ÁLCOOL NA GRAVIDEZ – Qual é o Limite Permitido?

Saiba se uma taça de champanhe no Réveillon ou um copo de vinho no aniversário pode trazer algum mal ao seu bebê.

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Qual é a quantidade de álcool que uma grávida pode beber durante a gestação que é considerada segura para o feto?

Apesar da pergunta acima ser bastante simples, a sua resposta não poderia ser mais difícil.

Se você está grávida e resolveu recorrer à Internet para saber se podia consumir um único copo de vinho no jantar do seu aniversário provavelmente deve ter ficado mais confusa do que esclarecida. P

Se você foi atrás da opinião de amigas que já estiveram grávidas, o resultado também não deve ter sido muito diferente. Algumas vão lhe censurar só pelo fato de você ter pensado nisso, enquanto outras vão dizer que elas mesmos beberam durante a gravidez e nada de mau aconteceu.

Para piorar a situação, até os médicos podem fornecer conselhos contraditórios. Enquanto todos concordam que beber em excesso é sabidamente danoso, o mesmo consenso não existe quando falamos de um consumo leve ou ocasional de álcool. Alguns médicos proíbem totalmente o consumo de álcool na gravidez, enquanto outros dizem que é improvável que uma taça de vinho ocasional possa trazer algum mal para o seu bebê.

Mas, afinal, quem está certo?

Neste artigo, nós vamos explicar quais são os efeitos deletérios do álcool sobre o feto, o que os estudos dizem sobre a quantidade segura de álcool na gravidez e quais são os argumentos dos grupos que defendem a abstinência total e dos grupos que defendem que um consumo leve ou ocasional pode ser permitido.

Definições sobre o consumo de álcool

Vamos começar o nosso texto definindo o que é considerado consumo baixo ou alto de álcool na população feminina em geral.

A quantidade de álcool puro ingerida é mais importante que o tipo de bebida alcoólica consumida.

Consideramos um “drink padrão” qualquer quantidade de bebida que contenha cerca de 14 gramas de álcool puro. Isso equivale a:

  • Uma lata de 350 ml de cerveja com teor alcoólico de 5%.
  • Uma taça de 150 ml de vinho com teor alcoólico de 12%.
  • Uma dose de 45 ml de um uísque ou qualquer outra bebida destilada com teor alcoólico de 40%.

Chamamos de etilista ocasional as pessoas que bebem menos de 12 drinks por ano.

Para as mulheres que não estão grávidas, consideramos etilismo seguro o consumo de até 5 drinks por semana, sendo não mais do que 1 drink por dia por no máximo 4 dias consecutivos.

Isso significa que o consumo diário de uma taça de vinho ao jantar já é classificado como uso moderado a alto de álcool e ultrapassa o limite do que é considerado seguro, mesmo para mulheres não grávidas.

Obs: dependendo da fonte e do país pesquisados, os limites descritos acima podem variar um pouco para mais ou para menos.

Explicamos os padrões de consumo de álcool e os seus malefícios com mais detalhes nos seguintes artigos:

Efeitos do álcool na gravidez

Antes de discutimos a quantidade de álcool segura na gravidez, vamos falar um pouco sobre os conhecidos efeitos do álcool sobre a gestação e a saúde do feto.

O álcool é uma substância que atravessa a barreira placentária livremente. Isso significa que o bebê terá sempre a mesma concentração sanguínea de álcool que a sua mãe. Há, porém, um agravante: ao contrário do que ocorre com a mãe, o imaturo fígado do feto ainda não é capaz de processar o álcool circulante.

Já há décadas sabemos que o álcool é uma droga com potencial teratogênico, ou seja, capaz de provocar malformações nos fetos. Alguns estudos mostram que mesmos quantidades mínimas álcool no sangue na mãe são capazes de provocar alterações nas células do feto, principalmente nos neurônios.

Desordens do espectro alcoólico fetal e síndrome alcoólica fetal 

As desordens do espectro alcoólico fetal (DEAF) são um grupo de alterações que podem surgir em filhos de mães que consumiram álcool na gravidez. A forma mais grave é a chamada síndrome alcoólica fetal (SAF), que pode provocar malformações, anomalias do sistema nervoso central, atraso no crescimento e prejuízos no desenvolvimento do bebê.

Em geral, quanto maior e mais frequente for o consumo de bebidas alcoólicas, maior é o risco do filho desenvolver DEAF e SAF.

Estima-se que cerca de 3 em cada 1000 bebês nascidos tenham síndrome alcoólica fetal. A incidência de DEAF é mais difícil de ser estimada, pois muitos dos seus sinais e sintomas podem não estar presentes no momento do nascimento.

As desordens do espectro alcoólico fetal englobam não só as malformações fetais, mas também alterações menos óbvias no desenvolvimento intelectual do filho, que podem só se tornar aparentes no final da infância ou início da adolescência.

Entre os sinais e sintomas mais comuns das desordens do espectro alcoólico fetal podemos citar:

  • Malformações nos ossos da face.
  • Microcefalia (crânio de tamanho pequeno).
  • Baixa estatura.
  • Baixo peso corporal.
  • Déficits de coordenação motora.
  • Hiperatividade.
  • Déficit de atenção.
  • Mau desempenho escolar.
  • Dificuldade de aprendizagem.
  • Atrasos no desenvolvimento da fala.
  • Baixo QI.
  • Problemas de visão e audição.
  • Malformações em coração, ossos ou rins.
  • Morte súbita do recém-nascido (leia: COMO EVITAR A MORTE SÚBITA EM BEBÊS).

Como já referido, algumas das alterações no desenvolvimento intelectual da criança podem só se tornar aparentes mais tardiamente, por volta dos 10 anos de idade.

Para mães que beberam durante a gravidez, ter um filho perfeito do ponto de vista estrutural e que apresente satisfatório desenvolvimento motor e intelectual nos primeiros anos de vida não é uma garantia de que o mesmo não possa vir a apresentar sinais da DEAF.

O consumo de álcool durante a gravidez também traz riscos à própria gravidez, com elevação do risco de aborto, parto prematuro e morte fetal intrauterina.

limite de álcool seguro na gravidez segundo os estudos científicos

Como já explicado no tópico anterior, sabemos que o álcool é uma droga potencialmente tóxica para o feto em formação, principalmente para o seu sistema nervoso central. Isso não há dúvida.

O que ainda encontra-se em debate é a quantidade mínima de álcool que o feto precisa ser exposto para que essas alterações surjam. E é exatamente a falta de conhecimento sobre esse valor que gera condutas discrepantes.

Muito provavelmente não há uma resposta única que se encaixe para todas as grávidas e todos os fetos. Assim como duas pessoas distintas podem beber quantidades semelhantes de álcool e apenas uma desenvolver cirrose, fetos diferentes podem ter limites de segurança diferentes em relação ao contato com o álcool.

Apesar dos diversos estudos publicados, nenhum deles ainda conseguir traçar com clareza qual é a linha que divide o consumo seguro do inseguro. Não há dados científicos para podermos definir qual é a quantidade mínima de álcool que uma grávida pode beber sem expôr o seu bebê a riscos.

Mesmo quando falamos em apenas um único drink durante toda a gravidez, não podemos fazer nenhuma afirmação, nem para o bem nem para mal. Ou seja, não há dados para dizer que uma taça de vinho apenas seja sabidamente segura ou sabidamente danosa. Nós simplesmente ainda não sabemos se é seguro ou não.

O que dizem aqueles que defendem o consumo leve de álcool na gravidez

Apesar da clara e pública posição a favor da abstinência total por parte das associações médicas de Ginecologia e Obstetrícia, ainda é possível achar médicos que autorizam suas pacientes a tomar um copo de vinho ou de cerveja de forma esporádica durante a gravidez,

O discurso deste grupo é o de que apesar de não haver um limite de segurança claramente definido, a probabilidade do consumo ocasional ou leve de álcool ser danosa é muito baixa. Segundo eles, não há evidências científicas que suportem a proibição total do álcool na gravidez.

Dois estudos, um dinamarquês e outro britânico, são frequentemente citados por aqueles que defendem essa conduta. Vamos resumi-los para que você possa entender melhor essa posição.

1) Estudo dinamarquese

Em 2012, um grupo dinamarquês publicou uma série de estudos sobre os efeitos do consumo de até 9 drinks por semanas nas fases iniciais da gravidez em cerca de 1600 grávidas.

Após 5 anos de acompanhamento dos filhos, não foi detectada nenhuma alteração relevante em relação ao QI, coordenação motora, memória, atenção ou comportamento.

Este estudo, porém, tem alguns problemas. O primeiro é o fato das crianças terem sido seguidas apenas até os 5 anos de idade. Outros estudos semelhantes já publicados mostram que no caso de consumo leve de álcool na gravidez, as consequências podem só se tornar detectáveis ao redor dos 10 anos de idade. Portanto, a falta de alterações aos 5 anos não é suficiente para atestar a segurança do álcool.

Outro problema é fato dos resultados desse estudo ainda não terem sido replicados por outros grupos. 9 drinks por semana é um consumo elevado de álcool até mesmo para mulheres não grávidas. Outros estudos já publicados com doses semelhantes de álcool mostraram resultados opostos aos desse grupo dinamarquês.

2) Estudo britânico

Um estudo publicado em Maio de 2017 no BMJ (British Medical Journal) fez uma revisão de 26 estudos anteriormente publicados sobre o assunto e concluiu que não há evidências científicas para se afirmar que o consumo de 2 drinks por semana possa ser prejudicial ao bebê.

É importante destacar que esse estudo não concluiu que 2 drinks semanais são seguros. Ele apenas mostrou que não há evidências para afirmar que não são.

O que dizem aqueles que defendem a proibição do álcool na gravidez

O número de médicos e associações internacionais de Ginecologia e Obstetrícia que defendem a abstinência total do álcool supera em muito aqueles que defendem o consumo ocasional.

Há diversos argumentos que embasam essa posição. Para que o texto não fique ainda maior do que já é, vamos selecionar apenas os argumentos que consideramos os mais relevantes.

1- Na dúvida, opte pela conduta mais sensata

Como a literatura científica não nos permite dizer se um único drink na gravidez é seguro ou inseguro, o mais sensato é optar pela conduta que, caso esteja errada, seja a que vai acarretar menos danos ao feto.

Por exemplo, se uma única taça de vinho for segura, mas a gestante optar por seguir as orientações daqueles que proíbem o consumo de álcool, nada de realmente mau vai acontecer com ela nem o seu filho. Por outro lado, se os defensores do consumo ocasional de álcool estiverem errados, a mãe poderá provocar danos neurológicos aos seu filho caso opte por consumir álcool na gravidez, mesmo que em pequenas quantidades.

Portanto, a conduta mais sensata é não arriscar, evitando o álcool de forma completa durante toda a gravidez.

2- Você deixaria o seu filho beber álcool?

O álcool atravessa facilmente a barreira placentária de forma que, após 1 hora, a concentração de álcool no sangue da mãe é a mesma que a do sangue do feto. Na pratica, isso significa que o seu feto consume a mesma quantidade de álcool que você.

Se você não daria um copo de vinho ou cerveja ao seu filho de 3 ou 4 anos, por que aceitaria dá-lo ao bebê que está na barriga?

3- Estudos mostram que quantidades mínimas de álcool influenciam na formação do feto

Existem estudos que mostram que mesmo em pequenas doses, o álcool é capaz de provocar alterações tanto a nível molecular quanto a nível de formação craniofacial do feto.

Essas alterações são pequenas e não sabemos se elas realmente trazem algum malefício a longo prazo. Mas elas são uma prova inequívoca de que mesmo em pequenas quantidades, o álcool provoca efeitos no feto em formação.

4- Mesmo com a proibição, o consumo de álcool na gravidez é alto

Mesmo com a ampla divulgação da opinião contrária dos médicos, estudos mostram que entre 20 e 30% das grávidas referem ter tomado alguma quantidade de álcool na gravidez e 3 a 5% referem ter consumido mais de 3 drinks em um só dia pelo menos uma vez durante a gestação.

Se as entidades médicas passassem a não mais proibir publicamente o consumo de álcool na gravidez, esses números, que já são altos, provavelmente iriam aumentar.

Imaginar que até metade das grávidas possam ingerir álcool, mesmo que ocasionalmente, quando não há evidências que atestem a segurança dessa conduta é algo que seria bastante preocupante e que a longo prazo poderia gerar uma epidemia de crianças com baixo desempenho escolar.

Portanto, até que surjam evidências em contrário, a conduta mais sensata é evitar completamente o consumo de álcool, inclusive para aquelas mulheres que ainda não engravidaram, mas estão tentando.

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