Doença de Creutzfeldt-Jakob: o que é, sintomas, transmissão e diagnóstico

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Revisado e atualizado em agosto 23, 2026
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Doença de Creutzfeldt-Jakob em resumo

A doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é uma doença neurológica rara, causada pelo acúmulo no cérebro de proteínas anormalmente dobradas chamadas príons.

A DCJ é muito rara, ocorrendo em aproximadamente 1 a 2 pessoas por milhão de habitantes por ano.

Cerca de 85% dos casos são esporádicos, ou seja, surgem sem que o paciente tenha adquirido a doença de outra pessoa e sem uma mutação hereditária conhecida.

Entre 5 e 15% dos casos são genéticos, relacionados a mutações no gene PRNP. Menos de 1% dos casos clássicos são adquiridos através de procedimentos médicos, forma chamada DCJ iatrogênica.

A variante da doença de Creutzfeldt-Jakob (vDCJ) é uma doença diferente da DCJ clássica e ficou conhecida por sua associação com o consumo de produtos bovinos contaminados pelo agente da encefalopatia espongiforme bovina, a chamada “doença da vaca louca”.

A DCJ não é transmitida pelo convívio habitual. Abraçar, tocar, beijar, compartilhar utensílios, morar na mesma casa ou cuidar de um paciente não transmite a doença.

Os sintomas geralmente evoluem rapidamente ao longo de semanas ou meses e incluem declínio cognitivo, alterações de comportamento, dificuldade para caminhar, perda de coordenação, movimentos involuntários, alterações visuais e, em fases avançadas, incapacidade de falar ou se movimentar voluntariamente.

A ressonância magnética do cérebro e o exame RT-QuIC no líquido cefalorraquidiano (líquor) são atualmente os exames mais importantes para sustentar o diagnóstico em vida.

Não existe, até o momento, tratamento capaz de curar ou interromper comprovadamente a progressão da DCJ. O tratamento é de suporte e dirigido ao controle dos sintomas.

A DCJ é uma doença fatal. Na forma esporádica, a sobrevida mediana após o início dos sintomas é de aproximadamente 4 a 5 meses, e a grande maioria dos pacientes falece no primeiro ano.

O que é a doença de Creutzfeldt-Jakob?

A doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é uma doença neurodegenerativa rara e rapidamente progressiva provocada pelo acúmulo de uma proteína anormal no cérebro, chamada príon.

A DCJ pertence a um grupo de doenças classificadas como doenças priônicas ou encefalopatias espongiformes transmissíveis. Além da doença de Creutzfeldt-Jakob, fazem parte desse grupo outras doenças humanas muito raras, como a síndrome de Gerstmann-Sträussler-Scheinker, a insônia familiar fatal, a insônia fatal esporádica e o kuru.

O termo espongiforme vem do aspecto que o tecido cerebral pode adquirir ao microscópio. A perda de neurônios e a formação de pequenos vacúolos produzem múltiplos espaços microscópicos, fazendo o cérebro parecer uma espécie de esponja.

A DCJ ocorre em todo o mundo e é muito rara. A forma esporádica apresenta uma incidência relativamente uniforme entre os países, de aproximadamente 1 a 2 novos casos por milhão de habitantes por ano. Não há predomínio claro entre homens e mulheres.

No Brasil, a DCJ é uma doença de notificação compulsória desde 2005. Entre 2005 e 2021, o Ministério da Saúde recebeu 1.576 notificações de casos suspeitos, dos quais 547 foram classificados como confirmados. A maior parte das notificações ocorreu nas regiões Sudeste, Sul e Nordeste, e 60,2% dos pacientes suspeitos tinham entre 55 e 74 anos. Esses números devem ser interpretados como dados de vigilância epidemiológica e não como uma estimativa precisa da incidência da doença no país, pois uma parcela relevante das notificações permaneceu sem classificação final.

É importante também não confundir esses casos com a variante da DCJ, associada à encefalopatia espongiforme bovina (doença da vaca louca). Até o momento, nenhum caso humano de variante da DCJ foi confirmado no Brasil.

Apesar do nome “encefalopatia espongiforme transmissível”, isso não significa que a DCJ seja uma doença contagiosa no sentido habitual do termo. A imensa maioria dos pacientes não adquiriu a doença de outra pessoa.

O que torna a doença especialmente grave é a sua velocidade de evolução. Enquanto doenças como Alzheimer geralmente provocam deterioração cognitiva ao longo de vários anos, a DCJ pode levar uma pessoa previamente independente a apresentar deterioração neurológica grave em apenas alguns meses.

Para compreender por que isso acontece, primeiro é preciso entender o que é um príon.

O que são os príons?

Os príons são um dos agentes causadores de doença mais incomuns conhecidos pela medicina.

Bactérias são organismos formados por células. Vírus possuem material genético, na forma de DNA ou RNA, envolvido por proteínas. Fungos e parasitas também são organismos vivos com estruturas próprias.

O príon é diferente de todos eles.

Um príon é essencialmente uma proteína com uma conformação anormal, capaz de induzir outras moléculas da mesma proteína a também adquirirem uma conformação anormal. Ele não possui DNA, RNA, metabolismo nem qualquer estrutura celular. Portanto, não é uma célula e não é considerado um ser vivo.

Mesmo assim, os príons apresentam uma característica que, à primeira vista, parece contraditória: eles conseguem aumentar progressivamente em número dentro do organismo.

Comparemos com o câncer. Uma célula tumoral consegue produzir novas células tumorais por meio da divisão celular. Cada nova célula contém seu próprio material genético, metabolismo e toda a maquinaria necessária para continuar se multiplicando.

O príon não faz nada disso. Ele não produz uma nova proteína a partir do zero e não se divide. Em vez disso, usa proteínas normais que já existem no organismo como matéria-prima. A proteína priônica anormal entra em contato com uma proteína normal e faz com que ela mude de forma, adquirindo a mesma conformação anormal.

A nova proteína alterada pode então fazer o mesmo com outras proteínas normais. Dessa forma, uma pequena quantidade inicial de PrP anormal pode levar à formação progressiva de um número cada vez maior de proteínas com a mesma conformação patológica.

Portanto, quando se diz que os príons “se replicam” ou “se multiplicam”, não se trata de reprodução no sentido usado para bactérias, vírus ou células tumorais. O que se multiplica é a conformação anormal da proteína.

A importância da forma das proteínas

As proteínas do nosso organismo são produzidas pelas células a partir de instruções contidas nos genes. Muitos genes funcionam como uma espécie de receita que determina a sequência de aminoácidos de determinada proteína.

Mas uma proteína não é apenas uma simples sequência de aminoácidos. Esses aminoácidos ficam ligados uns aos outros formando uma longa cadeia, que precisa se dobrar sobre si mesma até adquirir uma estrutura tridimensional específica.

Essa forma tridimensional é fundamental para o funcionamento da proteína. Duas proteínas formadas pela mesma sequência de aminoácidos podem ter propriedades muito diferentes se estiverem dobradas de maneiras diferentes.

Forma tridimensional de proteínas
Estrutura tridimensional de algumas proteínas comuns

Uma maneira simples de imaginar isso é pensar em uma folha de papel. A mesma folha pode ser dobrada de maneiras completamente diferentes. Dependendo das dobras realizadas, ela pode virar um avião, um barco ou simplesmente uma bola de papel.

Com as proteínas ocorre algo semelhante: a sequência de aminoácidos pode ser a mesma, mas a forma tridimensional assumida pela molécula muda suas propriedades.

Proteína priônica celular

O organismo humano normalmente produz uma proteína chamada proteína priônica celular, conhecida pela sigla PrPC. Todos nós temos essa proteína, e sua presença, por si só, é completamente normal.

Ela é codificada pelo gene PRNP, localizado no cromossomo 20, e está presente em diversos tecidos, com expressão importante no sistema nervoso. Sua função fisiológica exata ainda não é completamente compreendida.

O problema surge quando uma molécula de PrPC assume uma conformação patológica e começa a induzir outras moléculas normais a se dobrarem da mesma maneira. Essa forma anormal e associada à doença é tradicionalmente chamada PrPSc.

Essa capacidade de transmitir uma forma tridimensional anormal é a característica central dos príons.

Como os príons causam doença?

O processo pode ser imaginado como uma reação em cadeia.

Inicialmente existe uma pequena quantidade de proteína priônica anormal. Essa molécula entra em contato com uma molécula normal de PrPC e favorece sua conversão para a conformação anormal.

Agora existem duas moléculas alteradas.

Essas duas podem converter outras moléculas normais, que passam a converter outras, criando progressivamente um número cada vez maior de proteínas anormais.

Em outras palavras, a proteína alterada funciona como uma espécie de molde defeituoso.

A sequência simplificada é a seguinte:

  1. Surge uma molécula de proteína priônica com conformação anormal.
  2. Essa proteína interage com moléculas normais de PrP.
  3. As moléculas normais mudam sua conformação.
  4. As novas proteínas anormais passam a converter outras moléculas.
  5. As proteínas alteradas começam a se agrupar.
  6. Os agregados se acumulam progressivamente no tecido cerebral.
  7. Os neurônios passam a funcionar mal e acabam morrendo.

Esses agregados podem formar estruturas ricas em conformações beta, mais estáveis que a proteína normal e relativamente resistentes aos mecanismos celulares que normalmente degradam proteínas defeituosas.

Formação de príons anormais
Formação de príons anormais

À medida que mais moléculas de PrPC (proteína priônica normal) são convertidas em PrPSc (proteína priônica mal dobrada e patológica), a quantidade de proteína anormal aumenta progressivamente. Essas proteínas podem se associar entre si, formando agregados e fibrilas que se acumulam no tecido cerebral.

É por isso que se diz que um príon consegue, de certa forma, “replicar sua conformação”, mesmo sem possuir material genético.

O que acontece com o cérebro?

À medida que a proteína anormal se acumula, surgem várias alterações no tecido cerebral, entre elas:

  • Disfunção e morte dos neurônios.
  • Proliferação de células da glia.
  • Formação de pequenos vacúolos no tecido cerebral.
  • Depósito de proteína priônica anormal.
  • Em algumas formas, formação de placas amiloides.

A presença de inúmeros vacúolos microscópicos é responsável pelo aspecto espongiforme característico dessas doenças.

Outro aspecto curioso é que, apesar da intensa lesão cerebral, as doenças priônicas não costumam provocar a típica reação inflamatória encontrada em muitas infecções do sistema nervoso.

De onde surge o primeiro príon anormal?

Essa é justamente uma das diferenças entre os vários tipos de doença priônica.

O primeiro “molde defeituoso” pode surgir de três formas principais:

  1. Espontaneamente, sem motivo conhecido.
  2. Devido a uma mutação genética que facilita o dobramento anormal da proteína.
  3. Por entrada no organismo de uma proteína priônica anormal proveniente do exterior.

Esses três mecanismos ajudam a compreender os diferentes tipos de doença de Creutzfeldt-Jakob.

Tipos de doença de Creutzfeldt-Jakob

Existem três formas principais de DCJ clássica:

  • DCJ esporádica.
  • DCJ genética.
  • DCJ iatrogênica.

Além dessas três formas de DCJ clássica, existe a chamada variante da doença de Creutzfeldt-Jakob (vDCJ), que é uma situação diferente. Ela não é apenas mais um subtipo da forma clássica, mas uma doença priônica adquirida, com origem epidemiológica, faixa etária típica e manifestações clínicas próprias. Por isso, costuma ser descrita separadamente da DCJ clássica.

Doença de Creutzfeldt-Jakob esporádica

A DCJ esporádica representa aproximadamente 85% dos casos.

Nesses pacientes não existe exposição conhecida a príons provenientes de outra pessoa nem uma mutação hereditária que explique a doença.

A hipótese mais aceita é que, em algum momento, uma molécula normal de PrP adquira espontaneamente uma conformação patológica e dê início à reação em cadeia descrita anteriormente.

Não se sabe por que essa transformação ocorre espontaneamente em algumas pessoas e não em outras. O ponto importante é que, na forma esporádica, a proteína anormal surge no próprio organismo: o paciente não adquiriu a doença de outra pessoa.

Doença de Creutzfeldt-Jakob genética

Entre aproximadamente 5 e 15% dos casos estão associados a mutações no gene PRNP, responsável pela produção da proteína priônica.

Essas mutações podem tornar a proteína mais propensa a assumir uma conformação anormal.

As doenças priônicas genéticas geralmente apresentam padrão de herança autossômico dominante. Isso significa que uma pessoa portadora de uma mutação patogênica pode transmitir essa alteração genética a aproximadamente metade dos filhos.

Entretanto, a probabilidade de um portador desenvolver efetivamente doença ao longo da vida depende da mutação envolvida. Portanto, herdar uma mutação e desenvolver a doença não são necessariamente a mesma coisa.

Além disso, mutações no PRNP podem provocar fenótipos diferentes. Nem toda doença priônica hereditária se apresenta como DCJ. Algumas famílias apresentam síndrome de Gerstmann-Sträussler-Scheinker ou insônia familiar fatal, por exemplo.

Por esse motivo, quando existe suspeita de uma forma genética, a investigação deve incluir aconselhamento genético antes ou juntamente com o teste do gene PRNP.

Doença de Creutzfeldt-Jakob iatrogênica

A palavra iatrogênica significa que a doença foi adquirida em consequência de um procedimento médico. Essa forma é atualmente extremamente rara e representa menos de 1% dos casos de DCJ.

Historicamente, a transmissão ocorreu principalmente por:

  • Hormônio do crescimento produzido a partir de hipófises humanas de cadáveres.
  • Enxertos de dura-máter provenientes de cadáveres.
  • Transplante de córnea.
  • Determinados procedimentos neurocirúrgicos realizados com instrumentos contaminados.
  • Antigos eletrodos intracerebrais reutilizados.

Essas situações estão relacionadas principalmente a práticas médicas utilizadas décadas atrás. À medida que o risco de transmissão dos príons foi reconhecido, foram modificados os métodos de obtenção e processamento de tecidos humanos, o hormônio do crescimento de origem cadavérica foi substituído por hormônio produzido por tecnologia recombinante e foram adotados protocolos específicos para descontaminação de materiais com risco de contaminação por príons.

A transmissão por instrumentos neurocirúrgicos contaminados é hoje essencialmente um problema histórico. Não há relatos reconhecidos desse tipo de transmissão desde 1976, após a adoção de medidas mais rigorosas de descontaminação.

O mesmo ocorreu com as outras principais fontes de DCJ iatrogênica. O uso de hormônio do crescimento extraído de hipófises de cadáveres foi abandonado em meados da década de 1980, e os métodos de processamento dos enxertos de dura-máter mais associados à transmissão foram modificados a partir de 1987.

Uma particularidade das doenças priônicas adquiridas é o período de incubação muito longo. Entre a exposição ao príon e o aparecimento dos primeiros sintomas podem transcorrer muitos anos e, em alguns casos, várias décadas.

Por isso, um caso de DCJ iatrogênica diagnosticado atualmente não significa necessariamente que a exposição tenha ocorrido recentemente. Os raros casos que ainda podem surgir costumam estar relacionados a procedimentos realizados muitos anos atrás, antes da adoção das medidas de segurança atuais.

Variante da doença de Creutzfeldt-Jakob e “doença da vaca louca”

A variante da doença de Creutzfeldt-Jakob (vDCJ) ganhou notoriedade durante a epidemia de encefalopatia espongiforme bovina ocorrida principalmente no Reino Unido nas décadas de 1980 e 1990.

A encefalopatia espongiforme bovina é uma doença priônica dos bovinos conhecida popularmente como doença da vaca louca.

Existem fortes evidências de que pessoas que consumiram produtos bovinos contaminados pelo agente da encefalopatia espongiforme bovina puderam desenvolver a variante da DCJ. Isso, porém, não deve ser confundido com a DCJ clássica.

A doença de Creutzfeldt-Jakob esporádica, responsável pela grande maioria dos casos, não é causada pelo consumo de carne bovina.

A variante da doença de Creutzfeldt-Jakob também apresenta algumas diferenças importantes:

  • Costuma ocorrer em pacientes muito mais jovens.
  • Sintomas psiquiátricos e comportamentais frequentemente aparecem primeiro.
  • Sensações dolorosas ou anormais na pele podem ocorrer.
  • O comprometimento neurológico típico surge posteriormente.
  • A evolução costuma ser um pouco mais longa que a da DCJ clássica.

A diferença de idade é marcante: a variante da DCJ acometeu predominantemente adultos jovens, enquanto a DCJ esporádica ocorre sobretudo em pessoas na faixa dos 60 anos ou mais.

Atualmente, a vDCJ é extremamente rara.

Como se pega a doença de Creutzfeldt-Jakob?

Portanto, conforme explicado, na maioria dos casos não se pega.

Esse talvez seja o ponto mais importante sobre a transmissão da DCJ.

Cerca de 85% dos pacientes apresentam a forma esporádica, na qual a proteína anormal aparentemente surge dentro do próprio organismo sem uma exposição externa identificável.

Não há evidência consistente de que a DCJ esporádica seja causada por hábitos comuns de vida, como tabagismo, consumo de álcool, estresse ou alimentação habitual. Morar com uma pessoa com DCJ, trabalhar com ela ou simplesmente ter sido submetido a uma cirurgia no passado também não são considerados fatores de risco relevantes.

Outros casos são provocados por mutações genéticas herdadas.

Somente uma pequena minoria das doenças priônicas humanas foi adquirida a partir de uma fonte externa.

A DCJ passa de uma pessoa para outra?

Não pelo contato habitual.

Não existe evidência de transmissão da DCJ clássica por:

  • Abraço ou aperto de mão.
  • Beijo.
  • Tosse ou espirro.
  • Saliva no convívio habitual.
  • Relações sexuais.
  • Compartilhamento de alimentos ou talheres.
  • Uso do mesmo banheiro.
  • Morar na mesma residência.
  • Cuidar de uma pessoa com a doença.

Portanto, familiares e cuidadores não precisam evitar o contato social ou físico normal com o paciente.

E transfusão de sangue?

A transmissão através de sangue merece uma distinção.

Para a DCJ clássica, transfusão sanguínea não foi estabelecida como uma via habitual de transmissão.

Já na variante da DCJ, houve raros episódios de transmissão associados à transfusão de componentes sanguíneos.

Esse é um dos motivos pelos quais alguns países adotaram, ao longo dos anos, critérios específicos para doadores que tiveram determinada exposição geográfica durante a epidemia de encefalopatia espongiforme bovina.

Sintomas da doença de Creutzfeldt-Jakob

A manifestação mais característica da doença de Creutzfeldt-Jakob é uma deterioração neurológica rapidamente progressiva.

Os sintomas podem variar de acordo com o subtipo da doença e com a região do cérebro inicialmente mais afetada.

Em alguns pacientes, o problema inicial parece ser predominantemente cognitivo. Em outros, dificuldade para caminhar, alterações visuais, movimentos involuntários ou sintomas comportamentais podem aparecer antes de uma demência evidente.

Declínio cognitivo rapidamente progressivo

Uma das características mais marcantes da DCJ é a velocidade com que as funções cognitivas se deterioram. Alterações que em outras demências costumam evoluir ao longo de anos podem surgir e se intensificar em poucas semanas ou meses.

A maioria dos pacientes com DCJ desenvolve uma combinação de:

  • Perda de memória.
  • Dificuldade de atenção e concentração.
  • Desorientação.
  • Dificuldade para raciocinar.
  • Dificuldade para realizar tarefas habituais.
  • Alterações da linguagem.
  • Confusão mental progressiva.

A velocidade dessa deterioração é um dos principais sinais de alerta.

Alterações de comportamento e sintomas psiquiátricos

Além do declínio cognitivo, a DCJ pode provocar mudanças importantes no comportamento, no humor e na percepção da realidade, às vezes já nas fases iniciais da doença.

Podem ocorrer:

  • Apatia.
  • Irritabilidade.
  • Ansiedade.
  • Depressão.
  • Alterações de personalidade.
  • Agitação.
  • Alucinações.
  • Ideias delirantes.
  • Alterações do sono.

Esses sintomas podem, inicialmente, fazer o quadro parecer uma doença psiquiátrica.

Ataxia e dificuldade para caminhar

A DCJ pode comprometer precocemente as regiões do cérebro responsáveis pela coordenação dos movimentos e pelo equilíbrio, fazendo com que a pessoa passe a caminhar de forma insegura mesmo sem apresentar fraqueza muscular importante. A ataxia é uma alteração da coordenação dos movimentos.

O paciente pode apresentar:

  • Desequilíbrio.
  • Marcha instável.
  • Dificuldade para caminhar em linha reta.
  • Quedas.
  • Dificuldade para coordenar braços e pernas.
  • Fala arrastada.

Em alguns pacientes, alterações cerebelares são manifestações muito precoces.

Mioclonias

Mioclonias são contrações musculares rápidas, breves e involuntárias.

Elas podem parecer pequenos “soluços” ou choques musculares e podem ocorrer espontaneamente ou ser desencadeadas por barulhos, toque ou outros estímulos.

As mioclonias são muito características da DCJ, principalmente à medida que a doença progride, mas sua ausência nas fases iniciais não exclui o diagnóstico.

Alterações visuais

A DCJ também pode comprometer as áreas cerebrais responsáveis pelo processamento das informações visuais, fazendo com que o paciente apresente alterações da visão mesmo sem existir um problema primário nos olhos.

A doença pode causar:

  • Visão borrada.
  • Visão dupla.
  • Dificuldade para reconhecer objetos.
  • Alterações do campo visual.
  • Ilusões visuais.
  • Em determinados casos, perda visual importante.

Existe inclusive uma forma clínica da DCJ na qual os sintomas visuais predominam inicialmente.

Alterações motoras

À medida que a doença progride, podem surgir alterações dos sistemas cerebrais responsáveis pelo controle da força, do tônus e da execução dos movimentos, fazendo com que o paciente fique progressivamente mais rígido e com maior dificuldade para se movimentar.

Podem surgir sinais piramidais e extrapiramidais, provocando:

  • Rigidez.
  • Lentidão dos movimentos.
  • Tremores.
  • Alterações dos reflexos.
  • Fraqueza.
  • Posturas anormais.
  • Dificuldade crescente para movimentar-se.

Fases avançadas

Com a progressão da doença, o paciente costuma perder progressivamente a capacidade de:

  • Caminhar.
  • Alimentar-se sozinho.
  • Comunicar-se.
  • Controlar os movimentos.
  • Engolir adequadamente.

Em estágios avançados pode ocorrer mutismo acinético, situação na qual a pessoa permanece acordada, mas praticamente não fala nem executa movimentos voluntários.

Convulsões também podem ocorrer durante a evolução da doença, embora não estejam entre as manifestações mais características da DCJ.

Como é feito o diagnóstico da doença de Creutzfeldt-Jakob?

O diagnóstico da doença de Creutzfeldt-Jakob começa pela suspeita clínica diante de uma síndrome neuropsiquiátrica rapidamente progressiva, principalmente quando existe deterioração cognitiva associada a alterações motoras, cerebelares, visuais ou mioclonias.

Não existe um hemograma, exame bioquímico comum ou tomografia simples capaz de diagnosticar a doença.

Atualmente, os exames mais importantes são:

  • Ressonância magnética cerebral.
  • Análise do líquido cefalorraquidiano, principalmente com RT-QuIC.
  • Eletroencefalograma em determinadas situações.
  • Teste genético quando há suspeita de doença hereditária.

Antes de concluir que é DCJ

Esse é um ponto fundamental.

A DCJ é incurável, mas várias doenças potencialmente tratáveis podem provocar uma demência rapidamente progressiva e imitar seu quadro clínico.

Dependendo do caso, precisam ser investigadas causas como:

  • Encefalites autoimunes.
  • Encefalites infecciosas.
  • Distúrbios metabólicos.
  • Intoxicações.
  • Doenças vasculares.
  • Neoplasias.
  • Algumas doenças inflamatórias do sistema nervoso.

Portanto, o objetivo da investigação não é apenas demonstrar evidências de DCJ, mas também procurar cuidadosamente diagnósticos alternativos tratáveis.

Ressonância magnética

A ressonância magnética do cérebro é um dos exames mais importantes na investigação da DCJ. Ela pode mostrar alterações características no córtex cerebral e em regiões profundas do cérebro, como o núcleo caudado e o putâmen.

Essas alterações são mais bem identificadas em sequências especiais da ressonância, principalmente a difusão (DWI). Quando o córtex apresenta um padrão característico em forma de faixa, o achado é chamado de sinal da fita cortical (cortical ribboning).

A ressonância também é importante para excluir outras causas de deterioração neurológica rápida.

RT-QuIC no líquor

O RT-QuIC é atualmente um dos exames mais importantes para o diagnóstico das doenças priônicas. Ele é realizado no líquido cefalorraquidiano (líquor) e detecta a capacidade da proteína priônica anormal de induzir proteínas normais a adquirirem a mesma conformação defeituosa.

O exame apresenta especificidade muito alta, próxima de 98 a 100%. Portanto, um resultado positivo em um paciente com quadro clínico compatível é fortemente sugestivo de doença priônica.

Um resultado negativo, porém, não exclui completamente a DCJ.

Proteína 14-3-3 e tau no líquor

As proteínas 14-3-3 e tau total também podem estar aumentadas no líquor dos pacientes com DCJ.

Ao contrário do RT-QuIC, porém, essas proteínas não são marcadores específicos da atividade priônica. Elas indicam lesão rápida dos neurônios e também podem estar aumentadas em outras doenças neurológicas.

Por isso, seus resultados precisam ser interpretados em conjunto com o quadro clínico, a ressonância e o RT-QuIC.

Eletroencefalograma

O eletroencefalograma (EEG) pode mostrar um padrão característico chamado complexos periódicos de ondas agudas.

Esse achado reforça a suspeita de DCJ, mas não está presente em todos os pacientes. Atualmente, o EEG tem papel complementar, pois a ressonância magnética e o RT-QuIC são mais importantes para o diagnóstico.

Teste genético

Quando existe suspeita de doença priônica genética, pode ser feita a análise do gene PRNP por uma amostra de sangue.

O teste é particularmente relevante quando há:

  • Familiares com DCJ ou outra doença priônica.
  • Idade incomum de aparecimento.
  • Apresentação clínica compatível com uma síndrome priônica hereditária.

Como o resultado pode ter implicações importantes para filhos, irmãos e outros familiares, o aconselhamento genético é recomendado.

Biópsia cerebral e diagnóstico definitivo

O diagnóstico definitivo da DCJ pode ser estabelecido pela análise do tecido cerebral, demonstrando as alterações neuropatológicas características e a presença da proteína priônica anormal.

Na prática, isso é realizado principalmente por meio de autópsia.

A biópsia cerebral não costuma ser feita apenas para confirmar DCJ, pois é um procedimento invasivo, pode apresentar problemas de amostragem e exige cuidados especiais com o material e os instrumentos utilizados.

Ela pode ser considerada em situações selecionadas quando ainda existe suspeita relevante de outra doença potencialmente tratável que somente possa ser diagnosticada pela análise do tecido cerebral.

Atualmente, graças à combinação de quadro clínico, ressonância magnética e RT-QuIC, muitos pacientes podem receber em vida um diagnóstico de DCJ provável com elevado grau de confiança, mesmo sem biópsia cerebral.

Tratamento da doença de Creutzfeldt-Jakob

Até o momento, não existe tratamento comprovado capaz de curar a doença de Creutzfeldt-Jakob ou interromper sua progressão.

Diversas substâncias já foram estudadas, mas nenhuma demonstrou benefício clínico suficiente para modificar a evolução da doença.

Por isso, o tratamento é predominantemente sintomático e de suporte.

Dependendo das manifestações, pode ser necessário tratar:

  • Mioclonias.
  • Convulsões.
  • Ansiedade ou agitação.
  • Alterações do sono.
  • Dor.
  • Dificuldades para alimentação e deglutição.

Conforme o paciente perde mobilidade e autonomia, tornam-se importantes medidas como:

  • Prevenção de quedas.
  • Fisioterapia e cuidados de posicionamento.
  • Prevenção de lesões por pressão.
  • Avaliação da deglutição.
  • Adaptação da alimentação.
  • Prevenção de aspiração.
  • Cuidados de higiene e conforto.

Como a doença progride rapidamente e não possui terapia curativa, cuidados paliativos devem ser integrados precocemente, e não apenas nas fases finais.

Também é importante discutir com o paciente e a família, enquanto ainda for possível, questões como objetivos de tratamento, alimentação artificial, hospitalizações e medidas de suporte avançado.

Pesquisas em andamento

Uma das estratégias atualmente em investigação é reduzir a quantidade de proteína priônica normal produzida pelo organismo.

A lógica é simples: se a proteína PrP normal é o “material” utilizado pelo príon anormal para produzir novas moléculas alteradas, reduzir sua produção pode dificultar a propagação da doença.

Entre as abordagens estudadas estão oligonucleotídeos antissenso, moléculas desenvolvidas para reduzir a produção da proteína PrP.

Em 2026, estudos clínicos em humanos ainda estão avaliando a segurança e os efeitos biológicos dessa estratégia.

Portanto, apesar de ser uma área promissora de pesquisa, ainda não existe comprovação de que esses tratamentos consigam retardar a progressão da DCJ na prática clínica.

Prognóstico e sobrevida

A doença de Creutzfeldt-Jakob é, atualmente, fatal em praticamente todos os casos.

Na forma esporádica, que é a mais frequente, a deterioração costuma ser muito rápida.

A mediana entre o início dos sintomas e o óbito é de aproximadamente 4 a 5 meses, e mais de 90% dos pacientes falecem dentro do primeiro ano de doença.

Isso não significa que todos os pacientes tenham exatamente a mesma evolução. Existem subtipos moleculares da DCJ esporádica com velocidades diferentes de progressão, e alguns indivíduos podem sobreviver por períodos mais prolongados.

Nas formas genéticas, a duração também varia bastante conforme a mutação e o tipo de doença priônica produzido.

Na variante da DCJ, a evolução costuma ser mais longa. A duração mediana da doença descrita nos casos de vDCJ é de aproximadamente 13 a 14 meses.

É importante não confundir duração da doença com período de incubação.

Nas formas adquiridas, o príon pode permanecer no organismo por muitos anos ou até décadas antes do aparecimento dos primeiros sintomas. Entretanto, uma vez iniciado o quadro neurológico da DCJ clássica, a deterioração geralmente ocorre ao longo de poucos meses.

Nas fases finais, o paciente costuma apresentar grave comprometimento cognitivo e motor, dificuldade para engolir, imobilidade e dependência completa para os cuidados básicos.

Complicações da imobilidade e da perda da capacidade de deglutição, como infecções respiratórias e pneumonia por aspiração, são causas frequentes de deterioração clínica terminal.


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