Pancreatite é o termo usado para descrever a inflamação do pâncreas. Quando a inflamação do é súbita, ou seja, aguda, estamos diante de uma pancreatite aguda. Quando a inflamação é recorrente e há sinais de lesão persistente, chamamos de pancreatite crônica.
Para se entender os sintomas da pancreatite, é importante conhecer as funções básicas do pâncreas.
Quais são as funções do pâncreas?
O pâncreas é uma grande glândula de formato achatado, com mais ou menos 20cm de comprimento, localizado logo atrás do estômago. Apresenta íntima ligação com as vias biliares e o com duodeno.
O pâncreas possui 2 funções básicas: participa do processo de digestão de alimentos e produz hormônios importantes no controle da glicemia (taxa de glicose do sangue) como a insulina e o glucagon.
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| Anatomia do pâncreas (clique para ampliar) |
Enquanto as enzimas digestivas são lançadas diretamente no trato intestinal, o pâncreas também produz hormônios que são lançados na corrente sanguínea. Os dois principais são a insulina e glucagon, produzidos por um grupo de células chamado de ilhotas de Langerhans.
A insulina é o hormônio que permite que as células captem a glicose do sangue e a use como fonte de energia. O principal estímulo para a produção de insulina é o aumento dos níveis sanguíneos de glicose que ocorrem geralmente após as refeições. Quando a glicose do sangue se eleva, a insulina produzida no pâncreas é liberada para a corrente sanguínea. Com insulina circulante há consumo da glicose pelas células, e, consequentemente, a taxa de glicose no sangue volta a normalizar.
Se por algum motivo não houver insulina, não há como as células consumirem glicose e a sua taxa sanguínea permanecerá constantemente elevada. Isso nada mais é que o famoso diabetes mellitus (leia: DIAGNÓSTICO E SINTOMAS DO DIABETES MELLITUS).
O glucagon é um hormônio antagonista da insulina, ou seja, faz a função inversa. Quando os níveis de glicose estão muitos baixos, o pâncreas impede a liberação de insulina e estimula a produção de glucagon, que além de impedir a captação da glicose pelas células, age no fígado, estimulando a produção de glicose pelo mesmo.
Quando os níveis de glicose voltam a subir, os níveis de glucagon começam a cair e os de insulina a subir novamente. Deste modo, o pâncreas consegue manter nossa taxa glicemia sempre na faixa entre 60mg/dl a 140 mg/dl. Isso mesmo após refeições ou períodos longos de jejum.
PANCREATITE AGUDA
As enzimas digestivas produzidas no pâncreas só se tornam ativas após chegarem ao duodeno. A pancreatite ocorre quando por algum motivo, essas enzimas se ativam quando ainda estão dentro do pâncreas, fazendo com que o mesmo comece a ser digerido.
Causas de pancreatite aguda
Em mais de 75% dos casos, a pancreatite aguda ocorre por abuso de bebidas alcoólicas (leia: EFEITOS DO ÁLCOOL E ALCOOLISMO) ou por uma pedra da vesícula que fica presa na saída do ducto pancreático, impedindo a drenagem das enzimas para o duodeno (leia: PEDRA NA VESÍCULA E COLECISTITE). Reparem na ilustração abaixo como o ducto biliar e pancreático se unem e desembocam como um só no duodeno, justificando o porquê das pedras na vesícula poderem levar a pancreatite.
Outras causas menos comuns de pancreatite aguda incluem:
- Hipertrigliceridemia - Pancreatite pode ocorrer quando os níveis de triglicerídeos ultrapassam 1000mg/dl (leia: COLESTEROL BOM (HDL) E COLESTEROL RUIM (LDL)).
- Hipercalcemia - Níveis elevados de cálcio sanguíneo .
- Drogas -Alguns medicamentos como azatioprina, corticóides, pentamidina, metronidazol, tamoxifeno, furosemida, enalapril e vários outros, já foram descritos como causas de pancreatite. É bem conhecida a relação entre consumo de cocaína e pancreatite aguda.
- HIV (leia: SINTOMAS DO HIV E AIDS (SIDA)) e outras infecções como citomegalovirose, caxumba, salmonelose, amebíase, toxoplasmose etc...
- Traumas abdominais.
- Malformações do pâncreas.
- Fibrose cística
- Lúpus eritematoso sistêmico (leia:LÚPUS ERITEMATOSO SISTÊMICO)
- Idiopático - Em alguns casos não se consegue identificar nenhum fator para a pancreatite.
O sintoma universal da pancreatite aguda é a dor abdominal. A dor costuma se localizar difusamente na parte superior do abdômen podendo irradiar para as costas. Normalmente é desencadeada pela alimentação. Ao contrário da cólica biliar que também costuma surgir após alimentação e dura de 6 a 8 horas, a dor da pancreatite aguda pode durar vários dias.
A dor costuma vir acompanhada de náuseas e vômitos em 90% dos casos e pode ser tão intensa que o paciente rapidamente procura atendimento médico. Porém, em casos mais leves, a dor pode ser mais branda, postergando a ida do paciente ao hospital.
A pancreatite aguda de origem alcoólica costuma surgir de 1 a 3 dias depois de um consumo excessivo de bebidas.
A pancreatite pode se transformar em uma emergência médica. Em alguns casos mais graves a inflamação pode ser tão intensa que leva o paciente ao um quadro de choque circulatório (leia: SAIBA O QUE É CHOQUE CIRCULATÓRIO) e falência de múltiplos órgãos.
Diagnóstico da pancreatite aguda
O diagnóstico da pancreatite costuma ser feito com a dosagem sanguínea de 2 enzimas pancreáticas que se encontram muito elevadas nos casos de inflamação do pâncreas: amilase e lipase.
A tomografia computadorizada (TC) é um exame complementar importante, não só para ajudar no diagnóstico dos casos duvidosos, mas também para avaliar a presença de complicações como necrose e abscessos. Através dos achados na TC gradua-se alfabeticamente a gravidade da pancreatite de A a E, sendo A o quadro mais leve e E um quadro grave com sinais de complicações.
A ressonância magnética nuclear (RMN) pode ser usada no lugar da TC. A ultrassonografia é muito inferior a TC e a RNM para avaliar o pâncreas.
Tratamento da pancreatite aguda
Em geral, todo paciente com pancreatite aguda deve permanecer internado.
Se o caso for leve a moderado, a resolução é espontânea. Administra-se soros e controla-se a dor.
Neste período inicial, o paciente deve se manter em jejum total por no mínimo 3 a 7 dias, uma vez que a alimentação estimula a produção das enzimas pancreáticas que acabam por lesar ainda mais o pâncreas. Para o paciente não desnutrir, é necessária alimentação enteral, onde introduz-se um tubo até o intestino delgado fazendo com que a comida chegue a um ponto após o duodeno, não havendo assim estímulo a produção de enzimas pancreáticas.
Se mesmo com a nutrição enteral o paciente apresentar sinais de atividade da pancreatite, a solução é a alimentação parenteral, administrada pelas veias.
Conforme o pâncreas vai se regenerando, a alimentação por via oral pode ser reintroduzida lentamente.
Se a causa for obstrução por cálculos biliares, o mesmos devem ser retirados por via cirúrgica ou endoscópica.
Em casos mais graves, com infecção e/ou necrose extensa do pâncreas, antibióticos e cirurgia para retirada do tecido morto podem ser necessários.
Como já citado anteriormente, às vezes o quadro é tão intenso que o doente desenvolve choque circulatório, complicações renais e pulmonares, necessitando ficar internado em uma UTI (leia: ENTENDA O QUE ACONTECE COM OS PACIENTES NA UTI)
PANCREATITE CRÔNICA
Se o quadro de pancreatite aguda for muito extenso ou se o paciente apresenta repetidos episódios de pancreatite, essa inflamação crônica pode levar a lesão irreversível do tecido pancreático, levando ao que chamamos de pancreatite crônica.
A principal causa de pancreatite crônica é o consumo exagerado de álcool. Porém, qualquer causa que imponha quadros repetidos de pancreatite pode levar a lesão permanente do mesmo.
Sintomas da pancreatite crônica
Assim como na pancreatite aguda, o principal sintoma da pancreatite crônica é a dor abdominal. Porém, na doença crônica, a dor é permanente e não melhora após alguns dias. O paciente costuma estar muito emagrecido pois alimenta-se mal devido a dor que o ato de comer exacerba.
Como há lesão permanente do tecido do pâncreas, este começa a diminuir progressivamente a secreção das enzimas responsáveis pela digestão dos alimentos. Com isso, mesmo que a dor não impeça a alimentação, o paciente não consegue digerir o alimento para poder absorvê-lo, acabando por emagrecer do mesmo modo.
Quando mais de 90% do tecido pancreático encontra-se lesionado o paciente perde completamente a capacidade de absorver as gorduras da dieta, surgindo um quadro de diarréia gordurosa chamado de esteatorréia.
Seguindo o mesmo raciocínio, o pâncreas também torna-se incapaz de produzir insulina e glucagon, levando o paciente a um quadro de diabetes mellitus.
Outras complicações da pancreatite crônica incluem a formação de cistos ao redor do pâncreas, obstrução das vias biliares e ascite (leia: O QUE É ASCITE?).Na radiografia ao lado, podemos ver um pâncreas todo calcificado, um sinal de cicatrização do tecido por pancreatite crônica.
Tratamento da pancreatite crônica
O tratamento da pancreatite crônica visa o controle da dor e dos sintomas da falência pancreática. É imperativo suspender o consumo de álcool.
Pacientes com síndrome de má-absorção precisam tomar suplementos com enzimas pancreáticas. Doentes com diabetes precisam de insulina.
Em casos onde a dor não consegue ser aliviada com drogas, a cirurgia do pâncreas pode ser necessária.




12 comentários:
Boa tarde!
Estive lendo reportagens sobre pancreatite, em varios sites encontrei informações de todos os tipos, e qui tive um esclarecimento muito melhor, li que em estagio avançado a mesma provoca gotas de oleo junto as fezes; fiquei em duvida pois alguns informavan este sintoma como inicial..
desde ja agradeço aguardo resposta se o mesmo é umsintoma inicial ou estagio avançado.
Alecsander,
A presença de gorduras nas fezes indica que houve um destruição de grande parte do pâncreas e este já não é capaz de produzir as substâncias responsáveis pela digestão de gorduras. Na verdade não é uma questão de ser um sintoma inicial ou não, é um sinal de grande lesão pancreática. Se a pancreatite for fulminante, esse sinal ocorre rapidamente, se for de instalação lenta, ele demora mais tempo para aparecer. Em geral, ele é tardio.
Bom dia Dr Alecsander!
Pelo o que eu li no artigo, o sintoma mais evidente da Pancreatite e a dor.
Existe possibilidade de se ter gordura nas fezes sem dor? E o fato desse hipotese existir nao teria um outro diagnostico sem ser pancreatite? Poderia ser uma bacteria?
Muito obrigado pela atenção.
Grato.
Marcelo,
Sim, várias outras doenças, além da pancreatite, podem causar gordura nas fezes.
Dr. Pedro. Meu nome é Alessandra, tenho uma filha hoje com 4 anos que já teve, desde 01/2008, 5 crises de pancreatite. Nada de concreto foi detectado até agora como causa. Temos apenas uma imagem não muito conclusiva de pancreas divisum e uma remota possibilidade de porfiria. Gostaria de saber se existe a possibilidade da criança (dieta altamente controlada - 12,5 kg) criar microcalculos na visicula não perceptiveis nos exames, e em caso de resposta positiva, o que desencadearia essa "lama biliar"? Seus exames de colesterol total e triglicerides estao em 188 e 185 respectivamente.
Obrigado
Alessandra,
1- sim
2- Não se sabe bem porque algumas pessoas têm lama biliar. Ela em geral ocorre devido a uma vesícula que com mobilidade reduzida, chamada de vesicula preguiçosa.
Doutor (a)
Seus comentários são muito esclarecedores.
Tenho 41 anos. Recentemente, eu tive dois episódios de gotas de óleo nas fezes, com um espaço de aproximadamente 2 a 3 meses entre eles. Tenho sentido uma dor bem leve, quase imperceptível, mas constante, abaixo das costelas do lado esquerdo. Costumo ingerir bebidas alcoólicas, em média, duas vezes por semana, em quantidade que não considero demasiada. Quando aconteceu o segundo e último episódio de óleo nas fezes eu estava há mais de um mês sem ingerir qualquer tipo de bebida alcoólica.
O texto associa a pancreatite, na maioria das vezes, ao uso de bebidas alcoólicas. Contudo, nesse caso em que o uso não é tão grande e que o segundo episódio de óleo nas fezes aconteceu em período sem consumo de álcool, tal descrição corresponde com pancreatite? Se sim, de qual tipo: aguda ou crônica?
Obrigado pela resposta,
Fábio Alencar.
Fábio,
óleo nas fezes chama-se esteatorréia e significa que o seu intestino não está conseguindo digerir as gorduras da alimentação. Pancreatite á apenas uma das suas causas. Existem várias outras. Vc precisa ser visto por um gastro para que ele possa definir a causa dessa sua esteatorréia.
Dr. Pedro,
é possível alguem estar com início de pancreatite originada por calculos biliares sem que tenha dor na vesícula, ou seja, é possível o pancreas inflamar sem q a vesícula esteja inflamada? O duto é comum, por isso me parece algo estranha essa possibilidade. Pergunto pois tenho calculos e estou sentindo um leve desconforto no lado esquerdo, sem dor, somente desconforto.
Abs
Flavio
@Flávio
Sim, não só é perfeitamente possível, como é muito comum.
Dr,
O óleo nas fezes e nos flatos sem dor abdominal podem ser indicios de pancreatite?
@Marcos Cesar
É indício de uma síndrome disabsortiva. Pancreatite é uma das causas.
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