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15 de dezembro de 2008

RESSACA E POR QUE FICAMOS BÊBADOS

Entenda porque o álcool nos intoxica e causa ressaca.

Vou escrever sobre dois assuntos distintos, mas que estão interligados pelo fato de falarem sobre álcool e seu processo de metabolização pelo corpo.

Nesta primeira parte vou descrever como o álcool (etanol) é metabolizado e porque ocorrem a ressaca e a intoxicação alcoólica.

Na segunda parte vou mostrar porque a associação do álcool com remédios pode ser perigosa e quais são os medicamentos que não podem ser tomados com álcool. (leia: ÁLCOOL X REMÉDIOS E EFEITO ANTABUSE )

POR QUE FICAMOS BÊBADOS?

Para entender como o corpo lida com o álcool, é preciso primeiro saber como qualquer substância ingerida é metabolizada.

Álcool e RessacaQuando uma substância é ingerida, ela é absorvida pelo trato gastrointestinal, cai na circulação sanguínea e obrigatoriamente passa primeiro pelo fígado. Lá sofre ação das enzimas hepáticas que iniciam o processo de metabolização. Após essa transformação, surgem novas substâncias que são chamadas de metabólitos. Esses metabólitos podem ser ativos ou inativos.

Alguns remédios como o Enalapril, por exemplo, são substâncias inativas, que só passam a exercer efeitos anti-hipertensivos após sua metabolização. O enalapril é inerte mas o seu metabólito é ativo. O processo inverso ocorre com algumas substâncias tóxicas que após metabolização pelo fígado dão origem a metabólitos inativos.

Após esse processo no fígado, os metabólitos seguem para o resto do corpo. Os ativos vão exercer seus efeitos nos mais variados locais e permanecem na circulação até serem excretados ou novamente metabolizados em substâncias inertes. O tempo que uma substância permanece ativa no corpo é que determina de quanta em quantas horas devemos tomar um determinado medicamento.

A intensidade e o efeito de qualquer substância ingerida depende do tipo de metabólito que é formado após essa primeira passagem no fígado. É importante salientar que na primeira passagem apenas parte dessas substâncias são metabolizadas (algumas mais, outras menos). A outra parte segue para circulação e só será processada quando retornar ao fígado. Dependendo da substância e da quantidade ingerida, são necessárias várias passagens até sua completa metabolização.

O álcool (etanol) é uma substância tóxica e passa por esse mesmo processo. O Álcool é primeiramente metabolizado em acetaldeído (uma substância ainda mais tóxica) e depois novamente metabolizado em ácido acético (vinagre) que é um metabólito não tóxico. Por fim é transformado em água e gás carbônico (CO2).

Nem todo o álcool ingerido consegue ser processado na primeira passagem. O corpo só consegue metabolizar o equivalente a 1 taça de vinho ou 300 ml de cerveja por hora. Portanto, se tomarmos o equivalente a 5 taças de vinho, o corpo demora em média 5 horas para eliminar todo esse volume. Esse tempo é variável de pessoa para pessoa, sendo em geral, mais lento em mulheres e idosos.

A absorção de álcool pelo trato intestinal é muito mais rápida do que a capacidade do fígado de metabolizá-lo. O resultado final é que teremos ao mesmo tempo na circulação sanguínea concentrações diferentes de etanol, acetaldeído e ácido acético.

Quando estamos de estômago cheio, a absorção de etanol fica mais lenta, dando mais tempo ao fígado para metabolizar o álcool que chega. Por isso, a intoxicação por etanol é mais intensa quando bebemos em jejum. Bebidas alcoólicas gasosas também são absorvidas mais lentamente.

Após bebermos álcool, o resultado é o seguinte: 92% do etanol ingerido é metabolizado no fígado, 3% é eliminado na urina, 5% é eliminado pelos pulmões na respiração (daí o teste do bafômetro) e menos de 1% na pele através do suor.

O álcool age em todo organismo, mas os seus efeitos mais visíveis são no cérebro, principalmente na intoxicação aguda. É sempre bom lembrar que o álcool e o seu primeiro metabólito, o acetaldeído são tóxicos, e quando o organismo é exposto frequentemente a eles, vários órgãos sofrem lesão. Saiba mais em: PERIGOS DO CONSUMO DE ÁLCOOL E DO ALCOOLISMO

Em pequenas quantidades, o álcool é estimulante levando a euforia e maior interação social. Pequenas doses já afetam a coordenação motora e capacidade de concentração. A capacidade de julgamento fica alterada e surgem os comentários e as ações impróprias.

Doses maiores de álcool na circulação levam a depressão do sistema nervoso, surgindo progressivamente conforme a concentração sanguínea se eleva: letargia, sonolência, redução do nível de consciência, coma e morte.

RESSACA

A ressaca parece ocorrer por 3 motivos: 1.) Intoxicação pelo acetaldeído, 2.) queda da glicose sanguínea(hipoglicemia) e 3.) desidratação.

1.) O acetaldeído chega a ser até 30x mais tóxico do que o etanol. Em casos de consumo de grandes quantidades de álcool, pode haver presença deste na circulação ainda por várias horas após a bebedeira. O acetaldeído é carcinogênico (causa câncer) e leva a lesão do fígado à longo prazo.

2.) O processo de metabolização do etanol envolve vias enzimáticas do fígado que também participam da geração de glicose, principalmente em períodos de jejum. Como essa enzimas estão ocupadas metabolizando o etanol, temos uma queda no nível de glicose para o cérebro e outras regiões do organismo. Daí surgem os sintomas de fraqueza e mal estar.

3.) Uma das ações do etanol no cérebro e inativar um hormônio chamado de ADH (hormônio antidiurético em inglês). Esse hormônio é o responsável pela reabsorção de toda água filtrada pelo rim. O ADH é um dos mecanismos de controle da quantidade de água corporal. Quando este é inibido, toda água que passa pelo rim é eliminada na urina. Por isso, alguns minutos após o ingestão de álcool, começamos a urinar o tempo o todo. Já reparou como é clara a urina após consumo de bebidas alcoólicas? Isso ocorre porque neste momento sua urina é basicamente só água. Esse efeito diurético leva a desidratação, que causa os sintomas de boca seca, sede, dor de cabeça, irritação e câimbras.

Não existe remédio que cure ressaca, nem que acelere o metabolismo do etanol. De nada adianta banho frio, café, chá, produtos com cheiro forte ou qualquer outra medicação caseira. O importante é hidratação, glicose e repouso.

Dr. Pedro PinheiroAutor do artigo
Dr. Pedro Pinheiro - Médico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2002. Diploma reconhecido pela Universidade do Porto, Portugal. Título de especialista em Medicina Interna pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) em 2005. Título de Nefrologista pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pela Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) em 2007. Título de Nefrologista pelo Colégio Português de Nefrologia.

12 comentários:

Muito bom! Vou esperar a segunda parte amanhã...
Marcos

Muito bom! beber, vc fika legal, vajando, bom demais, ja tomei demais hoje, vou esperar a segunda parte amanha pra tomar outra. Marcelo

20 de fevereiro de 2009, às 12:08

boa tarde, durante tres dias e meio fiz uso amoxicilina 500mg sendo que no primeiro dia o indicado pelo medico foi de tomar 4 comprimido e depois seguir de 8 em 8 hrs para um implante dentario no quarto dia, dia esse em que tomei o meu ultimo comprimido as 8hrs da manha,a tarde 16hrs fui a uma festa e acabei ingerindo uma certa quantidade de cerveja, perdendo completamente os sentidos e nao conseguindo lembrar de nada apos o fato ficando alterado e agressivo por pelo menos 2hrs um verdadeiro caos, pode se dizer que foi o efeito da amoxicilina?

Acho que não.

Desconheço descrições de aumento dos efeitos eufóricos do álcool pela amoxacilina

Na verdade existe sim um remédio que acelere o metabolismo, mas no caso é utilizado para aumentar a concentração de acetaldeído no sangue e produzir mais ressaca. Este remédio é usado para tratar alcóolatras, auxiliando a parar de beber.

Luis Alex de C. Wanderley.

Luis,
Vc deve estar se referindo ao dissulfiram,mas o mecanismo não é esse que vc cita. Eu falo dele no texto sobre álcool x remédios. O link está no final deste texto.

Dr. Pedro, no texto o Sr. diz que nao ha remedios para a ressaca, entao e o tradicional remedio vendido para este fim, ele tem algum efeito?

Olá!
Gostaria de acrescentar um dado das pesquisas so Professor Doutor Randovam da UFRJ que demostra que , após uma boa noite de bebedeira (+- 3 GARRAFAS de vinho), perdemos cerda de 20% dos hepatócitos (células do fígado).

Gostaria de parabenizar o blog pelas informções úteis e pouco difundidas para a população geral. Usamos inclusive seus tópicos na discussão bioquímica aqui na graduação de medicina da UFRJ!

Grato,
Henrique

Osmar,
você deve estar se referindo ao Engov e similares. O Engov é composto de MALEATO DE MEPIRAMINA, HIDROXIDO DE ALUMINIO, ACIDO ACETILSALICILICO, CAFEINA. Na verdade, é uma junção de vários medicamentos que agem nos principais sintomas da ressaca. Obviamente não cura, porque não tem nenhum efeito direto na causa da ressaca, mas pode diminuir os sintomas desagradáveis e melhorar a sensação de mal estar, enquanto o corpo trabalha para eliminar as toxinas do álcool.

Muito bom seu artigo! Muito informativo e escrito de maneira simples e fácil de entender.

Dr. adorei seu artigo. Sempre tive dúvidas desse tema, apesar de não beber nada.

Dr. Desde que tomei alcool pela primeira vez, apresentei forte ressaca, não sinto dor de cabeça mas quando acordo começo a vomitar, e tudo que faço ingestão volta, dai acostumei a tomar somente agua porque é menos dificil pra vomitar, vou até a bile, e normalmente a ressaca so passa por volta das seis horas da tarde, sendo que começa noemalmene por volta de 8:00 - 9:00h da manhã. Já tentei de tudo para amenizar a ressaca, não importa a quantidade que bebo, normalmente bebo cerveja, não gosto de bebidas de dose, e não bebo muito e mesmo assim tenho ressaca, tipo quatro garrafas de cerveja já são suficientes para uma ressaca significativa. Meu problema é no fígado, tenho medo. Parabéns pela matéria, muito boa.

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