Sangramento vaginal na gravidez: causas e sinais de alerta

Atualizado:
21 set. 2026

Resumo

Principais pontos sobre sangramento na gravidez

  • Sangramento na gravidez é relativamente comum, principalmente no primeiro trimestre, e nem sempre significa abortamento ou algum problema com o bebê. Mesmo assim, não deve ser automaticamente considerado normal sem avaliar a idade gestacional, a quantidade de sangue e os sintomas associados.
  • As causas mudam conforme a fase da gravidez. No início, é preciso considerar situações como alterações do colo do útero, hematoma subcoriônico, abortamento e gravidez ectópica. Na segunda metade da gestação, problemas relacionados à placenta e ao trabalho de parto ganham importância.
  • O sangramento pode ser pequeno ou intenso, vermelho, rosado ou marrom, e não existe um número de dias que possa ser considerado normal para todos os casos. A cor, a quantidade e a duração ajudam na avaliação, mas não permitem identificar sozinhas a causa.
  • Sangramento intenso, dor abdominal forte, tontura, desmaio, fraqueza importante, contrações, perda de líquido ou redução dos movimentos do bebê são sinais de alerta. Sangramentos na segunda metade da gravidez também merecem avaliação rápida.
  • A investigação depende da idade gestacional e do quadro clínico. A ultrassonografia é um dos principais exames e, no início da gravidez, o beta-hCG pode ser útil em determinadas situações, especialmente quando ainda não foi possível definir a localização ou a evolução da gestação.

O sangramento na gravidez é normal?

O sangramento vaginal pode ocorrer em qualquer fase da gravidez, mas suas causas e sua importância variam bastante conforme a idade gestacional, a quantidade de sangue e os sintomas associados.

No primeiro trimestre, pequenos sangramentos são relativamente frequentes e muitas gestações continuam evoluindo normalmente. Portanto, sangrar no início da gravidez não significa necessariamente que esteja ocorrendo um abortamento ou que exista algum problema com o bebê.

Isso não significa, porém, que todo sangramento durante a gravidez possa ser considerado normal. Problemas como abortamento e gravidez ectópica também podem provocar perda de sangue no início da gestação.

Na segunda metade da gravidez, o sangramento é menos comum e merece avaliação mais rápida, porque algumas das possíveis causas estão relacionadas à placenta ou ao início do trabalho de parto.

De forma geral, a importância do sangramento depende da fase da gravidez, da quantidade de sangue, da duração e dos sintomas associados. Sangramento intenso, dor abdominal forte, tontura, desmaio, contrações, perda de líquido ou redução dos movimentos do bebê são sinais de alerta.

O que é importante observar em casos de sangramento na gravidez?

Em primeiro lugar, é importante tentar perceber se o sangue realmente vem da vagina. Nem todo sangramento percebido na roupa íntima ou no papel higiênico tem origem ginecológica.

Quando a origem é anal, como nos casos de hemorroidas ou fissura anal, o sangramento costuma estar relacionado à evacuação. Já quando há sangue proveniente do trato urinário, podem existir sintomas associados, como dor ou ardência ao urinar e aumento da frequência das micções, como ocorre em algumas infecções urinárias na gravidez.

Lesões externas da vulva também podem sangrar, principalmente após trauma, depilação ou relação sexual.

Uma vez confirmada a origem vaginal da perda de sangue, algumas características ajudam na investigação: quantidade de sangue, cor, presença de coágulos ou tecidos, duração, se o sangramento é contínuo ou intermitente e se existem cólicas, dor abdominal, contrações, perda de líquido, febre, tontura ou outros sintomas.

A idade gestacional também é fundamental, porque as causas mais prováveis de sangramento no início da gravidez são diferentes daquelas que predominam no segundo e no terceiro trimestres.

Na grande maioria das vezes, o sangue eliminado pela vagina é de origem materna, e não do bebê. Uma exceção rara, porém importante, é a vasa prévia, situação na qual vasos sanguíneos fetais podem se romper.

Sangramento no primeiro trimestre da gravidez

O sangramento vaginal no primeiro trimestre é relativamente comum, ocorrendo em aproximadamente uma em cada quatro gestantes, embora diferentes estudos encontrem frequências que variam de cerca de 15 a 40%.

As causas variam desde pequenas lesões do colo uterino até problemas mais importantes, como abortamento e gravidez ectópica.

De modo geral, quanto mais intenso for o sangramento e quanto mais fortes forem a cólica ou a dor abdominal, maior é a necessidade de avaliação rápida. Mesmo assim, a quantidade de sangue, isoladamente, não permite determinar a causa.

Leitura sugerida: Principais causas de dor abdominal na gravidez.

Alterações da vagina e do colo do útero

Durante a gravidez, o colo do útero recebe maior fluxo sanguíneo e pode tornar-se mais sensível e propenso a pequenos sangramentos.

Ectopia do colo uterino, pólipos, inflamações, infecções, pequenos traumas e relações sexuais podem provocar sangramento, habitualmente de pequena quantidade e sem dor abdominal importante.

O exame ginecológico com espéculo permite visualizar muitas dessas alterações diretamente.

Sangramento de implantação

Pequenos sangramentos que aparecem muito cedo na gravidez, geralmente próximos à época em que a menstruação era esperada, são frequentemente chamados de sangramento de implantação.

A explicação tradicional é que a implantação do embrião no endométrio poderia romper pequenos vasos sanguíneos e provocar uma discreta perda de sangue.

Entretanto, essa relação não está claramente demonstrada. Estudos que acompanharam mulheres desde a ovulação e conseguiram estimar o momento da implantação observaram que os episódios de sangramento raramente coincidiam com o dia da implantação.

Portanto, um pequeno sangramento próximo à data esperada da menstruação pode ocorrer em uma gravidez normal, mas a aparência ou o momento do sangramento não permitem afirmar que ele tenha sido causado pela implantação nem confirmar que exista uma gravidez.

Se houver dúvida entre os sintomas de gravidez e menstruação, explicamos as diferenças com mais detalhes no artigo: É gravidez ou menstruação?

Hematoma subcoriônico

O hematoma subcoriônico é um acúmulo de sangue entre as membranas que envolvem a gestação e a parede do útero. É um achado relativamente frequente em ultrassonografias realizadas por causa de sangramento no primeiro trimestre.

Hematoma subcoriônico
Hematoma subcoriônico

Algumas mulheres apresentam apenas pequenas perdas amarronzadas; outras podem ter sangramento vermelho-vivo ou episódios recorrentes.

Muitos hematomas são pequenos, regridem espontaneamente e a gravidez continua normalmente. O significado do achado depende, entre outros fatores, do tamanho e da localização do hematoma e da idade gestacional.

Ameaça de abortamento e abortamento

O sangramento vaginal é um dos sintomas mais frequentes do abortamento espontâneo, principalmente quando acompanhado de cólicas ou dor abdominal.

Quando existe sangramento no início da gravidez, especialmente se não houver outra origem evidente no colo do útero ou na vagina, o abortamento é uma das possibilidades que precisam ser consideradas. Sangramento mais intenso, cólicas progressivas e eliminação de coágulos ou tecidos aumentam essa suspeita, mas nenhum desses achados, isoladamente, confirma o diagnóstico.

A avaliação do colo do útero e a ultrassonografia ajudam a distinguir diferentes situações.

Quando há sangramento, mas o colo uterino permanece fechado e a ultrassonografia mostra uma gravidez intrauterina com embrião vivo, o quadro é chamado ameaça de abortamento. O nome não significa que a perda da gravidez seja inevitável: muitas dessas gestações continuam evoluindo normalmente.

Quando o colo uterino está dilatado e há sangramento e cólicas, mas o conteúdo da gestação ainda não foi eliminado, utiliza-se tradicionalmente o termo abortamento inevitável ou abortamento em curso. A abertura do colo indica que o processo de expulsão já começou e que a gestação não deverá prosseguir normalmente.

No abortamento incompleto, parte do conteúdo gestacional já foi eliminada, mas ainda permanecem tecidos dentro do útero. O sangramento e as cólicas geralmente continuam, podendo ser intensos. A ultrassonografia pode mostrar material retido na cavidade uterina. O colo costuma estar aberto durante o processo, embora possa já estar fechado quando a mulher é examinada.

No abortamento completo, todo o conteúdo gestacional foi eliminado. A cólica e o sangramento costumam diminuir progressivamente, o colo volta a se fechar e a ultrassonografia não mostra mais o saco gestacional. Quando nunca houve uma ultrassonografia prévia confirmando que a gravidez estava dentro do útero, porém, não basta encontrar o útero vazio para concluir que houve um abortamento completo, pois uma gravidez ectópica também precisa ser excluída.

Existe ainda o abortamento retido, no qual a ultrassonografia confirma que a gestação deixou de evoluir, mas o conteúdo gestacional permanece dentro do útero. Nessa situação, o colo costuma estar fechado e pode haver pouco sangramento ou mesmo nenhum.

Gravidez ectópica

A gravidez ectópica ocorre quando o embrião se implanta fora da cavidade uterina, na maioria das vezes em uma das tubas uterinas.

Gravidez tubária
Gravidez tubária

O sangramento costuma ser pequeno ou moderado e pode ser escuro ou vermelho. Dor abdominal ou pélvica, principalmente quando predomina de um dos lados, aumenta a suspeita.

Em caso de ruptura da tuba, pode ocorrer hemorragia interna importante, com dor intensa, dor no ombro, tontura, fraqueza, queda da pressão arterial ou desmaio. Essa situação é uma emergência.

Ter apresentado gravidez ectópica anteriormente, ter doença inflamatória pélvica, cirurgia prévia nas trompas ou na pelve, infertilidade, engravidar com um DIU em uso ou utilizar determinadas técnicas de reprodução assistida são alguns fatores que aumentam a suspeita de gravidez ectópica. Entretanto, muitas mulheres com gravidez ectópica não apresentam nenhum fator de risco conhecido.

A demonstração de uma gravidez dentro do útero pela ultrassonografia torna uma gravidez ectópica isolada extremamente improvável. Existe, porém, uma situação rara chamada gravidez heterotópica, na qual coexistem uma gestação intrauterina e outra ectópica.

Outras causas

Mais raramente, o sangramento no primeiro trimestre pode estar relacionado a alterações como doença trofoblástica gestacional, problemas no colo uterino ou outras doenças ginecológicas.

Em algumas gestantes, mesmo depois da avaliação, não é possível identificar com precisão a origem do sangramento. Se a mãe está clinicamente bem, a gestação apresenta evolução normal e as causas potencialmente graves foram excluídas, o prognóstico costuma ser favorável.

Principais padrões de sangramento no início da gravidez

CausaPadrão mais comumAchados que ajudam no diagnóstico
Lesões da vulva, vagina ou colo uterinoGeralmente pequeno sangramento vermelho-vivo, muitas vezes sem dor importanteA origem do sangramento pode ser identificada no exame da vulva ou no exame com espéculo
Hematoma subcoriônicoSangramento variável, vermelho ou amarronzado, às vezes recorrenteA ultrassonografia pode mostrar uma coleção de sangue entre as membranas da gestação e a parede do útero
Ameaça de abortamentoSangramento de intensidade variável, com ou sem cólicasGravidez intrauterina viável, com colo uterino fechado
Abortamento inevitável ou em cursoSangramento e cólicas geralmente progressivosColo uterino dilatado; o conteúdo gestacional ainda pode estar dentro do útero ou em processo de expulsão
Abortamento incompletoSangramento e cólicas após eliminação de parte do conteúdo gestacionalParte do conteúdo já foi eliminada, mas ainda há tecido gestacional retido no útero; o colo pode estar aberto ou já ter se fechado
Abortamento completoSangramento e cólicas geralmente diminuem após a eliminação do conteúdo gestacionalO saco gestacional não é mais identificado no útero. Se nunca houve confirmação prévia de gravidez intrauterina, é necessário excluir gravidez ectópica
Abortamento retidoPode haver pouco sangramento ou mesmo nenhum; as cólicas podem estar ausentesA ultrassonografia mostra uma gestação intrauterina que deixou de evoluir, mas o conteúdo gestacional permanece no útero; o colo costuma estar fechado
Gravidez ectópicaSangramento variável, frequentemente associado a dor pélvica ou abdominal, às vezes predominante de um ladoA ultrassonografia e a evolução clínica ajudam no diagnóstico; podem existir massa anexial ou líquido livre. Quando a localização da gravidez ainda não está definida, pode ser necessário acompanhamento seriado

Sangramento no segundo e terceiro trimestres

Na segunda metade da gravidez, as causas do sangramento mudam. Algumas continuam sendo relativamente simples, como pequenos traumas ou alterações do colo uterino, mas é nessa fase que surgem problemas relacionados à placenta e ao parto.

Por esse motivo, qualquer sangramento significativo na segunda metade da gestação deve ser prontamente avaliado.

Alterações do colo do útero e da vagina

Ectopia, pólipos, inflamações e pequenos traumas continuam podendo causar sangramento durante o segundo e o terceiro trimestres.

O sangramento nesses casos costuma ser discreto, principalmente após relação sexual ou exame ginecológico, e geralmente não vem acompanhado de dor abdominal intensa.

Mesmo quando o padrão parece benigno, é importante excluir causas obstétricas antes de atribuir o sangue simplesmente ao colo uterino.

Placenta prévia

A placenta prévia ocorre quando a placenta recobre parcial ou totalmente a abertura interna do colo do útero. Quando a borda da placenta fica a menos de 20 mm do colo, mas não o recobre, utiliza-se o termo placenta baixa.

Placenta prévia
Placenta prévia

O quadro clássico é de sangramento vaginal vermelho-vivo e geralmente indolor, principalmente na segunda metade da gravidez. O sangramento pode parar espontaneamente e reaparecer posteriormente.

A ausência de dor não significa que o quadro seja inofensivo. Alguns episódios de placenta prévia podem produzir hemorragia importante.

A localização da placenta é determinada pela ultrassonografia. Quando uma gestante apresenta sangramento na segunda metade da gravidez e a localização placentária ainda não é conhecida, o toque vaginal não deve ser realizado antes que a placenta prévia tenha sido excluída.

Descolamento prematuro da placenta

O descolamento prematuro da placenta ocorre quando uma placenta normalmente inserida se separa parcial ou totalmente da parede do útero antes do nascimento do bebê.

Descolamento prematuro da placenta
Descolamento prematuro da placenta

Ao contrário da placenta prévia, o sangramento costuma vir acompanhado de dor abdominal, dor uterina ou contrações, e o útero pode ficar endurecido e doloroso.

O sangue pode ser vermelho ou mais escuro. Em alguns casos, porém, parte importante do sangue fica acumulada atrás da placenta e quase não aparece pela vagina.

O diagnóstico do descolamento prematuro da placenta é principalmente clínico, baseado no conjunto de sintomas e sinais, como sangramento vaginal, dor abdominal ou uterina, contrações frequentes, aumento do tônus do útero e alterações dos batimentos cardíacos do bebê. A pressão arterial, a frequência cardíaca e outros sinais da condição materna também são avaliados, pois a perda de sangue pode ser maior do que aquela que aparece pela vagina.

Em alguns casos, a ultrassonografia consegue mostrar um hematoma atrás da placenta ou uma área de descolamento. Porém, uma ultrassonografia normal não exclui o diagnóstico, porque muitos descolamentos não são visíveis no exame.

Quando a idade gestacional permite, os batimentos cardíacos do bebê são monitorados para verificar se o descolamento está comprometendo sua oxigenação. Dependendo da intensidade do sangramento, também podem ser solicitados hemograma, tipagem sanguínea e exames de coagulação, incluindo fibrinogênio, especialmente nos casos mais graves.

Por isso, um sangramento vaginal aparentemente pequeno não exclui um descolamento placentário importante. A gravidade é avaliada pelo quadro clínico materno e fetal, e não apenas pela quantidade de sangue visível.

Vasa prévia

A vasa prévia é uma condição rara em que alguns vasos sanguíneos que levam sangue entre o bebê e a placenta ficam em uma posição anormal, passando pelas membranas da bolsa amniótica justamente na região que fica sobre ou muito próxima da abertura do colo do útero, por onde o bebê deverá passar durante o parto.

Normalmente, os vasos sanguíneos fetais ficam protegidos dentro do cordão umbilical ou no próprio tecido da placenta. No interior do cordão, eles são envolvidos por uma substância gelatinosa chamada geleia de Wharton, que funciona como uma camada protetora contra compressões, dobras e traumas.

Na vasa prévia, porém, um trecho desses vasos fica fora do cordão umbilical, percorrendo livremente as membranas que envolvem a gestação. Nesse trajeto, eles não contam com a proteção da geleia de Wharton nem com o suporte do tecido placentário.

Vasa prévia
Vasa prévia

Essa disposição se torna especialmente perigosa porque os vasos desprotegidos podem ficar exatamente entre o bebê e o colo do útero. Durante o trabalho de parto, eles podem ser comprimidos pela parte do bebê que está descendo pelo canal de parto e, principalmente, podem se romper quando ocorre a ruptura da bolsa amniótica.

Se um desses vasos se rompe, o sangue perdido é do bebê, e não da mãe. Como o volume total de sangue fetal é pequeno, uma hemorragia que aparentemente não parece muito volumosa pode provocar rapidamente anemia grave, sofrimento fetal e risco de morte.

A vasa prévia ocorre principalmente em duas situações. Uma delas é a inserção velamentosa do cordão umbilical, na qual o cordão termina nas membranas antes de alcançar a placenta e seus vasos precisam percorrer um trecho desprotegidos até chegar ao tecido placentário. Outra possibilidade ocorre quando a placenta possui dois lobos separados e vasos fetais atravessam as membranas para ligar uma parte da placenta à outra.

O diagnóstico pode ser feito durante o pré-natal por meio da ultrassonografia transvaginal com Doppler colorido, que permite identificar os vasos fetais passando sobre ou próximos ao colo uterino.

Quando a vasa prévia é diagnosticada antes do parto, a gestação pode ser acompanhada de forma planejada e o nascimento é programado antes do início espontâneo do trabalho de parto e da ruptura das membranas. O objetivo é evitar que os vasos desprotegidos se rompam durante o parto.

Início do trabalho de parto

No final da gravidez, pequenas quantidades de sangue podem aparecer misturadas a uma secreção espessa e gelatinosa devido às modificações e à dilatação do colo do útero.

É o chamado sinal sanguinolento do trabalho de parto, muitas vezes associado à eliminação do tampão mucoso.

Essa pequena quantidade de sangue misturada ao muco é diferente de um sangramento vaginal ativo.

Se isso ocorrer antes da 37ª semana, especialmente junto com contrações regulares, pressão pélvica ou perda de líquido, deve-se considerar a possibilidade de trabalho de parto prematuro.

Ruptura uterina

A ruptura do útero é uma causa muito rara de sangramento, mas potencialmente grave.

O problema ocorre principalmente durante o trabalho de parto em mulheres que têm cicatriz no útero, geralmente decorrente de uma cesariana ou outra cirurgia uterina anterior.

Dor abdominal súbita e intensa, alterações das contrações, sangramento e alterações dos batimentos cardíacos do bebê podem fazer parte do quadro.

Sangramento marrom, rosado ou vermelho-vivo: a cor ajuda?

A cor fornece algumas pistas, mas não permite determinar sozinha a causa ou a gravidade do sangramento.

O sangue vermelho-vivo geralmente é sinal de sangramento mais recente. O sangue marrom ou com aspecto de “borra de café” geralmente corresponde a sangue mais antigo, que permaneceu mais tempo no trato genital antes de ser eliminado.

Um sangramento rosado pode ocorrer quando uma pequena quantidade de sangue se mistura ao corrimento vaginal ou ao muco cervical.

Isso não significa que sangue marrom seja sempre inofensivo nem que sangue vermelho-vivo indique necessariamente um problema grave. Quantidade, idade gestacional, duração e sintomas associados são muito mais importantes quando analisados em conjunto.

Quanto tempo pode durar o sangramento na gravidez?

Não existe uma duração considerada normal para todos os sangramentos da gravidez.

Um pequeno sangramento proveniente do colo uterino pode ser muito breve e desaparecer espontaneamente. Um hematoma subcoriônico pode provocar episódios intermitentes durante vários dias. Sangramentos relacionados ao abortamento ou a problemas placentários podem ter duração e intensidade bastante variáveis.

Portanto, tentar identificar a causa apenas pelo número de horas ou dias que o sangramento durou não é confiável.

Sangramento persistente, que aumenta de intensidade ou reaparece deve ser reavaliado, mesmo quando uma avaliação anterior mostrou que a gravidez estava evoluindo normalmente.

Sangramento depois da relação sexual

Um pequeno sangramento após a relação sexual pode acontecer na gravidez porque o colo do útero fica mais vascularizado e sensível.

Na maioria das vezes, quando o sangramento é realmente causado por contato com o colo uterino, ele é discreto e desaparece espontaneamente.

Entretanto, não é seguro presumir que todo sangramento ocorrido depois de uma relação tenha sido causado pela relação. Sangramento persistente, intenso ou acompanhado de dor precisa ser avaliado como qualquer outro episódio de sangramento durante a gravidez.

Como é feito o diagnóstico?

A investigação depende principalmente da idade gestacional, das características do sangramento e da presença ou não de sintomas associados.

O primeiro objetivo é avaliar a condição da gestante e excluir situações que possam colocar a mãe ou o bebê em risco.

História clínica

O médico irá procurar saber quando o sangramento começou, qual a quantidade, cor e duração, se existem coágulos, cólicas, dor abdominal, dor pélvica, contrações ou perda de líquido.

No início da gravidez também é importante saber se alguma ultrassonografia anterior já demonstrou uma gestação dentro do útero.

História de abortamentos anteriores, gravidez ectópica, doença inflamatória pélvica, cirurgia nas trompas ou na pelve, infertilidade e métodos utilizados para engravidar também podem modificar a probabilidade de determinados diagnósticos.

Na segunda metade da gestação, localização conhecida da placenta, cesarianas ou cirurgias uterinas anteriores, trauma abdominal, contrações e alterações dos movimentos do bebê são informações importantes.

Exame físico

A avaliação começa pela pressão arterial, frequência cardíaca e estado geral da gestante. Sangramentos importantes podem provocar taquicardia, hipotensão, palidez, fraqueza ou alteração da consciência.

O exame do abdome ajuda a avaliar a presença e localização da dor, o tamanho e a sensibilidade do útero e a presença de contrações. Ele também pode sugerir causas não obstétricas de dor abdominal, como uma apendicite.

A vulva, a vagina e o colo do útero podem ser examinados para procurar lesões, pólipos, inflamações, infecções ou outras fontes de sangramento.

Na segunda metade da gravidez, quando a posição da placenta não é conhecida, o toque vaginal deve ser adiado até que a ultrassonografia exclua placenta prévia ou vasa prévia.

Ultrassonografia

A ultrassonografia é um dos exames mais importantes na investigação do sangramento durante a gravidez.

No início da gestação, a ultrassonografia transvaginal pode determinar a localização da gravidez, avaliar o saco gestacional, o embrião e a atividade cardíaca, procurar sinais de gravidez ectópica e identificar alterações como hematoma subcoriônico.

Quando a gestação é muito precoce, porém, ainda pode ser cedo demais para visualizar todas essas estruturas. Isso não significa que a ultrassonografia seja inútil antes de cinco semanas, mas sim que um único exame pode ser inconclusivo e precisar ser repetido posteriormente.

Também não se deve diagnosticar perda gestacional simplesmente porque determinada estrutura ainda não foi visualizada na idade calculada pela última menstruação. Ovulação e implantação podem ter ocorrido mais tarde do que o estimado.

Na segunda metade da gravidez, a ultrassonografia é particularmente importante para avaliar a localização da placenta e investigar placenta prévia e outras alterações. No descolamento prematuro da placenta, porém, uma ultrassonografia normal não é suficiente para excluir o diagnóstico.

Beta-hCG

A dosagem do beta-hCG pode ajudar principalmente quando a gravidez é muito precoce e a ultrassonografia ainda não conseguiu definir claramente sua localização ou evolução.

Um valor isolado de beta-hCG não consegue dizer com segurança se a gravidez está dentro ou fora do útero nem se ela continuará evoluindo normalmente.

Quando necessário, duas ou mais dosagens realizadas em momentos diferentes são interpretadas em conjunto com os sintomas e a ultrassonografia.

Uma elevação inadequada ou uma queda do beta-hCG pode indicar uma gestação que não está evoluindo normalmente, mas o comportamento do hormônio, isoladamente, não permite distinguir com certeza um abortamento de uma gravidez ectópica.

Quando o teste de gravidez é positivo e nenhuma gestação é identificada dentro ou fora do útero pela ultrassonografia, utiliza-se o termo gravidez de localização desconhecida. Nessa situação, o acompanhamento deve continuar até que a localização ou o desfecho da gestação seja esclarecido.

Outros exames

Dependendo da quantidade de sangue e da fase da gestação, podem ser solicitados hemograma, grupo sanguíneo e fator Rh, pesquisa de anticorpos e, nos sangramentos mais importantes, exames relacionados à coagulação.

Na segunda metade da gravidez, a avaliação dos batimentos cardíacos e do bem-estar do bebê também passa a ter papel importante.

Tratamento do sangramento vaginal durante a gravidez

O tratamento depende inteiramente da causa do sangramento.

Pequenas lesões da vulva, vagina ou colo uterino muitas vezes não necessitam de tratamento específico. Quando existe infecção, pólipo ou outra alteração ginecológica, a conduta é direcionada ao problema identificado.

Na ameaça de abortamento com gravidez intrauterina viável, muitas mulheres necessitam apenas de acompanhamento. Repouso absoluto não demonstrou prevenir abortamentos e não deve ser adotado rotineiramente apenas por causa de um pequeno sangramento.

Em mulheres com sangramento no início da gestação e história prévia de abortamento, algumas diretrizes recomendam progesterona vaginal em situações específicas, depois da confirmação de gravidez intrauterina pela ultrassonografia. A indicação deve ser feita pelo obstetra; progesterona não deve ser utilizada por conta própria.

Quando o abortamento já ocorreu ou está em andamento, as opções podem incluir conduta expectante, medicamentos ou esvaziamento uterino por procedimento cirúrgico. A escolha depende do tipo de abortamento, da intensidade do sangramento, da condição clínica e da preferência da paciente.

Quando o abortamento é completo e não há sinais de complicação, geralmente não é necessário tratamento medicamentoso nem esvaziamento uterino.

A gravidez ectópica pode ser tratada com medicamento ou cirurgia. Em casos selecionados e cuidadosamente acompanhados, também pode ser possível uma conduta expectante. Se houver ruptura da tuba ou sinais de hemorragia interna, o tratamento cirúrgico é de urgência.

Placenta prévia, descolamento prematuro da placenta, vasa prévia e outros sangramentos da segunda metade da gestação exigem avaliação obstétrica, e a conduta depende da causa, da intensidade da hemorragia, da idade gestacional e das condições maternas e fetais.

Nas gestantes com sangue RhD-negativo, a necessidade de imunoglobulina anti-D depende da idade gestacional e das circunstâncias do sangramento ou do procedimento realizado. Atualmente, não se recomenda considerar automaticamente que toda gestante RhD-negativa com qualquer pequeno sangramento precoce precise receber a imunoglobulina. A indicação deve seguir a avaliação obstétrica e os protocolos locais.

Quando o sangramento na gravidez é uma emergência?

Algumas situações justificam avaliação médica imediata:

  • Sangramento intenso ou que aumenta rapidamente.
  • Dor abdominal ou pélvica forte ou persistente.
  • Dor no ombro associada a sangramento no início da gravidez.
  • Tontura intensa, fraqueza, palidez, desmaio ou sensação de que a pressão está caindo.
  • Febre ou mal-estar importante.
  • Eliminação de grande quantidade de coágulos ou tecidos.
  • Sangramento na segunda metade da gravidez, principalmente se for mais do que pequenas raias misturadas ao muco.
  • Contrações regulares, perda de líquido ou sinais de trabalho de parto antes de 37 semanas.
  • Redução perceptível dos movimentos do bebê em uma fase em que eles já são habitualmente sentidos.

Mesmo quando o sangramento é pequeno, a gestante deve informar o episódio ao profissional que acompanha o pré-natal, especialmente se ele persistir ou voltar a acontecer.

Perguntas frequentes

Sangramento de escape pode ser sinal de gravidez?

Pode. Algumas mulheres apresentam pequenas perdas de sangue no início da gravidez, inclusive próximo à época esperada da menstruação. Entretanto, o sangramento não confirma gravidez. A maneira adequada de esclarecer a dúvida é realizar um teste de gravidez no momento apropriado.

É possível sangrar e a gravidez continuar normalmente?

Sim. Isso é particularmente comum no primeiro trimestre. Pequenos sangramentos podem ocorrer em gestações que continuam evoluindo normalmente. O que não é possível é saber a causa ou o prognóstico apenas pela aparência do sangue.

Uma gravidez ectópica sempre provoca dor?

Não. Nas fases iniciais, uma gravidez ectópica pode provocar apenas pequeno sangramento vaginal ou até ser assintomática. A dor tende a surgir conforme a gestação evolui ou quando aparecem complicações.

Sangramento na gravidez significa que o bebê está perdendo sangue?

Na grande maioria dos casos, não. O sangue observado é materno, proveniente do útero, placenta, colo uterino ou vagina. A vasa prévia é uma exceção rara na qual o sangramento pode ser proveniente da circulação fetal.


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