Resumo
Principais pontos sobre a febre chikungunya
- O que é chikungunya? É uma infecção viral transmitida principalmente pela picada do mosquito Aedes aegypti. Seus sintomas mais característicos são febre e dores intensas nas articulações.
- Quais são os principais sintomas? Febre alta de início súbito, dores articulares, inchaço das articulações, dor muscular, cansaço, dor de cabeça e manchas avermelhadas na pele.
- Quando aparecem os sintomas? Geralmente entre 3 e 7 dias após a picada do mosquito infectado, embora o intervalo possa chegar a duas semanas.
- Quanto tempo dura a chikungunya? A febre costuma desaparecer em 3 a 5 dias, e os sintomas gerais melhoram na primeira semana. As dores articulares, porém, podem persistir por meses ou até anos.
- Como se pega chikungunya? Pela picada de mosquitos infectados. A doença não passa por abraços, beijos, apertos de mão ou pelo convívio habitual com o paciente.
- Chikungunya tem cura? Sim. A maioria das pessoas se recupera espontaneamente, mas algumas apresentam dores articulares prolongadas, que podem exigir tratamento.
- Como é feito o tratamento? Não existe antiviral específico. Na fase aguda, o tratamento inclui repouso relativo, hidratação e analgésicos. A inflamação articular persistente pode exigir medicamentos e acompanhamento reumatológico.
- Quais são as principais sequelas? Dores articulares recorrentes ou persistentes, por vezes acompanhadas de inchaço, rigidez e dificuldade para realizar atividades cotidianas.
- Existe vacina contra a chikungunya? Sim. No Brasil, a vacinação foi iniciada em 2026 em municípios selecionados, para adultos de 18 a 59 anos que atendam aos critérios estabelecidos pelo Ministério da Saúde.
O que é a febre chikungunya?
A febre chikungunya (ou chicungunha) é uma doença provocada por um vírus que apresenta sintomas semelhantes aos da dengue, tais como febre alta, dores pelo corpo, dor de cabeça, cansaço e manchas avermelhadas pelo corpo.
Ao contrário da dengue, a chikungunya raramente provoca complicações hemorrágicas importantes. Isso não significa, porém, que seja uma infecção inofensiva: além das dores articulares incapacitantes e prolongadas, a doença pode causar complicações neurológicas, cardíacas, pulmonares e renais, especialmente em pessoas mais vulneráveis.
A febre chikungunya pode ser transmitida pelos mesmos mosquitos que transmitem a dengue e zika.
Neste artigo faremos uma revisão sobre a febre chikungunya, incluindo sintomas, formas de transmissão, diagnóstico e tratamento. Vamos explicar também como o vírus Chikungunya chegou ao Brasil, por que algumas pessoas ficam com dores articulares durante meses e o que já existe em termos de vacinação.
Se você procura informações sobre outras doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, acesse os seguintes artigos:
- Dengue – Sintomas e tratamento.
- Reconheça o mosquito da dengue.
- Febre amarela – Vacina, transmissão e sintomas.
- Febre Zika.
O código da chikungunya na Classificação Internacional de Doenças (CID-10) é A92.0.
Transmissão
A febre chikungunya é uma infecção transmitida pelo vírus Chikungunya (CHIKV), que é um arbovírus, ou seja, um vírus transmitido por artrópodes. No caso específico da febre chikungunya, os artrópodes que transmitem o vírus são os mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus. No Brasil, o Aedes aegypti é o principal vetor.

Portanto, a febre chikungunya, assim como tantas outras, é uma doença transmitida pela picada de determinados mosquitos. Exceto situações específicas que serão explicadas mais abaixo, não há transmissão do CHIKV diretamente de uma pessoa para outra. Você pode conviver, abraçar, apertar as mãos e até beijar uma pessoa contaminada que não há risco de contágio.
Assim como ocorre na dengue, o Aedes aegypti e o Aedes albopictus não conseguem transmitir o vírus Chikungunya imediatamente após a sua contaminação. Quando o mosquito pica alguém infectado pela febre chikungunya, o sangue contaminado entra pelo seu sistema digestivo. A partir daí, o vírus passa a se replicar dentro do organismo do inseto, só indo aparecer nas glândulas salivares após alguns dias.
Esse intervalo de tempo necessário para o mosquito contaminado tornar-se um mosquito contaminante é chamado de período de incubação extrínseco.
O período de incubação extrínseco do vírus Chikungunya é de cerca de 10 dias. Todavia, este período pode variar. Em geral, quanto mais quente for a temperatura do ambiente, mais curto é o período de incubação extrínseco. Em locais onde a temperatura ambiente é baixa, o mosquito pode morrer antes que o período de incubação extrínseco esteja completo, o que ajuda a explicar a maior incidência da doença em áreas tropicais.
Uma pessoa infectada pode ter vírus circulando no sangue pouco antes de apresentar os sintomas e, principalmente, durante os primeiros dias da doença. Por isso, o paciente deve utilizar repelente e outras formas de proteção contra picadas, sobretudo na primeira semana de sintomas. O objetivo é impedir que novos mosquitos sejam contaminados e transmitam a doença a outras pessoas.
Outras formas de transmissão
A transmissão através da picada de mosquito é responsável por praticamente todos os casos de febre chikungunya. Porém, há outras formas possíveis de se contaminar com o CHIKV.
Uma delas é a chamada transmissão vertical, que ocorre da mãe para o bebê. O maior risco existe quando a gestante está com o vírus circulando no sangue próximo ao momento do parto. Nessas circunstâncias, a transmissão para o recém-nascido pode ocorrer em aproximadamente metade dos casos. O parto por cesariana não demonstrou impedir a infecção.
Até onde sabemos, o vírus chikungunya não causa o padrão de malformações fetais associado ao vírus Zika. Entretanto, a infecção materna pode provocar complicações gestacionais, e a transmissão da mãe para o bebê, embora seja particularmente importante perto do parto, não está restrita exclusivamente a esse momento.
Os recém-nascidos contaminados costumam desenvolver a doença entre 3 e 7 dias após o nascimento, e o quadro clínico pode ser bem mais grave que nos adultos, inclusive com complicações neurológicas e cardíacas. Não há evidências de transmissão do CHIKV pelo aleitamento materno; por isso, a amamentação não deve ser suspensa apenas em razão da infecção.
Outra forma possível de contaminação é através do contato com sangue de pacientes infectados. Acidentes com agulhas contaminadas e a exposição a produtos sanguíneos são vias raras ou potenciais de transmissão. O transplante de órgãos também é uma possibilidade teórica, embora não haja casos confirmados de transmissão por essa via.
Febre Chikungunya no Brasil
O vírus Chikungunya foi reconhecido pela primeira vez na década de 1950 após um surto da doença na Tanzânia, na África Oriental. Desde então, a doença foi reconhecida em vários países da África e do Sudeste Asiático, ficando restrita a estas regiões por décadas.
Porém, em 2006 estudos identificaram uma mutação no CHIKV, que tornou mais fácil a sua transmissão através do mosquito Aedes albopictus. Desta forma, vários países do mundo, incluindo os EUA e o sul da Europa, passaram a ter duas espécies de Aedes com grande capacidade de transmissão do vírus Chikungunya.
Como o Aedes aegypti e o Aedes albopictus estão presentes em grande parte do continente americano, era apenas uma questão de tempo até que o vírus Chikungunya chegasse à região e começasse a se espalhar.
Casos importados da doença já haviam sido registrados em vários países do continente americano, mas em 2013 surgiram, no Caribe, os primeiros casos de transmissão local do vírus Chikungunya dentro das Américas. Desde então, a doença se espalhou rapidamente, atingindo mais de 40 países e territórios americanos em aproximadamente um ano.
No Brasil, os primeiros casos de transmissão do vírus Chikungunya foram identificados em setembro de 2014. Até então, todos os casos conhecidos eram importados, adquiridos por brasileiros que haviam viajado para áreas endêmicas.
Como era esperado, a combinação entre a elevada prevalência dos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus no território brasileiro e a ausência de anticorpos contra o novo vírus entre a população fez com que rapidamente surgissem surtos da febre chicungunha em diferentes regiões do país. Em pouco mais de 1 mês, mais de 1000 casos foram notificados em todo o Brasil.
Atualmente, a chikungunya já apresenta transmissão em todos os estados brasileiros. A quantidade de casos varia de ano para ano e costuma aumentar nos períodos mais favoráveis à proliferação dos mosquitos.
Sintomas da febre chikungunya
O termo chikungunya vem de uma língua falada na Tanzânia e no norte de Moçambique e significa algo como “aquele que se dobra”. O termo surgiu pelo fato de os pacientes acometidos pela doença terem intensas dores articulares, que fazem com que fiquem com o tronco arqueado.
O período de incubação da febre chicungunha no ser humano pode ser de até 2 semanas, mas, na maioria dos casos, a doença surge entre 3 e 7 dias após o indivíduo ter sido picado pelo mosquito. Cerca de 80% dos pacientes contaminados desenvolvem sintomas, embora a proporção varie entre os surtos.
A chamada fase aguda da febre chicungunha começa com uma febre alta de início súbito, muitas vezes acima de 39ºC, associada a mal-estar e intensa poliartralgia (dor em várias articulações).
As dores articulares costumam surgir nas primeiras 48 horas e acometem cerca de 90% dos pacientes com chicungunha. As dores surgem no corpo inteiro, mas os locais mais afetados costumam ser as mãos, punhos, pés e tornozelos. Intensa dor lombar também é comum. O paciente pode ter dor em mais de 10 grupos articulares ao mesmo tempo, o que o deixa bastante incapacitado.
Habitualmente, as dores atingem articulações dos dois lados do corpo e podem ser acompanhadas de inchaço, rigidez matinal e dificuldade para movimentar os dedos. Em alguns casos, a inflamação também compromete os tendões, provocando tenossinovite.
Manchas vermelhas e coceira na pele
Nos primeiros dias da doença, entre 40% e 75% dos pacientes podem apresentar um rash maculopapular na pele, que são pequenas manchas avermelhadas, que podem ou não ter algum relevo. O rash costuma aparecer por volta do terceiro dia de sintomas e surge com predomínio no tronco e nos membros, podendo atingir também o rosto, as mãos e os pés. Cerca de 1/4 dos pacientes queixam-se de prurido (coceira) nas lesões.

Dor de cabeça, dor muscular, cansaço, diarreia, vômitos, conjuntivite, dor de garganta e dor abdominal também são sintomas possíveis na fase inicial da doença.
A febre costuma durar de 3 a 5 dias. Na maioria dos pacientes, os sintomas gerais começam a desaparecer ainda na primeira semana. Entretanto, é comum que as dores articulares continuem mesmo depois que a febre desaparece.
Embora a febre seja uma das manifestações mais características da chikungunya, ela não está presente em todos os pacientes. Algumas pessoas, principalmente idosos, podem ter dores articulares importantes sem febre ou com elevações discretas da temperatura corporal.
Quanto tempo dura a chikungunya?
A evolução da doença é dividida em três fases, principalmente de acordo com a persistência dos sintomas articulares:
- Fase aguda: compreende os primeiros 14 dias da doença. É o período no qual costumam ocorrer febre, mal-estar, manchas na pele e dores articulares intensas, embora a febre geralmente desapareça antes do fim dessas duas semanas.
- Fase pós-aguda: ocorre quando as dores articulares persistem entre o 15º e o 90º dia. Apesar de não ter mais febre, o paciente pode permanecer semanas com poliartralgia, inchaço ou rigidez das articulações. Algumas pessoas melhoram e depois voltam a apresentar dores.
- Fase crônica: ocorre quando os sintomas articulares persistem ou reaparecem após 3 meses. As dores podem durar meses ou até anos, sendo que alguns pacientes continuam apresentando sintomas por mais de uma década.
Muitos pacientes se recuperam durante a fase aguda. Outros continuam sintomáticos por períodos prolongados, embora a proporção varie bastante entre os estudos.
Sequelas da chikungunya: por que as dores podem durar meses ou anos?
A principal sequela da chikungunya é a persistência das dores articulares. Elas podem ser fortes o suficiente para atrapalhar o trabalho, o sono e atividades simples, como caminhar, vestir-se ou abrir uma garrafa.
Na fase aguda, o vírus provoca inflamação nas articulações, nos tendões e nos tecidos ao redor. Na maioria dos pacientes, essa resposta inflamatória diminui gradualmente após o controle da infecção. Em outros, porém, os sintomas persistem mesmo quando já não existe vírus detectável no sangue.
Não se sabe exatamente por que isso acontece. Entre as hipóteses estão a permanência de componentes virais em alguns tecidos e uma ativação prolongada do sistema imunológico. Isso não significa que todo paciente com dor crônica continue transmitindo o vírus ou que precise de antivirais.
Uma metanálise identificou manifestações reumáticas crônicas em aproximadamente 40% dos pacientes, mas os números variam conforme a população, o tempo de acompanhamento e a definição de dor persistente. O risco parece ser maior em pessoas acima de 40 a 45 anos, em quem teve dores muito intensas na fase aguda e nos indivíduos com doenças articulares anteriores, como artrose.
Existem diferentes padrões de dor após a chikungunya:
- Artralgia: dor articular que pode existir mesmo sem inchaço evidente.
- Artrite: inflamação da articulação, habitualmente acompanhada de dor, inchaço, rigidez e limitação de movimento.
- Dor neuropática: dor relacionada ao comprometimento dos nervos, que pode provocar queimação, choques, dormência ou formigamento.
Essa distinção importa porque os tratamentos não são iguais. Além disso, nem toda dor articular que aparece após uma chikungunya é necessariamente consequência dela. O paciente também pode apresentar artrose, artrite reumatoide ou outra doença reumatológica, que precisa ser investigada.
Complicações
Como não costuma provocar manifestações hemorrágicas importantes, a febre chikungunya é frequentemente considerada uma virose menos perigosa que a dengue. O seu problema mais comum é o risco de incapacitação pelas intensas e prolongadas dores articulares. Entretanto, a chikungunya também pode causar complicações graves e, em alguns casos, levar ao óbito.
Quando adquirida por recém-nascidos, pacientes com mais de 65 anos ou por pessoas com doenças preexistentes, principalmente cardíacas, pulmonares, renais ou neurológicas, a febre chikungunya costuma ter uma evolução mais agressiva.
Entre as complicações possíveis do CHIKV podemos citar: meningoencefalite, síndrome de Guillain-Barré, hepatite aguda, insuficiência renal aguda, surdez, lesão ocular, miocardite, pericardite e insuficiência respiratória. Também podem ocorrer arritmias, descompensação de doenças crônicas e, menos frequentemente, sangramentos.
A mortalidade é especialmente elevada entre idosos, mas sua magnitude varia conforme a idade, as doenças associadas e as características dos surtos; por isso, não existe uma única estimativa de risco válida para todas as populações.
Quando procurar atendimento médico?
Pacientes com suspeita de chikungunya devem procurar avaliação médica, principalmente porque os sintomas iniciais podem ser confundidos com os da dengue.
A presença de falta de ar, dor no peito, desmaio, confusão mental, convulsões, sangramentos, diminuição importante da quantidade de urina, vômitos persistentes ou piora acentuada do estado geral exige atendimento urgente.
A febre que persiste por mais de 5 a 7 dias, principalmente acompanhada de piora clínica, também merece reavaliação para investigar complicações ou outras infecções associadas.
Gestantes, recém-nascidos, idosos e pessoas com doenças crônicas precisam de acompanhamento mais cuidadoso. Mesmo sem sinais de gravidade, dores que impedem o paciente de caminhar, trabalhar ou realizar atividades básicas justificam nova avaliação, sem necessidade de esperar três meses.
Diferenças entre a dengue e a febre Chikungunya
A dengue e a febre chikungunya partilham várias semelhanças. Em alguns casos, pode ser bastante difícil fazer o diagnóstico diferencial somente através dos sinais e sintomas. Todavia, uma avaliação clínica mais cuidadosa pode nos ajudar.
A principal diferença é o acometimento das articulações. A dengue até pode causar dor articular, mas ela não costuma ser tão importante quanto a dor muscular ou a dor nos olhos. Na febre chikungunya, a poliartralgia é um dos sintomas mais exuberantes e é tipicamente dor das articulações das extremidades (mãos e pés).
Outra diferença é o rash cutâneo, embora seu momento de aparecimento não permita identificar com segurança a doença. Na zika, as manchas costumam surgir precocemente, muitas vezes nos primeiros dois dias. Na dengue, geralmente aparecem depois dos primeiros dias de febre. Na chikungunya, o momento de aparecimento é variável e pode coincidir com o observado nas outras duas infecções.
Na dengue, a queda das plaquetas costuma ser mais acentuada e eventos hemorrágicos, como manchas roxas na pele, sangramento nasal ou de gengiva, são bem mais comuns. A dengue também apresenta maior risco de extravasamento de plasma e choque circulatório.
Após o fim da fase aguda, o paciente com dengue costuma sentir-se cansado por vários dias, enquanto o paciente com febre chikungunya queixa-se principalmente de dor articular persistente.
A tabela abaixo faz um resumo sobre as principais diferenças entre a dengue, a chicungunha e a febre Zika:
| Sinais e sintomas | Dengue | Zika | Chikungunya |
|---|---|---|---|
| Febre | Geralmente alta, por 2 a 7 dias | Ausente ou baixa, em geral de curta duração | Geralmente alta, por 3 a 5 dias |
| Dor muscular | Frequente e intensa | Geralmente leve | Comum, mas a dor articular predomina |
| Dor nas articulações | Pode ocorrer, geralmente menos intensa | Geralmente leve a moderada | Muito comum, intensa e incapacitante |
| Inchaço das articulações | Pouco característico | Pode ocorrer, geralmente leve | Frequente, podendo ser intenso |
| Manchas na pele | Frequentes, geralmente após os primeiros dias | Frequentes e habitualmente precoces | Frequentes, geralmente nos primeiros dias |
| Coceira | Pode ocorrer | Muito característica | Pode ocorrer |
| Conjuntivite | Pouco característica | Característica | Pode ocorrer |
| Sangramentos | Mais característicos da doença | Incomuns | Incomuns |
| Queda das plaquetas | Frequente, podendo ser acentuada | Menos característica | Pode ocorrer |
| Dor articular prolongada | Pouco característica | Incomum | Pode persistir por meses ou anos |
| Complicações de destaque | Extravasamento de plasma, choque e lesão de órgãos | Infecção congênita e, raramente, síndrome de Guillain-Barré | Artrite crônica e, raramente, complicações cardíacas e neurológicas |
Importante: a tabela acima apresenta tendências clínicas, não critérios definitivos para o diagnóstico. Os três vírus podem circular ao mesmo tempo em uma mesma região, sendo possível, inclusive, que uma pessoa seja infectada por mais de um deles simultaneamente.
Diagnóstico da febre chikungunya
Assim como na dengue, a febre chikungunya pode ser diagnosticada pela sorologia, que é um exame de sangue que consiste na pesquisa de anticorpos contra o CHIKV. Entretanto, a escolha do exame depende do número de dias transcorridos desde o início dos sintomas.
RT-PCR para chikungunya
Uma forma de diagnosticar a doença é através de um exame chamado RT-PCR, que pesquisa a presença do material genético do vírus Chikungunya no sangue. Esse exame é mais caro, mas costuma ser capaz de diagnosticar a febre chikungunya já nos primeiros dias de doença.
O RT-PCR é especialmente útil durante a primeira semana, quando o vírus ainda está circulando em maior quantidade no sangue. Um resultado positivo confirma a infecção. Um resultado negativo, entretanto, não a exclui completamente, principalmente se a coleta tiver sido feita mais tarde.
Sorologia IgM e IgG
Os anticorpos do tipo IgM já podem ser identificados no sangue do paciente a partir do 5º ao 7º dia de sintomas, embora o aparecimento varie de uma pessoa para outra. Por isso, a sorologia torna-se mais útil depois da primeira semana.
A IgM costuma indicar infecção recente, mas pode permanecer positiva por semanas ou meses. Portanto, um resultado positivo isolado não significa necessariamente que o vírus continue ativo.
Os anticorpos IgG surgem um pouco mais tarde, geralmente a partir da segunda semana, e podem permanecer detectáveis durante anos. Um resultado positivo para IgG geralmente indica infecção anterior, mas não comprova, sozinho, que uma dor articular atual tenha sido provocada pela chikungunya.
Na interpretação dos resultados, o médico considera a data de início dos sintomas, a circulação do vírus na região e os achados clínicos. Em situações específicas, pode ser necessário repetir a sorologia ou utilizar testes confirmatórios, pois também existem resultados falsamente positivos ou negativos.
Hemograma e outros exames
Nas análises de sangue comuns, como no hemograma, é habitual encontrarmos linfopenia (valores baixos de linfócitos), trombocitopenia (valores baixos de plaquetas) e alterações nas enzimas hepáticas (TGO e TGP).
Essas alterações, porém, não são específicas da chikungunya. Como dengue e zika podem causar sintomas semelhantes, também pode ser necessário investigar essas infecções.
Nos pacientes com manifestações articulares persistentes, exames de sangue e de imagem podem ajudar a identificar artrite ou tenossinovite e a descartar outras doenças reumatológicas. Uma sorologia IgG positiva, isoladamente, não estabelece o diagnóstico de artrite crônica causada pela chikungunya.
Tratamento da febre chikungunya
Tal como na dengue, não existe tratamento antiviral específico contra a febre chikungunya. Não há um medicamento que aja diretamente contra o vírus de modo a eliminá-lo do organismo mais rapidamente. A imensa maioria dos pacientes apresenta melhora espontânea da fase aguda após cerca de 7 a 10 dias. O tratamento que se propõe, portanto, é sintomático e de suporte.
A conduta, entretanto, pode mudar conforme a fase da doença, a intensidade das dores e a presença de inflamação articular.
Tratamento da fase aguda
Para evitar a desidratação, indica-se o consumo regular de líquidos. Para muitos adultos sem doenças que exijam restrição hídrica, 1,5 a 2,0 litros de água por dia podem servir como uma referência inicial, mas a necessidade real varia conforme o peso, a febre, as perdas de líquidos e o estado clínico. Pacientes com insuficiência cardíaca ou doença renal avançada podem precisar de orientações diferentes.
Para o controle da febre e das dores articulares, as drogas mais indicadas são o paracetamol e a dipirona, desde que não haja contraindicações. A dose deve ser adequada à idade, ao peso e às condições clínicas do paciente.
O uso de anti-inflamatórios, como ibuprofeno, diclofenaco e naproxeno, ou aspirina deve ser evitado enquanto ainda houver suspeita de dengue, pois esses medicamentos podem aumentar o risco de sangramentos e outros efeitos adversos. Mesmo que a chikungunya tenha sido confirmada, é preciso avaliar a possibilidade de coinfecção por dengue.
Nas pessoas com chikungunya confirmada e dengue afastada, alguns anti-inflamatórios podem ser considerados pelo médico para o controle da dor e da inflamação. Entretanto, o protocolo brasileiro prefere evitá-los durante os primeiros 14 dias; seu uso também exige cuidado em idosos e pessoas com doença renal, gástrica ou cardiovascular.
Na fase aguda, também não se recomenda o uso rotineiro de corticoides, pois estes são fármacos que inibem a resposta imunológica. Situações excepcionais, como complicações graves em órgãos específicos, devem ser avaliadas e tratadas individualmente em ambiente médico.
Repouso relativo e medidas para aliviar a febre completam o tratamento. Quando existe coceira importante, loções calmantes e, em alguns casos, anti-histamínicos podem ajudar. Dores muito intensas que não melhoram com os analgésicos habituais exigem reavaliação, podendo necessitar de medicamentos mais potentes por tempo limitado.
Tratamento da fase pós-aguda
Na fase pós-aguda, quando a febre já desapareceu, mas as dores articulares continuam, o tratamento depende principalmente da presença ou ausência de inflamação nas articulações.
Quando há dor sem sinais importantes de artrite, o médico pode manter analgésicos e, após avaliação das contraindicações, prescrever anti-inflamatórios não esteroides por um período limitado.
Se houver artrite ou tenossinovite, com inchaço e rigidez persistentes, os corticoides podem ser uma opção válida para o controle dos sintomas. A prednisona é um dos medicamentos utilizados, mas a dose, a duração e a retirada gradual devem ser individualizadas. Seu uso por conta própria pode provocar efeitos adversos e dificultar o controle da doença.
Algumas pessoas apresentam dor neuropática, com sensações de queimação, choque ou formigamento. Nesses casos, medicamentos como gabapentina, pregabalina ou determinados antidepressivos usados para tratar dor neuropática podem ser mais úteis do que simplesmente aumentar a dose dos analgésicos comuns.
A fisioterapia e a recuperação gradual da mobilidade também são importantes, especialmente quando a dor provoca perda de força e dificuldade para realizar atividades habituais.
Tratamento da chikungunya crônica
Na fase crônica, quando os sintomas persistem por mais de 3 meses, é importante verificar se o paciente apresenta artrite inflamatória persistente ou apenas dor articular sem sinais objetivos de inflamação.
Nos casos de artrite crônica incapacitante, o tratamento pode ser semelhante ao utilizado em algumas doenças reumatológicas, como a artrite reumatoide. Se analgésicos, anti-inflamatórios e medidas de reabilitação não forem suficientes, pode ser necessário utilizar medicamentos que modificam a atividade da doença.
O guia brasileiro de manejo clínico inclui a hidroxicloroquina como opção inicial para determinados pacientes, seguida do metotrexato quando não há resposta adequada. Alguns grupos, entretanto, consideram que os estudos com hidroxicloroquina não demonstraram benefício consistente e favorecem o metotrexato nos quadros selecionados de poliartrite inflamatória crônica. Portanto, não existe concordância completa entre as recomendações.
O metotrexato é um medicamento que exige acompanhamento clínico e laboratorial, principalmente por seus possíveis efeitos sobre o fígado, o sangue e os rins. Na reumatologia, sua administração habitual é semanal, e não diária. Nenhum desses medicamentos deve ser iniciado sem avaliação médica especializada.
Nos casos que não respondem aos tratamentos habituais, o reumatologista pode considerar outras opções, incluindo medicamentos imunomoduladores e, em situações selecionadas, medicamentos biológicos.
É importante destacar que nem toda pessoa com dor articular persistente precisa de corticoide, hidroxicloroquina ou metotrexato. A escolha do tratamento depende da causa da dor, da presença de artrite, da gravidade e das doenças associadas.
Quem teve chikungunya pode fazer exercícios?
Durante a fase aguda, quando há febre e dores intensas, o repouso relativo costuma ser a melhor opção. Depois que a febre desaparece, os exercícios podem ser retomados gradualmente, respeitando os limites impostos pela dor.
Alongamentos, exercícios leves e fisioterapia podem ajudar a recuperar os movimentos e a força muscular. Entretanto, atividades de impacto ou que sobrecarreguem articulações inflamadas podem piorar os sintomas.
Portanto, a recomendação não é manter repouso absoluto durante meses, mas também não é tentar superar dores intensas com exercícios vigorosos. O ideal é adaptar a atividade física à recuperação de cada paciente.
Prevenção
A principal forma de prevenir a chikungunya é combater os mosquitos transmissores e evitar suas picadas.
O Aedes aegypti e o Aedes albopictus picam principalmente durante o dia, embora também possam picar em outros horários. Por isso, deve-se eliminar recipientes que acumulem água parada, manter caixas-d’água fechadas, limpar calhas, usar telas nas janelas e aplicar repelentes adequados à idade e às condições de cada pessoa.
Quem está com chikungunya deve ter atenção especial à prevenção de picadas durante a primeira semana de doença. Isso reduz a chance de que outros mosquitos adquiram o vírus e continuem a transmissão.
Existe vacina contra a chikungunya?
Sim. Já existem vacinas contra a chikungunya aprovadas em diferentes países, mas a disponibilidade e as indicações variam conforme as autoridades sanitárias locais.
No Brasil, a Anvisa aprovou em 2025 a IXCHIQ, desenvolvida pela Valneva em parceria com o Instituto Butantan. Em maio de 2026, autorizou também sua fabricação nacional, sob a denominação Butantan-CHIK. Trata-se essencialmente do mesmo imunizante, de vírus vivo atenuado, administrado em dose única, e não de duas vacinas com mecanismos diferentes.
A estratégia de vacinação do Ministério da Saúde começou em 2026, inicialmente em municípios selecionados e para pessoas de 18 a 59 anos, conforme o risco de exposição e os critérios locais. Portanto, a vacina não passou a estar disponível automaticamente para toda a população brasileira.
Por se tratar de vacina de vírus vivo atenuado, há contraindicações importantes. No Brasil, ela não é indicada para gestantes, pessoas imunossuprimidas, indivíduos com condições médicas mal controladas ou múltiplas comorbidades, entre outros grupos definidos pela Anvisa. A estratégia brasileira também exclui lactantes e pessoas com 60 anos ou mais.
Após a utilização da IXCHIQ em outros países, foram relatados eventos adversos graves, sobretudo em idosos e pessoas com doenças crônicas. Isso motivou revisões das recomendações de segurança. Portanto, a vacinação deve ocorrer somente para quem atende aos critérios vigentes, após avaliação das contraindicações.
Existe ainda outra vacina, chamada VIMKUNYA, produzida com partículas semelhantes ao vírus, sem vírus vivo. Ela já foi aprovada em outros países, incluindo os Estados Unidos e países da União Europeia, mas ainda não está disponível na rede pública de saúde brasileira.
Quem já teve chikungunya pode pegar novamente?
A infecção pelo vírus Chikungunya costuma provocar imunidade duradoura. Por isso, uma segunda infecção é considerada incomum.
Quando uma pessoa que já teve chikungunya volta a apresentar dores articulares semanas ou meses depois, o mais provável é que esses sintomas façam parte da evolução pós-aguda ou crônica da doença, e não que ela tenha contraído o vírus novamente.
Entretanto, caso surja uma nova febre ou outros sintomas agudos, é importante procurar avaliação médica. Outras infecções, incluindo dengue e zika, podem ocorrer mesmo em quem já teve chikungunya.
- Ministério da Saúde — Chikungunya: manejo clínico, 2ª edição revisada (2025).
- Organização Mundial da Saúde — Guidelines for clinical management of arboviral diseases (2025).
- Centers for Disease Control and Prevention — Symptoms of chikungunya (2026).
- Centers for Disease Control and Prevention — Clinical testing and diagnosis for chikungunya.
- Anvisa — Vacina Butantan-CHIK (2026).
- Anvisa — Alerta de segurança da vacina IXCHIQ (2026).
- Ministério da Saúde — Vacinação contra chikungunya: estratégia piloto (2026).
- UpToDate. Chikungunya fever: Epidemiology, clinical manifestations, and diagnosis.
- UpToDate. Chikungunya fever: Treatment and prevention.
Dúvidas de leitores sobre este tema
Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.
Mais comentários dos leitores
Excelentes explicações Dr. Pedro. Você está de Parabéns. Continue trabalhando com perfeição nessa linda profissão que você escolheu!
Doutor, boa noite…. Estou com chikungunya e notei a minha menstruação diferente, ela não está sujando o absorvente e só desce quando eu urino. Sempre tive o fluxo bem intenso e confesso que estou preocupada. Isso pode ter alguma relação? Estou ha 2 dias com a doença e tendo febre muito alta.
Bom dia, dr Pedro! Eu tive a febre chikungunya em maio/17, posso tomar a vacina H1N1? Obrigada!
Muito proveitoso seu artigo Parabéns! Sucesso Dr. Pedro!
Dr. Pedro estou com a chicungunha e visto essa doeça atingir o figado será que eu posso tomar o liquido do medicamento eparex?
Médico excelente para docência e assistência, explicações maravilhosas. Deus abençoe sua vida!
Dr Pedro, e normal a doença deixar uma parte do corpo ou articulações de fora por exemplo eu to com quase todas as articulações doendo, menos a minha perna direita.
Posso comer carne de porco, e ovos?
Bom dia. Praticar pilates e digitar teclado de computador pode piorar os sintomas de dores articulares causadas pela chicungunya?
Doutor Pedro – Uma vez, a pessoa tendo tido chikungunya, ela pode ser fonte de transmissão do virus para o mosquito? Se sim, por quanto tempo?
to gravida e mesmo assim a chikungunya me pegou qual o tratamento para me livrar
Parabéns Dr. Pedro, muito esclarecedor seus artigos de saúde. Obrigada, pela sua colaboração, que sempre são repassadas com muita responsabilidade além de contarmos continuamente com textos éticos indispensáveis nas orientações de saúde publica em geral. Deus abençoe!
É possível ocorrer TVP após um quadro clínico (testes negativados) c/tds sintomas exceto febre em paciente imunossupremido?
estive na emergencia e o médico fez apenas um hemograma e exame de seangue e dise-me que era suspeita de chikungunya, não aguento mais de dor, porém não tive febre nem dor de cabeça, somente muita dor articular é normal?
Olá, estou há 4 dias com a chikungunya, a febre já diminuiu e a dor no corpo continua, mas o que mais me incomoda no momento é a coceira. Não aguento mais a coceira. Tem alguma maneira de aliviar ou parar?
Já tem 25 dias que estou com dores nas juntas. tenho que retornar ao médico?
Poxa! Eu também estou algum tempo com dores nas articulações e não sei o que fazer.
Amigo tive chicugunya, e ja ta c 11 dias e to sentindo mto cansado e fadiga…ainda é da doenca?
Doutor Boa tarde! E viável tomar beta 30 para amenizar as dores nas articulações? Quais podem ser os riscos? Obrigado!
Minha filha esta tres dias com chikungunya, agora a menstruação dela começo, é necessario voltar ao hospital?
Fazer academia ajuda a diminuir as dores causadas pela chicungunha ou é pior? Já estou com as dores há 1 mês e pouco