O Método de Ramzi Para Saber o Sexo do Bebê é Confiável?

97% de acurácia para definir o sexo do bebê com apenas 6 semanas de gravidez. Charlatanismo ou um método revolucionário?

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Querer saber precocemente qual será o sexo do bebê é algo natural e bastante justificável, já que permite que os pais possam ter tempo para escolher o nome e planejar a decoração do quarto e até do enxoval.

Mais importante ainda são os casos de casais que possuem história familiar de doenças genéticas ligadas aos cromossomos sexuais. Para estes, saber o sexo do bebê significa saber precocemente o risco do feto ter algum anormalidade genética.

Atualmente, os dois métodos mais utilizados para determinar o sexo do bebê são a ultrassonografia fetal, que possui uma taxa de acerto acima de 90% após a 18ª semana de gestação, e a sexagem fetal, que é um exame de sangue que possui taxa de acerto de 99% a partir da 10ª semana de gestação.

Explicamos esses dois métodos no seguinte artigo: COMO SABER O SEXO DO BEBÊ – É menino ou menina?

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O chamado método de Ramzi é um forma alternativa de descobrir o sexo do bebê, que tem ganhado muita popularidade, principalmente nos fóruns online de grávidas e nas redes sociais. Sua grande vantagem é supostamente conseguir definir o sexo do feto com apenas 6 semanas de gestação.

Por ser um método descrito por um suposto médico e publicado sob a forma de estudo científico, originalmente em um site especializado em Obstetrícia e Ginecologia, o método Ramzi, à primeira vista, parece ser mais confiável que outros métodos populares na Internet, como a tabela chinesa, por exemplo (leia: A TABELA CHINESA PARA SABER O SEXO DO BEBÊ FUNCIONA?).

Mas será que esse método realmente funciona?

Neste artigo, vamos fazer uma revisão crítica do método de Ramzi sob o ponto de vista científico.

O que é o método de Ramzi

O método de Ramzi foi alegadamente desenvolvido pelo Dr. Saam Ramzi Ismail e publicado no website ObGyn.net em 2011 (http://www.obgyn.net/articles/relationship-between-placental-location-and-fetal-gender-ramzi%E2%80%99s-method).

Resumindo o estudo, entre 1997 e 2007, 5376 grávidas foram submetidas a um exame de ultrassonografia fetal com 6 semanas de gravidez, 22% pela via transvaginal e 78% pela via transabdominal. Com 18 a 20 semanas, a ultrassonografia foi repetida.

O objetivo do estudo era mostrar a relação entre a posição da placenta com 6 semanas de gestação e a determinação do sexo do feto após a 18ª semana, com posterior confirmação após o nascimento do bebê.

Em 97,2% dos fetos do sexo masculino, a placenta estava implantada no lado direito do útero, enquanto que em 97,5% dos fetos do sexo feminino, a placenta estava implantada no lado esquerdo.

Portanto, segundo o autor do estudo, a determinação da posição da placenta através do exame de ultrassonografia fetal às 6 semanas de gravidez consegue prever o sexo do feto com uma acurácia maior que 97%.

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Problemas com o método de Ramzi

Apesar da publicação em formato de estudo científico em website na área de Ginecologia e Obstetrícia, o método de Ramzi está muito longe de preencher os requisitos para ser considerado um método cientificamente validado.

O tal estudo em questão tem diversos problemas, mas para sermos econômicos, vou focar apenas nos 3 mais importantes.

O suposto artigo científico sobre o método não pode ser reconhecido como estudo científico por vários motivos. O primeiro deles está no fato do referido Website não ser uma fonte reconhecida para publicações científicas, muito porque os estudos ali publicados não passam pelo crivo acadêmico da chamada revisão por pares (peer-reviewed).

Isso significa que para ser publicado, o estudo não precisou passar por nenhuma avaliação criteriosa de outros especialistas no assunto e/ou membros da comunidade científica. Isso é o princípio básico dos estudos científicos.

E é exatamente por isso que o estudo em questão também não está catalogado em nenhuma base de dados científica, como o Pubmed, por exemplo, não podendo ser encontrado por nenhum pesquisador sério que esteja interessado no assunto.

Outro problema grave é a falta de descrição sobre o(s) autor(es) do artigo. O estudo em momento algum é assinado e não sabemos quais são as credenciais do autor. A identidade do Dr. Saam Ramzi Ismail é supostamente revelada apenas em outros sites, nenhum deles de cunho científico.

Portanto, não sabemos nem sequer se o Dr. Ismail é mesmo o autor do estudo nem quais são as suas formações acadêmicas que lhe dão autoridade para escrever sobre o assunto. Também não é possível encontrar mais nenhum outro artigo científico publicado em nome de Saam Ramzi Ismail.

O terceiro problema grave reside no fato do suposto estudo ser alegadamente multicêntrico, mas não haver referência alguma sobre quais centros seriam esses. O anônimo autor do estudo refere que o mesmo foi aprovado pela comissão de ética da Universidade de Brunei, um pequeno país do Sudeste Asiático, o que nos leva a imaginar que tenha sido lá que o estudo foi conduzido.

Também chama a atenção o fato do autor do estudo dedicar o mesmo àqueles que acreditam no criacionismo e no design inteligente, o que é um gigantesco sinal de alerta para quem acha que estudos científicos devem ser pautados única e somente pelo método científico e não por questões teológicas.

Validação científica do método de Ramzi

Um dos princípios básicos do método científico é a possibilidade de reprodução de resultados por grupos independentes. Se uma determinada hipótese for real, ela poderá ser replicada e confirmada por vários outros estudos independentes.

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No caso do método de Ramzi, isso não existe. Não há nenhum outro estudo científico que tenha conseguido mostrar essa relação entre a posição da placenta e o sexo fetal.

O que existe é exatamente o oposto, pois um estudo australiano publicado em 2010 no jornal Ultrasound in Obstetrics & Gynecology chegou à conclusão inversa. Não houve nenhuma relação entre a posição da placenta e o sexo do bebê. Neste estudo, os resultados estavam próximos de 50% para menino e 50% para menina, tanto para placenta à esquerda quanto à direita, que é exatamente o resultado que se espera de um teste de sexagem fetal que não funciona.

Além disso, nos vários outros artigos científicos já publicados que visavam estudar a posição da placenta não há qualquer menção sobre a existência de uma relação com o sexo do feto.

Conclusão

Do ponto de vista científico, o método de Ramzi não tem validação nenhuma. Isso explica o porquê de várias organizações obstétricas internacionais não reconhecerem o método como forma confiável de identificar o sexo do feto.

O método de Ramzi deve ser encarado como uma brincadeira, assim como vários outros métodos não científicos para determinação do sexo do bebê, como a tabela chinesa, o formato da barriga, o teste da aliança e vários outros.

Cabe aqui lembrar que todo método não científico para descobrir o sexo de bebê tem uma taxa de acerto próxima de 50%, afinal, só existem duas opções: menino ou menina. Isso significa que se 10 mil mulheres fizerem o teste, em cerca de 5000 delas o resultado vai ser correto.

Portanto, não se deixe impressionar pelos relatos de mães nos fóruns de Internet e nas redes sociais, que juram que o método é confiável porque ele funcionou com elas. Por uma simples questão estatística, quanto mais grávidas fizerem o método de Ramzi, maior será o número de depoimentos na Internet dizendo que o teste funcionou.

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1 comentário
  1. Andresa

    Realmente muito bom o artigo. É bom encontrar informações confiáveis a respeito desse tema, pois como havia dito anteriormente, até então não tinha encontrado nada. Informei na minha rede social de gestante – Baby Center sobre esse artigo, algumas mães já leram e acharam interessantíssimo! Parabéns pela matéria.

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