Resumo
Principais pontos sobre a proteína C reativa (PCR)
- O que é: a proteína C reativa (PCR) é uma proteína produzida principalmente pelo fígado, cuja concentração no sangue aumenta quando há inflamação no organismo.
- Para que serve: o exame ajuda a identificar processos inflamatórios e infecciosos e a acompanhar a evolução de algumas doenças e a resposta ao tratamento.
- PCR alta: pode ocorrer em infecções bacterianas ou virais, doenças autoimunes, traumatismos, cirurgias e outras condições. O exame, isoladamente, não identifica a causa.
- Valores normais: a maioria das pessoas saudáveis apresenta PCR abaixo de 3 mg/L (0,3 mg/dL), mas os valores de referência variam entre os laboratórios.
- PCR muito alta: resultados acima de 100 mg/L (10 mg/dL) sugerem uma resposta inflamatória importante, frequentemente associada a infecções, mas não permitem determinar sozinhos a doença responsável.
- PCR ultrassensível: mede a mesma proteína, mas consegue detectar concentrações muito menores. É utilizada principalmente como informação complementar na avaliação do risco cardiovascular.
- PCR normal: não exclui infecção ou doença inflamatória, especialmente quando o exame é realizado muito cedo.
O que é a proteína C reativa?
A proteína C reativa, também conhecida pela sigla PCR, é uma proteína produzida principalmente pelo fígado, cuja concentração sanguínea aumenta rapidamente quando há um processo inflamatório em curso, situação que pode ser provocada por infecções, neoplasias, doenças reumáticas ou traumatismos.
A concentração sanguínea da proteína C reativa pode ser dosada através de um simples exame de sangue. Hoje em dia, praticamente qualquer laboratório faz a dosagem da proteína C reativa.
Se a PCR estiver alta, isso indica que o organismo está apresentando uma resposta inflamatória, mas não necessariamente uma infecção. A PCR é um exame inespecífico. Ela ajuda a detectar e acompanhar processos inflamatórios, mas é incapaz de dizer, sozinha, qual é a sua origem. Ou seja, o exame pode indicar que algo está acontecendo no organismo, mas não informa qual é a doença responsável nem em que órgão ela se encontra.
Por que a proteína C reativa aumenta?
O fígado é responsável pela síntese de muitas das proteínas que circulam na corrente sanguínea. Em estados de estresse para o organismo, como nos casos de infecções ou lesões de órgãos e tecidos, ele aumenta a produção de diversas proteínas chamadas proteínas de fase aguda.
Além da PCR, fazem parte desse grupo o fibrinogênio, a ferritina e a amiloide A sérica. O fibrinogênio, por exemplo, contribui para a elevação do VHS (velocidade de hemossedimentação), outro exame utilizado para avaliar processos inflamatórios. Algumas proteínas apresentam o comportamento oposto: a albumina, por exemplo, tende a diminuir durante a inflamação.
Essas proteínas de fase aguda participam da resposta do organismo à inflamação, ajudando o sistema imunológico a combater agentes invasores, eliminar células danificadas e promover a recuperação dos tecidos. Dentre as várias proteínas de fase aguda existentes, a proteína C reativa é uma das que mais se destaca.
A proteína C reativa foi descoberta na década de 1930 após análises do sangue de pacientes com pneumonia. Naquela época, os investigadores notaram que a PCR encontrava-se muito elevada durante a fase ativa da pneumonia, mas diminuía quando o paciente ficava curado.
Não demorou muito para se descobrir que esse fenômeno não ocorria somente na pneumonia, mas também em várias outras infecções relevantes no organismo, principalmente aquelas de origem bacteriana.
Na maioria dos casos, elevações muito acentuadas da PCR estão relacionadas a infecções, principalmente bacterianas, mas qualquer processo inflamatório pode ser a causa.
Além das infecções, diversas outras doenças podem provocar elevação da PCR, como:
- Apendicite aguda.
- Pancreatite aguda.
- Doença inflamatória intestinal.
- Linfomas.
- Mieloma múltiplo.
- Tumores malignos.
- Traumatismos.
- Queimaduras.
- Infarto do miocárdio.
- AVC.
- Artrite reumatoide.
- Doença de Behçet.
- Esclerodermia.
- Granulomatose com poliangiite (antiga granulomatose de Wegener).
- Febre reumática.
As doenças listadas acima são apenas alguns exemplos. A lista completa, incluindo as doenças infecciosas, tem dezenas de exemplos.
Há várias décadas, sabemos também que o valor da PCR pode ser útil para identificar indivíduos com maior risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Pequenas, mas persistentes, elevações da PCR estão associadas a um maior risco de eventos cardiovasculares no futuro, como infarto e AVC (explicamos mais adiante).
Atenção: a sigla PCR também é utilizada para uma técnica chamada reação em cadeia da polimerase, que identifica material genético, como o DNA ou RNA de agentes infecciosos. O RT-PCR utilizado no diagnóstico da COVID-19 é um exemplo. Neste texto, não abordaremos esse tipo de PCR, pois ele é um exame completamente diferente da dosagem da proteína C reativa.
Para que serve o exame de proteína C reativa?
A proteína C reativa é muito usada para ajudar no diagnóstico de doenças inflamatórias e infecciosas e para o acompanhamento da eficácia do seu tratamento.
Como já referido, a PCR é um exame inespecífico. Ela nos diz que existe uma resposta inflamatória em curso, mas não ajuda muito na hora de identificar qual é o agente causador.
Para identificar a origem da inflamação ou infecção, são necessários outros dados, como uma correta interpretação da história clínica, dos sinais e sintomas do paciente e a utilização de outros exames complementares, como radiografia de tórax, análises de urina, ultrassonografia, etc.
A PCR é especialmente útil quando seus resultados são comparados ao longo do tempo. Saber que um paciente tem PCR de 80 mg/L pode ser importante, mas saber que ela caiu de 180 para 80 mg/L após início do antibiótico nos dá uma boa indicação de que o tratamento está sendo efetivo, principalmente se o paciente também estiver apresentando melhora clínica.
Como é feito o exame de PCR? Precisa de jejum?
A dosagem da proteína C reativa é feita através de uma coleta comum de sangue, geralmente de uma veia do braço.
Não é necessário jejum nem qualquer preparo especial para medir a PCR isoladamente. Entretanto, se outros exames forem solicitados na mesma coleta, pode haver orientações específicas.
Também é importante informar ao médico quais medicamentos estão sendo utilizados, pois alguns tratamentos anti-inflamatórios, imunossupressores e outros medicamentos podem modificar os níveis de PCR.
Proteína C reativa nos casos de infecção
A concentração de proteína C reativa no sangue eleva-se precocemente em muitos casos de infecção.
Geralmente, a PCR começa a aumentar cerca de 6 a 8 horas após o início do estímulo inflamatório, alcançando valores mais elevados nas 24 a 48 horas seguintes. Esse intervalo pode variar conforme a doença e a intensidade da resposta inflamatória.
Isso significa que uma PCR normal nas primeiras horas de uma infecção não é suficiente para descartar o diagnóstico de infecção.
A PCR é útil tanto no diagnóstico quanto no acompanhamento das infecções, pois, conforme os antibióticos vão surtindo efeito e a infecção vai sendo controlada, o valor da proteína C reativa tende a cair.
Um paciente que, após 48 a 72 horas de tratamento com antibiótico, continua apresentando febre, piora do estado geral e PCR persistentemente elevada ou em ascensão precisa ser reavaliado. Isso pode indicar que o tratamento não está sendo eficaz, que existe alguma complicação ou que o diagnóstico inicial precisa ser revisto.
Entretanto, a PCR não deve ser utilizada isoladamente para decidir se um antibiótico está funcionando. A melhora dos sintomas e dos sinais clínicos continua sendo fundamental. Em algumas infecções, o valor da PCR pode demorar um pouco mais para começar a cair, mesmo quando o tratamento está adequado.
Historicamente, nós sempre utilizamos, através do hemograma, o número de leucócitos no sangue para ajudar no diagnóstico e no acompanhamento das infecções. A PCR trouxe uma informação adicional importante, pois seus valores sobem e caem relativamente rápido de acordo com a intensidade da resposta inflamatória.
Hoje em dia, é comum utilizarmos tanto o hemograma quanto a PCR como exames complementares nos casos de infecção.
Outra informação importante é que PCR alta não significa, necessariamente, que o paciente precisa tomar antibióticos. Existem processos inflamatórios que não são provocados por bactérias.
As infecções bacterianas costumam provocar elevações mais intensas da PCR do que as virais, mas há uma grande sobreposição entre seus resultados. Algumas infecções virais podem elevar bastante a PCR, enquanto determinadas infecções bacterianas produzem elevações discretas, especialmente no início do quadro.
Portanto, não existe um valor de PCR que, sozinho, permita afirmar com segurança se uma infecção é bacteriana ou viral.
Proteína C reativa nos casos de doenças reumáticas
As doenças reumáticas e as doenças autoimunes podem provocar quadros de inflamação crônica no organismo, levando, assim, à elevação da PCR.
Ao contrário de muitas infecções bacterianas, que podem produzir elevações muito acentuadas da PCR, algumas doenças reumáticas provocam aumentos mais discretos e persistentes. Entretanto, essa não é uma regra absoluta: doenças reumáticas muito ativas também podem causar valores elevados.
Nestes casos, a PCR pode servir como parâmetro de atividade da doença.
Por exemplo, pacientes com artrite reumatoide que apresentam elevação persistente da PCR tendem a apresentar maior atividade inflamatória, o que está associado a um maior risco de erosões ósseas e deformidades das articulações a médio/longo prazo. A redução da PCR durante o tratamento pode indicar uma melhor resposta, embora seja possível haver atividade da doença mesmo com o exame normal.
Ao contrário da maioria das doenças reumáticas e autoimunes, o lúpus eritematoso sistêmico parece ser um caso à parte, pois a atividade da doença nem sempre provoca elevações significativas da PCR.
Por isso, um paciente com lúpus pode apresentar uma crise de atividade da doença e continuar com a PCR normal ou pouco elevada. Quando a PCR aumenta muito, uma infecção associada deve ser considerada, embora algumas manifestações do próprio lúpus, como artrite e serosite, também possam elevar seus valores.
Proteína C reativa nos casos de câncer
Ao contrário das infecções e das doenças reumáticas, a PCR não costuma ser utilizada na investigação de pacientes com suspeita de câncer.
Isso ocorre porque nem todos os cânceres causam elevação da PCR e, quando o fazem, o resultado é difícil de distinguir de outras situações mais comuns que também provocam inflamação.
Existem, contudo, algumas exceções nas quais a PCR pode ser útil. Uma elevação persistente e sem causa aparente da PCR em um paciente previamente tratado de câncer, por exemplo, pode levar o médico a investigar a possibilidade de recidiva do tumor, embora o exame não seja específico nem recomendado isoladamente para essa finalidade.
Outro exemplo são os pacientes com alguns tipos de linfoma ou mieloma múltiplo. Nesses casos, valores elevados da PCR podem estar associados a uma doença mais agressiva e a um pior prognóstico, com menor tempo de sobrevida. Entretanto, a utilidade desse marcador varia conforme o tipo de câncer, e sua interpretação deve ser feita juntamente com outros exames e parâmetros clínicos.
A PCR também pode fazer parte do acompanhamento de alguns pacientes oncológicos, ajudando na avaliação de complicações infecciosas e inflamatórias.
É bom salientar que, em geral, não se pede PCR somente com o intuito de pesquisar um câncer. Da mesma forma, um paciente com PCR inexplicavelmente elevada não deve concluir que tem um tumor maligno. Infecções, doenças inflamatórias e outras condições são causas muito mais comuns desse resultado.
Valores normais da proteína C reativa
Os resultados da PCR podem ser descritos em mg/dL ou mg/L. Como ambas as formas são frequentemente usadas pelos laboratórios, vou usar as duas unidades de medição ao longo do restante do artigo.
A conversão entre as unidades é simples: 1 mg/dL equivale a 10 mg/L.
Portanto, uma PCR de 2 mg/dL corresponde a 20 mg/L, enquanto uma PCR de 0,5 mg/dL corresponde a 5 mg/L. A diferença entre essas unidades é importante para evitar interpretações erradas.
Em pessoas sadias, a PCR costuma estar abaixo de 0,3 mg/dL (3 mg/L), mas esse valor pode ser um pouco mais elevado em indivíduos idosos ou em determinadas condições clínicas.
Além disso, os valores de referência variam de laboratório para laboratório. Alguns consideram normal uma PCR abaixo de 3 mg/L, outros utilizam limites de 5 mg/L ou até 10 mg/L.
Para ajudar a entender os resultados, podemos dividir os valores da PCR em algumas faixas aproximadas:
PCR abaixo de 0,3 mg/dL (3 mg/L): é o valor encontrado na maioria das pessoas saudáveis.
PCR entre 0,3 e 1,0 mg/dL (3 e 10 mg/L): pode ocorrer em situações de inflamação mínima, como uma gengivite ou um resfriado, mas também pode ser encontrada em pessoas obesas, diabéticas, hipertensas, portadoras de doença renal crônica, fumantes ou sedentárias.
PCR entre 1,0 e 4,0 mg/dL (10 e 40 mg/L): sugere uma resposta inflamatória mais evidente, que pode ser provocada por infecções e diversas outras doenças. Infecções virais, como gripe, mononucleose e catapora, podem provocar elevações nessa faixa, assim como doenças reumáticas e outras condições inflamatórias.
PCR entre 4,0 e 10 mg/dL (40 e 100 mg/L): indica uma resposta inflamatória importante e aumenta a suspeita de infecção bacteriana. Entretanto, algumas infecções virais também podem produzir resultados nessa faixa, assim como doenças autoimunes muito ativas, traumatismos e outras causas de inflamação.
PCR acima de 10 mg/dL (100 mg/L): representa uma elevação acentuada, frequentemente associada a infecções relevantes, principalmente bacterianas. Entretanto, nem todos os pacientes com esses valores apresentam uma infecção. Em um estudo com 839 adultos que tinham PCR acima de 100 mg/L, aproximadamente 55% apresentavam uma infecção como causa da elevação. Os demais tinham doenças reumáticas, outras condições inflamatórias, câncer e diferentes diagnósticos.
Em casos de sepse, a PCR pode ultrapassar 20 mg/dL (200 mg/L). No entanto, também existem pacientes com infecções graves que apresentam valores mais baixos, especialmente nas fases iniciais.
É importante reforçar que essas faixas são apenas orientações gerais, não limites diagnósticos absolutos. A PCR não mede diretamente a gravidade de uma doença. Uma infecção localizada pode produzir valores elevados em um paciente clinicamente estável, enquanto outro paciente com uma doença potencialmente grave pode apresentar PCR ainda pouco alterada.
PCR muito baixo é um problema?
Não. Valores muito baixos de PCR, inclusive próximos de zero ou indetectáveis, não representam um problema de saúde nem precisam de tratamento. Geralmente, indicam ausência de uma resposta inflamatória significativa naquele momento, embora não excluam todas as doenças inflamatórias ou infecciosas.
O que fazer quando a proteína C reativa está alta?
O primeiro passo é avaliar o resultado juntamente com os sintomas, o histórico clínico e os demais exames. A PCR elevada não provoca sintomas por si só. Febre, dor, cansaço ou outras manifestações, quando presentes, são provocados pela doença responsável pela inflamação.
Quando a elevação é discreta e o paciente não apresenta sintomas, pode ser suficiente uma avaliação clínica e, dependendo do caso, a repetição do exame após algumas semanas. Já elevações importantes ou persistentes podem exigir uma investigação mais detalhada.
Não existe um valor de PCR que, isoladamente, determine a necessidade de antibióticos, internação ou atendimento de emergência. A urgência depende principalmente do estado clínico do paciente. Sintomas como falta de ar importante, confusão mental, queda da pressão arterial ou piora acentuada do estado geral exigem avaliação médica imediata, independentemente do resultado da PCR.
A PCR pode estar alta sem febre ou com hemograma normal?
Sim. A ausência de febre não exclui inflamação ou infecção, assim como um hemograma normal não impede que a PCR esteja elevada.
Isso ocorre porque a febre, o número de leucócitos e a produção de proteína C reativa são respostas diferentes do organismo. Elas não precisam aparecer simultaneamente nem apresentar a mesma intensidade.
Além disso, a PCR pode estar elevada por motivos que não provocam febre, como doenças inflamatórias crônicas, traumatismos, obesidade e algumas condições metabólicas.
Por isso, não é correto considerar uma PCR de 40 mg/L normal apenas porque o paciente não tem febre ou apresenta um hemograma sem alterações.
O que significam os termos PCR positiva, PCR reagente ou PCR quantitativa?
Antigamente, os resultados da PCR eram frequentemente divulgados apenas como positivo ou negativo.
Em alguns métodos, se o valor ultrapassasse 1,0 mg/dL (10 mg/L), o laboratório considerava o resultado positivo, fosse ele 1,5 mg/dL ou 30 mg/dL. Como vocês podem imaginar, esse tipo de resultado ajuda pouco, pois não permite distinguir uma elevação discreta de uma resposta inflamatória muito intensa.
Ainda existem métodos que fornecem resultados como “reagente”, “não reagente” ou expressões semelhantes. Um resultado reagente significa que a proteína C reativa foi detectada acima do limite definido pelo método utilizado. Não significa, necessariamente, que existe uma infecção bacteriana.
O exame de PCR quantitativa, por outro lado, informa a concentração da proteína no sangue, por exemplo, 18 mg/L ou 1,8 mg/dL.
Com os métodos modernos de dosagem quantitativa, tornou-se possível avaliar melhor a intensidade da resposta inflamatória e acompanhar a evolução dos valores ao longo do tempo.
É possível ter uma infecção com PCR normal?
Sim. Embora muitas infecções provoquem aumento da PCR, nem todas produzem uma elevação detectável.
Isso pode acontecer quando a coleta é realizada nas primeiras horas do quadro, antes de o fígado ter produzido quantidade suficiente da proteína. Também pode ocorrer em algumas infecções localizadas ou pouco intensas.
Além disso, pacientes com doenças hepáticas avançadas ou que utilizam determinados medicamentos imunossupressores podem apresentar respostas da PCR menos intensas do que o esperado.
Portanto, um resultado normal não é suficiente para descartar uma infecção quando os sinais e sintomas sugerem o diagnóstico. Muitas viroses, mesmo quando provocam febre, cursam com valores de PCR normais ou apenas discretamente elevados.
PCR alta em crianças: o que significa?
Nas crianças, a interpretação da PCR segue o mesmo princípio utilizado nos adultos: valores elevados podem indicar processos infecciosos ou inflamatórios, mas não identificam a causa.
A principal diferença é que a idade, os sintomas e o estado geral da criança têm grande importância na avaliação.
Por exemplo, uma criança com febre, dificuldade para respirar e PCR elevada precisa ser avaliada de forma diferente de outra que apresenta uma elevação discreta, mas está ativa, alimentando-se normalmente e sem sinais de gravidade.
Da mesma forma, uma PCR normal não permite excluir uma infecção bacteriana importante, principalmente em bebês pequenos ou nas primeiras horas de febre.
A necessidade de antibióticos, exames adicionais ou internação não deve ser definida apenas pelo resultado da PCR, mas sim pela avaliação clínica completa.
Proteína C reativa ultrassensível e as doenças cardiovasculares
Os métodos tradicionais de dosagem da PCR foram desenvolvidos principalmente para detectar elevações associadas a infecções e inflamações. As técnicas antigas tinham dificuldade para quantificar com precisão concentrações muito baixas, como aquelas normalmente encontradas em pessoas saudáveis.
Por exemplo, quando o resultado da PCR está abaixo do limite de quantificação do método utilizado, o laboratório pode informar apenas “PCR < 0,3 mg/dL” ou “PCR < 3 mg/L”. Isso não significa que a proteína esteja ausente do sangue, mas que sua concentração é inferior ao limite que aquele método consegue medir com precisão.
Métodos mais sensíveis passaram a permitir uma avaliação detalhada desses resultados.
Um exame chamado proteína C reativa de alta sensibilidade (PCR-as) ou proteína C reativa ultrassensível (PCR-us) consegue medir com precisão valores de PCR muito baixos, inclusive inferiores a 0,03 mg/dL (0,3 mg/L).
É importante entender que a PCR ultrassensível não é uma proteína diferente. O exame mede exatamente a mesma substância, mas utiliza um método laboratorial capaz de detectar concentrações menores.
Essa possibilidade permitiu o uso da PCR-us como um marcador adicional de risco cardiovascular. Vamos a uma rápida explicação para vocês entenderem melhor.
Evidências acumuladas desde a década de 1990 vêm apontando para um papel central da inflamação na origem da aterosclerose e, por consequência, no aparecimento de doenças cardiovasculares, como o infarto do miocárdio.
Diversos estudos demonstraram que pequenas elevações persistentes da proteína C reativa estão associadas a um maior risco de eventos cardiovasculares, mesmo em pessoas sem sintomas de infecção ou inflamação.
Isso não significa que a própria PCR seja a responsável pelo desenvolvimento das placas de aterosclerose. Ela funciona principalmente como um marcador da atividade inflamatória associada a esse processo.
Nos indivíduos saudáveis, o valor da PCR ultrassensível costuma ser baixo, frequentemente inferior a 0,1 mg/dL (1 mg/L).
Tradicionalmente, os resultados da PCR-us são classificados da seguinte forma:
- Abaixo de 0,1 mg/dL (1 mg/L): marcador inflamatório associado a menor risco cardiovascular.
- Entre 0,1 e 0,3 mg/dL (1 e 3 mg/L): faixa intermediária.
- Acima de 0,3 mg/dL (3 mg/L): marcador associado a maior risco cardiovascular.
Essas faixas, entretanto, não representam o risco cardiovascular total de uma pessoa. Um paciente com PCR-us abaixo de 1 mg/L pode ter risco elevado de infarto devido a outros fatores, como colesterol muito alto, diabetes ou tabagismo.
Da mesma forma, uma PCR-us acima de 3 mg/L não significa que o paciente tenha uma obstrução das artérias do coração ou que venha necessariamente a sofrer um infarto.
O exame funciona como uma informação adicional, que deve ser interpretada juntamente com idade, pressão arterial, colesterol, diabetes, tabagismo, histórico familiar e outros fatores.
Quando a PCR ultrassensível é importante?
Uma das aplicações da PCR ultrassensível é ajudar na avaliação de pacientes cujo risco cardiovascular não está claramente definido pelos fatores tradicionais.
As recomendações mais recentes do American College of Cardiology (ACC) e da American Heart Association (AHA), publicadas em 2026, reconhecem que valores de PCR ultrassensível iguais ou superiores a 2 mg/L (0,2 mg/dL), confirmados em duas ocasiões e sem outra causa identificável de inflamação, podem contribuir para a decisão de iniciar tratamento com estatinas em determinados pacientes com risco cardiovascular limítrofe.
A Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose de 2025 também considera a PCR ultrassensível igual ou superior a 2 mg/L como um fator agravante do risco cardiovascular.
Isso não significa que toda pessoa com PCR-us acima de 2 mg/L precise tomar medicamentos para o colesterol. A decisão depende da avaliação do risco cardiovascular global.
O exame também pode fornecer informações sobre o chamado risco inflamatório residual em pacientes que já apresentam doença cardiovascular, mesmo quando estão recebendo tratamento adequado para controlar o colesterol.
Por outro lado, a PCR ultrassensível não é um exame indispensável para todas as pessoas nem substitui a avaliação dos fatores tradicionais de risco cardiovascular.
Cuidados na interpretação da PCR ultrassensível
Os resultados da PCR ultrassensível não devem ser utilizados para avaliar o risco cardiovascular durante um quadro de infecção, após uma cirurgia, traumatismo ou em outras situações que provoquem inflamação aguda.
Nessas circunstâncias, o aumento da proteína C reativa provavelmente reflete o processo inflamatório presente naquele momento, e não apenas a inflamação crônica associada à aterosclerose.
Por exemplo, uma pessoa que apresenta PCR-us de 8 mg/L durante uma gripe não deve ser classificada como de alto risco cardiovascular com base nesse resultado.
Valores acima de 10 mg/L (1 mg/dL) geralmente exigem que se considere primeiro uma possível causa infecciosa ou inflamatória. Quando o objetivo do exame é avaliar o risco cardiovascular, pode ser necessário repetir a dosagem após a resolução do quadro, frequentemente cerca de duas semanas depois.
Mesmo quando o paciente está bem, a PCR-us apresenta alguma variação ao longo do tempo. Por isso, valores persistentemente elevados são mais informativos do que um resultado isolado.
Como já foi referido, indivíduos diabéticos, hipertensos, fumantes e/ou obesos podem apresentar níveis de PCR discretamente elevados. Não é surpresa, portanto, que essas condições já tenham sido identificadas há muitos anos como importantes fatores de risco para problemas cardiovasculares.
O ponto principal é que a PCR ultrassensível pode ajudar a aperfeiçoar a avaliação do risco, mas não faz diagnóstico de doença cardiovascular e não substitui os exames e os critérios utilizados habitualmente para essa finalidade.
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Dúvidas de leitores sobre este tema
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