sexta-feira, 9 de outubro de 2009

INTERAÇÃO DO ÁLCOOL COM REMÉDIOS E ENERGÉTICOS

Saiba quais os remédios não podem ser misturados com álcool e o que é o efeito antabuse

O uso de remédios junto com álcool é reconhecidamente danoso, mas por incrível que pareça, essa associação ainda é extremamente comum.

álcool e remédios

A associação de bebidas alcoólicas com medicamentos pode levar a efeitos colaterais graves, inclusive com risco de morte. O álcool pode tanto potencializar os efeitos de um medicamento quanto neutralizá-lo. Pode também ativar enzimas que metabolizam o medicamento em substâncias tóxicas para o organismo.

Para entender como o álcool e outras substâncias são metabolizadas, leia a primeira parte deste texto: RESSACA E POR QUE FICAMOS BÊBADOS?

1.) Álcool potencializando o efeito de um medicamento

Quando as enzimas que metabolizam o medicamento são as mesmas do álcool, estas ficam "ocupadas" processando o etanol, fazendo com que o remédio permaneça em mais tempo e em maior concentração na corrente sanguínea. Em alguns casos esta pode ser a diferença entre a intoxicação ou não.

2.) Álcool inibindo a ação de um medicamento

Este processo ocorre em bebedores crônicos. O estimulo alcoólico constante no fígado faz com que haja um aumento no número de enzimas hepáticas. Quando um medicamento chega no fígado há um excesso destas para metabolizá-lo, inativando a droga muito mais rapidamente do que de costume. Este excesso de enzimas podem permanecer por semanas após se cessar o consumo de álcool.

O estimulo constante do etanol e seus metabólitos podem gerar enzimas que transformam substancias não tóxicas em metabólitos tóxicos.

3.) Álcool agindo no mesmo sítio dos medicamentos

Outra maneira de potencialização de remédios é quando estes, assim como o etanol, também atuam sobre o sistema nervoso central, como no caso de narcóticos e sedativos. Causam uma perigosa sedação.

4.) Remédios aumentando o efeito do álcool

Alguns medicamento inibem as enzimas que metabolizam o álcool, aumentando seus efeitos e seu tempo de permanência no organismo. Potencializam as lesões do álcool no organismo.

Alguns exemplos de interação álcool-medicamentos:

- ANESTÉSICOS : O uso de álcool dificulta a ação dos anestésicos, sendo necessária doses maiores para a indução anestésica em atos operatórios. Também potencializa os efeitos tóxicos destes medicamentos para o fígado.

- ANSIOLÍTICOS ( BENZODIAZEPINAS): Aumentam o efeito sedativo, o risco de coma e insuficiência respiratória.

- ANTABUSE (dissulfiram) : Antabuse ou Antabus é o principal nome comercial de uma droga chamada Dissulfiram, que inibe a enzima acetaldeído desidrogenase impedindo a transformação do metabólito tóxico acetaldeído em ácido acético (leia sobre a intoxicação do álcool para entender melhor o mecanismo). O acúmulo desta substância tóxica causa efeitos como vômitos, palpitação, cefaléia, hipotensão, dificuldade respiratória e até morte.

É uma substância usada no tratamento do alcoolismo, pois mesmo pequenas doses de álcool provocam efeitos muito desconfortáveis. O doente toma o primeiro copo e começa a se sentir mal, parando imediatamente de beber. Isso acontece porque com o bloqueio da metabolização do acetaldeído, que é uma substância muito tóxica, sua concentração sanguínea chega a ficar 10x maior do que acontece normalmente. Com isso, pequenas doses de álcool levam a níveis de acetaldeídos maiores do que ocorrem em muitos "porres". Em 15 minutos o paciente já começa a sentir os efeitos desagradáveis. Até pequenas quantidades de álcool como em doces e molhos podem causar os sintomas.

Elevadas doses de álcool em quem faz uso de antabuse podem ser fatais.

- ANTIBIÓTICOS: Existe um conceito de que misturar antibióticos e álcool é perigoso e pode inativar o primeiro. Isto é uma verdade parcial.

Realmente a associação de álcool com alguns antibióticos pode levar a efeitos graves do tipo antabuse, descrito acima.

São eles:
Metronidazol (Flagyl®)
Trimetoprim-sulfametoxazol (Bactrim®)
Tinidazole (Tindamax®)
Griseofulvin (Grisactin®)

Outros antibióticos como Cetoconazol, nitrofurantoína, eritromicina, rifampicina e isoniazida também não devem ser tomados com álcool pelo perigo de inibição do efeito e potencialização de toxicidade hepática.

Em ralação aos outros antibióticos não há relatos de interação. Porém, deve-se lembrar que o álcool inibe o sistema imune e dificulta o combate contra agentes infecciosos. Portanto, não é inteligente beber enquanto se está com uma infecção.

- ANTICOAGULANTES: O álcool aumenta o efeito anticoagulante da Varfarina (Marevan®, Varfine®, Coumadin ®) podendo causar hemorragias.

- ANTICONVULSIVANTES: Aumentam os efeitos colaterais e o risco de intoxicação enquanto que diminui a eficácia contra as crises de epilepsia.

- ANTIDEPRESSIVOS: Aumentam as reações adversas, o efeito sedativo e diminui a eficácia dos antidepressivos. Pode também causar picos hipertensivos.

- ANTIINFLAMATÓRIOS: Aumentam o risco de úlcera gástrica e sangramentos. Aspirina (AAS) aumenta os efeitos do álcool.

- ANTI-HIPERTENSORES: Reduzem a eficácia, causam tonturas e arritmias cardíacas

- ANTI-HISTAMÍNICOS (ANTIALÉRGICOS): Aumenta o efeito sedativo e causa tonturas e desequilíbrio.

- HIPOGLICEMIANTES (ANTIDIABÉTICOS): Também pode causar efeito antabuse. Uso agudo de etanol prolonga os efeitos enquanto que o uso crônico inibe os antidiabéticos.

- PARACETAMOL: Aumenta o risco de hepatite medicamentosa.

- PROTETORES GÁSTRICOS: Aumenta o efeito do álcool e os efeitos colaterais do medicamento.

E quanto a misturar álcool com bebidas energéticas?

A associação de álcool com energéticos tipo Red Bull tem sido cada vaz mais comum entre jovens, principalmente em festas e casas noturnas.

álcool e bebidas energéticas (red bull)

As bebidas energéticas são ricas em substâncias estimulantes, nomeadamente cafeína, guaraná, taurina e efedrina. Existe a falsa crença de que esses estimulantes retardariam os efeitos depressores do álcool, sendo possível beber em grandes quantidades e não ficar bêbado. Algumas pessoas inclusive acreditam que as bebidas energéticas permitem que se conduza veículos mesmo após ingestão de grandes quantidades de bebidas alcoólicas.

Na verdade, a associação de álcool com energéticos realmente leva a percepção de uma menor embriaguez, porém, o fato é que, após testes de habilidades motoras, acuidade visual e reflexos, fica-se claro que a intoxicação pelo álcool é exatamente igual. Isso é extremamente perigoso pois o consumidor tem maior dificuldade em reconhecer que não está apto a conduzir ou efetuar outras tarefas motoras.

O consumidor fica tão bêbado quanto se não tivesse tomando energéticos, o problema é que ele não consegue se dar conta do fato. A inibição da percepção de embriaguez também faz com que as pessoas acabem ingerindo mais álcool do que conseguiriam se não estivessem tomando concomitantemente tantos estimulantes, facilitando a ocorrência de complicações como o coma alcoólico.

Assim como o álcool, todos essas substâncias estimulantes, quando em excesso, podem causar arritmias cardíacas. Como essa associação é normalmente feita em pessoas jovens e sadias, os risco de complicações são menores, porém, existem vários relatos de convulsões e morte súbita de origem cardíaca em pessoas que exageram nesta associação.

A cafeína também é um diurético e o seu abuso em conjunto com o álcool pode levar a desidratação e piorar os sintomas da ressaca no dia seguinte.

Como se pode comprovar, o álcool interage com as principais classes de drogas. Na dúvida opte pelo mais seguro. Não consuma álcool se estiver usando medicamentos.
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Leia também:
- RESSACA E POR QUE FICAMOS BÊBADOS?
- QUAL A DIFERENÇA ENTRE ANTIBIÓTICOS E ANTIINFLAMATÒRIOS?
- REMÉDIOS QUE PODEM FAZER MAL AOS RINS
- PERIGOS DO CONSUMO DE ÁLCOOL E DO ALCOOLISMO
- INTERAÇÃO MEDICAMENTOSA - ANTICONCEPCIONAIS
- ANTIINFLAMATÓRIOS
- SINTOMAS E TRATAMENTO DA HIPERTENSÃO
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16 comentários:

Ronaldo B. 16 de dezembro de 2008 09:20  

Seu blog é show de bola mano.

Estarei sempre indicando pra galera por serem informações de extrema importancia para todo cidadão.

Um forte abraço!

Anônimo,  16 de janeiro de 2009 18:15  

Muito bom esse texto !
Coisas simples mas que ningúem nos explica direito.
Parabéns pelo blogue

Anderson(CE)

ROSANGELA,  25 de abril de 2009 10:00  

Olá Dr. Pedro moro em Joinville SC, faço o uso de nitrofurantoina todas as noites.Gostaria de saber se posso beber socialmente(com moderação) ?
Parabéns pelo seu BLOG

Dr. PEDRO SARAIVA PINHEIRO 25 de abril de 2009 10:03  

Olá rosangela,
Beber socialmente pode ter um significado diferente para cada um. Se embebedar em uma festa é beber socialmente?

Um copo ou 2 de cerveja, eventualmente, não faz mal. Até pq a dose de nitrofurantoina na profilaxia é menor. Mais do que isso, não é indicado.

abs

Anônimo,  26 de maio de 2009 15:39  

dr. pedro, faço uso do marevam 5mg e gostaria de saber quais as consequencias na ingestão de bebida alcoólica(cerveja),se posso ou não tomar. "Parabéns pelo blog!" grato!! ANGELO - Ce

Dr. PEDRO SARAIVA PINHEIRO 27 de maio de 2009 06:46  

Olá Angelo

O melhor é evitar pois a Varfarina é uma droga complicada de se controlar.

Tenho um texto só sobre interações com o Marevan. Procure por ele na caixa de procura no alto a direita

Vannu 19 de outubro de 2009 19:59  

Dr Pedro sou portadora de arterite takayasu e faço uso de metrotexate e infliximabe gostaria de saber se é possível ingerir alcool mesmo que seja em pq quantidade?

Dr. Pedro Pinheiro 21 de outubro de 2009 22:22  

Vannu,
Não pode. Aumenta o risco de hepatite medicamentosa

Ednaldo A. 10 de novembro de 2009 00:49  

as vezes faço uso de daladorme quando estou muito cansado, este medicamento pode ser usado após o consumo de álccol?

Dr. Pedro Pinheiro 11 de novembro de 2009 22:28  

Ednaldo,
imagino que vc se refira ao Dalmadorm. Ele é um ansiolítico da família das benzodiazepinas. Não se deve misturá-los.

Camila,  4 de dezembro de 2009 14:35  

Olá Dr. Pedro e Dra. Renata,
gostaria de saber se posso berber eventualmente um copo de cerveja ou uma taça de vinho, já que tenho hipotireoide e faço uso do Puran T4 50mc.
Obrigada,
Camila.

Dr. Pedro Pinheiro 8 de dezembro de 2009 12:33  

Camila,
se for eventualente não há problema

Diego,  8 de dezembro de 2009 16:30  

Ola Doutores Pedro e Renata.
Primeiramente parabens pelo blog e pela iniciativa, nao os conhecia, mas estou colocando em meus favoritos.
Minha duvida eh a seguinte, estou fazendo o uso de cloridrado de ciprofloxacino(Proflox) devido a uma infeccao por 14 dias.
Gostaria de saber se a ingestao de alcool pode inibir parcial ou totalmente a acao do medicamento. Ou se apenas afeta na percepcao motora.
Obrigado!
Diego(SP)

marcia 11 de dezembro de 2009 02:06  

ola dr estou fazendo uso de urovaxom para bacteria coli gostaria de saber se posso consumir alcool?

Dr. Pedro Pinheiro 12 de dezembro de 2009 14:22  

Diego,
Sim, pode. Não é indicado usar bebidas alcoólicas durante tratamentos de infecções.

Dr. Pedro Pinheiro 15 de dezembro de 2009 19:35  

Marcia,
Sempre que vc mistura álcool com drogas existe o risco de interação sobre o efeito do medicamento. Não é o ideal.

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