Doença celíaca: causas, sintomas e tratamento


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Revisado e atualizado em abril 16, 2026
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O que é o glúten?

A doença celíaca, também conhecida por enteropatia sensível ao glúten, é uma doença do intestino delgado caracterizada pela intolerância ao glúten.

O glúten é uma proteína presente em vários cereais, principalmente trigo, aveia*, centeio, malte, triticale, espelta, kamut ou cevada. Isso significa que uma enormidade de alimentos feitos à base destes produtos contém glúten na sua fórmula, incluindo cereais, pães, massas, pizzas, bolos, doces, biscoitos, salgadinhos, barra de cereais, empanados, waffles, sopas, croutons, batata frita industrializada, cerveja, uísque e vodca destilada de grãos.

Nota: embora a aveia seja naturalmente isenta de glúten, ela costuma ser contaminada durante o processamento. Por isso, só deve ser consumida por celíacos quando rotulada como ‘aveia sem glúten’, certificada.

Você já deve ter notado que uma grande variedade de alimentos apresenta na sua embalagem o aviso “contém glúten”. Este aviso é voltado para pacientes portadores da doença celíaca, que, como veremos a seguir, não podem consumir qualquer alimento que contenha glúten.

O que é a doença celíaca?

A doença celíaca é uma doença de origem imunológica e se caracteriza pela ocorrência de uma intensa reação inflamatória no intestino delgado toda vez que este é exposto a alimentos que contenham glúten.

Em alguns casos, a inflamação pode ser tão severa que destrói as vilosidades da mucosa do intestino delgado, que são responsáveis pela absorção de boa parte dos nutrientes. O resultado deste processo de inflamação e lesão da mucosa intestinal é uma síndrome de má absorção intestinal (explicarei melhor esta síndrome mais adiante).

A doença celíaca é uma patologia de origem autoimune, sendo uma doença diferente da alergia ao glúten. O mecanismo imunológico e o quadro clínico dessas duas doenças são distintos.

A doença celíaca é uma doença relativamente comum e pode acometer qualquer pessoa, porém é mais frequente em caucasianos (brancos) descendentes de europeus do norte. Na Europa e nos EUA, cerca de uma a cada 150 pessoas tem doença celíaca. Nos países nórdicos, esta taxa chega a ser de uma para cada 90 pessoas. No mundo inteiro, cerca de 25 milhões de pessoas sofrem com esta doença.

Antes considerada uma doença pediátrica, hoje sabemos que a enteropatia por glúten pode surgir em qualquer idade. 60% dos casos ocorrem em adultos, sendo 20% em pacientes com mais de 60 anos. Nas crianças, em geral, a doença se torna aparente quando estas ainda são bebês, logo após as primeiras exposições à dieta com glúten.

A maior parte dos pacientes com doença celíaca apresenta uma forma branda da doença, com poucos ou nenhum sintoma, fazendo com que os mesmos passem anos sem nem sequer suspeitar que possuam qualquer problema. Estima-se que para cada paciente com sintomas típicos de doença celíaca haja outros 7 com doença celíaca silenciosa ou oligossintomática (com sintomas discretos).

Portanto, apesar dos avanços nos métodos diagnósticos, a real prevalência da doença celíaca pode ainda estar subestimada.

Fatores de risco

A enteropatia por glúten tem um forte componente hereditário. Cerca de 10% dos parentes de primeiro grau de um paciente com doença celíaca também são portadores da doença.

A doença celíaca pode ocorrer em qualquer pessoa, mas indivíduos com algumas doenças autoimunes apresentam um risco maior que a população em geral. São elas:

Outras doenças sem origem autoimune também estão relacionadas a uma maior incidência de doença celíaca, como:

Evidências mais recentes indicam que o momento da introdução do glúten na dieta do bebê não influencia significativamente o risco de desenvolvimento da doença celíaca, desde que o alimento seja oferecido após os 4 meses e antes dos 12 meses de vida.

A introdução gradual, em pequenas quantidades, é recomendada apenas por motivos de adaptação alimentar.

O aleitamento materno, embora traga diversos benefícios para a saúde da criança, não previne o surgimento da doença celíaca nem altera sua evolução em indivíduos geneticamente predispostos.

Sintomas

Os sintomas clássicos da doença celíaca ocorrem devido à atrofia das vilosidades do intestino delgado, o que impede a absorção de diversos nutrientes, incluindo gorduras, proteínas e vitaminas.

A falta de absorção de alimentos no intestino causa a chamada síndrome disabsortiva (ou síndrome de má absorção), que se caracteriza por:

  • Diarreia (muitas vezes com gotas de gordura nas fezes, chamada esteatorreia).
  • Flatulência.
  • Cólicas abdominais.
  • Emagrecimento.
  • Anemia por carência de ferro, ácido fólico e/ou vitamina B12.
  • Osteopenia (ossos fracos) por carência de cálcio e vitamina.
  • Sangramentos por deficiência de vitamina K.

Nas crianças, se o diagnóstico não for feito precocemente, é comum haver desnutrição e atraso no desenvolvimento e no crescimento.

Entre as manifestações não-gastrointestinais da doença celíaca, podemos citar:

O quadro clínico da doença celíaca varia muito de paciente para paciente. Alguns podem ter vários dos problemas citados acima, enquanto outros apresentam uma forma atípica, com poucos ou nenhum sintoma de má absorção intestinal e brandos sintomas não-gastrointestinais. Há também um grupo que não apresenta sintoma algum de doença, chamada doença celíaca silenciosa.

Os sintomas tendem a melhorar com a eliminação do glúten da dieta. Cerca de 70% das pessoas começam a se sentir melhor dentro de duas semanas após a retirada do glúten.

Diagnóstico

A doença celíaca pode ser difícil de diagnosticar porque os sinais e sintomas são semelhantes a várias outras doenças que causam sintomas gastrointestinais e síndrome disabsortiva. Além disso, se o médico não estiver muito atento, a falta de sintomas gastrointestinais nas formas atípicas pode fazer com que ele não pense na doença celíaca como diagnóstico diferencial, não solicitando, assim, os exames necessários para o seu diagnóstico.

Mais de 90% das pessoas com doença celíaca não tratada têm níveis elevados de alguns anticorpos no sangue, entre eles os anticorpos antigliadina, antiendomísio e antitransglutaminase (anti-TTG), sendo este último o mais sensível para o diagnóstico.

Antes de realizar esses testes sanguíneos, é importante continuar a consumir uma dieta normal, incluindo os alimentos que contêm glúten. Pacientes que já não estão mais ingerindo glúten podem ter níveis baixos destes anticorpos, dificultando o diagnóstico.

Os níveis de anticorpos também servem para acompanhar a eficácia da dieta, devendo estes estar baixos caso o paciente esteja mesmo evitando glúten.

Se o exame de sangue for positivo, o diagnóstico deve ser confirmado através da biópsia da mucosa intestinal, realizada durante uma endoscopia digestiva alta. Mais uma vez, o paciente não deve estar fazendo dieta sem glúten para que as lesões típicas da doença celíaca estejam presentes.

Pacientes com anticorpos positivos e lesões de pele sugestivas de dermatite herpetiforme podem fazer o diagnóstico através da biópsia destas lesões, pois elas são a manifestação de pele da doença celíaca. Nestes casos, a biópsia intestinal pode não ser necessária.

Sensibilidade ao glúten não celíaca

Além da doença celíaca e da alergia ao trigo, existe ainda a chamada sensibilidade ao glúten não celíaca, uma condição na qual os pacientes apresentam sintomas gastrointestinais e extraintestinais após o consumo de alimentos com glúten, sem evidências de autoimunidade nem de lesões intestinais detectáveis.

Os sintomas podem incluir dor abdominal, inchaço, diarreia, fadiga, dor de cabeça ou névoa mental, geralmente de início rápido após a ingestão de glúten e com melhora após sua retirada. No entanto, como os exames laboratoriais e a biópsia intestinal são normais, o diagnóstico só pode ser feito por exclusão, após descartar tanto a doença celíaca quanto a alergia ao trigo.

Embora a sensibilidade ao glúten não celíaca ainda esteja sendo estudada, a principal abordagem terapêutica é a retirada do glúten da dieta, sob orientação profissional.

Tratamento

A doença celíaca não tem cura, mas pode ser controlada adequadamente. Em geral, não são necessários medicamentos. A base do tratamento é somente a eliminação completa do glúten da dieta.

Manter uma dieta sem glúten é uma tarefa desafiadora que pode exigir importantes ajustes no estilo de vida do paciente. O glúten não só está presente em uma grande quantidade de alimentos habituais da dieta ocidental, mas também em alguns medicamentos e suplementos alimentares.

O auxílio de um nutricionista é imprescindível, pois muitos alimentos que supostamente não são feitos à base de cereais podem ter glúten escondido em sua composição, como sorvetes, iogurtes, chocolates, salsichas, salame, produtos marinados e outros.

Uma vez que o paciente tenha removido o glúten da sua dieta, a inflamação do intestino delgado começará a desaparecer dentro de algumas semanas, mas a melhora sintomática é mais rápida, ocorrendo em apenas alguns dias de dieta.

A resolução completa do quadro e a recuperação das vilosidades do intestino podem levar vários meses, ou até anos, dependendo da gravidade. A melhora tende a ocorrer mais rapidamente em crianças do que em adultos.

Alimentos sem glúten

Apesar da grande quantidade de alimentos que contêm glúten, as opções para uma dieta sem glúten também são imensas.

Exemplos de alimentos que não contêm glúten e podem ser consumidos por pacientes com doença celíaca:

  • Frutas frescas.
  • Legumes.
  • Carne de vaca.
  • Frango.
  • Peixe.
  • Porco.
  • Maioria dos produtos lácteos.
  • Arroz.
  • Milho.
  • Soja.
  • Batata.
  • Mandioca.
  • Feijão.
  • Amaranto.
  • Fubá.
  • Farinhas sem glúten (arroz, soja, milho, batata, feijão).
  • Quinoa.
  • Tapioca.
  • Vinho.

Referências



Dúvidas de leitores sobre este tema

Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.

Mais comentários dos leitores

  1. Kenedi

    Qual cerveja não tem glúten no Brasil?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Existem cervejas produzidas no Brasil com identificação “sem glúten” ou com teor de glúten reduzido que podem ser alternativas para pessoas com Doença Celíaca ou sensibilidade ao glúten. Alguns exemplos são: Stella Artois Pure Gold (versão sem glúten), Amstel Ultra (variante “Puro Malte Sem Glúten”) e Wienbier 55 (versão sem glúten). Há várias outras opções produzidas por cervejarias locais.

    O importante é verificar o rótulo: ele deve indicar claramente “sem glúten” ou “gluten‑free”. No Brasil, a rotulagem para bebidas com teor de glúten inferior a 20 ppm (partes por milhão) é permitida para informar “não contém glúten”. Mesmo com rótulo, pessoas com doença celíaca devem considerar que traços de glúten ou contaminação cruzada podem existir.

    Marcas “com teor reduzido de glúten” não são necessariamente isentas — para quem tem doença celíaca, o ideal é a bebida ser claramente identificada como segura.

  2. Bento Ben

    Dr. quem tem doença celíaca pode tomar qualquer vitamina ou suplemento ou é preciso ter cuidado com o glúten nesses produtos também?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Pessoas com doença celíaca devem ter cuidado também com medicamentos, vitaminas e suplementos alimentares, pois alguns desses produtos podem conter glúten como excipiente (substância usada na fabricação das cápsulas, por exemplo).

    Sempre verifique no rótulo ou na bula se há a informação “não contém glúten”. Caso isso não esteja claro, o ideal é entrar em contato com o fabricante ou consultar um farmacêutico.

    Além disso, alguns suplementos são necessários justamente porque a doença celíaca pode causar carência de ferro, cálcio, vitamina D, vitamina B12 e ácido fólico, por má absorção intestinal. Porém, a suplementação deve sempre ser orientada por um profissional de saúde.

  3. Sebastião

    Já tenho 40 anos e nunca tive nenhum problema com glúten é possível desenvolver doença celíaca nessa idade?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Sim, a doença celíaca pode se manifestar em qualquer fase da vida, inclusive na vida adulta ou até após os 60 anos. Embora antes fosse considerada uma condição exclusivamente pediátrica, hoje sabemos que mais da metade dos casos são diagnosticados em adultos.

    Os sintomas em adultos podem ser mais discretos ou atípicos, como fadiga, anemia, inchaço abdominal ou alterações no humor, e nem sempre há diarreia. Por isso, muitos casos permanecem sem diagnóstico por anos.
    Se houver suspeita clínica ou histórico familiar, o ideal é buscar avaliação médica e fazer os exames laboratoriais específicos antes de iniciar qualquer dieta sem glúten.

  4. Rui Nuno

    Dr. Pedro tenho desconforto abdominal, inchaço e cansaço depois de comer pão ou massa. Como saber se tenho intolerância ao glúten ou doença celíaca?

    Dr. Pedro Pinheiro
    Dr. Pedro Pinheiro Autor

    Os sintomas que você descreve são comuns em pessoas com doença celíaca, sensibilidade ao glúten não celíaca ou até síndrome do intestino irritável. Para saber se há intolerância ao glúten, o primeiro passo é não retirar o glúten da dieta por conta própria, pois isso pode dificultar o diagnóstico.

    O ideal é procurar um médico, que poderá solicitar exames de sangue específicos, como o anticorpo antitransglutaminase (anti-TTG), para investigar doença celíaca. Se o exame for positivo, o diagnóstico costuma ser confirmado com uma biópsia do intestino delgado feita por endoscopia.

    Se os exames forem negativos, mas os sintomas persistirem com o consumo de glúten e melhorarem com a exclusão, o médico pode considerar a hipótese de sensibilidade ao glúten não celíaca, que é um diagnóstico de exclusão — ou seja, feito quando a doença celíaca e a alergia ao trigo já foram descartadas.

    Em resumo, não se autodiagnostique nem inicie dietas restritivas sem orientação profissional. O acompanhamento médico e, em muitos casos, o suporte de um nutricionista são fundamentais para chegar a um diagnóstico correto e evitar deficiências nutricionais desnecessárias.

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