A esquistossomose, também conhecida por barriga d'água ou doença do caramujo, é uma infecção causada por parasitas do gênero Schistosoma. Neste texto vamos abordar os sintomas e tratamento da esquistossomose causada pelo Schistosoma mansoni (S. mansoni), a espécie de Schistosoma responsável pela doença no continente americano.
Esta é a segunda parte do artigo sobre esquistossomose. Na primeira abordamos a transmissão, o ciclo de vida do parasita e a prevenção da esquistossomose: ESQUISTOSSOMOSE | Ciclo e prevenção.
Transmissão da esquistossomose
Apenas resumindo o que foi explicado em detalhes na primeira parte, a esquistossomose é uma doença causada por um parasita que habita os vasos sanguíneos do sistema intestinal. Lá ele libera milhares de ovos que são eliminados nas fezes. O embrião contido nestes ovos, chamado miracídio, precisa da água para se libertar e do caramujo para se multiplicar. Grandes reservas de água doce parada, como lagos e represas, que sejam habitadas por caramujos, são os locais ideais para a proliferação da esquistossomose. Após a multiplicação dentro do caramujo, o miracídio se transforma em larva, chamada de cercária, e retorna para a água. Qualquer pessoa que se banhe ou beba água contaminada com cercárias pode se infectar. A larva penetra a pele, atinge os vasos sanguíneos e vai em direção ao fígado e aos vasos dos intestinos, onde coloca seus ovos, reiniciando o ciclo.
Sintomas da esquistossomose
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| Pontos de penetração da cercária na |
a. Infecção inicial
Os primeiros sintomas da infecção pelo Schistosoma podem ocorrer imediatamente após a invasão da pele pelo parasita. A penetração da pele por cercárias pode provocar a chamada "coceira do nadador". Trata-se de uma ou mais lesões, tipicamente nas pernas ou pés, em forma de pápulas vermelhas que causam intenso comichão.
Nem todas as pessoas infectadas pelas cercárias apresentam esta lesão de pele. Quando ela ocorre, um formigamento imediato e um comichão no local de entrada podem surgir, seguidos por uma erupção papular pruriginosa (veja foto ao lado) que aparece dentro de 12-24 horas, podendo durar mais de uma semana.
É importante salientar que a coceira do nadador também pode ser causada por outras espécias de Schistosomas, que infectam aves e outros mamíferos, não sendo capazes de infectar o ser humano. Nestes casos a cercária invade a pele mas é eliminada pelo organismo após algumas horas sem causar maiores consequências. No continente americano apenas as cercárias do S.mansoni são capazes de sobreviver e causar esquistossomose em humanos.
A maioria das pessoas que vivem em regiões endêmicas do S.mansoni são contaminadas ainda na infância e permanecem com o parasita em seus sistema digestivo silenciosamente por muitos anos. Às vezes, os sintomas inicias são pouco importantes e acabam sendo confundidos com algumas doenças comuns da infância.
b. Febre de Katayama
O período de incubação da esquistossomose, ou seja, o intervalo entre a contaminação e os primeiros sintomas da doença em si, é de um a dois meses, que corresponde à fase de penetração das cercárias, seu amadurecimento até a forma adulta e a instalação dos S. mansoni adultos no interior dos vasos sanguíneos do hospedeiro definitivo.
A Febre de Katayama é a fase aguda da esquistossomose, sendo causada por uma reação do sistema imune à migração e à produção de ovos do parasita no organismo. Ocorre entre duas a oito semanas após a exposição. A fase aguda surge habitualmente em viajantes que não vivem em áreas endêmicas e nunca tiveram contato prévio com o parasita. Indivíduos que vivem em áreas endêmicas e já foram expostos ao S. mansoni durante a infância não costumam apresentar sintomas iniciais.
Os sintomas da febre Katayama incluem febre, calafrios, dor muscular, dor nas articulações, tosse seca, diarreia, perda do apetite e dor de cabeça. Durante o exame físico podem ser encontrados aumento de linfonodos (gânglios) e hepatoesplenomegalia (inchaço do fígado e do baço). Os sintomas geralmente desaparecem espontaneamente durante um período de algumas semanas. Em raros casos, se houver uma invasão maciça de parasitas e a reação imunológica for muito intensa, o paciente pode evoluir para o óbito.
c. Infecção crônica pela esquistossomose
Ao contrário do que ocorre na fase aguda, as complicações relacionadas à esquistossomose crônica são mais comuns em áreas endêmicas, onde os indivíduos estão em maior risco de uma elevada carga de parasita e contaminações frequentes. Porém, é importante salientar que nem todos os pacientes contaminados com o parasita desenvolvem sintomas da esquistossomose crônica. Alguns pacientes permanecem contaminados, eliminando ovos nas fezes, mas sem apresentar sinais de doença.
A forma crônica inicia-se a partir do sexto mês após a infecção, podendo durar vários anos. A gravidade da forma crônica está relacionada com a quantidade de parasitas e a localização onde eles depositam seus ovos.O Schistosoma geralmente se localiza nas veias mesentéricas, que são os vasos que drenam o sangue dos intestinos. As veias mesentéricas drenam o sangue em direção à via porta, que é uma grande veia que recebe todo o sangue do sistema digestivo e o leva até o fígado.
Os ovos do parasita são geralmente depositados nas veias mesentéricas, mas podem migrar tanto para o intestino quanto para a veia porta e fígado.
A esquistossomose crônica, que é muito mais comum do que a forma aguda da infecção, é causada pela reposta imune do organismo aos ovos, resultando em intensa inflamação dos tecidos acometidos e evolução para granulomas e fibrose (substituição do tecido normal por tecido cicatricial).
A forma crônica da esquistossomose apresenta as seguintes formas:
Esquistossomose intestinal
A retenção de ovos na parede do intestino causa diarreia sanguinolenta, cólicas e emagrecimento. A intensa resposta inflamatória do corpo contra os ovos pode causar ulcerações na parede do intestino, granulomas e obstrução à passagem das fezes.
Esquistossomose hepatoesplênica
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| Ascite e circulação colateral (clique para ampliar) |
Como todo o sangue vindo sistema gastrointestinal passa pela veia porta antes de chagar ao figado e ir em direção ao resto do corpo, uma obstrução nesta região causa um imenso "engarrafamento" de sangue, que leva ao que chamamos de hipertensão portal. Se o sangue não chega ao fígado ele tem que arranjar outras vias para chegar ao resto do corpo, formando uma circulação colateral (veja foto ao lado).
A hipertensão portal é a responsável pelas complicações da forma hepatoesplênica da esquistossomose, entre elas, ascite (barriga d'água - leia: ASCITE | Causas e tratamento), esplenomegalia (aumento do baço) e varizes do esôfago. As varizes do esôfago são uma complicação temida da hipertensão porta, pois podem romper-se causando grave hemorragia digestiva e vômitos sanguinolentos.
Diagnóstico da esquistossomose
Como muitos pacientes contaminados pelo S. mansoni permanecem assintomáticos, a suspeita da infecção muitas vezes surge por acaso através de exames rotineiros de sangue. No hemograma é possível detectar anemia e aumento dos eosinófilos (leia nosso texto sobre hemograma para entender mais estes resultado: HEMOGRAMA | Entenda os seus resultados.), dois dados que falam a favor de uma infecção por parasitas.
O diagnóstico é feito através do exame parasitológico de fezes (leia: VERMES | EXAME PARASITOLÓGICO DE FEZES), que é capaz de detectar os ovos do Schistosoma. O parasitológico, porém, só costuma detectar ovos após seis semanas de contaminação. Se a suspeita de esquistossomose for grande, mas o exame de fezes for negativo, a biópsia do reto (porção final do intestino logo antes do ânus) pode detectar os ovos.
Nos pacientes com sinais clínicos de hipertensão portal, a ultrassonografia pode ser útil em identificar a fibrose na veia porta causada pela deposição dos ovos do Schistossoma.
Análises de sangue específicas contra o S. mansoni estão em desenvolvimento, mas ainda não estão disponíveis para a população.
Tratamento da esquistossomose
O Praziquantel é o medicamento de escolha contra a esquistossomose. A dosagem recomendada é de 60mg/kg para crianças até 15 anos e 50mg/kg para adultos, ambos em dose única. O medicamento é apresentado em comprimidos de 600mg, divisível em duas partes iguais, de modo a facilitar a adequação da
dose.
Uma alternativa ao Praziquantel é o Oxamniquine, recomendado na dosagem de 15mg/kg para adultos e 20mg/kg para crianças até 15 anos, ambos também em dose única. Existem duas apresentações: cápsulas de 250mg e suspensão contendo 50mg por cada ml.





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