Principais informações do artigo
A maioria dos antibióticos não corta o efeito do anticoncepcional. Amoxicilina, azitromicina, cefalexina, ciprofloxacino, nitrofurantoína, fosfomicina, metronidazol e doxiciclina, por exemplo, não costumam reduzir a eficácia da pílula, da minipílula, do adesivo, do anel vaginal, do implante ou da injeção anticoncepcional.
As principais exceções são a rifampicina e a rifabutina, antibióticos usados principalmente no tratamento da tuberculose e de algumas infecções específicas. Esses medicamentos aceleram o metabolismo dos hormônios anticoncepcionais e podem reduzir a proteção contra gravidez.
Sangramento de escape ou atraso menstrual durante o uso de antibiótico não significa, por si só, que o anticoncepcional falhou. Infecções, estresse, atraso na tomada da pílula e alterações transitórias do ciclo também podem provocar alterações no ciclo menstrual.
Antibióticos e anticoncepcionais
Durante muito tempo, os antibióticos foram considerados os grandes vilões das mulheres que tomavam a pílula anticoncepcional. A falta de estudos científicos desenvolvidos exclusivamente para pesquisar a interação entre antibióticos e a pílula, associada a relatos pontuais de falha dos anticoncepcionais orais após o uso de determinados antibióticos, ajudou a criar, mesmo dentro da própria classe médica, o mito de que não se podia misturar antibióticos e anticoncepcionais hormonais.
Muitos médicos até hoje sentem-se desconfortáveis em prescrever alguns antibióticos, tais como amoxicilina, metronidazol ou tetraciclina, para mulheres em idade fértil e em uso de contraceptivos hormonais.
Esse suposto risco, porém, nunca foi baseado em evidências científicas robustas, mas sim em estudos não controlados e teorias não comprovadas.
Por exemplo, antibióticos como a ampicilina e a amoxicilina eram considerados perigosos para quem tomava a pílula simplesmente porque havia um risco teórico de uma alteração na flora bacteriana intestinal que provocasse uma redução na absorção dos hormônios estrogênio e progesterona pelos intestinos.
Apesar do risco teórico, nenhum estudo havia pesquisado o que realmente acontecia com as mulheres que tomavam pílula e amoxicilina juntas. Por mais que uma teoria faça sentido, é preciso provar na prática que ela está correta.
Nas últimas décadas, isso mudou, pois a medicina baseada em evidências ganhou espaço em relação ao que podemos chamar de “medicina baseada em teorias”. Desde a década de 1990, o número de trabalhos publicados sobre mulheres que usavam antibióticos junto com a pílula aumentou exponencialmente, e, atualmente, temos muito mais segurança para emitir opiniões sobre os riscos da associação de antibióticos com os anticoncepcionais hormonais, sejam eles sob a forma de pílulas, implantes, adesivos ou injeções.
Quais são os antibióticos que posso tomar junto com a pílula?
Baseado em ampla literatura científica, somente um tipo de antibiótico pode ser realmente considerado responsável pela redução da eficácia dos anticoncepcionais hormonais: a Rifampicina (e o seu derivado rifabutina). Fora a Rifampicina, nenhum — sim, nenhum — outro antibiótico apresentou, nos diversos estudos, qualquer sinal de que possa cortar os efeitos da pílula anticoncepcional.
Portanto, do ponto de vista estritamente científico, não há provas de que a imensa maioria dos antibióticos corte o efeito contraceptivo dos anticoncepcionais hormonais, incluindo a pílula do dia seguinte.
Isso significa que atualmente não há base científica para indicar nenhum tipo de cuidado adicional para as pacientes em uso de contraceptivos hormonais que precisam ser tratadas com os seguintes antibióticos:
- Amoxicilina (com ou sem ácido clavulânico).
- Azitromicina.
- Cefalexina.
- Cefazolina.
- Cefotaxima.
- Claritromicina.
- Clindamicina.
- Ciprofloxacino.
- Doxiciclina.
- Fosfomicina.
- Levofloxacino.
- Metronidazol.
- Minociclina.
- Moxifloxacino.
- Nitrofurantoína.
- Norfloxacino.
- Ofloxacino.
- Penicilina.
- Tetraciclinas.
- Trimetoprim-sulfametoxazol (Bactrim).
* A lista acima não está completa, ela mostra apenas os antibióticos mais comumente prescritos.
É importante salientar que mulheres com alguma infecção e em uso de antibióticos podem apresentar atraso menstrual. Isso, porém, não significa que o antibiótico esteja influenciando diretamente no sistema hormonal de forma a diminuir a eficácia da pílula anticoncepcional.
Algumas mulheres podem apresentar sangramento vaginal de escape durante o uso de antibióticos. Isso não é um indício de falha da pílula ou redução relevante dos níveis de hormônios circulantes. Os estudos mostram que essas mulheres que apresentam sangramento de escape não têm maior risco de engravidarem de forma não intencional.
Há uma exceção importante: antibióticos podem causar efeitos colaterais gastrointestinais. Se o antibiótico causar vômitos nas primeiras horas após tomar a pílula ou diarreia intensa/prolongada, a absorção do anticoncepcional pode ser prejudicada. Nesse caso, o problema não é uma interação direta entre os remédios, mas a perda ou má absorção do comprimido.
Outros medicamentos anti-infecciosos
Outras drogas com ação antimicrobiana, como antivirais ou antifúngicos, também não apresentam evidências de cortarem os efeitos dos anticoncepcionais, incluindo o aciclovir, valaciclovir, cetoconazol, fluconazol, miconazol, nistatina, etc.
A única exceção a esta regra são os antirretrovirais usados no tratamento da AIDS. Drogas como Nelfinavir, Nevirapine, Ritonavir, entre outras, estão relacionadas a uma diminuição da eficácia da pílula. Por razões óbvias, as pacientes portadoras do vírus HIV não devem ter relações sem o uso de preservativos, portanto, esta questão acaba ficando minimizada.
Se você quiser ler um texto mais completo sobre as interações de vários medicamentos com a pílula anticoncepcional, acesse o seguinte link: Pílula anticoncepcional | Interações medicamentosas
Atualmente, nenhuma das principais associações de ginecologia e obstetrícia do mundo, nem a própria Organização Mundial de Saúde, indica o uso de qualquer proteção contraceptiva complementar para as mulheres que usam anticoncepção hormonal e precisam tomar algum antibiótico que não seja a rifampicina ou a rifambutina.
Já as mulheres que precisam tomar rifampicina ou rifambutina devem utilizar um método contraceptivo alternativo e não hormonal durante todo o período de tratamento com esses antibióticos (leia: 20 Métodos anticoncepcionais mais comuns). O anticoncepcional hormonal pode ser retornado no primeiro dia do primeiro ciclo menstrual já sem o uso dos antibióticos.
- Oral contraceptive efficacy and antibiotic interaction: a myth debunked – Journal of the American Academy of Dermatology.
- Interaction between broad-spectrum antibiotics and the combined oral contraceptive pill. A literature review – Contraception.
- Drug interactions between oral contraceptives and antibiotics – Obstetrics & Gynecology.
- Oral contraceptive failure rates and oral antibiotics – Journal of the American Academy of Dermatology.
- Drug interactions between non-rifamycin antibiotics and hormonal contraception: a systematic review – American journal of obstetrics and gynecology.
- Antibiotic and oral contraceptive drug interactions: Is there a need for concern? – The Canadian journal of infectious diseases.
- Overview of the use of combination oral contraceptives – UpToDate.
Dúvidas de leitores sobre este tema
Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.
Mais comentários dos leitores
Doutor estou no intervalo do anticoncepcional reinicio sabado dia 7 posso tomar tetraciclina? E depois de quanto tempo ter tomado antibiotico tou protejida
Olá, bom dia! Tomei antibiótico por 7 dias e o tratamento terminou na terceira semana da cartela da pílula. O dia em que completa uma semana após o fim do tratamento cairá na pausa. Eu devo emendar a cartela ou faço a pausa normalmente? Em qualquer um dos dois casos, eu ficaria protegida a partir de que dia? Muito obrigada!