Tireoide

O hipertireoidismo, cuja principal causa é a doença de Graves, é a condição onde existe um funcionamento inapropriado da glândula tireoide (também chamada de tiroide), levando a uma produção excessiva de hormônios.

Para se compreender o hipertireoidismo é preciso entender o que é e para que serve a glândula tireoide. Para tal, sugiro primeiro a leitura do texto: DOENÇAS E SINTOMAS DA TIREOIDE.

Se estás a procura de informações sobre hipotireoidismo (pouco funcionamento da tireoide) o texto indicado é este: HIPOTIREOIDISMO (TIREOIDITE DE HASHIMOTO)

O que é hipertireoidismo?

A tireoide produz dois hormônios chamados triiodotironina e tiroxina, mais conhecidos como T3 e T4. Esses hormônios controlam nosso metabolismo e são responsáveis, entre outros, pelo nosso gasto calórico, pela temperatura corporal, pelo nosso ganho de peso, etc.

Leia os próximos dois parágrafos com calma, acompanhando a figura abaixo.

A glândula pituitária ou hipófise, é um órgão que se localiza na base do cérebro e controla o grau de funcionamento da tiroide através de um hormônio chamado TSH (em inglês, Hormônio Estimulador da Tireoide). A presença do TSH no sangue estimula o funcionamento da tireoide; A ausência de TSH a inibe.

Quando existe pouco hormônio tireoidiano circulante, a hipófise detecta essa queda e imediatamente aumenta a secreção de TSH, estimulando uma maior produção de T3 e T4 pela tireoide. Quando existe muito hormônio circulante, ela diminui a secreção de TSH, desestimulando a tireoide a produzir T3 e T4. Assim, o organismo consegue manter seu metabolismo sempre em um nível ideal.

Funcionamento da tireóide
Funcionamento da tireoide

O hipertireoidismo ocorre , portanto, quando há um excesso de T3 e T4 na circulação que não consegue ser corrigido pelos mecanismos normais. Isto pode ocorrer de 2 maneiras:

1- Um problema na hipófise fazendo com que esta se descontrole e produza muito TSH, que por sua vez, estimula a tireoide a produzir T3 e T4 indefinidamente.

Quando a causa do hipertireoidismo é central, ou seja, uma hipófise mal funcionante, teremos um TSH muito alto associado a um T4 também muito elevado.

2- A tireoide se torna um órgão independente, produzindo T3 e T4 ao seu bel prazer, ignorando os níveis de TSH sanguíneo.

Quando o problema está na própria tireoide, a primeira coisa que a hipófise faz quando detecta altos níveis de hormônios é suspender a produção de TSH. Portanto, teremos uma TSH muito baixo, porém, ainda assim, um T4 muito elevado.

Obs: na prática clínica dosamos o T4 livre (T4L) que é o fração do hormônio quimicamente ativa.

→ Para saber mais sobre o TSH, T3 e T4, leia: TSH E T4 LIVRE – Exames da tireoide.

Sintomas do hipertireoidismo

Independentemente da causa, os sintomas do hipertireoidismo são sempre causados pelo excesso de T4L circulante, o que é uma consequência comum, seja por problema central ou na própria tireoide.

O excesso de hormônio tireoidiano pode causar:

  • Ansiedade e irritabilidade.
  • Insônia.
  • Perda de peso sem perda do apetite (às vezes há aumento do apetite).
  • Taquicardia = aumento da frequência cardíaca acima dos 100 batimentos por minuto.
  • Arritmias cardíacas.
  • Tremores nas mãos.
  • Retração das pálpebras.
  • Suores e calor excessivo.
  • Perda de força muscular.
  • Diarreia ou aumento do número de evacuações.
  • Diminuição ou cessação da menstruação.
  • Bócio.
Bócio
Bócio

O bócio, último sinal descrito acima, ocorre quando há aumento do tamanho da glândula tireoide. Este crescimento é comum quando há um estímulo permanente para produção de T3 e T4, podendo ser notado clinicamente como um abaulamento no pescoço.

Doença de Graves

A causa mais comum de hipertireoidismo é a doença de Graves. Esta doença é um processo auto-imune (leia: DOENÇA AUTO-IMUNE) onde o corpo inapropriadamente passa a produzir anticorpos contra a própria tireoide. Estes anticorpos atacam, na verdade, os receptores do TSH, fazendo com que a tireoide pense que há excesso de TSH na circulação sanguínea. O resultado final é uma liberação excessiva de hormônios tireoidianos.

A doença de graves é 8 vezes mais comum em mulheres e costuma ocorrer entre os 20 e 40 anos de idade.

Além de todos os sinais e sintomas descritos anteriormente, o hipertireoidismo pelo Graves pode apresentar a chamada oftalmopatia de Graves.

Os anticorpos atacam não só a tireoide, mas também os músculos e o tecido gorduroso da região ao redor dos olhos. Essa agressão causa lesão e edema da musculatura extraocular, levando a uma protusão do olho, além de inchaço e inflamação ao seu redor (edema periorbital).

Oftalmopatia de Graves
Oftalmopatia de Graves

O paciente com oftalmopatia de Graves pode também apresentar visão dupla, irritação constante nos olhos, dor ocular, visão borrado e, em casos mais graves, cegueira.

Algumas pessoas têm olhos naturalmente mais protuberantes. Além disso, o próprio excesso de hormônios tiroidianos pode levar a uma retração da pálpebra. Porém, na oftalmopatia de Graves a protusão é tão importante que é possível ver o branco dos olhos (esclera), acima e abaixo da íris, como exemplificado abaixo.

Uma manifestação mais rara da doença de Graves é a dermopatia, chamada de mixedema, que ocorre por infiltração da pele pelos auto-anticorpos. A pele encontra-se inchada, dura, com nódulos em sua superfície e mais escurecida.

Outras causas de hipertireoidismo

Além da doença de Graves, existem outras causas para hipertireoidismo:

– Doença de Plummer ou bócio multinodular tóxico: ocorre pela formação de adenomas, tumores benignos, na tireoide. Esses adenomas são quimicamente ativos e produzem T4 e T3 de modo independente da tireoide ou dos níveis de TSH circulantes.

– Adenoma tóxico: Igual a situação acima, exceto pelo fato de haver apenas um adenoma solitário produzindo os hormônios em excesso.

Para saber mais sobre nódulos da tireoide: NÓDULO DE TIREOIDE | Diagnóstico e como diferenciá-lo do câncer

– Tireoidite: ocorre pela inflamação da tireoide. Pode ser devido a infecções virais, causas auto-imunes outras que não doença de Graves, pós-parto, etc.

– Excesso de hormônio tireoidiano: doentes com hipotireoidismo que fazem reposição excessiva de hormônios, podem apresentar um quadro de hipertireoidismo. Neste caso, basta a correção da dose para que os sintomas desapareçam.

– Adenomas secretores de TSH: menos de 1% dos casos de hipertireoidismo ocorrem por secreção inapropriada de TSH. A principal causa são os adenomas na hipófise. Apesar de serem tumores benignos, o seu crescimento pode comprimir estruturas cerebrais e causar alterações neurológicas como perda da visão.

Tratamento do hipertireoidismo

Existem 3 modalidades diferentes de tratamento para o hipertireoidismo: drogas, radiação ou cirurgia. A escolha da mais adequada deve levar em conta dados individuais dos pacientes como idade, gravidade do quadro e causa do hipertireoidismo.

As duas principais drogas usadas no tratamento do hipertireoidismo são o metimazol e o propiltiuracil. Ambas agem impedindo a produção de hormônios pela tiroide. O seu efeito demora em média 3 semanas, já que essas drogas apenas impedem a síntese de novos hormônios, não tendo efeito sobre aqueles já produzidos e circulantes.

Para um controle rápido dos sintomas, pode-se usar drogas beta-bloqueadoras como os famosos propranolol ou atenolol.

Cerca de 30% dos doentes conseguem, após 2 anos, suspender definitivamente o medicamento sem apresentarem retorno do hipertireoidismo. Porém, a maioria permanece dependente dessas drogas.

Como os efeitos colaterais são comuns e, às vezes, graves, outras modalidades terapêuticas são necessárias.

A destruição da tireoide por radiação é uma opção de tratamento definitivo para o hipertireoidismo. O tratamento consiste na ingestão de cápsulas com iodo radiativo. Como a tiroide utiliza o iodo da alimentação para produzir o T3 e T4, ela passa a concentrar toda a radiação ingerida, sendo destruída pela mesma ao longo de 6 a 18 semanas. A radiação deste tratamento é muito pequena e praticamente restrita a tiroide, não sendo capaz de causar câncer em outros pontos do organismo. Porém, recomenda-se distância de mulheres grávidas nos primeiros 7 dias de tratamento, já que sempre existe alguma chance de exposição a radiação.

A cirurgia para retirada da tireoide é a 3º opção de tratamento. É a menos usada devido aos riscos de complicações operatórias. Sua grande indicação está nos casos em que a tireoide encontra-se muito aumentada, com grande bócio e risco de obstrução das vias aéreas.

Tanto a cirurgia, quanto o iodo radioativo curam o hipertireoidismo, mas ao destruírem a tiroide, levam ao hipotireoidismo. Portanto, a reposição com T4 (levotiroxina) é indicada (leia: LEVOTIROXINA (Puran T4) – Indicações e efeitos colaterais).

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Médico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (U.F.R.J) em 2002. Especialista em Medicina Interna e Nefrologia. Títulos reconhecidos pela Faculdade do Porto, Ordem dos Médicos de Portugal e Colégio de Nefrologia Português.