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DOENÇA DE FABRY

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A doença de Fabry, também chamada de doença de Anderson-Fabry é uma patologia hereditária rara, transmitida de modo recessivo pelo cromossoma X. Os pacientes com doenças de Fabry apresentam deficiência de uma enzima chamada alfa-galactosidase A.

Ok, sei que o primeiro parágrafo ficou difícil de entender. Vamos, então descomplicá-lo por partes.

Genética da doença de Fabry

Homens apresentam cromossomas sexuais X e Y e mulheres X e X. O pai passa seu cromossoma Y para seus filhos e o X para suas filhas. Já as mães passam sempre o cromossoma X, tanto para os filhos, quanto para as filhas.

Se a herança é recessiva ligada ao X, isso significa que as mulheres precisam receber os 2 cromossomas X (um do pai e outra da mãe) com o defeito para terem a doença. Como os homens só apresentam um cromossoma X, basta que este seja defeituoso para se desenvolver a doença de Fabry.

A doença de Fabry é uma patologia majoritariamente de homens, transmitida pelas mães, uma vez que o pai só transmite o cromossoma Y para seus filhos. Portanto, homens com Fabry não transmitem a doença para seus filhos, mas transmitem o gene X defeituoso para sua filhas.

Já as mães, em geral, não possuem Fabry pois só apresentam um X defeituoso. Porém, podem transmiti-lo para o seu filho, passando-lhe a doença.

O que causa a doença de Fabry?

Como já dito no início do texto, a doença de Fabry acontece por uma deficiência de uma enzima chamada alfa-galactosidase A (alfa-gal A). Esta é uma enzima presente dentro de nossas células e responsável pela eliminação de uma substância gordurosa chamada de globotriaosilceramida (GB3 ou GL-3). Eu sei que esses nomes parecem palavrões e que isso atrapalha um pouco o entendimento do assunto, mas infelizmente é assim mesmo que eles são chamados.

Na ausência da alfa-gal A, a GB3 se acumula dentro das células, depositando-se em vários tecidos, principalmente nas paredes dos vasos sanguíneos. Por isso, a doença de Fabry faz parte de um grupo de patologias chamado de doenças de depósito.

Todos os sinais e sintomas da doença de Fabry são derivados desse acúmulo de GB3, que podem obstruir vasos vasos sanguíneos, causando isquemias e infartos de órgãos e tecidos.

Sintomas da doença de Fabry

Os sintomas da doença de Fabry costumam seguir um certa ordem de aparecimento. Os primeiros sinais surgem na infância ou início da adolescência e incluem:

- Dores nos membros, principalmente mãos e pés, causados por acometimento dos nervos do sistema nervoso periférico. Normalmente este é o primeiro sintoma e pode ser desencadeado por estresse, frio, calor ou atividades físicas extenuantes.

- Lesões de pele: teleangiectasias são pequenos vasos da pele dilatados, também chamados de aranhas vasculares pelo seu formato. São comumente vistas em pessoas com varizes nas pernas (leia: VARIZES | Causas e Tratamento). Angioqueratomas são elevações puntiformes arroxadas.

Na doença de Fabry, as duas lesões costumam aparecer juntas principalmente nas coxas, quadril e em volta do umbigo.

Teleangiectasias
Teleangiectasias na doença de Fabry
Teleangiectasias na doença de Fabry

Angioqueratomas

Angioqueratomas na doença de Fabry

- Outro problema comum no Fabry é o acometimento das glândulas sudoríparas, responsáveis pela produção de suor. Os doentes podem apresentar baixa taxa de transpiração (hipoidrose), elevada temperatura corporal, fadiga intensa e intolerância ao calor.

- Depósitos de GB3 nos vasos da córnea dos olhos, causando a chamada córnea verticilata também podem ser detectados com exames oftalmológicos especiais (oftalmoscopia de lâmpada de fenda).

Córnea verticilata
Córnea verticilata - Doença de Fabry

- Sintomas gastrointestinais como dor após alimentação, náuseas e diarréia também são comuns.

Na idade adulta o paciente começa a sofrer as consequências da obstrução de vasos em órgãos nobres como rins, cérebro e coração.

1) Rins

50% dos pacientes com doença de Fabry apresentam acometimento renal. Os primeiros sinais são o aumento da produção de urina por incapacidade do rim em reter água. Depois surgem a proteinúria (leia: PROTEINÚRIA, URINA ESPUMOSA E SÍNDROME NEFRÓTICA) e finalmente insuficiência renal crônica (leia: INSUFICIÊNCIA RENAL CRÔNICA - SINTOMAS). Boa parte dos pacientes acaba por necessitar de hemodiálise.

2) Coração

O envolvimento cardíaco costuma se dar na forma de insuficiência cardíaca (leia: INSUFICIÊNCIA CARDÍACA - CAUSAS E SINTOMAS), arritmias cardíacas (leia: PALPITAÇÕES, TAQUICARDIA E ARRITMIAS CARDÍACAS), hipertrofia do ventrículo esquerdo e isquemia do miocárdio (leia: SINTOMAS DO INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO E ANGINA).

3) Cérebro

O acometimento do sistema nervoso central pode se dar através de ataques isquêmicos transitórios ou AVCs (leia: ENTENDA O AVC - ACIDENTE VASCULAR CEREBRAL), tonturas, vertigens e cefaléias (leia: DOR DE CABEÇA - ENXAQUECA, CEFALÉIA TENSIONAL E SINAIS DE GRAVIDADE).

Doença de Fabry nas mulheres

A maioria das mulheres portadoras de apenas um cromossoma X defeituoso apresenta poucos ou nenhum sintoma da doença de Fabry. Porém , por fatores ainda não bem conhecidos, existe um pequeno grupo que desenvolve a doença tal qual os homens.

Diagnóstico da doença de Fabry

Por ser uma doença rara e pouco conhecida, inclusive entre os médicos, muitas vezes os pacientes precisam esperar anos entre os primeiros sintomas e o diagnóstico definitivo. Quando há história familiar, o diagnóstico sai mais facilmente, pois a própria família já sugere a hipótese da doença ao médico.

A tríade de alterações renais + angioqueratomas + dor nos membros em crianças ou jovens do sexo masculino, deve sempre levantar a suspeita de doença de Fabry.

O diagnóstico pode ser confirmado através da dosagem da enzima alfa-galactosidase A. A maioria dos pacientes apresentam níveis indetectáveis ou muito reduzidos.

A biópsia de pele ou do rim pode fornecer o diagnósticos naqueles casos atípicos, onde o médico não pensa inicialmente na doença de Fabry como diagnóstico diferencial.

As mulheres portadoras do gene da doença podem ser assintomáticas e ter níveis de alfa-gal A normais. Nestes casos apenas testes genéticos podem confirmar se a mesma possui o gene da doença, sendo passível de transmissão para seus filhos. A análise genética ainda é feita em pouquíssimos laboratórios.

A doença de Fabry não tem cura. Porém, já existe uma forma sintética da enzima alfa-gal A para administração. As duas marcas atualmente comercializadas são a Replagal® e a Fabrazyme®.

Atualmente a expectativa de vida média está ao redor dos 50 anos. Os medicamentos são muito recentes e ainda não houve tempo para se comprovar diminuição da mortalidade apesar das evidências de que há redução dos depósitos de GB3 e retardamento da perda de função renal.

Quanto mais cedo for iniciado o medicamento, melhores os resultados. O tratamento é para vida toda.

Dr. Pedro PinheiroAutor do artigo
Dr. Pedro Pinheiro - Médico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2002. Diploma reconhecido pela Universidade do Porto, Portugal. Título de especialista em Medicina Interna pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) em 2005. Título de Nefrologista pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pela Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) em 2007. Título de Nefrologista pelo Colégio Português de Nefrologia.
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1 comentários:

dr Pedro, obrigado pelo texto. È muito difícl achar um site com tantas informações sobre doença de Fabry em português. Este aqui tá ótimo.
Paulo