anvisa solicitando registro e autorização para poder comercializar o produto.

Portanto, não se trata de um veto à melatonina em si. Não é que a substância seja proibida, apenas não existem empresas autorizadas para produzir e vender em território brasileiro. Pacientes com receita médica podem solicitar importação da melatonina sem nenhum problema.

Ainda segundo a Anvisa, somente após o pedido de registro por parte de alguma empresa é que a entidade vai se manifestar especificamente sobre a substância. Como a posição oficial e pública da Anvisa nunca foi desmentida por nenhuma empresa, em princípio, não há motivos para acreditar em outras explicações.

Teorias da conspiração – Existem interesses escusos da indústria farmacêutica por trás da proibição da melatonina no Brasil?

Uma das acusações mais comuns nas redes sociais diz que a proibição da melatonina no Brasil é resultado de intenso lobby da indústria farmacêutica. A justificativa deste lobby seria o fato da indústria temer a concorrência, pois sendo a melatonina um hormônio natural, ela não pode ser pateteada e, portanto, não poderia gerar lucro para a indústria.

A afirmação acima é falsa em diversos aspectos. Ser um hormônio nada tem a ver com autorização de patentes. A insulina é um hormônio natural e é umas das substâncias que mais geram lucro à indústria farmacêutica. O estrogênio e a progesterona são hormônios naturais e fazem parte da composição das pílulas anticoncepcionais, uma das maiores histórias de sucesso comercial do mundo. A levotiroxina é o hormônio que os pacientes com hipotireoidismo precisam comprar e tomar. Isso para ficar só em três exemplos comuns. Há dezenas de formas de hormônios vendidas pela indústria farmacêutica.

Outra questão frequentemente ignorada pelos apologistas das teorias da conspiração contra a indústria farmacêutica é o papel da também bilionária indústria dos produtos naturais. Suplementos alimentares, fitoterápicos e outras substâncias ditas naturais fazem parte de uma indústria que movimenta anualmente mais de 100 bilhões de dólares em todo o mundo.

A indústria de produtos naturais também é um conglomerado que se norteia pelo lucro. É uma ilusão julgar que porque os seus produtos são taxados de “naturais” essa indústria é mais boazinha ou confiável. Na verdade, ao contrário da indústria farmacêutica, a indústria de produtos naturais frequentemente consegue emplacar no mercado produtos de qualidade duvidosa, com escassa comprovação científica e poucos estudos sobre segurança.

Exigir que a melatonina passe a ser tratada como medicamento e seja controlada por entidades reguladoras é uma vantagem para a população. Remédios produzidos pela indústria farmacêutica passam por estudos e avaliações muito, mas muito mais criteriosos do que os chamados “suplementos naturais”.

E do mesmo modo que a indústria farmacêutica tem os seus médicos que são pagos para divulgar e elogiar os seus produtos, a indústria dos suplementos alimentares também os tem. Não se deixe enganar, não há mocinhos nessa história. Esqueça a opinião do médico X ou Y. O que importa não é a opinião de alguém, mas sim se a substância, seja ela natural ou não, passou pelo crivo dos estudos clínicos controlados. Ciência se faz com estudos, não com opiniões.

Em tempo: em 14 de outubro de 2021, a Diretoria Colegiada da Anvisa aprovou por unanimidade o uso da melatonina para a formulação de suplementos alimentares, destinados exclusivamente a pessoas com idade igual ou maior que 19 anos e para o consumo diário máximo de 0,21 mg.


Referências


Autor(es)

Médico graduado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com títulos de especialista em Medicina Interna e Nefrologia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), Universidade do Porto e pelo Colégio de Especialidade de Nefrologia de Portugal.

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