Resumo
Principais pontos sobre epilepsia
- Epilepsia é uma doença neurológica caracterizada por uma predisposição persistente do cérebro para apresentar crises epilépticas.
- Crise epiléptica não é sinônimo de convulsão. Algumas crises provocam abalos musculares e perda da consciência, enquanto outras podem causar apenas olhar parado, sensações estranhas, movimentos automáticos ou alterações breves do comportamento.
- Uma única crise epiléptica não significa necessariamente que a pessoa tenha epilepsia. O diagnóstico depende das circunstâncias da crise e do risco de novos episódios.
- As crises podem ser focais, generalizadas, de origem desconhecida ou não classificadas, e os sintomas variam conforme as regiões do cérebro envolvidas.
- O diagnóstico é feito principalmente pela história clínica e pode ser complementado por eletroencefalograma (EEG), exames de imagem e outros testes.
- Na maioria dos pacientes, as crises podem ser controladas com tratamento adequado. A escolha do medicamento depende do tipo de crise, da causa da epilepsia e das características de cada pessoa.
- Uma crise tônico-clônica que dura 5 minutos ou mais é uma emergência médica.
O que são crise epiléptica, convulsão e epilepsia?
Nosso cérebro contém bilhões de neurônios que se comunicam e exercem suas funções por meio da geração constante de impulsos elétricos.
As crises epilépticas, inclusive aquelas que se manifestam com convulsões, surgem quando há um distúrbio na geração desses impulsos elétricos cerebrais, causado por uma atividade elétrica anormal, excessiva e sincronizada em redes de neurônios do cérebro.
Os termos epilepsia, crise epiléptica e convulsão costumam ser usados como se significassem a mesma coisa, mas não são sinônimos. Vamos explicar.
O que é uma crise epiléptica?
A crise epiléptica é um evento súbito e transitório provocado por uma descarga elétrica anormal no cérebro. Dependendo da região cerebral envolvida, a crise epiléptica pode ter diferentes manifestações clínicas.
Algumas crises são bastante evidentes, com perda da consciência, rigidez e movimentos repetitivos dos braços e das pernas. Outras são muito mais discretas e podem causar apenas alguns segundos de olhar parado, movimentos automáticos, alterações da visão, do olfato ou da sensibilidade, sensação de medo sem motivo aparente ou uma breve dificuldade de comunicação.
O que é epilepsia?
A epilepsia é uma doença neurológica na qual existe uma predisposição persistente do cérebro para apresentar crises epilépticas recorrentes.
Na prática, o diagnóstico de epilepsia pode ser estabelecido em três situações:
- Quando ocorrem duas ou mais crises epilépticas não provocadas, ou seja, crises que surgem sem uma alteração aguda que explique o episódio, separadas por mais de 24 horas.
- Após uma única crise não provocada, quando os exames e as características do paciente indicam um risco elevado de novas crises nos anos seguintes.
- Quando é identificada uma síndrome epiléptica específica.
A epilepsia também pode ter ou não uma causa identificável. Alterações genéticas, sequelas de AVC, malformações cerebrais, traumatismos antigos, tumores e outras doenças podem estar na origem do problema. Em outros pacientes, mesmo após investigação adequada, nenhuma causa específica é encontrada.
O que é uma convulsão?
Convulsão é uma manifestação motora caracterizada por contrações musculares involuntárias e movimentos anormais evidentes. Nem toda convulsão é provocada por uma crise epiléptica, embora isso ocorra com frequência.
A imagem clássica de uma pessoa que perde a consciência, cai no chão, fica inicialmente rígida e depois apresenta movimentos rítmicos dos braços e das pernas corresponde à crise tônico-clônica.
Entretanto, existem vários tipos de crise epiléptica que não provocam esse quadro. Uma pessoa pode ter epilepsia e nunca apresentar a convulsão tônico-clônica que popularmente costuma ser identificada como um “ataque epiléptico”.
Essa distinção também é importante porque algumas condições que provocam perda transitória da consciência podem produzir movimentos semelhantes a uma convulsão sem que o episódio seja necessariamente uma crise epiléptica. A avaliação das circunstâncias em que o evento ocorreu é fundamental para o diagnóstico.
Uma única crise significa epilepsia?
Não. Existem diversas situações nas quais uma pessoa pode apresentar uma crise epiléptica provocada por uma alteração aguda e reversível do organismo ou do cérebro. Essas crises são chamadas crises sintomáticas agudas ou crises provocadas.
Por exemplo, um paciente com diabetes mellitus que desenvolve uma hipoglicemia grave pode apresentar uma crise epiléptica. Se a crise ocorreu exclusivamente em consequência da queda acentuada da glicose e não existe uma predisposição persistente para novas crises, isso não significa que o paciente tenha epilepsia.
O mesmo pode ocorrer em situações como:
- Alterações importantes do sódio, cálcio ou magnésio no sangue.
- Abstinência de álcool ou de alguns medicamentos, como benzodiazepínicos.
- Intoxicação por determinadas drogas ou medicamentos.
- AVC agudo.
- Traumatismo craniano recente.
- Meningite ou encefalite.
- Falta grave de oxigênio no cérebro.
- Uremia grave em pacientes com insuficiência renal avançada.
Essas crises podem voltar a ocorrer enquanto a causa aguda ainda estiver presente, mas, de modo geral, quem apresenta uma crise provocada tem menor risco de desenvolver epilepsia posteriormente do que quem apresenta uma crise não provocada.
Por outro lado, uma pessoa que apresenta uma primeira crise sem um fator agudo que a explique pode já preencher critérios para epilepsia se houver alterações, como determinados achados no EEG ou na ressonância magnética, que indiquem uma probabilidade elevada de recorrência.

Quais são os sintomas da epilepsia?
A epilepsia não é uma doença única com uma única forma de manifestação. Existem diferentes tipos de epilepsia e de crises epilépticas, e os sintomas variam conforme as redes cerebrais envolvidas em cada caso. Por isso, nem toda pessoa com epilepsia desmaia, cai no chão ou apresenta movimentos convulsivos.
Na prática, os sintomas da epilepsia são as manifestações das próprias crises. Algumas pessoas apresentam perda da consciência e convulsões, enquanto outras têm episódios muito mais discretos, como olhar parado, movimentos automáticos, alterações da sensibilidade, sensações estranhas ou movimentos involuntários de apenas uma parte do corpo.
As crises costumam ser episódios súbitos, relativamente breves e estereotipados, ou seja, tendem a se repetir de maneira semelhante na mesma pessoa. Podem provocar manifestações motoras, sensitivas, autonômicas, cognitivas ou comportamentais.
Quanto ao tipo, a epilepsia pode ser focal, generalizada, combinada focal e generalizada ou de tipo desconhecido. Os sintomas, porém, dependem principalmente do tipo de crise. A seguir, veremos as manifestações das crises focais e generalizadas e seus principais subtipos.
Crises focais
As crises focais começam em redes localizadas de um dos hemisférios cerebrais. Os sintomas dependem da região onde a atividade elétrica anormal se inicia e de quanto ela se espalha.
Uma crise focal pode ocorrer com a consciência preservada, com comprometimento da consciência ou pode se espalhar para os dois hemisférios e evoluir para uma crise tônico-clônica bilateral.
Crise focal com consciência preservada
Na crise focal com consciência preservada, antigamente chamada de crise parcial simples, o paciente permanece consciente e geralmente consegue lembrar o que aconteceu.
As manifestações podem ser muito variadas. Dependendo da região cerebral envolvida, podem surgir:
- Movimentos involuntários de uma mão, braço, perna ou de um lado da face.
- Formigamentos ou outras alterações da sensibilidade.
- Pontos luminosos, flashes ou outras alterações visuais.
- Sons ou ruídos que não existem.
- Cheiros ou sabores estranhos.
- Sensação de vertigem.
- Sensação súbita de medo ou ansiedade sem motivo aparente.
- Déjà vu.
- Sensação estranha que começa na região do estômago e sobe em direção ao peito ou à garganta.
- Alterações da frequência cardíaca, sudorese ou outras manifestações autonômicas.
Essas crises podem ser muito breves e discretas. Por isso, alguns pacientes convivem durante meses ou anos com episódios que só são reconhecidos como crises epilépticas depois que ocorre um evento mais evidente.
Crise focal com comprometimento da consciência
A crise focal com comprometimento da consciência, anteriormente chamada de crise parcial complexa, faz com que o paciente pareça acordado, mas tenha sua capacidade de perceber ou responder adequadamente ao ambiente comprometida.
A pessoa pode ficar com o olhar fixo e realizar movimentos automáticos e repetitivos, chamados automatismos, como mastigar, estalar os lábios, esfregar as mãos, mexer repetidamente na roupa, manipular objetos sem finalidade aparente, andar sem rumo ou repetir palavras e frases.
Durante o episódio, o paciente pode não responder quando chamado ou responder de forma inadequada. Após a crise, são comuns confusão, sonolência, dor de cabeça e amnésia parcial ou completa do ocorrido.
Alguns pacientes apresentam antes da alteração da consciência uma sensação característica, tradicionalmente chamada aura. A aura não é apenas um aviso de que a crise vai começar: ela própria já corresponde a uma crise focal com consciência preservada.
Crise focal que evolui para tônico-clônica bilateral
Uma crise focal pode se espalhar para redes dos dois hemisférios e evoluir para uma crise tônico-clônica bilateral. Esse quadro era anteriormente chamado de crise com generalização secundária.
Em alguns pacientes é possível reconhecer os sintomas focais iniciais, como uma aura, movimentos de apenas um membro ou desvio da cabeça e dos olhos. Em outros, a propagação é tão rápida que o episódio parece, para quem observa, uma crise tônico-clônica generalizada desde o início.
Crises generalizadas
Nas crises generalizadas, a atividade epiléptica envolve rapidamente redes distribuídas nos dois hemisférios cerebrais.
Existem vários tipos de crise generalizada. As mais conhecidas são a tônico-clônica, a ausência, a mioclônica, a tônica e a atônica.
Crise tônico-clônica
A crise tônico-clônica é o tipo de crise que mais corresponde à imagem popular de uma convulsão. Antigamente, era chamada de crise de grande mal.
O quadro costuma começar com perda súbita da consciência. Na primeira fase, chamada fase tônica, ocorre contração intensa dos músculos, deixando o corpo rígido. O paciente pode cair, emitir um grito ou gemido involuntário e apresentar alteração da coloração dos lábios devido à interrupção temporária da respiração normal.
Em seguida surge a fase clônica, caracterizada por movimentos rítmicos e repetitivos dos braços e das pernas.
Durante a crise podem ocorrer salivação intensa, mordedura da língua, perda involuntária de urina ou fezes e traumatismos provocados pela queda ou pelos movimentos.
A crise tônico-clônica geralmente dura entre um e três minutos.
Quando os movimentos terminam, começa o período pós-ictal. O paciente pode permanecer sonolento, confuso, desorientado, com dor de cabeça e dores musculares. Em muitos casos, não se lembra da crise.
Crise de ausência
A crise de ausência provoca um comprometimento súbito e breve da consciência. A pessoa geralmente interrompe o que estava fazendo e fica com o olhar fixo durante alguns segundos.
Pode haver pequenos movimentos associados, como piscar repetidamente, mexer os lábios ou fazer movimentos discretos com as mãos.
Nas crises de ausência típicas, o paciente geralmente não cai. Terminada a crise, retoma imediatamente a atividade que estava realizando, muitas vezes sem perceber que algo aconteceu.
Como as crises podem durar poucos segundos e ocorrer muitas vezes ao dia, crianças com ausência podem ser confundidas com alunos distraídos ou desatentos.
As crises de ausência são particularmente comuns em algumas síndromes da infância e adolescência. Na epilepsia de ausência da infância, muitas crianças entram em remissão com o crescimento, mas existem outras formas de epilepsia com crises de ausência que podem persistir por mais tempo.
Crise mioclônica
As crises mioclônicas são caracterizadas por abalos musculares muito rápidos e breves, que podem ocorrer isoladamente ou em sequência.
Os braços são frequentemente acometidos, fazendo com que a pessoa deixe cair objetos das mãos. Em muitos casos, a consciência permanece preservada.
Algumas pessoas apresentam mioclonias principalmente após acordar.
É importante lembrar que nem toda mioclonia é epiléptica. Pequenos abalos musculares ao adormecer, por exemplo, são comuns em pessoas saudáveis.
Crise tônica
Na crise tônica ocorre um aumento súbito do tônus muscular, fazendo com que parte ou todo o corpo fique rígido.
Se a pessoa estiver em pé, pode cair de forma abrupta.
As crises tônicas costumam ser breves e são mais frequentes em determinadas síndromes epilépticas da infância.
Crise atônica
Na crise atônica ocorre exatamente o contrário da crise tônica: há uma perda súbita do tônus muscular.
Se apenas os músculos do pescoço forem envolvidos, a cabeça pode cair bruscamente para a frente. Se os braços perderem o tônus, objetos podem cair das mãos. Quando as pernas são acometidas, o paciente pode desabar subitamente no chão.
As crises atônicas costumam durar apenas alguns segundos e a recuperação geralmente é rápida.
O principal problema é o risco de traumatismos decorrentes das quedas, principalmente lesões na face e na cabeça. Pacientes com crises atônicas frequentes podem precisar utilizar capacetes de proteção em determinadas situações.
Esse tipo de crise ocorre principalmente em algumas síndromes epilépticas da infância, como a síndrome de Lennox-Gastaut.
Nem toda queda súbita em uma pessoa com epilepsia, entretanto, é uma crise atônica. Crises tônicas, mioclônicas ou mioclônico-atônicas também podem provocar quedas.

O que causa epilepsia?
A epilepsia pode ter diversas causas. Em alguns pacientes, a origem é identificada durante a investigação; em outros, mesmo após exames adequados, não é possível determinar por que o cérebro desenvolveu predisposição para apresentar crises.
As causas da epilepsia podem ser agrupadas em algumas categorias principais:
- Estruturais: AVC, traumatismo craniano, tumores cerebrais, malformações cerebrais, cicatrizes ou outras lesões do cérebro.
- Genéticas: alterações genéticas capazes de modificar a excitabilidade dos neurônios.
- Infecciosas: sequelas de meningite, encefalite, neurocisticercose e outras infecções do sistema nervoso.
- Metabólicas: determinadas doenças metabólicas hereditárias ou adquiridas.
- Imunológicas: doenças nas quais o sistema imunológico ataca estruturas do sistema nervoso.
- Desconhecidas: quando nenhuma causa específica pode ser demonstrada.
A importância de cada causa varia conforme a idade.
Na infância, fatores genéticos, malformações cerebrais e alterações do desenvolvimento têm maior importância. Em adultos e idosos, tornam-se mais frequentes causas adquiridas, como AVC, traumatismos cranianos, tumores e doenças neurodegenerativas.
O que pode desencadear uma crise em quem tem epilepsia?
Uma pessoa com epilepsia pode permanecer longos períodos sem crises e voltar a apresentá-las quando determinados fatores reduzem temporariamente o limiar para uma nova crise.
Os principais desencadeantes incluem:
- Esquecer ou interromper o medicamento antiepiléptico.
- Dormir pouco ou passar uma noite sem dormir.
- Consumo excessivo de álcool.
- Abstinência de álcool em pessoas dependentes.
- Uso de determinadas drogas.
- Febre ou outras doenças agudas.
- Alguns medicamentos capazes de reduzir o limiar convulsivo.
- Estresse intenso em determinados pacientes.
Luzes piscantes também podem desencadear crises, mas isso ocorre principalmente em pessoas com epilepsia fotossensível. A maioria dos pacientes com epilepsia não apresenta crises simplesmente por estar diante de telas, luzes ou videogames.
Estresse e emoções podem causar crises?
Não existe “epilepsia emocional”. Esse termo não é um diagnóstico médico nem um tipo específico de epilepsia.
Entretanto, estresse intenso, ansiedade e privação de sono podem facilitar o aparecimento de crises em algumas pessoas que já têm predisposição à epilepsia.
Também é importante lembrar que determinadas crises focais podem produzir manifestações emocionais como parte do próprio episódio, incluindo medo súbito, ansiedade intensa, sensação de familiaridade ou estranheza e outras alterações da percepção.
Por outro lado, episódios desencadeados por emoções também podem ter outras causas, como síncope ou crises funcionais. Por isso, a relação entre sintomas emocionais e crises deve ser avaliada individualmente.
Como é feito o diagnóstico da epilepsia?
O diagnóstico da epilepsia é feito principalmente pela história clínica. Não existe um único exame capaz de confirmar ou excluir epilepsia em todos os pacientes.
O neurologista procura inicialmente responder três perguntas:
- O episódio realmente parece ter sido uma crise epiléptica?
- Se foi uma crise, ela ocorreu por causa de uma alteração aguda e reversível ou foi uma crise não provocada?
- Há evidências de que o paciente tenha risco elevado de apresentar novas crises?
História da crise e relato de testemunhas
A descrição detalhada do episódio é uma das partes mais importantes da investigação.
Como muitos pacientes perdem a consciência ou não se lembram do que ocorreu, o relato de quem presenciou a crise pode ser fundamental.
Informações úteis incluem:
- O que a pessoa estava fazendo antes da crise.
- Se houve algum sintoma de aviso.
- Como começou o episódio.
- Se os olhos estavam abertos ou fechados.
- Presença de rigidez ou movimentos involuntários.
- Duração aproximada.
- Alterações da respiração e da cor da pele.
- Se há sinais de mordedura da língua.
- Se houve perda de urina.
- Estado do paciente após o episódio.
- Tempo necessário para recuperar completamente a consciência.
Quando for possível fazê-lo com segurança, um vídeo gravado por familiares ou testemunhas pode ser bastante útil para o diagnóstico.
Eletroencefalograma (EEG)
O eletroencefalograma registra a atividade elétrica cerebral e pode identificar padrões que aumentam a probabilidade de epilepsia ou sugerem determinado tipo de crise ou síndrome epiléptica.
Entretanto, um EEG normal não exclui epilepsia.
Um EEG de rotina pode não registrar descargas epileptiformes entre as crises. Por isso, quando a suspeita permanece elevada, podem ser necessários EEG com privação de sono, registros prolongados ou monitorização por vídeo-EEG.
Da mesma forma, alterações no EEG precisam ser interpretadas no contexto clínico. Um traçado anormal, isoladamente, não substitui a avaliação do episódio apresentado pelo paciente.
Ressonância magnética e outros exames de imagem
A ressonância magnética do cérebro é utilizada para procurar alterações estruturais capazes de causar epilepsia, como cicatrizes, malformações, tumores ou sequelas de AVC.
Em situações de emergência, principalmente após uma primeira crise associada a traumatismo, déficit neurológico, suspeita de sangramento ou outras condições agudas, a tomografia computadorizada pode ser realizada inicialmente.
Exames de sangue e eletrocardiograma
Exames laboratoriais podem ser solicitados para investigar alterações que provocam crises, como:
- Hipoglicemia.
- Distúrbios do sódio, cálcio ou magnésio.
- Alterações da função renal ou hepática.
- Intoxicações.
O eletrocardiograma também pode fazer parte da avaliação de uma primeira perda de consciência, porque algumas arritmias cardíacas provocam desmaios que podem ser confundidos com crises epilépticas.
O que pode ser confundido com uma crise epiléptica?
Nem todo episódio de perda da consciência, tremores ou movimentos involuntários é causado por epilepsia.
Entre as condições que podem se parecer com crises epilépticas estão:
- Síncope.
- Arritmias cardíacas.
- Crises funcionais ou dissociativas não epilépticas*.
- Enxaqueca.
- Ataques de pânico.
- Distúrbios do sono.
- Movimentos involuntários de outras causas.
- Alterações metabólicas.
Em alguns casos, a distinção é simples. Em outros, pode ser necessário acompanhamento prolongado ou registro do episódio por vídeo-EEG.
* Crises funcionais ou dissociativas são episódios que podem se parecer muito com crises epilépticas — com tremores, movimentos involuntários, queda, alteração da consciência ou falta de resposta —, mas não são causados por descargas elétricas epilépticas no cérebro. Elas fazem parte dos chamados transtornos neurológicos funcionais. Os sintomas são reais e involuntários; não se trata de fingimento. Em muitos casos, fatores psicológicos, estresse ou experiências traumáticas podem estar associados, mas isso não ocorre em todos os pacientes.
Epilepsia em crianças
A epilepsia é relativamente comum na infância, mas suas causas e manifestações podem ser diferentes das observadas nos adultos.
Em crianças, a idade em que as crises começam é uma informação particularmente importante porque várias síndromes epilépticas surgem em faixas etárias específicas.
Algumas epilepsias infantis são autolimitadas e desaparecem com o crescimento. Outras estão associadas a alterações genéticas, malformações cerebrais ou problemas do desenvolvimento neurológico e podem persistir na vida adulta.
As crises também podem ser discretas, manifestando-se como olhar parado, pequenos movimentos repetitivos, quedas, abalos breves ou períodos de alteração do comportamento.
Convulsão febril é epilepsia?
Na maioria das vezes, não.
A convulsão febril ocorre em crianças, geralmente entre 6 meses e 5 anos de idade, durante episódios de febre e sem evidência de infecção direta do sistema nervoso central.
A convulsão febril simples é generalizada, dura menos de 15 minutos e ocorre apenas uma vez em um período de 24 horas.
A convulsão febril é considerada complexa quando apresenta uma ou mais das seguintes características:
- Duração de 15 minutos ou mais.
- Manifestação focal.
- Repetição dentro de 24 horas.
Ter uma convulsão febril não significa que a criança tenha epilepsia.
A maioria das crianças apresenta bom prognóstico, e os antitérmicos podem melhorar o desconforto causado pela febre, mas não impedem de forma confiável que novas convulsões febris ocorram.
Para informações mais detalhadas, leia: Convulsão febril em crianças.
O que é estado de mal epiléptico (status epilepticus)?
O estado de mal epiléptico, também chamado status epilepticus, é uma emergência neurológica em que uma crise se prolonga anormalmente ou várias crises ocorrem sucessivamente sem que o paciente recupere adequadamente a consciência entre elas.
No caso de uma crise tônico-clônica, uma duração de 5 minutos ou mais já deve ser tratada como estado de mal epiléptico convulsivo e requer atendimento médico imediato.
Quanto mais tempo uma crise convulsiva persiste, menor é a chance de ela terminar espontaneamente e maior o risco de complicações.
O estado de mal epiléptico pode ocorrer em pessoas que já têm epilepsia, por exemplo após interrupção dos medicamentos, mas também pode ser a primeira manifestação de outras doenças, como AVC, infecções do sistema nervoso, traumatismos, intoxicações ou distúrbios metabólicos graves.
Existem também formas de estado de mal não convulsivo, nas quais não há grandes movimentos dos braços e das pernas. O paciente pode permanecer confuso, sonolento, pouco responsivo ou com comportamento anormal por tempo prolongado.
Nessas situações, o diagnóstico frequentemente depende do eletroencefalograma.
Como é feito o tratamento da epilepsia?
O objetivo do tratamento é impedir novas crises com o menor número possível de efeitos adversos, permitindo que o paciente mantenha uma vida normal ou tão próxima do normal quanto possível.
A principal forma de tratamento são os medicamentos antiepilépticos, também chamados medicamentos anticrise.
Medicamentos para epilepsia
Não existe um único medicamento considerado o melhor para todos os pacientes.
A escolha depende de vários fatores, incluindo:
- Tipo de crise.
- Tipo ou síndrome de epilepsia.
- Idade.
- Sexo.
- Possibilidade de gravidez.
- Outras doenças.
- Medicamentos utilizados simultaneamente.
- Efeitos adversos.
- Possíveis interações medicamentosas.
A escolha também varia conforme o tipo de crise. Entre as opções mais utilizadas estão:
- Crises focais: lamotrigina e levetiracetam são opções iniciais frequentes. Carbamazepina, oxcarbazepina e zonisamida são alternativas; lacosamida também pode ser utilizada em situações selecionadas.
- Crises tônico-clônicas generalizadas: levetiracetam, lamotrigina e valproato estão entre as principais opções. Topiramato e zonisamida também podem ser utilizados.
- Crises de ausência: etossuximida é a principal opção quando há apenas crises de ausência. Se ela não funcionar ou não for tolerada, lamotrigina, levetiracetam ou valproato são alternativas. Quando existem outros tipos de crise associados, lamotrigina, levetiracetam ou valproato costumam ser preferidos.
- Crises mioclônicas: levetiracetam e valproato são opções frequentes. Zonisamida e, em situações selecionadas, clonazepam também podem ser utilizados.
- Crises tônicas ou atônicas: lamotrigina ou valproato estão entre as principais opções iniciais. Se o controle for insuficiente, clobazam, rufinamida ou topiramato podem ser considerados, dependendo da síndrome epiléptica e das características do paciente.
A identificação correta do tipo de crise é importante porque alguns medicamentos eficazes para crises focais, como carbamazepina e oxcarbazepina, podem piorar crises de ausência ou mioclônicas em determinadas epilepsias generalizadas. A lamotrigina também pode agravar as mioclonias em alguns pacientes. Por isso, o tratamento depende da classificação correta das crises e da síndrome epiléptica.
O valproato merece atenção especial. Embora seja um dos medicamentos mais eficazes para algumas epilepsias generalizadas, deve ser evitado sempre que possível em mulheres e meninas com possibilidade de engravidar, devido ao risco elevado de malformações congênitas e alterações do desenvolvimento fetal. Nesses casos, lamotrigina e levetiracetam costumam ser alternativas consideradas com frequência.
Na maioria dos casos, o tratamento começa com apenas um medicamento. Aproximadamente metade dos pacientes consegue ficar livre de crises com o primeiro tratamento adequadamente escolhido.
Se o primeiro medicamento não funcionar ou causar efeitos adversos importantes, outra opção pode ser utilizada.
O paciente não deve reduzir ou suspender o medicamento por conta própria. A interrupção abrupta pode precipitar novas crises e até estado de mal epiléptico.
Toda pessoa que teve uma crise precisa tomar medicamento?
Não necessariamente.
Uma pessoa que apresentou uma crise provocada por uma causa reversível, como hipoglicemia grave, pode não precisar de tratamento antiepiléptico prolongado depois que o problema é corrigido.
Mesmo após uma primeira crise não provocada, a decisão de iniciar medicamento depende do risco estimado de recorrência.
Fatores que aumentam esse risco incluem determinadas alterações no EEG, lesões cerebrais estruturais, exame neurológico anormal, algumas síndromes epilépticas e certas características da própria crise.
Depois de duas crises não provocadas, o risco de novos episódios já é suficientemente elevado para que o tratamento seja indicado na grande maioria dos pacientes.
O que é epilepsia refratária?
A epilepsia é considerada farmacorresistente ou refratária quando dois esquemas de medicamentos adequadamente escolhidos, tolerados e utilizados em doses apropriadas não conseguem produzir controle sustentado das crises.
Isso não significa que não existam outras possibilidades de tratamento.
Pacientes com epilepsia refratária devem ser avaliados em centros especializados, principalmente para confirmar se os episódios realmente são crises epilépticas, se o tipo de epilepsia foi corretamente identificado e se há alternativas além de simplesmente trocar medicamentos sucessivamente.
Cirurgia para epilepsia
Alguns pacientes com epilepsia focal resistente aos medicamentos podem ser candidatos à cirurgia.
O objetivo é remover ou desconectar a área do cérebro onde as crises começam, desde que isso possa ser feito sem causar déficits neurológicos inaceitáveis.
Em pacientes bem selecionados, a cirurgia pode proporcionar controle muito superior ao obtido com novas tentativas de medicamentos.
Neuroestimulação
Quando a cirurgia de ressecção não é possível, técnicas de estimulação elétrica do sistema nervoso podem reduzir a frequência das crises.
Entre as opções existentes estão a estimulação do nervo vago e outras formas de neuroestimulação utilizadas em centros especializados.
Dieta cetogênica
A dieta cetogênica pode ser utilizada em determinados tipos de epilepsia, principalmente em crianças com epilepsias resistentes ao tratamento convencional.
A dieta cetogênica utilizada no tratamento da epilepsia é rica em gorduras, fornece quantidade adequada de proteínas e restringe bastante os carboidratos. Existem também versões menos restritivas, como a dieta de Atkins modificada. Esse tipo de tratamento deve ser planejado e acompanhado por uma equipe médica e nutricional com experiência em terapias cetogênicas.
Não é uma dieta que deva ser iniciada por conta própria.
Epilepsia tem cura?
A resposta depende do tipo e da causa da epilepsia.
Algumas síndromes da infância são autolimitadas e tendem a entrar em remissão com o crescimento. Em outros casos, o paciente pode permanecer muitos anos sem crises e, após avaliação neurológica, suspender gradualmente os medicamentos sem que os episódios retornem.
Por outro lado, existem formas de epilepsia que persistem por toda a vida e exigem tratamento contínuo. Pacientes com algumas epilepsias estruturais ou genéticas, por exemplo, podem manter um risco elevado de recorrência mesmo após longos períodos sem crises.
A possibilidade de remissão, portanto, varia bastante de um paciente para outro. Algumas pessoas podem deixar de apresentar crises e não precisar mais de medicamentos, enquanto outras necessitam de tratamento por muitos anos ou por toda a vida.
A decisão de retirar os medicamentos deve ser individualizada. Mesmo após anos sem crises, a suspensão deve ser gradual e orientada pelo neurologista.
Epilepsia pode matar?
Na maioria dos casos, pessoas com epilepsia bem controlada podem levar uma vida longa e ativa.
Pessoas com epilepsia têm risco de morte prematura de até cerca de três vezes o da população geral, embora esse risco varie bastante conforme a causa da epilepsia, o controle das crises e a presença de outras doenças. O risco é maior quando as crises são frequentes ou permanecem sem controle.
As principais situações relacionadas a esse aumento de risco incluem:
- Acidentes durante uma crise.
- Quedas e traumatismos.
- Afogamento.
- Acidentes de trânsito.
- Estado de mal epiléptico.
- Doenças neurológicas graves que causaram a epilepsia.
- Morte súbita inesperada na epilepsia.
O que é SUDEP?
SUDEP é a sigla em inglês para morte súbita inesperada na epilepsia. O termo é utilizado quando uma pessoa com epilepsia morre de forma súbita e inesperada sem que outra causa seja identificada, como traumatismo, afogamento, intoxicação ou estado de mal epiléptico. Pode haver ou não evidência de uma crise imediatamente antes da morte.
Em muitos casos, a morte ocorre após uma crise tônico-clônica, frequentemente durante o sono. A pessoa pode terminar a fase convulsiva e, no período pós-ictal, desenvolver alterações graves da respiração, do ritmo cardíaco e do controle autonômico. Em outras situações, a pessoa é encontrada morta e não é possível saber se houve uma crise imediatamente antes.
Em média, estima-se que a SUDEP ocorra em cerca de 1 a cada 1.000 pessoas com epilepsia por ano. O risco individual, porém, varia bastante.
O principal fator de risco para SUDEP é a ocorrência de crises tônico-clônicas frequentes e mal controladas. Crises durante o sono também estão associadas a maior risco. Quanto melhor for o controle dessas crises, menor tende a ser o risco.
Por isso, as principais medidas de prevenção são usar corretamente os medicamentos, evitar interrupções do tratamento e procurar reavaliação médica quando as crises continuam ocorrendo apesar da terapia.
Qual é a expectativa de vida de uma pessoa com epilepsia?
Não existe um número único de anos que possa ser aplicado a todas as pessoas com epilepsia.
A expectativa de vida depende de fatores como:
- Causa da epilepsia.
- Frequência e gravidade das crises.
- Grau de controle com o tratamento.
- Presença de outras doenças.
- Risco de acidentes.
- Ocorrência de crises tônico-clônicas frequentes.
Uma pessoa jovem, saudável e com epilepsia bem controlada pode ter expectativa de vida próxima à da população geral.
Já pacientes com doenças neurológicas graves, crises muito frequentes ou epilepsia refratária podem apresentar risco maior de complicações.
O que fazer durante uma crise convulsiva?
Presenciar uma crise tônico-clônica pode ser assustador, mas a maioria das crises termina espontaneamente em poucos minutos.
O mais importante é proteger o paciente contra traumatismos e evitar medidas que possam causar ainda mais danos.
Durante uma convulsão:
- Mantenha a calma e observe o horário em que a crise começou.
- Se a pessoa estiver em pé, ajude-a a chegar ao chão para evitar uma queda descontrolada.
- Afaste móveis, objetos pontiagudos ou qualquer coisa que possa causar ferimentos.
- Coloque algo macio sob a cabeça, se for possível.
- Afrouxe roupas apertadas ao redor do pescoço.
- Não tente conter os braços ou as pernas à força.
- Não tente interromper os movimentos.
- Não dê água, comida ou medicamentos pela boca enquanto a pessoa não estiver completamente desperta.
Nunca coloque os dedos, uma colher, pano, carteira ou qualquer outro objeto dentro da boca do paciente.
A pessoa não consegue engolir a própria língua. Forçar a abertura da boca pode quebrar dentes, causar ferimentos na mandíbula e provocar mordidas graves em quem estiver tentando ajudar.
Quando os movimentos cessarem, coloque o paciente de lado, sempre que possível, para facilitar a respiração e permitir que saliva ou vômitos escoem para fora da boca.
Permaneça ao lado da pessoa até que ela recupere adequadamente a consciência.
É comum haver sonolência e confusão depois da crise. Não é necessário tentar manter o paciente acordado à força, mas ele deve continuar sendo observado até recuperar a respiração e a consciência de forma satisfatória.

Quando chamar o serviço de emergência?
Procure atendimento médico de urgência ou acione o serviço de emergência quando:
- A crise tônico-clônica durar 5 minutos ou mais.
- Uma segunda crise começar antes que a pessoa tenha recuperado a consciência.
- For a primeira crise da vida.
- O paciente tiver dificuldade para respirar depois do episódio.
- Não recuperar progressivamente a consciência.
- Ocorrer traumatismo importante.
- A crise acontecer dentro da água.
- A paciente estiver grávida.
- Houver suspeita de intoxicação, infecção grave ou outra doença aguda.
Pacientes com epilepsia conhecida e crises breves, semelhantes às que habitualmente apresentam, podem ter orientações específicas fornecidas pelo neurologista sobre quando procurar atendimento.
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Dúvidas de leitores sobre este tema
Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.
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Obrigado e muito bom seu artigo!!!