Principais informações sobre a raiva humana
A raiva é uma infecção viral que provoca encefalite, inflamação grave do tecido cerebral, e é quase sempre fatal depois que os sintomas neurológicos se iniciam. A doença, porém, pode ser prevenida quando a profilaxia é realizada antes do aparecimento dos sintomas.
Após mordida, arranhão ou contato da saliva de um mamífero com os olhos, a boca ou a pele ferida, lave imediatamente a área com água corrente e sabão por pelo menos 15 minutos e procure uma unidade de saúde.
A profilaxia pode incluir a vacina antirrábica e, nas exposições consideradas graves, o soro ou a imunoglobulina antirrábica. A indicação depende do animal envolvido, do tipo e do local da lesão, da possibilidade de observar o animal e do histórico de vacinação da pessoa.
Cães e gatos saudáveis e disponíveis podem, em determinadas situações, ser observados por dez dias. Se o animal adoecer, morrer ou desaparecer durante esse período, o serviço de saúde deve ser imediatamente informado.
O contato direto com morcegos exige avaliação médica urgente, mesmo quando não existe mordida ou arranhão visível. As lesões provocadas por esses animais podem ser muito pequenas e passar despercebidas.
Não espere pelo aparecimento de sintomas. Quando os sinais neurológicos da raiva começam, a doença já não dispõe de um tratamento comprovadamente eficaz.
O que é a raiva humana?
A raiva é uma zoonose, isto é, uma doença transmitida de animais para seres humanos, causada por vírus do gênero Lyssavirus, da família Rhabdoviridae. É uma das doenças infecciosas mais graves conhecidas, pois, depois que os sintomas neurológicos aparecem, a taxa de mortalidade é de praticamente 100%.
Apesar dessa elevada letalidade, a raiva pode ser prevenida. A primeira vacina contra a doença foi desenvolvida ainda no século XIX, e atualmente a vacinação, associada à imunoglobulina nos casos indicados, é altamente eficaz para impedir o desenvolvimento da infecção quando administrada antes do aparecimento dos sintomas.
Mesmo assim, a raiva ainda provoca aproximadamente 59 mil mortes por ano em todo o mundo, principalmente em regiões onde o acesso à profilaxia após a exposição é limitado.
A transmissão ao ser humano ocorre por mamíferos infectados, geralmente por meio da mordida, que inocula na pele o vírus presente na saliva. Arranhões e o contato da saliva com mucosas ou feridas abertas também podem transmitir a doença.
Após ser inoculado, o vírus pode se multiplicar inicialmente nos tecidos próximos à área exposta e, em seguida, alcançar as terminações nervosas periféricas. A partir daí, desloca-se pelos nervos em direção ao sistema nervoso central.
Ao chegar ao cérebro, o vírus provoca a encefalite rábica, responsável pelos sintomas neurológicos. Nessa fase, a doença é praticamente sempre fatal.
Transmissão
O vírus da raiva é transmitido principalmente pela saliva de mamíferos infectados, geralmente por meio de mordidas. Arranhões que rompem a pele, lambedura de feridas abertas e contato da saliva com os olhos, a boca ou outras mucosas também podem transmitir a doença.
Em escala mundial, os cães ainda são responsáveis pela grande maioria dos casos de raiva humana, principalmente na Ásia e na África. Nos países e regiões que implantaram programas eficazes de vacinação canina, porém, a transmissão por cães caiu acentuadamente. Nas Américas, os morcegos passaram a ter maior importância epidemiológica.
Vários mamíferos podem desenvolver e transmitir raiva, entre eles:
- Cães.
- Morcegos.
- Gatos.
- Furões.
- Raposas.
- Coiotes.
- Guaxinins.
- Gambás.
- Macacos e saguis.
Mamíferos não carnívoros, como porcos, vacas, cabras e cavalos, também podem transmitir a doença, embora esses casos sejam menos frequentes.
Pequenos roedores urbanos ou de criação, como ratos, camundongos, hamsters e porquinhos-da-índia, assim como os coelhos, são considerados animais de baixo risco e não são transmissores habituais da raiva humana.
Animais não mamíferos, como lagartos, peixes, tartarugas e pássaros, não transmitem raiva.
Como o vírus está presente na saliva, o antigo hábito de deixar cães lamberem feridas, além de favorecer infecções bacterianas, pode representar risco de transmissão caso o animal esteja infectado.
Por outro lado, tocar ou alimentar cães e gatos sem ser mordido ou arranhado não transmite raiva. O contato da saliva com a pele íntegra também não oferece risco na maioria das situações, e o contato com sangue, urina ou fezes do animal não é uma forma habitual de transmissão.
Também não há casos comprovados de transmissão da raiva por frutas manipuladas por morcegos.
Os morcegos são uma exceção importante. Qualquer contato direto com um morcego deve ser avaliado por um serviço de saúde, mesmo que a pessoa não identifique mordida, arranhão ou ferida visível, pois essas lesões podem ser muito pequenas e passar despercebidas.
Um morcego apenas voar perto da pessoa, sem tocá-la, não configura exposição (falamos mais sobre o morcego no final do artigo).
Raiva no Brasil
O perfil da raiva humana no Brasil mudou nas últimas décadas. A vacinação de cães reduziu de forma acentuada a transmissão urbana da doença, e os casos provocados pelas variantes caninas tradicionais tornaram-se raros. Atualmente, o principal risco está relacionado à circulação do vírus entre animais silvestres.
Entre 2010 e junho de 2026, foram registrados 54 casos de raiva humana no país. Os morcegos foram os transmissores mais frequentes, seguidos pelos primatas não humanos, principalmente saguis. Também ocorreram casos relacionados a cães, gatos, raposas, bovinos e cervídeos.
Portanto, embora a raiva humana seja atualmente rara no Brasil, a doença não foi eliminada. Mordidas, arranhões ou contato direto com morcegos, saguis, raposas e outros mamíferos silvestres devem sempre ser avaliados por um serviço de saúde.
Raiva em Portugal
Em Portugal, a raiva autóctone foi eliminada há várias décadas. Segundo a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, a doença foi oficialmente erradicada no país em 1961.
O último caso de raiva animal importado ocorreu em 1984, em um cachorro proveniente de Moçambique. Portugal mantém atualmente o estatuto de país livre da infecção pelo vírus clássico da raiva em animais domésticos e silvestres.
O último caso humano conhecido em Portugal ocorreu em 2011, em uma mulher que havia sido mordida por um cão durante uma viagem à Guiné-Bissau. A infecção foi, portanto, adquirida fora do país.
Esse estatuto não torna irrelevante o contato com morcegos. Outros vírus do gênero Lyssavirus, capazes de provocar uma doença semelhante à raiva clássica, podem ser encontrados em morcegos europeus. Por isso, mordidas, arranhões ou contato direto com morcegos em Portugal também devem ser avaliados por um serviço de saúde.
Transmissão da raiva por arranhões
Arranhões podem transmitir raiva quando rompem a pele e existe contato com saliva infectada.
Isso pode ocorrer porque o animal lambe as patas ou porque a saliva entra em contato com a área arranhada. O arranhão não precisa necessariamente provocar sangramento visível para ser considerado uma exposição.
Se o animal apenas encostar a unha na pele sem provocar qualquer lesão, não existe uma porta de entrada para o vírus.
Transmissão da raiva entre humanos
A raiva não é transmitida pelo contato cotidiano com uma pessoa infectada. Abraçar, tocar, conversar, permanecer no mesmo ambiente ou compartilhar objetos com o paciente não oferece risco de transmissão.
Embora o vírus possa estar presente na saliva de uma pessoa com raiva, a transmissão por beijo, mordida ou contato da saliva com mucosas ou feridas é considerada apenas teoricamente possível e não foi confirmada de forma adequada.
Os casos comprovados de transmissão entre seres humanos ocorreram por transplantes de órgãos ou tecidos provenientes de doadores infectados.
Profissionais de saúde ou cuidadores que tenham contato da saliva ou de tecido nervoso do paciente com os olhos, a boca ou uma ferida aberta devem comunicar o acidente para avaliação da necessidade de profilaxia.
A raiva também não costuma ser transmitida por objetos, roupas ou alimentos. O vírus é pouco resistente fora do organismo e perde rapidamente a capacidade de infectar quando a saliva seca ou é exposta à luz solar.
Sintomas da raiva humana
O período entre a exposição ao vírus e o aparecimento dos sintomas é chamado de período de incubação.
Na maioria dos casos, a incubação dura de um a três meses, mas pode variar de aproximadamente uma semana a mais de um ano. Esse intervalo depende de fatores como:
- Local da mordida ou do arranhão.
- Profundidade e extensão da lesão.
- Quantidade de vírus inoculada.
- Variante viral envolvida.
- Proximidade da lesão com o sistema nervoso central.
Lesões na cabeça e no pescoço são especialmente preocupantes pela proximidade do sistema nervoso central. Mordidas e arranhões nas mãos e nos pés também são classificados como exposições graves, entre outros motivos pela rica inervação dessas regiões.
A encefalite, inflamação do encéfalo, é o resultado da instalação e da multiplicação do vírus no sistema nervoso central. Os sintomas neurológicos da raiva incluem:
- Confusão mental.
- Desorientação.
- Agitação.
- Agressividade.
- Alucinações.
- Dificuldade para engolir.
- Espasmos musculares.
- Salivação excessiva.
- Fraqueza e paralisia.
- Convulsões.
Depois que os sintomas neurológicos começam, a doença é quase sempre fatal.
Em resumo, a evolução da raiva pode ser dividida em quatro fases:
1. Incubação
É o período entre a exposição e o aparecimento dos primeiros sintomas. Durante essa fase, a pessoa geralmente não apresenta qualquer alteração.
A duração mais comum é de um a três meses, mas existe grande variação entre os pacientes.
2. Pródromos
São os sintomas inespecíficos que surgem antes da encefalite. Em geral, essa fase dura de dois a dez dias e pode provocar:
- Dor de cabeça.
- Mal-estar.
- Febre baixa.
- Falta de apetite.
- Náuseas e vômitos.
- Dor de garganta.
- Ansiedade e irritabilidade.
Também podem surgir dor, ardência, dormência, formigamento ou coceira no local da mordida ou do arranhão, mesmo que a ferida já esteja cicatrizada.
3. Encefalite
A raiva pode apresentar-se de duas formas principais: furiosa ou paralítica.
Na raiva furiosa, o paciente pode desenvolver agitação, hiperatividade, confusão, alucinações e espasmos dolorosos da musculatura da garganta.
A hidrofobia é um dos sintomas mais característicos. Apesar de o nome significar “medo de água”, o paciente não apresenta propriamente uma fobia. A tentativa de engolir líquidos provoca espasmos dolorosos na garganta, fazendo com que ele evite beber.
Também pode ocorrer aerofobia, na qual correntes de ar ou o simples ato de soprar sobre o rosto desencadeiam espasmos.
Na raiva paralítica, que representa uma parcela menor dos casos, ocorre fraqueza muscular progressiva, geralmente começando perto do local da exposição. O quadro pode ser confundido inicialmente com outras doenças neurológicas, como a síndrome de Guillain-Barré.
4. Coma e óbito
Com a progressão da encefalite, o paciente pode desenvolver paralisia, coma, insuficiência respiratória e parada cardiorrespiratória.
A evolução costuma ser rápida, com óbito em poucos dias ou semanas após o início dos sintomas neurológicos.
Tratamento da raiva humana
Depois que o paciente desenvolve os sintomas da raiva, não existe tratamento comprovadamente capaz de curar a doença de forma confiável. A taxa de mortalidade é de praticamente 100%.
O chamado protocolo de Milwaukee, que incluía coma induzido e diferentes medicamentos antivirais, ficou conhecido após a sobrevivência de uma paciente em 2004. Entretanto, o tratamento falhou em dezenas de outros pacientes e não demonstrou eficácia reprodutível.
Pacientes com suspeita ou confirmação de raiva devem ser internados para suporte intensivo, controle dos sintomas e tratamento das complicações. Sobreviventes são extremamente raros, e muitos permanecem com sequelas neurológicas importantes.
Felizmente, embora a raiva seja quase sempre fatal após o início dos sintomas, existe prevenção eficaz. A vacina e o tratamento profilático com anticorpos são altamente eficientes em impedir o desenvolvimento da doença quando administrados em tempo oportuno.
Cuidados iniciais após possível exposição ao vírus
Em caso de mordida, arranhão ou contato de saliva de um mamífero com uma ferida ou mucosa, lave imediatamente a área com água corrente e sabão por pelo menos 15 minutos.
A lavagem ajuda a retirar saliva, sujeira, bactérias e parte das partículas virais presentes no local.
Após a limpeza, pode-se aplicar um antisséptico, como povidona-iodo ou clorexidina. Não aplique substâncias caseiras, produtos irritantes, pó de café, ervas, ácidos ou outros materiais sobre a ferida.
Se você procura informações sobre os cuidados necessários com feridas provocadas por mordidas de cães, acesse o seguinte link: Mordida de cachorro – Cuidados e Tratamento.
Depois desses primeiros cuidados, procure uma unidade de saúde no mesmo dia para que a equipe avalie a necessidade de vacinação e de aplicação do soro ou da imunoglobulina antirrábica.
A situação vacinal contra o tétano também deve ser verificada. O reforço costuma ser feito a cada dez anos, mas pode ser antecipado para cinco anos em feridas graves ou contaminadas. Algumas mordidas também precisam de tratamento com antibióticos.
Se o animal agressor for um cão ou gato, procure obter informações sobre sua vacinação, condições de saúde e possibilidade de observação. A caderneta de vacinação ajuda na avaliação, mas o fato de o animal estar vacinado não elimina, sozinho, a necessidade de analisar o caso.
Nos acidentes provocados por cães ou gatos saudáveis e que possam ser acompanhados, o animal pode ser mantido em observação durante dez dias.
A eliminação do vírus pela saliva de cães e gatos ocorre apenas nos últimos dias antes do aparecimento dos sintomas e durante a doença. Portanto, se o animal permanecer vivo, saudável e com comportamento normal durante os dez dias, considera-se que ele não estava transmitindo o vírus no momento da agressão.
Se o cão ou gato adoecer, morrer, desaparecer ou apresentar mudança importante de comportamento durante a observação, o serviço de saúde deve ser informado imediatamente.
Entre os possíveis sinais de raiva nos animais estão:
- Agressividade incomum.
- Apatia ou isolamento.
- Salivação excessiva.
- Dificuldade para engolir.
- Alteração do latido ou do miado.
- Andar cambaleante.
- Paralisia.
- Convulsões.
Não tente capturar ou manipular diretamente morcegos, raposas, saguis ou outros animais silvestres. Se for possível manter o animal isolado sem tocá-lo, acione o serviço municipal de Zoonoses ou a Vigilância em Saúde para orientação e captura.
O atendimento médico não deve ser adiado enquanto se tenta localizar, capturar ou examinar o animal.
Mordidas ou arranhões na cabeça, face, pescoço, mãos, pés ou mucosas, assim como lesões profundas, múltiplas ou extensas, são consideradas exposições graves. Esses casos precisam de avaliação urgente, mas a conduta também depende da espécie, das condições do animal e da possibilidade de observá-lo.
O mais importante é entender a gravidade da raiva. Não se deve negligenciar uma mordida ou um arranhão provocado por um mamífero. Não se baseie somente na aparência do animal para decidir se existe risco.
A profilaxia contra a raiva é dividida em profilaxia pré-exposição e profilaxia pós-exposição.
Profilaxia pré-exposição
A profilaxia pré-exposição é o tratamento preventivo para pessoas que ainda não foram expostas ao vírus, mas apresentam risco aumentado de contato.
Ela é feita com a vacina contra a raiva e está indicada principalmente para:
- Médicos veterinários.
- Biólogos, zootecnistas e agrônomos com exposição a animais.
- Profissionais e auxiliares de laboratórios que trabalham com o vírus da raiva.
- Pessoas que trabalham com animais silvestres.
- Profissionais envolvidos na captura de morcegos.
- Funcionários de zoológicos, parques ambientais e centros de reabilitação de animais.
- Espeleólogos e pessoas que frequentam cavernas com risco de contato com morcegos.
- Pessoas que trabalham no resgate e manejo de animais sem histórico conhecido.
- Moradores de comunidades remotas com risco elevado de raiva e acesso difícil à profilaxia.
- Viajantes que realizarão atividades de risco em regiões onde a raiva é frequente e o acesso ao atendimento médico pode ser limitado.
No Brasil, a profilaxia pré-exposição é realizada com duas doses da vacina antirrábica, administradas nos dias 0 e 7.
A vacina pode ser aplicada por via intramuscular ou intradérmica, de acordo com o produto utilizado e a organização do serviço. A via subcutânea não faz parte do esquema recomendado.
Na aplicação intramuscular, a vacina costuma ser administrada no músculo deltoide. Em crianças menores de dois anos, pode ser aplicada na face lateral da coxa. A vacina não deve ser aplicada na região glútea.
Após a profilaxia pré-exposição, o controle sorológico pode ser realizado a partir do 14º dia após a última dose. São considerados satisfatórios títulos de anticorpos iguais ou superiores a 0,5 UI/mL.
A necessidade de repetir a sorologia depende do grau de exposição. Profissionais de alto risco, como aqueles que trabalham diretamente com o vírus em laboratórios ou realizam captura de morcegos, devem repetir o exame periodicamente. Para profissionais de menor risco, como veterinários que trabalham em áreas onde a raiva está controlada, a repetição rotineira da sorologia não costuma ser necessária.
A vacinação pré-exposição não elimina a necessidade de procurar atendimento após uma mordida, arranhão ou outro contato de risco. Se houver indicação de profilaxia pós-exposição, o esquema costuma ser mais simples e não inclui o soro nem a imunoglobulina antirrábica.
Profilaxia pós-exposição
A profilaxia pós-exposição é indicada após um possível contato com o vírus da raiva. Ela pode ser necessária nas seguintes situações:
- Mordida.
- Arranhão que rompa a pele.
- Lambedura sobre ferida aberta.
- Contato da saliva com os olhos, a boca ou outras mucosas.
- Contato direto com morcego.
- Situação em que não seja possível descartar contato com um morcego.
Tocar ou alimentar um cão ou gato, receber uma lambida sobre pele íntegra ou ter contato de sangue, urina ou fezes do animal com pele íntegra não costuma exigir profilaxia.
Os morcegos são uma exceção importante: qualquer contato direto deve ser avaliado, mesmo quando não existe uma mordida, arranhão ou ferida visível.
A profilaxia pode incluir apenas a vacina ou a combinação da vacina com o soro antirrábico equino ou a imunoglobulina humana antirrábica. A escolha depende do tipo de exposição, do animal envolvido e do histórico de vacinação da pessoa.
Pessoas que nunca receberam a vacina antirrábica
Quando a vacinação é indicada para uma pessoa que nunca foi vacinada, o esquema brasileiro habitual utiliza quatro doses:
- Dia 0: primeira dose, administrada no dia do atendimento.
- Dia 3: segunda dose.
- Dia 7: terceira dose.
- Dia 14: quarta dose.
A vacina pode ser administrada por via intramuscular ou intradérmica, conforme o esquema utilizado pelo serviço de saúde. Todas as doses devem ser recebidas, mesmo que a ferida já esteja cicatrizada.
Quando o soro ou a imunoglobulina são indicados?
As exposições consideradas graves podem exigir, além da vacina, o soro antirrábico equino ou a imunoglobulina humana antirrábica.
A vacina estimula o organismo a produzir seus próprios anticorpos, processo que leva alguns dias. O soro e a imunoglobulina fornecem anticorpos prontos, oferecendo proteção imediata durante esse período.
Quando indicados, devem ser administrados preferencialmente no primeiro atendimento. A maior quantidade possível deve ser infiltrada dentro e ao redor das lesões, inclusive quando elas já estiverem cicatrizadas.
Se o soro ou a imunoglobulina não estiverem disponíveis no primeiro dia, ainda podem ser administrados até o sétimo dia após a primeira dose da vacina. Depois desse prazo, deixam de ser indicados porque o organismo já começou a produzir anticorpos em resposta à vacinação.
Pessoas que já foram vacinadas
Quem já recebeu um esquema completo de profilaxia pré-exposição deve procurar atendimento após um novo contato de risco. Quando há indicação de nova vacinação, são administradas duas doses, nos dias 0 e 3.
Para quem já realizou profilaxia pós-exposição, a conduta depende do tempo transcorrido desde o esquema anterior:
- Até 90 dias: se o esquema anterior foi completo, não é indicada nova vacinação. Se estava incompleto, devem ser administradas as doses que faltam.
- Após 90 dias: quem recebeu pelo menos duas doses anteriormente deve receber duas novas doses, nos dias 0 e 3.
Em geral, pessoas previamente vacinadas com esquema completo não recebem soro nem imunoglobulina em uma nova exposição. Quando o esquema anterior não pode ser comprovado, estava incompleto ou existem situações clínicas especiais, a conduta deve ser definida individualmente.
Crianças, gestantes e pessoas imunossuprimidas
A vacina antirrábica pode ser administrada a crianças de qualquer idade, gestantes e mulheres que estejam amamentando. Diante de uma exposição de risco, não há contraindicação que justifique deixar de realizar a profilaxia.
Pessoas imunossuprimidas devem ser avaliadas individualmente, pois podem produzir uma quantidade insuficiente de anticorpos após a vacinação. Nesses casos, recomenda-se a aplicação da vacina por via intramuscular e a realização de sorologia a partir do 14º dia após a última dose.
Nos pacientes com imunossupressão grave, o soro ou a imunoglobulina também podem ser indicados, inclusive em algumas situações de reexposição, conforme a gravidade do contato e a avaliação do serviço de saúde.
Mesmo que tenham se passado dias ou semanas desde a mordida, o arranhão ou outro contato de risco, a pessoa deve procurar atendimento enquanto ainda não apresentar sintomas. O atraso não é motivo para desistir da avaliação.
O fluxograma de tratamento da raiva abaixo é do Ministério da Saúde do Brasil
Morcegos e raiva: um caso à parte
Os morcegos podem transmitir o vírus da raiva e são atualmente uma das principais fontes de raiva humana nas Américas e no Brasil.
O grande problema é que suas mordidas e arranhões podem ser muito pequenos e passar despercebidos, principalmente quando a pessoa estava dormindo.
Por isso, a profilaxia com vacina e soro pode ser indicada nas seguintes situações:
- Mordida ou arranhão provocado por morcego.
- Contato de saliva do morcego com uma ferida ou mucosa.
- Contato direto com o animal, mesmo sem lesão visível.
- Morcego encontrado no quarto de uma pessoa que estava dormindo.
- Morcego encontrado próximo a uma criança pequena, pessoa com alteração cognitiva ou alguém incapaz de dizer se houve contato.
- Qualquer situação duvidosa em que não seja possível descartar mordida, arranhão ou contato direto.
Se a pessoa estava acordada durante todo o tempo, apenas viu o morcego voando e tem certeza de que não houve contato, o episódio não é considerado exposição. Um morcego apenas passar perto, sobrevoar a pessoa ou estar presente no mesmo ambiente, sem contato direto, não transmite raiva.
Urina e fezes de morcegos também não são formas habituais de transmissão da raiva. Entretanto, o acúmulo de fezes de morcegos pode estar associado a outras doenças, como a histoplasmose.
Nunca pegue um morcego com as mãos, mesmo que ele pareça morto, esteja imóvel no chão ou tenha entrado em casa. Afaste crianças e animais domésticos e entre em contato com o serviço de Zoonoses do município.
Como a raiva é uma doença quase sempre fatal, qualquer contato direto ou situação duvidosa envolvendo morcegos deve ser avaliada imediatamente por um serviço de saúde.
- Rabies – Centers for Disease Control and Prevention.
- Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, volume 3, 6ª edição revisada. Brasília, 2024.
- Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 8/2022-CGZV/DEIDT/SVS/MS: atualizações no protocolo de profilaxia pré, pós e reexposição da raiva humana no Brasil.
- Clinical manifestations and diagnosis of rabies – UpToDate.
- When to use rabies prophylaxis – UpToDate.
- Rabies – NIH – U.S. National Library of Medicine.
- World Health Organization. Rabies: fact sheet.
Dúvidas de leitores sobre este tema
Perguntas enviadas por leitores e selecionadas pelo editor por sua relevância para este artigo.
Mais comentários dos leitores
Oii Dr. Encontrei um morcego e passei a mão nele, meu gato estava tentando pegar ele e não sei se meu gato arranhou ele ou mordeu ele ou vice e versa, por eu ter passado a mão nele, corro algum risco? E meio gato?
Uma macaca doméstica me mordeu, não sangrou, mas ficou com as marcas. Ela e seus donos estavam de passagem, não pude verificar se ela é vacinada, por estar viajando creio que sim…Devo ir ao posto ou apenas observar?
me feri com uma agulha usada, de um paciente com raiva, será que a algum risco de transmissão da raiva
Tenho duas cachorras, uma vira lata e uma Pitbull, ambas não saem de casa a aproximadamente 3 meses.
Quando fui lavar o quintal elas se assustaram com a água, e tentaram correr para o mesmo lugar, ocasianando estresse e por fim brigaram.
No desespero, tentei intervir entrando no meio, e sem querer a Pitbull mordeu meu dedo, e só fez um furinho, onde saiu um pouco de sangue.
Infelizmente achei q tinha vacinado elas com a vacina anti raiva, porém, ao verificar a carteira de vacina, vi q não tomaram.
Elas estão bem, nunca apresentaram nenhum sintomas de raiva. ( Estão sem alimentando bem, tomando água normal, e continuam com o comportamento padrão)
Com toda certeza irei vacina-las agora que sei q não tomaram.
Porém, devo me preocupar com algo nesse momento ?
Faz 2 dias q tomei a mordida.
20/06/2022.
Quanto tempo este vírus sobrevive no ambiente e em superfícies?
Oi dr. Estudo em uma faculdade com vários amimais, muitas árvores mas nunca fui mordida por nenhum. Há risco deu trazer na minha chinela algum vírus deixado no chão por morcegos ou outro animal contaminado? Porque também tenho outros animais em minha casa, desde já agradeço.
Dr. Pedro, existe casos ou é possível pegar raiva tocando em alimentos de Morcego? Quanto tempo o vírus da raiva sobrevive num fruto?
Olá doutor Pedro, a minha dúvida parece boba mas realmente estou preocupada, pois após ler sobre a doença é muito assustador cogitar marcar bobeira sobre isso. Eu acordei com um pequeno machucadinho no nariz (parece até machucado de unha, sem sangramento significativo, só um pouco vermelhinho e quase nada de sangue) mas não me lembro de ter me machucado com a unha em momento nenhum, nem de dia e muito menos a noite. Normalmente durmo com a janela aberta, porém, com telas de mosquiteiro, e moro em área urbana. Acordei e NÃO vi nenhum morcego no meu quarto. Gostaria de saber se existe alguma precaução quando pequenos machucados misteriosos aparecem assim, mesmo sem encontrar morcego no quarto. Muito obrigada doutor. Desculpe a dúvida se for boba. Abraços!
Dr. Boa tarde! Me ajude por favor. Meu cachorro cheirou um cadáver (carcaça) de um animal morto que parecia um morcego (não tenho certeza pois estava muito amassado e quase irreconhecível – Já seco, decomposto). O cachorro É VACINADO contra raiva anualmente, porém, fiquei preocupado porque ao cheirar ele quase encosta o focinho no bicho morto. Existe algum motivo pra preocupação com transmissão de raiva por cheirar ou encostar o focinho em carcaça de eventual morcego morto? Obrigado Dr. Pedro. Sua opiniao é muito importante!
oi doutor, boa tarde, eu tive olhando no site do UOL ontem a noite e li uma matéria relacionada ao vírus da raiva, o título é
( cientistas usam composto de proteína para tratar a raiva ), o nome deles são o biólogo Washington carlos agostinho e também do professor, paulo eduardo brandão – coordenador do laboratório de raiva, pesquise lá quando puder ^^
bom dia, eu gostaria de exclarecer algumas dúvidas, é verdade que mordidas, aranhões e até mesmo lambidas em feridas abertas como nas mãos, pés, pescoço, face e cabeça o vírus rabico se espalha mais rápido?
e eu gostaria de saber se tem algum sintoma no local da mordida, aranhadura, ou lambedura
Dr. Pedro, você é o melhor!, fico muito feliz em saber que você tem paciência em responder a gente ^^, que Deus sempre te proteja e te abençoe na tua jornada =*