HIPOTIREOIDISMO SUBCLÍNICO – Sintomas e Tratamento

O hipotireoidismo subclínico é um estado "pré-hipotireoidismo". A tireoide já não funciona adequadamente, mas o paciente ainda não apresenta sintomas.

Hipotireoidismo é o nome da doença provocada pelo funcionamento deficiente da glândula tireoide, responsável pela produção de hormônios que controlam o nosso metabolismo. O hipotireoidismo subclínico, foco deste artigo, é uma forma branda de hipotireoidismo, geralmente sem sintomas, mas já detectável através de exames laboratoriais.

Neste texto vamos abordar os seguintes pontos sobre o hipotireoidismo subclínico:

  • Funcionamento da tireoide normal.
  • O que é hipotireoidismo subclínico.
  • Como é feito o diagnóstico.
  • Quais são os sintomas.
  • Progressão do hipotireoidismo subclínico para hipotireoidismo franco.
  • Quais são as consequências.
  • Como é o tratamento.
  • Hipotireoidismo subclínico na gravidez

Funcionamento da tireoide normal

TSH - Funcionamento da tireóideA tireoide é um órgão localizado na base do pescoço, que tem como função produzir os hormônios responsáveis por controlar a velocidade do nosso metabolismo. Os hormônios da tireoide são chamados de triiodotironina (T3) e tiroxina (T4). Um aumento da concentração sanguínea desses hormônios acelera nosso metabolismo; já uma redução causa efeito contrário, letificando-o.

Hipotireoidismo é a doença provocada pela falta de T3 e T4, enquanto que hipertireoidismo é a doença provocada pelo seu excesso.

O funcionamento da tireoide e, consequentemente, a produção de T3 e T4 são controlados por outro hormônio, chamado TSH, produzido na glândula hipófise do cérebro. Portanto, de forma bem simplificada, quando o organismo precisa acelerar seu metabolismo, o cérebro aumenta a liberação de TSH, que por sua vez estimula a tireoide a produzir T3 e T4. Por outro lado, se o corpo precisa desacelerar o metabolismo, a liberação de TSH cai e a tireoide passa a produzir menos T3 e T4. A liberação de TSH é feita de forma bem controlada, de forma a manter a tireoide produzindo somente a quantidade de T3 e T4 necessárias, sem provocar excesso ou carência destes hormônios.

A compreensão deste mecanismo é essencial para se entender o que é o hipotireoidismo subclínico. Se você achou essa explicação muito confusa e precisa de mais informações, sugiro a leitura do texto: TSH E T4 LIVRE | Exames da tireoide.

O que é hipotireoidismo subclínico

No hipotireoidismo clássico o paciente costuma ter níveis baixos de T3 e T4 e níveis elevados de TSH. Isso ocorre porque os pacientes possuem uma glândula tireoide doente, incapaz de produzir mais hormônios, mesmo que estimulada por níveis elevados de TSH. Por mais que a hipófise aumente a liberação de TSH, a tireoide mostra-se incapaz de responder a este hormônio.

O hipotireoidismo subclínico é uma espécie de “pré-hipotireoidismo”, uma fase anterior ao surgimento do hipotireoidismo franco. A tireoide está doente, mas ainda é capaz de produzir hormônios tireoidianos se estimulada por níveis elevados de TSH. Então, temos uma situação onde o paciente apresenta níveis de TSH acima do normal, mas seus níveis de T4 e T3 ainda estão normais (na prática clínica, só precisamos dosar os níveis sanguíneos de T4 livre, como explicarei mais à frente).

Em boa parte destes pacientes a doença é progressiva, sendo, com o passar do tempo, necessários níveis cada vez maiores de TSH para que a tireoide se mantenha funcionando adequadamente. A doença progride até o ponto onde a glândula está tão doente que já não é mais capaz de produzir quantidades mínimas de hormônios, mesmo quando estimulada por níveis bem elevados de TSH. Neste momento, o paciente já não apresenta mais hipotireoidismo subclínico, mas sim hipotireoidismo franco.

Cerca de 5 a 10% da população é portadora de hipotireoidismo subclínico, boa parte dela desconhece tal situação. O hipotireoidismo subclínico é mais comum em mulheres do que em homens. A incidência também é maior em brancos e em idosos. As causas são basicamente as mesmas do hipotireoidismo franco, sendo a tireoidite de Hashimoto a principal.

Diagnóstico do hipotireoidismo subclínico

O hipotireoidismo subclínico é um diagnóstico laboratorial, pois, uma vez que o paciente ainda tenha níveis normais de hormônios da tireoide, ele não apresenta nenhum (ou quase nenhum) sintoma.

Como já dito acima, o paciente com hipotireoidismo subclínico possui níveis normais de T4 livre e níveis elevados de TSH, em geral entre 5 e 10 mU/L (alguns locais usam 4,5 e 15 mU/L como limites). Habitualmente, quando o TSH já está muito acima de 10 mU/L, o paciente já não tem mais hipotireoidismo subclínico, pois o T4 livre costuma estar baixo e o paciente já apresenta sintomas de hipotireoidismo. Portanto, o hipotireoidismo subclínico geralmente apresenta TSH elevado, mas nunca muito superior a 10 ou 15 mU/L.

Sintomas do hipotireoidismo subclínico

É importante salientar que para ser considerado hipotireoidismo subclínico, o paciente não pode ter sintomas francos de hipotireoidismo. No hipotireoidismo subclínico, os níveis de T4 livre são normais e o paciente apresenta, quando muito, apenas sintomas brandos e inespecíficos, como um leve cansaço, uma discreta falta de vontade para realizar tarefas ou uma pequena intolerância ao frio. Todos estes sintomas são comuns e podem ocorrer a qualquer um determinados momentos da vida, principalmente em períodos de estresse, excesso de trabalho, início de viroses, etc. Portanto, no hipotireoidismo subclínico não há sintomas clínicos relevantes que ajudem no diagnóstico. O diagnóstico só pode ser feito com exames laboratoriais.

Progressão do hipotireoidismo subclínico para hipotireoidismo franco

Uma grande parte dos pacientes com hipotireoidismo subclínico, eventualmente, irão desenvolver hipotireoidismo franco. Estudos mostram que após 10 a 20 anos até 55% dos paciente com hipotireoidismo subclínico já terão evoluído para a forma completa da doença.

O risco de progressão está relacionado com a concentração inicial de TSH (pacientes com valores mais elevados de TSH, entre 12 e 15 mU/L possuem maior risco) e a presença de anticorpos contra a tireoide, como o anti-TPO. A doença de base também tem elevada influência no risco de evolução para hipotiroidismo franco. Os pacientes com doença autoimune da tiroide, como tireoidite de Hashimoto, ou que tenham recebido radioiodoterapia ou radioterapia em altas doses tendem a evoluir para hipotireoidismo.

A recuperação espontânea também tem sido descrita em pacientes com hipotireoidismo subclínico, embora a frequência real desse fenômeno ainda não esteja totalmente esclarecida. Há pacientes com critérios para hipotireoidismo subclínico que, após alguns anos, apresentam normalização dos exames laboratoriais sem que nenhum tratamento tenha sido estabelecido. Em geral, são pacientes com TSH persistentemente menor que 10 mU/L e com pesquisa negativa para anticorpos contra a tireoide.

Como boa parte dos pacientes com hipotireoidismo subclínico é assintomática, muitos deles podem desenvolver o problema, não tomar conhecimento, e após alguns anos curar-se espontaneamente, novamente sem tomar ciência da situação. Estes casos, obviamente, não viram estatísticas, o que dificulta a determinação da real incidência da cura espontânea do hipotireoidismo subclínico.

Consequências do hipotireoidismo subclínico

Apesar de não provocar sintomas e de, em alguns casos, desaparecer espontaneamente, o hipotireoidismo subclínico não parece ser um problema totalmente inócuo. Há vários estudos que sugerem uma relação entre hipotireoidismo subclínico e um maior risco de doenças cardiovasculares, como angina e infartos, principalmente nos pacientes com TSH maior que 10 mU/L. Pacientes com hipotireoidismo subclínico também costumam apresentar níveis de colesterol mais elevados que a população geral.

Além dos problemas cardiovasculares, os pacientes com hipotireoidismo subclínico, principalmente aqueles com TSH mais elevado, apresentam também maior risco de esteatose hepática.

Tratamento do hipotireoidismo subclínico

A maior dúvida que nos deparamos ao diagnosticar um hipotireoidismo subclínico é quanto à necessidade ou não de iniciar tratamento com levotiroxina, a forma sintética do hormônio T4 (leia: LEVOTIROXINA (Puran T4) – Indicações e Efeitos Colaterais).

Atualmente, nenhum trabalho mostrou benefícios relevantes do uso de levotiroxina nos pacientes assintomáticos com TSH entre 4,5 e 10 mU/L. O tratamento do hipotireoidismo subclínico nestes casos é bem controverso. Os que defendem o uso da levotiroxina argumentam que não há dados que demonstrem haver danos com a reposição do hormônio, além da possibilidade de melhora de sintomas não previamente reconhecidos, como cansaço e alterações discretas do humor. O consenso atual, porém, recomenda apenas a monitorização dos níveis de TSH a cada 6 a 12 meses neste grupo de pacientes, a não ser que o paciente tenha sintomas que possam ser facilmente atribuídos ao hipotireoidismo.

Em algumas situações, a decisão de não tratar não é tão simples. Isso inclui os pacientes com colesterol elevado, alto risco de doenças cardiovasculares ou com anticorpos positivos contra a tireoide. Mulheres que querem engravidar e não conseguem também podem apresentar melhora da fertilidade se tratadas com levotiroxina.

Nos pacientes com hipotireoidismo subclínico e TSH acima de 10 mU/L a controvérsia é bem menor. A maiorias das sociedades internacionais de endocrinologia recomendam o uso de levotiroxina nestes casos, pois o tratamento ajuda a prevenir a progressão para hipotireoidismo franco.

A dose da levotiroxina deve ser sempre a menor possível capaz de manter o TSH entre os valores de 0,5 e 2,5 mU/L nos pacientes jovens e 3 a 5 mU/L nos pacientes idosos.

Hipotireoidismo subclínico na gravidez

Durante a gravidez, a fisiologia dos hormônios da tireoide altera-se completamente, fazendo com que os valores normais de TSH sejam diferentes neste grupo. Durante o primeiro trimestre de gravidez, hipotiroidismo subclínico é definido como valores de T4 livre normais associados a um TSH acima de 2,5 mU/L. No segundo e no terceiro trimestre consideramos hipotiroidismo subclínico valores de TSH acima de 3 mU/L.

Como os hormônios tireoidianos são essenciais para o desenvolvimento neurológico do feto, o consenso atual é tratar todas as gestantes que tenham critérios para hipotireoidismo subclínico.

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29 Comentários

  1. Marina

    Artigos extremamente esclarecedores. Obrigada!

  2. Paloma

    Bom dia, tomo levotiroxina 50mcg e meu TSH está 3,30mU/L após 3 meses de tratamento. É preciso aumentar a dose? Os sintomas do hipotireoidismo continuam e parecem ter piorado, mas minha endocrinologista ignorou minhas reclamações dizendo que o TSH está normal.

    1. Dr. Pedro Pinheiro - MD. Saúde

      O TSH está controlado. Tem que ver se a causa dos sintomas é mesmo hipotireoidismo.

  3. sueli

    Meu exame de THS deu 0,02 ..isso é bom ou preocupante?

    1. Dr. Pedro Pinheiro - MD. Saúde

      Tá abaixo do normal. Precisa ser avaliado por um endocrinologista.

  4. Cristina

    Estou grávida de 11 semanas e o resultado do TSH 41,340 gostaria de saber se pode trazer algum problema para meu bebê.

    1. Dr. Pedro Pinheiro - MD. Saúde

      Sim, é preciso controlar o seu hipotireoidismo.

  5. Fabio de Rezende

    Já existe algum consenso no tratamento do hipotireoidismo subclínico (TSH abaixo de 10 mU/L, porém acima de 5, e T4 normal) associado a alta nos anticorpos contra a tireoide (Hashimoto)? O texto aborda este assunto mas não chega a uma conclusão.

    1. Dr. Pedro Pinheiro - MD.Saúde

      É porque não há consenso. O médico precisa avaliar caso a caso.

  6. Thuany

    Boa Tarde, meu exame de TSH deu 6,279 .. tenho Hipotireoidismo Subclínico?? preciso tomar remédio?

    1. Dr. Pedro Pinheiro - MD. Saúde

      Hipotireoidismo subclínico ocorre quando o TSH está acima do normal, mas o paciente nada sente.

  7. Hue Xian

    Bom dia, estou tomando lugol 5 gotas por dia a 2 meses por conta própria.

    Há riscos de hipertiroidismo subclinico?

    1. Dr. Pedro Pinheiro - MD. Saúde

      Sim, há risco de hipotireoidismo. Por que você resolveu tomar lugol?

  8. Silvia Aguiar

    Boa noite, meu exame deu tsh 7,01 Devo tomar levotiroxina? a endocrinologista me passou por estar com o metabolismo lento…

    1. Dr. Pedro Pinheiro - MD. Saúde

      Se a endocrinologista passou, sim.

  9. Roberto Silva

    Boa noite, meu exame deu tsh 6,02 e t4 deu 1,52. Devo tomar levotiroxina?

    1. Dr. Pedro Pinheiro - MD. Saúde

      Só se tiver sido indicado pelo endocrinologista.

  10. Luciana Garcia

    Boa tarde. Realizei exames de rotina e meu TSH está 11,7. Entretanto, não apresento alterações em T3 e T4. 126 e 1,2, respectivamente. Qual seria o tratamento indicado nesse caso? Obrigada!

    1. Dr. Pedro Pinheiro - MD. Saúde

      Geralmente, quando o TSH está de 10 há indicação de tratamento com levotiroxina. Tem que conversar com o seu médico.

  11. Vanessa Mafra

    Parabéns pelo blog! De grande valia e muito esclarecedor

  12. Maria de Fátima de Jesus

    Olá Doutor!
    Fiz um exame e o resultado veio com alteração no TSH em 7,489 e o T3 em 110.5 e o T4L em 1,01, isto que dizer que tenho que tomar levotiroxina?

    1. Dr. Pedro Pinheiro - MD. Saúde

      Depende dos seus sintomas. O TSH está aumentado, mas isso por si só não indica o início da levotiroxina.

  13. Guest

    Olá Doutor!

    Fiz um exame de ultra som recentemente e o resultado veio como ‘alteração textural do parênquima tireoidiano’. Isto quer dizer que tenho hipertiroidismo/hipotiroidismo ou pode ser alguma outra coisa?!

    Att,

  14. glauciacbarbosa@hotmail.com

    Estou grávida de 12 semanas e o resultado do TSH foi 7,29 e T4 0,99, antes de engravidar meus índices sempre foram normais. A gravidez pode causar hipotireoidismo subclínico?

  15. Simone Santos

    É interessante e ao mesmo tempo não dá pra estar segura se deve ou não tratar a hipotireoidismo subclinico. Estou com o TSH em 4,90, mas T4 e 3 normais. Tomei por um tempo a menor dose de levotiroxina indicado pelo gine, mas depois o endocrino retirou. Tenho uma ponta de dúvida se o uso por quase 3 anos de anticoncepcional sem interrupção não pôde influenciar no aparecimento da hipo?

  16. José Roberto Morenoroberto

    Dr.Pedro, muito obrigado, seu blog é muito claro, obtive todas as minhas dúvidas.