Principais pontos sobre a sertralina
O que é: antidepressivo da classe dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS).
Para que serve: é utilizada principalmente no tratamento da depressão, TOC, síndrome do pânico, ansiedade social, TEPT e transtorno disfórico pré-menstrual. Também possui alguns usos off-label, como transtorno de ansiedade generalizada e ejaculação precoce.
Como tomar: é administrada uma vez ao dia. A dose inicial costuma ser de 25 ou 50 mg, dependendo da indicação, e pode ser aumentada gradualmente.
Quanto tempo demora para fazer efeito: alguma melhora pode surgir nas primeiras semanas, mas uma resposta mais consistente costuma exigir de 4 a 6 semanas ou mais.
Efeitos colaterais mais comuns: náuseas, diarreia, dor de cabeça, insônia ou sonolência, sudorese, tremores e alterações da função sexual.
Peso: não é um medicamento para emagrecer. Pode ocorrer perda de peso no início, mas também é possível ganho de peso durante o tratamento prolongado.
Suspensão: não deve ser interrompida abruptamente. A redução da dose deve ser gradual e individualizada.
Atenção especial: crianças, adolescentes e adultos jovens devem ser acompanhados de perto quanto ao aparecimento ou agravamento de pensamentos suicidas, principalmente no início do tratamento e após mudanças de dose.
O que é sertralina?
A sertralina é um medicamento usado no tratamento de transtornos relacionados ao humor, ansiedade e comportamento. Ela pertence à classe dos antidepressivos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), um grupo de remédios que atuam no cérebro aumentando a disponibilidade da serotonina, um neurotransmissor envolvido na regulação do humor, do sono, do apetite e de diversas outras funções.
Desde que foi aprovada pelas principais agências regulatórias de saúde, como a FDA (Estados Unidos) e a EMA (Europa), a sertralina se tornou uma das opções mais prescritas na área da saúde mental, tanto por sua eficácia quanto por seu perfil de segurança. É indicada para uso em adultos e, em alguns casos, também pode ser utilizada em crianças e adolescentes, sempre com acompanhamento médico especializado.
Embora seja chamada de “antidepressivo”, seu uso não se limita apenas ao tratamento da depressão — e isso será explicado ao longo do artigo.
A seguir, explicaremos como a sertralina age no organismo, para que serve, quais são os efeitos colaterais mais comuns, quando deve ser evitada e como tomar corretamente.
Atenção: este texto não aspira ser uma bula completa da sertralina. Nosso objetivo é ser menos técnico que uma bula e mais útil aos pacientes que procuram informações sobre este medicamento.
Como age a sertralina?
A sertralina atua no cérebro, ajudando a aumentar a quantidade de serotonina disponível entre os neurônios. A serotonina é um neurotransmissor — ou seja, uma substância química que permite a comunicação entre as células nervosas — envolvido na regulação do humor, do sono, do apetite, da memória e da ansiedade.
Tecnicamente, a sertralina é classificada como um inibidor seletivo da recaptação de serotonina (ISRS). Isso significa que ela bloqueia um mecanismo natural do cérebro chamado recaptação, que normalmente “recolhe” a serotonina após sua liberação. Ao impedir essa recaptação, o medicamento mantém a serotonina ativa por mais tempo, o que ajuda a melhorar os sintomas de depressão, ansiedade e outros transtornos relacionados.
A melhora clínica do paciente não decorre apenas do aumento imediato da concentração sináptica de serotonina, mas de adaptações graduais dos circuitos neuronais (regulação de receptores, modulação de vias intracelulares, neuroplasticidade), que demandam tempo. Por isso, o efeito do fármaco não é imediato.
Em muitos pacientes, algum alívio inicial de sintomas pode ser percebido a partir da 1ª semana, porém a resposta terapêutica mais consistente costuma aparecer entre 4 e 6 semanas de uso contínuo, podendo em alguns casos exigir até 8 a 12 semanas para estabilização plena.
Os benefícios da sertralina em várias condições mentais, como depressão, transtornos de ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno de estresse pós-traumático, transtorno disfórico pré-menstrual, etc., estão bem documentados, mas a magnitude e a velocidade da resposta variam de pessoa para pessoa.
Fatores como genética, comorbidades clínicas e psiquiátricas, uso de outras medicações, contexto psicossocial e a presença de psicoterapia associada influenciam diretamente os resultados.
Para que serve a sertralina?
A sertralina é indicada para o tratamento de diversos transtornos psiquiátricos, principalmente aqueles relacionados ao humor, ansiedade e comportamento obsessivo. Sua eficácia foi demonstrada em estudos clínicos e é reconhecida por diretrizes médicas internacionais como tratamento de primeira linha para várias condições.
De acordo com as bulas oficiais da FDA (Estados Unidos) e da EMA (Europa), e conforme as diretrizes da NICE (Reino Unido), da ACP (EUA) e da WFSBP (Federação Mundial de Psiquiatria Biológica), a sertralina pode ser utilizada para tratar:
- Depressão maior.
- Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).
- Síndrome do pânico.
- Transtorno de ansiedade social (fobia social).
- Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
- Transtorno disfórico pré-menstrual (TDPM).
Uso off-label da sertralina
Além das indicações oficialmente aprovadas pelas agências regulatórias, a sertralina também é usada em outras situações clínicas com base em estudos científicos, mesmo que esses usos não estejam descritos na bula. Isso é chamado de uso off-label (fora da indicação aprovada).
O uso off-label é legal e comum na medicina, desde que feito com critério e acompanhamento médico, principalmente quando há evidência científica que justifique o benefício do medicamento naquela condição.
Alguns exemplos de usos off-label da sertralina incluem:
- Ejaculação precoce.
- Transtorno de ansiedade generalizada (TAG).
- Bulimia nervosa.
- Síndrome do intestino irritável, em casos selecionados.
- Transtorno dismórfico corporal.
- Transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP).
Esses usos não devem ser feitos por conta própria. O médico é quem avalia se a sertralina é apropriada em cada caso, considerando riscos, benefícios e alternativas.
Crianças e adolescentes
De acordo com o FDA, a sertralina é aprovada/estabelecida apenas para transtorno obsessivo-compulsivo em pacientes pediátricos. Para depressão maior, pânico, ansiedade social, TEPT, TAG e TDPM em menores de 18 anos não há aprovação do FDA; eventuais usos podem ser considerados off-label por especialistas, caso a caso, quando os benefícios potenciais superarem os riscos.
Sertralina emagrece?
A sertralina não é um medicamento para emagrecer. Nas primeiras semanas, algumas pessoas podem perder um pouco de peso devido à redução do apetite, náuseas ou outros efeitos gastrointestinais. Esse efeito, quando ocorre, costuma ser modesto e transitório.
Com o tratamento prolongado, entretanto, também pode ocorrer ganho de peso. A resposta varia bastante entre os pacientes. Em um grande estudo observacional publicado em 2024, pessoas que iniciaram sertralina apresentaram, em média, ganho de pouco mais de 1,5 kg após dois anos. As diferenças entre vários antidepressivos de primeira linha foram relativamente pequenas, embora alguns tenham se associado a maior ou menor ganho de peso.
Portanto, não é correto considerar a sertralina um medicamento que emagrece nem afirmar que ela seja neutra em relação ao peso para todos os pacientes.
Abordamos os medicamentos mais utilizados para perda de peso no artigo: Remédios para emagrecer: quais são os melhores?
Nomes comerciais da sertralina
O cloridrato de sertralina é o princípio ativo do medicamento, ou seja, o nome do composto químico responsável pelo efeito terapêutico. No entanto, ela é comercializada sob diferentes nomes comerciais, que podem variar entre países e laboratórios.
No Brasil
No Brasil, a sertralina é vendida tanto na forma de genérico (identificada apenas como “sertralina”) quanto sob diversos nomes comerciais, como:
- Zoloft® (marca de referência, atualmente comercializada pela Viatris).
- Tolrest®.
- Afetus®.
- Assert®.
- Sercerin®.
- Serenata®.
A formulação e o princípio ativo são os mesmos, e todos os medicamentos registrados devem seguir padrões de qualidade e bioequivalência exigidos pela Anvisa.
Em Portugal
Em Portugal, a sertralina também é encontrada em versão genérica e sob diferentes marcas. Algumas das mais comuns incluem:
- Zoloft®.
- Sertralina Bluepharma®.
- Sertralina Cinfa®.
- Sertralina Sandoz®.
- Sertralina ratiopharm®.
Todas essas marcas estão autorizadas pela Infarmed (autoridade reguladora de medicamentos em Portugal) e seguem os mesmos critérios de qualidade exigidos para medicamentos genéricos e de marca.
Independentemente do nome comercial, o que importa é o princípio ativo (sertralina) e a dose prescrita. A substituição entre marcas ou entre genérico e referência só deve ser feita com orientação médica ou farmacêutica, especialmente em pessoas sensíveis a pequenas variações na formulação.
Apresentações da sertralina
A sertralina está disponível em diferentes apresentações farmacêuticas, permitindo que o médico escolha a forma mais adequada para cada paciente.
No Brasil, até o momento, a sertralina encontra-se essencialmente em comprimidos revestidos. Em Portugal, além dos comprimidos, existe concentrado para solução oral em determinadas marcas, sujeito à disponibilidade no mercado.
Comprimidos revestidos
É a forma mais amplamente utilizada. Os comprimidos contêm o princípio ativo cloridrato de sertralina em doses diferentes, como:
- Sertralina 25 mg.
- Sertralina 50 mg.
- Sertralina 100 mg.
Esses comprimidos devem ser ingeridos por via oral, com ou sem alimentos. A dose inicial e os ajustes ao longo do tratamento dependem da condição a ser tratada, da resposta clínica e da tolerância do paciente.
Solução oral – concentrado para solução oral
Menos comum e disponível apenas em alguns mercados, como Portugal. O concentrado para solução oral de sertralina é útil em situações específicas, por exemplo:
- Pacientes com dificuldade para engolir comprimidos.
- Necessidade de ajuste fino da dose, especialmente em pediatria ou em idosos.
- Início do tratamento com doses particularmente baixas.
No caso dos concentrados para solução oral, o produto deve ser obrigatoriamente diluído antes da administração em um dos líquidos especificamente recomendados na bula de cada marca (não devendo ser misturado em qualquer bebida). As instruções de preparo e diluição devem ser seguidas rigorosamente conforme o folheto oficial do medicamento.
Posologia (como tomar)
A dose de sertralina deve sempre ser ajustada pelo médico, de acordo com a indicação, a resposta ao tratamento e a tolerância individual. O medicamento é de uso oral e pode ser tomado com ou sem alimentos, de preferência no mesmo horário todos os dias, para manter níveis constantes no organismo.
As doses variam conforme o transtorno tratado. Abaixo estão os esquemas mais comuns recomendados em diretrizes clínicas e nas bulas da FDA e EMA:
Depressão maior e transtorno de ansiedade generalizada
- Dose inicial usual em adultos: 50 mg/dia.
- Ajustes: aumentos graduais de 50 mg em intervalos de, no mínimo, 1 semana, até a dose máxima de 200 mg/dia, conforme resposta e tolerabilidade.
- A melhora clínica costuma surgir entre 2 e 6 semanas, podendo exigir mais tempo para resposta plena.
Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC)
- Adultos: iniciar com 50 mg/dia, com possibilidade de aumentos graduais até 200 mg/dia.
- Crianças e adolescentes:
- 6 a 12 anos: iniciar com 25 mg/dia; após cerca de 1 semana, pode-se aumentar para 50 mg/dia e seguir com titulação gradual, se necessário.
- 13 a 17 anos: iniciar com 50 mg/dia, com possibilidade de ajuste progressivo.
- Em todas as faixas etárias, os aumentos devem respeitar intervalos mínimos de 1 semana, observando resposta e efeitos adversos.
Transtorno do pânico
- Dose inicial: 25 mg/dia na primeira semana, para reduzir o risco de intensificação ansiosa inicial.
- Após 1 semana, aumentar para 50 mg/dia.
- Se necessário, ajustar em incrementos de 50 mg, até o máximo de 200 mg/dia, em intervalos semanais ou maiores.
Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT)
- Início: geralmente 25 mg/dia, aumentando para 50 mg/dia após cerca de 1 semana.
- Ajustes subsequentes até 200 mg/dia, conforme resposta clínica e tolerabilidade.
Transtorno de ansiedade social (fobia social)
- Dose inicial: 25 mg/dia.
- Após cerca de 1 semana, a dose pode ser aumentada para 50 mg/dia.
- Se necessário, novos ajustes podem ser feitos em incrementos de 25 a 50 mg, respeitando intervalos de pelo menos 1 semana, até o máximo de 200 mg/dia.
Transtorno disfórico pré-menstrual (TDPM/PMDD)
Dose usual: 50 a 100 mg/dia.
A sertralina pode ser utilizada de duas formas:
- Esquema contínuo: tomada diária durante todo o ciclo.
- Esquema intermitente (fase lútea): uso iniciado aproximadamente 14 dias antes da menstruação e interrompido no início do ciclo menstrual.
- No esquema contínuo, a dose pode ser aumentada gradualmente, geralmente até 150 mg/dia, conforme necessidade clínica.
- No esquema apenas na fase lútea, a dose pode ser ajustada até cerca de 100 mg/dia, de acordo com resposta e tolerabilidade.
Duração do tratamento
A duração do uso da sertralina depende do diagnóstico, do número de episódios prévios, do risco de recaída e da resposta ao tratamento:
- Depressão: em geral, o antidepressivo é mantido por pelo menos 6 meses após a remissão, podendo ser necessário tratamento mais prolongado conforme o risco de recaída.
Transtorno de ansiedade generalizada: quando o tratamento está sendo eficaz, costuma-se recomendar manutenção por pelo menos 12 meses. - TOC, TEPT e fobia social: frequentemente exigem tratamento mais prolongado, muitas vezes por vários anos, sobretudo em casos crônicos ou com recidivas recorrentes.
- Em todos os casos, a necessidade de manutenção em longo prazo deve ser periodicamente reavaliada pelo médico.
A sertralina não deve ser interrompida de forma abrupta, exceto quando existe uma razão médica específica para suspensão imediata.
A velocidade do desmame deve ser individualizada. Em muitos pacientes, a retirada pode ser realizada ao longo de algumas semanas. Após uso prolongado, doses mais altas ou histórico de sintomas de descontinuação, pode ser necessário reduzir a dose de forma ainda mais lenta, durante vários meses.
Cada nova redução deve, de preferência, ser feita apenas quando os sintomas provocados pela etapa anterior já tiverem desaparecido ou estiverem toleráveis. Se surgirem sintomas intensos, o médico pode retornar temporariamente à última dose bem tolerada e reiniciar a redução de maneira mais gradual.
A retirada com redução progressiva da dose ajuda a minimizar sintomas de descontinuação (como tontura, irritabilidade, ansiedade, sensação de “choques elétricos”, distúrbios do sono, entre outros).
Troca entre antidepressivos
Trocar de antidepressivo deve ser uma decisão cuidadosamente planejada. O esquema depende dos dois medicamentos envolvidos, das doses utilizadas e do risco de sintomas de descontinuação ou de interações.
Dependendo da situação, pode ser feita uma troca direta, uma redução gradual seguida do início do novo antidepressivo, uma redução simultânea de um enquanto o outro é introduzido (cross-taper) ou ainda um período sem nenhum dos dois medicamentos, chamado washout.
Nem todas essas estratégias são seguras para todas as combinações. Por exemplo, o cross-taper deve ser evitado na troca entre sertralina e clomipramina ou entre sertralina e IMAOs devido ao risco de síndrome serotoninérgica.
No caso dos IMAOs, a troca exige cuidados especiais. O antidepressivo em uso deve ser suspenso e é necessário respeitar um período de washout antes do início do outro medicamento. Como essa é uma troca de maior risco, o esquema deve ser definido pelo médico responsável.
A bula norte-americana recomenda intervalo de pelo menos 14 dias entre a suspensão de um IMAO e o início da sertralina e também antes de iniciar um IMAO após a suspensão da sertralina.
Uso em pacientes com doença renal crônica (DRC)
A função renal, isoladamente, não exige ajuste da dose de sertralina. Estudos farmacocinéticos mostram que a exposição ao medicamento não se modifica de maneira clinicamente relevante mesmo na insuficiência renal grave. Portanto, não há correção obrigatória da dose com base na taxa de filtração glomerular.
Isso não impede que idosos, pacientes frágeis ou pessoas com múltiplas comorbidades iniciem o tratamento com doses menores por questões de tolerabilidade, e não especificamente pela redução da função renal.
A hiponatremia (baixa de sódio no sangue) é um efeito adverso possível dos ISRS. O risco é maior principalmente em idosos, pacientes em uso de diuréticos e pessoas com depleção de volume. Nesses grupos, pode ser necessário maior acompanhamento clínico e, conforme o contexto, dosagem do sódio sérico.
Efeitos colaterais da sertralina
Como todo medicamento, a sertralina pode causar efeitos colaterais, especialmente nas primeiras semanas de uso, enquanto o organismo se adapta. Na maior parte dos casos, esses efeitos são leves a moderados e tendem a diminuir ou desaparecer com o tempo. Em algumas pessoas, porém, podem ocorrer sintomas mais intensos, que exigem reavaliação médica.
A seguir, os principais efeitos relatados em estudos clínicos e nas bulas de referência. As frequências podem variar conforme a população estudada e a fonte; por isso, a classificação abaixo é aproximada e voltada para orientação prática.
Efeitos colaterais mais comuns
- Náuseas (um dos efeitos adversos mais frequentes no início do tratamento).
- Dor de cabeça.
- Boca seca.
- Insônia ou sonolência.
- Diarreia ou outros desconfortos gastrointestinais.
- Tontura.
- Sudorese aumentada.
- Agitação ou aumento transitório da ansiedade no início do uso.
- Tremores.
- Fadiga ou sensação de cansaço.
- Alterações da função sexual (redução da libido, atraso na ejaculação, dificuldade de atingir orgasmo), que podem persistir durante o tratamento. Também existem relatos de disfunção sexual prolongada que permanece mesmo após a suspensão dos ISRS, embora a frequência desse fenômeno não seja conhecida.
- Redução do apetite.
Efeitos colaterais descritos, porém menos comuns
- Variações de peso: ganho ou perda de peso podem ocorrer; em muitos pacientes são discretos, mas em alguns podem ser mais significativos.
Efeitos colaterais raros, mas importantes
- Hiponatremia (queda do sódio sérico), especialmente em idosos, em uso de diuréticos ou com comorbidades.
- Convulsões, em pessoas com predisposição ou em contexto de risco (história de epilepsia, lesão cerebral, uso de outras drogas que reduzem o limiar convulsivo).
- Aumento do risco de sangramentos, sobretudo quando associada a AAS, anti-inflamatórios não esteroides, anticoagulantes ou outros fármacos que interferem na hemostasia.
- Mania/hipomania, especialmente em pacientes com transtorno bipolar não diagnosticado previamente.
- Síndrome serotoninérgica, geralmente associada ao uso concomitante com outros fármacos serotoninérgicos (como outros ISRS, IRSN, triptanos, tramadol, lítio, IMAO, entre outros): caracteriza-se por agitação, hiperreflexia, tremores, sudorese intensa, febre, rigidez e alteração do estado mental, sendo uma urgência médica.
- Alterações do intervalo QTc: em estudos com doses supraterapêuticas (por exemplo, 400 mg/dia, acima da dose máxima recomendada de 200 mg/dia) foi observado prolongamento discreto do QTc. Em doses usuais, o risco é baixo, mas deve-se ter cautela em pacientes com fatores de risco para arritmia ou em uso de outros fármacos que prolongam o QTc.
Efeitos colaterais em crianças e adolescentes
Nos estudos pediátricos (especialmente em TOC), o perfil de efeitos adversos é semelhante ao dos adultos, incluindo sintomas gastrointestinais, insônia, agitação e alterações de apetite. Nessa faixa etária, há atenção especial para:
- Irritabilidade e agitação mais pronunciadas.
- Mudanças comportamentais abruptas.
- Ideação suicida em crianças, adolescentes e adultos jovens.
Por esse motivo, o uso em crianças e adolescentes deve ser sempre acompanhado de perto por médico habilitado, com monitorização regular de sintomas e do comportamento.
A maioria dos pacientes tolera bem a sertralina após o período inicial de adaptação. Caso ocorram efeitos colaterais intensos, persistentes, incomuns ou qualquer sintoma preocupante (como ideias suicidas, sangramentos anormais, febre, rigidez, confusão, agitação extrema), o médico deve ser contatado prontamente. A dose não deve ser alterada nem o tratamento interrompido por conta própria.
Ideação suicida em adolescentes e adultos jovens
Estudos de curto prazo com antidepressivos identificaram aumento do risco de pensamentos e comportamentos suicidas em crianças, adolescentes e adultos jovens, especialmente até os 24 anos.
Isso não significa que a sertralina não deva ser utilizada quando há indicação. Depressão e outros transtornos psiquiátricos também aumentam o risco de suicídio, e o tratamento adequado pode ser fundamental. O ponto importante é manter acompanhamento mais próximo, sobretudo nas primeiras semanas e após aumentos ou reduções da dose.
Piora importante do humor, agitação incomum, mudanças bruscas de comportamento, autoagressão ou surgimento de pensamentos suicidas exigem contato rápido com o profissional responsável.
Contraindicações
A sertralina é, em geral, um medicamento seguro e bem tolerado, mas existem situações em que seu uso é contraindicado ou requer avaliação cuidadosa, devido ao risco aumentado de eventos adversos relevantes.
Contraindicações absolutas (situações em que não deve ser usada)
Uso concomitante com inibidores da monoaminoxidase (IMAO)
A combinação de sertralina com IMAOs (como fenelzina, tranilcipromina, isocarboxazida), com o antibiótico linezolida ou com azul de metileno por via intravenosa aumenta significativamente o risco de síndrome serotoninérgica grave, potencialmente fatal.
Em situações excepcionais de necessidade de linezolida ou azul de metileno IV, as bulas orientam suspensão temporária da sertralina e monitorização rigorosa, conduta que deve ser definida pelo médico assistente.
Uso concomitante com pimozida
A associação é contraindicada devido ao risco de aumento dos níveis plasmáticos de pimozida e ocorrência de prolongamento do intervalo QTc e arritmias ventriculares graves.
Hipersensibilidade à sertralina ou a qualquer componente da fórmula
Pacientes com história de reação alérgica grave à sertralina ou a excipientes do medicamento não devem reutilizá-lo.
Situações que exigem cautela ou avaliação individual
Nestas condições, a sertralina não é automaticamente proibida, mas seu uso deve ser cuidadosamente ponderado, com possível ajuste de dose e monitorização clínica mais próxima.
Transtorno bipolar
A sertralina, como outros antidepressivos, pode precipitar episódios de mania ou hipomania em indivíduos com transtorno bipolar. Recomenda-se investigação dirigida de história pessoal e familiar de episódios maníacos/hipomaníacos antes de iniciar o tratamento e monitorização atenta de sinais de viragem de humor.
Doença hepática
A sertralina é extensivamente metabolizada no fígado.
- Em comprometimento hepático leve, recomenda-se, em geral, utilizar aproximadamente metade da dose usual e monitorizar.
- Em comprometimento hepático moderado a grave, o uso não é recomendado nas bulas mais restritivas (FDA) ou deve ser considerado apenas com grande cautela, caso a caso, por falta de dados robustos e risco de aumento significativo da exposição ao fármaco.
Histórico de convulsões
Deve ser usada com cautela em pacientes com epilepsia, especialmente se não controlada, ou com condições que reduzam o limiar convulsivo. Caso ocorram crises, o tratamento deve ser reavaliado.
Glaucoma de ângulo fechado
A sertralina pode provocar discreta dilatação da pupila e, em pessoas predispostas, desencadear uma crise de glaucoma de ângulo fechado. Pacientes com histórico desse tipo de glaucoma ou com ângulos oculares anatomicamente estreitos devem informar o médico antes de iniciar o tratamento.
Gravidez e amamentação
A decisão deve ser individualizada:
- Na gestação, a sertralina é frequentemente considerada uma das opções de primeira linha quando há indicação clara de tratamento farmacológico, ponderando-se riscos da doença não tratada versus potenciais riscos fetais (como sintomas de adaptação neonatal e, raramente, hipertensão pulmonar persistente do recém-nascido).
- Na amamentação, a sertralina é amplamente considerada um dos antidepressivos preferenciais, devido aos baixos níveis no leite e boa experiência de uso.
Em ambos os casos, a prescrição deve ser feita por profissional habilitado, com monitorização da mãe e do bebê.
Outras situações que requerem atenção especial
- História de sangramentos ou uso concomitante de fármacos que aumentem o risco hemorrágico (AAS, AINEs, anticoagulantes), devido ao efeito da sertralina na função plaquetária.
- Uso combinado com outros fármacos serotoninérgicos ou que prolonguem o QTc, exigindo avaliação cuidadosa de interações.
Interações medicamentosas
A sertralina pode interagir com diversos medicamentos, potencializando efeitos colaterais ou aumentando o risco de reações adversas. Por isso, é essencial informar ao médico sobre todos os remédios em uso, incluindo medicamentos sem prescrição, fitoterápicos e suplementos.
A seguir, veja as interações mais relevantes:
Inibidores da monoaminoxidase (IMAO)
A combinação de sertralina com medicamentos da classe dos IMAOs (como fenelzina, tranilcipromina, linezolida ou azul de metileno intravenoso) é estritamente contraindicada.
Essa associação pode causar uma reação grave chamada síndrome serotoninérgica, que inclui agitação, confusão, tremores, febre e alterações da pressão arterial — podendo ser fatal.
Apenas reforçando o que já foi explicado anteriormente: é necessário um intervalo de 14 dias entre a suspensão de um IMAO e o início da sertralina, e vice-versa.
Outros medicamentos que aumentam a serotonina
O uso simultâneo com outras substâncias que também atuam na serotonina aumenta o risco de síndrome serotoninérgica. Exemplos incluem:
- Outros antidepressivos (ISRS, IRSN, tricíclicos).
- Tramadol.
- Lítio.
- Buspirona.
- Triptanos para enxaqueca (como sumatriptano).
- Suplementos de triptofano.
- Dextrometorfano (presente em alguns xaropes para tosse).
Embora nem todas essas combinações sejam proibidas, exigem avaliação médica cuidadosa.
Medicamentos que afetam a coagulação
A sertralina pode aumentar o risco de sangramentos, especialmente quando usada com:
- AAS (ácido acetilsalicílico).
- Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) como ibuprofeno ou naproxeno.
- Anticoagulantes como varfarina, rivaroxabana ou apixabana.
Essas combinações devem ser avaliadas caso a caso. Em pacientes que usam varfarina, pode ser necessário monitorar o INR mais de perto ao iniciar, ajustar ou suspender a sertralina.
Para anticoagulantes diretos, como rivaroxabana e apixabana, não existe um exame de rotina equivalente ao INR para acompanhar o efeito anticoagulante. Nesses casos, a monitorização é principalmente clínica, com atenção a sinais de sangramento e aos demais fatores que aumentem o risco hemorrágico.
Pimozida
A associação com o antipsicótico pimozida é proibida, pois pode causar alterações perigosas no ritmo cardíaco (prolongamento do intervalo QTc), com risco de arritmias graves.
Medicamentos que afetam o fígado ou o sistema enzimático CYP450
A sertralina é metabolizada no fígado por várias enzimas do sistema CYP450, com participação importante da CYP2C19 e da CYP2B6. Por isso, alguns medicamentos que inibem ou induzem essas vias podem alterar sua concentração no organismo.
Na maioria das situações, a relevância clínica depende do medicamento associado, das doses utilizadas e das características individuais do paciente. Por isso, não é necessário evitar rotineiramente todos os fármacos que interferem nessas enzimas, mas combinações específicas podem exigir maior atenção ou ajuste do tratamento.
A erva-de-são-joão (Hypericum perforatum) merece cuidado especial: além de interferir em enzimas hepáticas, também possui ação serotoninérgica e pode aumentar o risco de síndrome serotoninérgica quando combinada com sertralina.
Álcool e outras substâncias que deprimem o sistema nervoso central
Embora estudos em voluntários saudáveis não tenham demonstrado que a sertralina potencialize os efeitos cognitivos e psicomotores agudos do álcool, o consumo de bebidas alcoólicas não é recomendado durante o tratamento, pois pode intensificar efeitos colaterais como sonolência, tontura e prejuízo do julgamento.
FAQ – Perguntas frequentes sobre a sertralina
Sertralina vicia?
Não. A sertralina não causa dependência química como ocorre com drogas como álcool ou benzodiazepínicos. No entanto, a interrupção abrupta pode causar sintomas desagradáveis (como tontura, irritabilidade e sensações elétricas na cabeça), chamados de síndrome de descontinuação. Por isso, a retirada deve ser feita gradualmente e com orientação médica.
Posso tomar sertralina e álcool ao mesmo tempo?
Embora não exista uma interação direta entre sertralina e álcool, a recomendação é evitar o consumo de bebidas alcoólicas durante o tratamento. O álcool pode potencializar efeitos colaterais como sonolência, tontura e prejuízo no julgamento, além de interferir negativamente no tratamento de depressão e ansiedade.
Quanto tempo demora para a sertralina começar a fazer efeito?
Alguma melhora pode começar a ser percebida nas primeiras 1 a 2 semanas, mas uma resposta terapêutica mais consistente costuma exigir de 4 a 6 semanas. Em alguns pacientes e em alguns transtornos, como o TOC, podem ser necessárias 8 a 12 semanas ou mais para avaliar adequadamente a resposta.
É normal me sentir mais ansioso ou agitado no início do uso da sertralina?
Sim. Algumas pessoas relatam aumento temporário da ansiedade, agitação ou insônia nos primeiros dias de tratamento. Isso costuma melhorar com o tempo. Quando necessário, o médico pode iniciar com uma dose menor (ex: 25 mg/dia) e aumentar gradualmente.
Posso usar sertralina só na fase pré-menstrual?
Sim, no caso de transtorno disfórico pré-menstrual (TDPM/PMDD), a sertralina pode ser usada somente durante a segunda metade do ciclo menstrual (fase lútea). Essa estratégia é eficaz para muitas mulheres e está respaldada por estudos clínicos.
Qual é a dose máxima de sertralina?
Para depressão maior, TOC, síndrome do pânico, TEPT e transtorno de ansiedade social, a dose máxima recomendada em bula é de 200 mg/dia.
No TDPM, os limites são menores: até 150 mg/dia no tratamento contínuo e até 100 mg/dia quando a sertralina é utilizada apenas durante a fase lútea.
Doses acima de 200 mg/dia não fazem parte da posologia habitual aprovada e, quando excepcionalmente consideradas, exigem avaliação especializada.
A sertralina dá sono?
Pode ocorrer tanto sonolência quanto insônia, dependendo da sensibilidade individual.
Como a sertralina é tomada uma vez ao dia, o horário pode ser adaptado conforme a tolerabilidade. Se houver sonolência importante durante o dia, o médico pode orientar a tomada à noite; se predominar insônia, a administração pela manhã pode ser mais conveniente.
O ideal é manter um horário regular e conversar com o médico antes de realizar mudanças importantes no esquema de tratamento.
- Zoloft (Sertraline) – Summary of Product Characteristics – European Medicines Agency.
- Zoloft (sertraline hydrochloride) Prescribing Information – U.S. Food and Drug Administration.
- Sertraline for major depressive disorder – Cochrane Reviews, 2022.
- Sertraline: Drug information – UpToDate.
- Selective serotonin reuptake inhibitors: Pharmacology, administration, and side effects – UpToDate.
- Cloridrato de sertralina – Bula Eurofarma.
Dúvidas de leitores sobre este tema
Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.
Mais comentários dos leitores
Boa Noite!
Dr Pedro sertralina é seguro para gravidas? se não quais são os mais prescritos nesse caso ?
Dr. Pedro, Sertralina funciona para ansiedade generalizada mesmo sem depressão?
É possível fazer musculação ou exercícios intensos tomando sertralina?
Sertralina pode causar dependência?