Artigo atualizado em 09/10/2013

DOENÇA DE FABRY

A doença de Fabry, também chamada de doença de Anderson-Fabry é uma patologia hereditária rara, transmitida de modo recessivo pelo cromossoma X. Os pacientes com doenças de Fabry apresentam deficiência de uma enzima chamada alfa-galactosidase A.

Ok, sei que o primeiro parágrafo ficou difícil de entender. Vamos, então descomplicá-lo por partes.

Genética da doença de Fabry

Homens apresentam cromossomas sexuais X e Y e mulheres X e X. O pai passa seu cromossoma Y para seus filhos e o X para suas filhas. Já as mães passam sempre o cromossoma X, tanto para os filhos, quanto para as filhas.

Se a herança é recessiva ligada ao X, isso significa que as mulheres precisam receber os 2 cromossomas X (um do pai e outra da mãe) com o defeito para terem a doença. Como os homens só apresentam um cromossoma X, basta que este seja defeituoso para se desenvolver a doença de Fabry.

A doença de Fabry é uma patologia majoritariamente de homens, transmitida pelas mães, uma vez que o pai só transmite o cromossoma Y para seus filhos. Portanto, homens com Fabry não transmitem a doença para seus filhos, mas transmitem o gene X defeituoso para sua filhas.

Já as mães, em geral, não possuem Fabry pois só apresentam um X defeituoso. Porém, podem transmiti-lo para o seu filho, passando-lhe a doença.

O que causa a doença de Fabry?

Como já dito no início do texto, a doença de Fabry acontece por uma deficiência de uma enzima chamada alfa-galactosidase A (alfa-gal A). Esta é uma enzima presente dentro de nossas células e responsável pela eliminação de uma substância gordurosa chamada de globotriaosilceramida (GB3 ou GL-3). Eu sei que esses nomes parecem palavrões e que isso atrapalha um pouco o entendimento do assunto, mas infelizmente é assim mesmo que eles são chamados.

Na ausência da alfa-gal A, a GB3 se acumula dentro das células, depositando-se em vários tecidos, principalmente nas paredes dos vasos sanguíneos. Por isso, a doença de Fabry faz parte de um grupo de patologias chamado de doenças de depósito.

Todos os sinais e sintomas da doença de Fabry são derivados desse acúmulo de GB3, que podem obstruir vasos vasos sanguíneos, causando isquemias e infartos de órgãos e tecidos.

Sintomas da doença de Fabry

Os sintomas da doença de Fabry costumam seguir um certa ordem de aparecimento. Os primeiros sinais surgem na infância ou início da adolescência e incluem:

- Dores nos membros, principalmente mãos e pés, causados por acometimento dos nervos do sistema nervoso periférico. Normalmente este é o primeiro sintoma e pode ser desencadeado por estresse, frio, calor ou atividades físicas extenuantes.

Teleangiectasias na doença de Fabry

Teleangiectasias

- Lesões de pele: teleangiectasias são pequenos vasos da pele dilatados, também chamados de aranhas vasculares pelo seu formato. São comumente vistas em pessoas com varizes nas pernas (leia: VARIZES | Causas e Tratamento). Angioqueratomas são elevações puntiformes arroxadas.

Na doença de Fabry, as duas lesões costumam aparecer juntas principalmente nas coxas, quadril e em volta do umbigo.

- Outro problema comum no Fabry é o acometimento das glândulas sudoríparas, responsáveis pela produção de suor. Os doentes podem apresentar baixa taxa de transpiração (hipoidrose), elevada temperatura corporal, fadiga intensa e intolerância ao calor.

- Depósitos de GB3 nos vasos da córnea dos olhos, causando a chamada córnea verticilata também podem ser detectados com exames oftalmológicos especiais (oftalmoscopia de lâmpada de fenda).

- Sintomas gastrointestinais como dor após alimentação, náuseas e diarréia também são comuns.

Na idade adulta o paciente começa a sofrer as consequências da obstrução de vasos em órgãos nobres como rins, cérebro e coração.

1) Rins

50% dos pacientes com doença de Fabry apresentam acometimento renal. Os primeiros sinais são o aumento da produção de urina por incapacidade do rim em reter água. Depois surgem a proteinúria (leia: PROTEINÚRIA, URINA ESPUMOSA E SÍNDROME NEFRÓTICA) e finalmente insuficiência renal crônica (leia: INSUFICIÊNCIA RENAL CRÔNICA – SINTOMAS). Boa parte dos pacientes acaba por necessitar de hemodiálise.

2) Coração

O envolvimento cardíaco costuma se dar na forma de insuficiência cardíaca (leia: INSUFICIÊNCIA CARDÍACA – CAUSAS E SINTOMAS), arritmias cardíacas (leia: PALPITAÇÕES, TAQUICARDIA E ARRITMIAS CARDÍACAS), hipertrofia do ventrículo esquerdo e isquemia do miocárdio (leia: SINTOMAS DO INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO E ANGINA).

3) Cérebro

O acometimento do sistema nervoso central pode se dar através de ataques isquêmicos transitórios ou AVCs (leia: ENTENDA O AVC – ACIDENTE VASCULAR CEREBRAL), tonturas, vertigens e cefaléias (leia: DOR DE CABEÇA – ENXAQUECA, CEFALÉIA TENSIONAL E SINAIS DE GRAVIDADE).

Doença de Fabry nas mulheres

A maioria das mulheres portadoras de apenas um cromossoma X defeituoso apresenta poucos ou nenhum sintoma da doença de Fabry. Porém , por fatores ainda não bem conhecidos, existe um pequeno grupo que desenvolve a doença tal qual os homens.

Diagnóstico da doença de Fabry

Por ser uma doença rara e pouco conhecida, inclusive entre os médicos, muitas vezes os pacientes precisam esperar anos entre os primeiros sintomas e o diagnóstico definitivo. Quando há história familiar, o diagnóstico sai mais facilmente, pois a própria família já sugere a hipótese da doença ao médico.

A tríade de alterações renais + angioqueratomas + dor nos membros em crianças ou jovens do sexo masculino, deve sempre levantar a suspeita de doença de Fabry.

O diagnóstico pode ser confirmado através da dosagem da enzima alfa-galactosidase A. A maioria dos pacientes apresentam níveis indetectáveis ou muito reduzidos.

A biópsia de pele ou do rim pode fornecer o diagnósticos naqueles casos atípicos, onde o médico não pensa inicialmente na doença de Fabry como diagnóstico diferencial.

As mulheres portadoras do gene da doença podem ser assintomáticas e ter níveis de alfa-gal A normais. Nestes casos apenas testes genéticos podem confirmar se a mesma possui o gene da doença, sendo passível de transmissão para seus filhos. A análise genética ainda é feita em pouquíssimos laboratórios.

Tratamento da doença de Fabry

A doença de Fabry não tem cura. Porém, já existe uma forma sintética da enzima alfa-gal A para administração. As duas marcas atualmente comercializadas são a Replagal® e a Fabrazyme®.

Atualmente a expectativa de vida média está ao redor dos 50 anos. Os medicamentos são muito recentes e ainda não houve tempo para se comprovar diminuição da mortalidade apesar das evidências de que há redução dos depósitos de GB3 e retardamento da perda de função renal.

Quanto mais cedo for iniciado o medicamento, melhores os resultados. O tratamento é para vida toda.

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  • Diego Vitor

    Boa matéria sobre uma doença rara =)
    Sou estudante de medicina e estava assistindo House MD. Na 6ª temporada, episódio 3, é abordada a DF. Como acompanho seu site há algum tempo, pensei logo: Será que no MDSaúde tem algo a respeito?!
    Uma boa iniciativa trazer a público algumas doenças de menor prevalência =)

  • Bernardetemonteiro

    D.Pedro eu tenho a doença de fabry sou mulher com 34 anos, será que minha filha pode ter?

    • https://plus.google.com/+PedroPinheiro/ Dr. Pedro Pinheiro – MD.Saúde

      Sim, o risco é maior em familiares.

  • Mileide Barros

    Dr. Pedro como posso saber se minha filha, que tem angioqueratoma, possui a doença de fabry ?

    • https://plus.google.com/+PedroPinheiro/ Dr. Pedro Pinheiro – MD.Saúde

      É preciso ver se ela tem outros sinais e sintomas da doença de Fabry.

  • http://www.blogger.com/profile/07948507723271517173 Dr. Pedro Pinheiro – MD.Saúde

    Existem outras causas.

  • Valdize Barros

    Dr. Pedro, após ler o seu artigo que achei excelente, ficou uma dúvida, todo diagnóstico para angioqueratoma, significa a doença de Fabry ou existem outros tipos?

    • https://plus.google.com/+PedroPinheiro/ Dr. Pedro Pinheiro – MD.Saúde

      Existem outras causas.

  • Leide

    ola dr Pedro…gostaria de saber como esta o estudo no Brasil a respeito da doença de Fabry? Como é esse acordo do Brasil com Alemanha sobre o tratamento de Fabry? E se tem uma media de quantas pessoas,no Brasil, ja tem esse diagnostico?

  • Anonymous

    dr Pedro, obrigado pelo texto. È muito difícl achar um site com tantas informações sobre doença de Fabry em português. Este aqui tá ótimo.
    Paulo