Hepatite C – Sintomas, transmissão e tratamento

A hepatite C é uma das principais causas de cirrose no mundo e até há pouco tempo não tinha tratamento satisfatório. Felizmente, nos últimos anos, novos e revolucionários medicamentos chegaram ao mercado, trazendo cura para mais de 90% dos pacientes tratados.

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O que é hepatite C?

Hepatite é um termo que significa inflamação do fígado. Diversas situações podem causar hepatite, incluindo medicamentos, toxinas, abuso de álcool, doenças autoimunes e diversos tipos de infecções, incluindo as hepatites virais, que são as causas mais comuns.

A hepatite C é um tipo específico de hepatite viral, provocada pelo vírus HCV (vírus da hepatite C).

Apesar de terem nomes parecidos, serem provocadas por vírus e atacarem o fígado, as hepatites A, B, C, D e E são doenças diferentes, causadas por vírus diferentes, com formas de transmissão e evolução clínica distintas.

Se você quiser saber sobre as diversas formas de hepatites existentes, acesse os seguintes artigos:

A infecção pela hepatite C ocorre habitualmente em duas fases: infecção aguda e infecção crônica.

A infecção aguda costuma ser assintomática na maioria dos pacientes. Esta fase pode durar até seis meses e apresenta níveis elevados do vírus C no sangue. A fase aguda termina quando os anticorpos produzidos pelo sistema imunológico conseguem controlar a multiplicação do vírus.

Apesar da ação do sistema imunológico, somente cerca de 15 a 20% dos pacientes conseguem ficar efetivamente curados do vírus. Os outros cerca de 85% evoluem para hepatite C crônica. Segundo a organização mundial de saúde existem cerca de 71 milhões de pessoas cronicamente infectadas pelo vírus C em todo o mundo.

A hepatite C crônica é uma infecção que pode permanecer silenciosa até fases avançadas. A destruição do fígado ocorre lentamente, e, às vezes, os sintomas só surgem 20 anos depois da contaminação. Isso explica por que boa parte dos pacientes infectados pelo vírus C não sabem que estão doentes. Até 1/3 dos pacientes com hepatite crônica acabam desenvolvendo cirrose hepática.

Transmissão da hepatite C

O principal meio de transmissão da hepatite C é através da exposição a sangue contaminado.

Até o final da década de 1980 não sabíamos que o vírus da hepatite C existia. Por isso, as bolsas para transfusão sanguínea não eram testadas para esse vírus. Durante muito tempo a hepatite C era chamada de hepatite não-A não-B. Sabíamos que existia um tipo de hepatite diferente das conhecidas hepatite A e hepatite B, porém a causa e a forma de transmissão eram desconhecidas.

As pessoas recebiam transfusões sanguíneas, eram infectadas pelo vírus C e nem elas nem os médicos tinham conhecimento disto. O resultado é que hoje encontramos milhares de pacientes portadores de hepatite C em fase avançada da doença, que foram inadvertidamente contaminados há 2 ou 3 décadas. Estima-se que até 10% das bolsas de sangue durante a década de 1980 estavam contaminadas com hepatite C.

A partir do descobrimento do vírus HCV em 1989, os doadores de sangue passaram a ser testados para hepatite C. Desde então, a transfusão sanguínea deixou de ser a principal via de transmissão. Atualmente, a taxa de contaminação pela hepatite C através de transfusão de sangue é de apenas 1 caso para cada 1.9 milhões de transfusões. Portanto, a quase totalidade dos casos de hepatite C de origem transfusional ainda vistos hoje em dia são casos antigos, que tiveram origem nas décadas passadas.

Nos dias atuais, a principal via de contaminação é pelo uso de drogas injetáveis com compartilhamento de agulhas entre os usuários. Em vários países, mais de 60% dos usuários de drogas injetáveis estão contaminados pelo vírus.Em alguns locais, a taxa de infecção nessa população é maior que 80%.

A hepatite C também pode ser transmitida pela via sexual, apesar do risco ser bem mais baixo que o da hepatite B, HIV ou outras doenças sexualmente transmissíveis.

Se pela via sexual o HIV é mais contagioso, pelo contato sanguíneo, o vírus C é bem mais perigoso, a ponto de orientarmos os familiares a não partilhar escova de dentes ou aparelhos de barbear pelo risco de transmissão com pequenos volumes de sangue.

Outras vias de transmissão menos comuns são através do transplante de órgãos de doadores infectados, hemodiálise, acidentes em ambientes hospitalares, tatuagem, body piercing e transmissão perinatal.

Sintomas da hepatite C

Hepatite c aguda

Como já foi citado, a hepatite C costuma ser uma infecção assintomática por muitos anos. Todavia, até 20% dos pacientes apresentam um quadro de hepatite aguda, que ocorre de 1 a 3 meses após a contaminação.

Os sintomas da hepatite C aguda incluem mal-estar, náuseas e vômitos, icterícia (pele amarelada), comichão pelo corpo, cansaço e dor abdominal na região do fígado (abaixo das costelas à direita). Os sintomas podem durar de 2 a 12 semanas.

Icterícia
Icterícia – pele amarelada

Nas análises de sangue pode-se detectar aumento das enzimas hepáticas (TGO e TGP) e bilirrubinas.

É importante lembrar que 70% dos pacientes não apresentam nenhum sintoma após a contaminação e assim permanecem durante anos.

Hepatite C crônica

O grande risco da hepatite C surge quando ela se torna uma infecção crônica. Depois da contaminação, sintomática ou não, apenas 20% dos pacientes conseguem se livrar espontaneamente do vírus C. Os outros 80% permanecem infectados pelo resto da vida. São estes que sofrerão as complicações da hepatite C.

Consideramos que um paciente tem infecção crônica se o vírus C ainda estiver presente no seu organismo após 6 meses da contaminação. Se após esse tempo o sistema imunológico não conseguiu se livrar do vírus, a chance de cura espontânea posterior é muito baixa.

Os sintomas da hepatite C crônica começam a aparecer, em média, após 20 a 30 anos de contaminação, quando 30 a 50% dos pacientes desenvolverão sinais de cirrose hepática. Dentre os que desenvolvem cirrose, alguns ainda terão outra complicação, que é o hepatocarcinoma (câncer do fígado).

Os sintomas da hepatite C crônica, portanto, são causados pelo desenvolvimento de cirrose e pela consequente falência hepática. Os mais comuns são:

  • Icterícia.
  • Ascite.
  • Urina escura.
  • Fezes claras.
  • Coceira pelo corpo.
  • Circulação colateral (vasos sanguíneos mais visíveis através da pele, principalmente no abdômen e tronco).
  • Perda de peso.
  • Perda do apetite.

O restantes 50% que não evoluem para cirrose mantém-se com o vírus C de forma assintomática por mais de 30 anos. Não sabemos ainda por que alguns pacientes com hepatite C crônica desenvolvem cirrose, enquanto outros permanecem assintomáticos pelo resto da vida.

Alguns fatores parecem favorecer a evolução para cirrose, entre eles:

Outras complicações

Além da cirrose e do hepatocarcinoma, os pacientes com hepatite C crônica também apresentam um maior risco de desenvolver as seguintes complicações:

Diagnóstico da hepatite C

Todo paciente com elevação das enzimas hepáticas sem explicação aparente, usuários de drogas endovenosas, pessoas com antecedentes de transfusão de sangue antes da década de 1990, profissionais de saúde e parceiros(as) de pacientes contaminados com o vírus C devem fazer exames para pesquisar a presença de hepatite C.

O diagnóstico da hepatite C é feito da seguinte maneira:

Inicia-se com a pesquisa de anticorpos com a sorologia pelo método ELISA. Se o teste for negativo, descarta-se a doença. Se for positivo, uma segunda sorologia chamada de RIBA-2 ou RIBA-3 é feita para se confirmar o diagnóstico. Se o RIBA for negativo, isso significa que o ELISA foi um falso positivo e descarta-se a doença. Se o RIBA também vier positivo, deve-se, então, fazer a pesquisa direta pelo vírus através do HCV RNA. Este último método não só é capaz de identificar o vírus C, como também pode fornecer a carga viral no sangue.

Um HCV RNA positivo confirma o diagnóstico de hepatite C, enquanto que um HCV RNA negativo (com ELISA e RIBA positivos) indica aqueles poucos casos onde há cura espontânea da infecção.

Genótipo da hepatite C

Como existem variações genéticas entre o vírus C, uma vez diagnosticada hepatite C, é importante saber qual genótipo é o responsável pela infecção. Essa informação é importante devido ao fato do tratamento ser diferente para cada genótipo do vírus.

Existem 6 genótipos do vírus da hepatite C, que são classificados pela numeração de 1 a 6. No Brasil, quase todos os casos são provocados pelos genótipos 1, 2 ou 3, sendo o genótipo 1 responsável por mais de 60% dos casos.

Tratamento da hepatite C

Até há alguns anos, o tratamento da hepatite tinha como objetivo evitar a progressão da infecção para cirrose e falência hepática. Como a maioria dos pacientes não evoluía para este estado, e os medicamentos apresentam elevada taxa de efeitos colaterais, nem todos os portadores do vírus C acabavam tendo indicação para receberem tratamento.

Com a introdução de uma nova gama de antivirais, chamadas de DAA (direct-acting antiviral), tais como o Ledipasvir, Sofosbuvir, Ombitasvir, Paritaprevir, Ritonavir, Dasabuvir, Velpatasvir e Simeprevir, o tratamento da hepatite C sofreu uma revolução. O tratamento com essas novas drogas acarreta em elevada taxa de cura da hepatite C, com um perfil de efeitos colaterais muito mais benigno que os tratamentos antigos, à base de Interferon. Por isso, atualmente, qualquer paciente portador de hepatite C crônica pode ser tratado.

De forma resumida, o tratamento da hepatite C costuma ser feito da seguinte com os seguintes fármacos:

  • Hepatite C  genótipo 1 – Ledipasvir-Sofosbuvir por 12 semanas; ou Sofosbuvir-Velpatasvir por 12 semanas; ou Glecaprevir-Pibrentasvir por 8 semanas (12 semanas se houver cirrose).
  • Hepatite C  genótipo 2 – Sofosbuvir-Velpatasvir por 12 semanas; ou Glecaprevir-Pibrentasvir por 8 semanas (12 semanas se houver cirrose).
  • Hepatite C  genótipo 3 – Sofosbuvir-Velpatasvir por 12 semanas; ou Glecaprevir-Pibrentasvir por 8 semanas (12 semanas se houver cirrose).

O objetivo do tratamento é eliminar o HCV da circulação. É considerada cura da hepatite C quando o vírus continua indetectável no sangue 6 meses após o fim do tratamento. Atualmente, a chance de cura do vírus hepatite C é superior a 95%, principalmente para aqueles pacientes que nunca foram tratados com o regime anterior, que continha Interferon. Porém, mesmo os pacientes mais antigos, que foram tratados e não tiveram resposta aos tratamentos anteriores, ainda têm grande chance de cura com o novo esquema de antivirais.

Alguns pontos importantes:

  • Os únicos tratamentos cientificamente comprovados para hepatite, são os descritos acima. Tenham cuidado com os chamados tratamentos naturais, pois além de não funcionarem, podem piorar o quadro, já que muitas dessas ervas são hepatotóxicas.
  • Não existe dieta específica para hepatite C, a não ser evitar o consumo de bebidas alcoólicas.
  • Exercícios físicos não ajudam nem atrapalham no tratamento do vírus.
  • Ao contrário do que ocorre na hepatite B, não existe vacina para a hepatite C.

Referências


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