Ménière

A doença de Ménière, chamada também de hidropsia endolinfática, é um distúrbio do ouvido interno que causa episódios de vertigem, perda auditiva progressiva e zumbidos no ouvido.

Indivíduos na faixa dos 40 a 50 anos são os mais acometidos, mas a doença de Ménière pode ocorrer em qualquer idade, até mesmo em crianças.

Embora a doença de Ménière seja considerada uma doença crônica, já existem diversas formas de tratamento que podem ajudar a aliviar os sintomas e minimizar o impacto da doença a longo prazo.

Funcionamento do ouvido interno

Para entendermos a doença de Ménière é preciso ter, pelo menos, uma básica noção da anatomia e fisiologia do ouvido interno, local onde se encontra o labirinto, órgão responsável pela manutenção do equilíbrio.

Labirinto - ouvido interno

O labirinto é um conjunto de arcos semicirculares que possuem líquidos em seu interior chamados de endolinfa. A movimentação destes líquidos, que ocorre sempre que nos movemos ou mudamos de posição, é transformada em sinais elétricos que vão para cérebro, onde eles são interpretados de forma a identificar nossa real posição no espaço.

Através desses sinais, o cérebro consegue saber se estamos parados, em movimento de aceleração ou desaceleração, subindo ou descendo, em linha reta ou fazendo curva, de lado, em pé, deitado, etc. Graças a correta interpretação dos dados obtidos através da movimentação da endolinfa é que conseguimos nos manter sempre em equilíbrio, mesmo de olhos fechados.

O que é a Doença de Ménière?

A doença de Ménière surge quando, por motivos ainda não bem elucidados, ocorre um aumento do volume de endolinfa dentro do labirinto, provocando uma distensão deste compartimento por aumento da pressão interna.

Infecções, traumas cranianos, enxaqueca, alterações do sistema imunológico, variações anatômicas do ouvido interno ou predisposição genética são algumas das alterações que podem levar ao aumento da pressão endolinfática.

Independentemente da causa, essa alteração da pressão interna do ouvido faz com que os sinais enviados ao cérebro tornem-se mais imprecisos, o que justifica a ocorrência de sintomas como a tontura e o desequilíbrio.

Os termos doença de Ménière e síndrome de Ménière são frequentemente usados como sinônimos. Na verdade, há uma pequena diferença. O termo síndrome de Ménière é mais corretamente empregado quando a causa do aumento da pressão dentro do labirinto é conhecida, como, por exemplo, nos casos que surgem após um traumatismo craniano. Já o termo doença de Ménière deve ser usado preferencialmente quando o aumento da pressão endolinfática surge sem causa identificável.

Um em cada dez pacientes que se queixam de sintomas de vertigem tem doença ou síndrome de Ménière.

A vertigem é um tipo de específico de tontura que provoca a sensação do ambiente ao seu redor estar girando. A tontura rotatória da vertigem é semelhante àquela que sentimos quando giramos em nosso próprio eixo várias vezes e depois paramos subitamente.

Se você quiser ler sobre outras causas comuns de tonturas ou vertigens, acesse os links abaixo:

Sintomas da síndrome de Ménière

Os principais sintomas da doença de Ménière são:

  • Vertigem.
  • Diminuição da audição.
  • Zumbido.
  • Sensação de ouvido entupido.

Os sintomas da doença de Ménière são intermitentes, ou seja, vão e voltam com o tempo. Às vezes, o período de remissão dura vários meses. Em geral, apenas um dos ouvidos é acometido, mas o acometimento bilateral não é impossível.

Durante as crises, os episódios de vertigem podem durar entre 20 minutos até 24 horas. Náuseas e vômitos são muito frequentes na fase aguda da tontura. No momento da crise, o paciente fica incapacitado, pois além das náuseas intensas, ele apresenta também grande dificuldade de se manter equilibrado. Essa sensação de desequilíbrio pode ainda permanecer por mais alguns dias, em intensidade menor, após a resolução da vertigem.

A perda de audição é flutuante, com alternância entre períodos de agravamento e melhora espontânea. Sons de baixa frequência são, inicialmente, os mais afetados.  Com o passar do tempo, porém, a cada crise, o paciente perde de forma permanente um pouco da sua audição. Ao longo de 10 anos de doença isso pode resultar em relevante perda auditiva para todas as frequências de sons.

Apesar de chamarmos de zumbido, o que o paciente com doença de Ménière ouve, na maioria dos casos, não é um som agudo, mas sim uma sensação parecida com aquele barulho de mar que ouvimos quando colocamos uma concha grande no ouvido. Por isso, os termos acufeno ou tinnitus são mais adequados para descrever o “zumbido” que a doença de Ménière provoca. O tinnitus pode ser contínuo ou intermitente. Com o tempo, os pacientes que apresentam acufeno podem notar que os sons altos tornam-se distorcidos.

A gravidade da doença de Ménière varia de caso a caso. Em alguns, as vertigens são violentes, mantendo o paciente o dia inteiro de cama e com vários episódios de vômitos. Em outros , o quadro pode ser leve, causando incômodo, mas não incapacitação.

As crises podem ser desencadeadas por estresse, ciclo menstrual, cigarro ou alterações na dieta. Antes das crises de vertigem surgirem, é comum o indivíduo sentir uma sensação de ouvido entupido. Com o passar dos anos, o paciente pode aprender a reconhecer uma crise se aproximando.

O fato da vertigem ser intensa não significa obrigatoriamente que o tinnitus e a perda auditiva também serão. Principalmente nos primeiros anos de doença, a apresentação do quadro varia muito de um indivíduo para o outro.

Em muitos casos, a doença de Ménière cura-se sozinha. Após 8 anos, mais de 70% dos pacientes encontram-se definitivamente livre dos sintomas. O problema é que, após tantos anos, muito acabam por desenvolver perdas parciais, mas permanentes, da audição e do equilíbrio.

Diagnóstico da doença de Ménière

Não existe um exame ou teste específico para se diagnosticar a doença de Ménière. Em geral, o diagnóstico é feito através do exame físico e da história clínica do paciente. Às vezes, o paciente permanece com graus variáveis de sintomas auditivos e tontura por até 3 anos antes de conseguir encontrar um médico que estabeleça o diagnóstico correto.

Os critérios diagnósticos propostos pela Academia Americana de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço são atualmente os mais usados para definição do diagnóstico da doença de Ménière. São eles:

  • História de pelo menos 2 episódios de vertigem com duração mínima de 20 minutos.
  • Confirmação de perda auditiva através de um exame audiométrico.
  • Presença de tinnitus.

Além desses critérios, também é importante descartar doenças que possam provocar um quadro clínico parecido, como esclerose múltipla, neuroma do acústico, diabetes mellitus, doenças da tireoide e outras doenças do ouvido interno.

Tratamento da síndrome de Ménière

Não existe cura para a doença de Ménière, mas há tratamento efetivo para os sintomas na maioria dos casos.

Em geral, os objetivos do tratamento da síndrome de Ménière são:

– Reduzir a frequência e a gravidade dos ataques de vertigem.
– Aliviar sintomas crônicos, como os zumbido e os problemas de equilíbrio.
– Tentar impedir a progressão da doença, especialmente a perda de audição e o desequilíbrio.

Ataques de vertigem podem ser controlados em até 95% dos pacientes, embora a perda de audição progressiva raramente responda ao tratamento. Os casos com melhores resultados costumam ser aqueles que foram encaminhados precocemente para um médico otorrinolaringologista.

Além do tratamento médico propriamente dito, algumas mudanças de hábitos de vida também são importantes. Em muitos casos, as crises da síndrome de Ménière podem ser desencadeadas por fatores como: consumo de cafeína, álcool, excesso ode sal, nicotina, estresse, reações alérgicas. Evitar esses gatilhos é essencial para o controle da doença.

Medicamentos para a síndrome de Ménière

Durante as crises, o tratamento visa melhorar a vertigem e aliviar as náuseas. Drogas como diazepam, lorazepam, meclizina, dimenidrinato, escopolamina, prometazina e proclorperazina costumam ser as mais utilizadas para esses fins.

Passada a crise, alguns medicamentos devem ser usados para controle da doença a longo prazo. Diuréticos, como a hidroclorotiazida, e o vasodilatador beta-histina são os medicamentos com melhores resultados a longo prazo.

Outros tratamento para controle da doença a longo prazo incluem:

– Terapia de reabilitação vestibular, que são exercícios específicos com o objetivo de ajudar o seu corpo a maximizar o equilíbrio.
– Uso de Aparelho auditivo para os pacientes com redução permanente da audição.
– Terapia com dispositivo Meniett, que é um aparelho usado para a aplicação de pressão positiva no ouvido médio como forma de melhorar o intercâmbio de fluidos no labirinto. Este tratamento é realizado em casa, normalmente três vezes por dia, com sessões que duram apenas 5 minutos.

Cirurgia e procedimentos destrutivos

Para os pacientes com doença de Ménière unilateral e que não tenham apresentado melhora relevante com os tratamentos descritos anteriormente, a utilização de um procedimento que cause lesão irreversível no labirinto doente é uma opção. O objetivo é fazer com que, estando um dos labirintos destruídos, o cérebro passe a utilizar apenas as informações fornecidas pelo outro ouvido, que é saudável, para manter o indivíduo equilibrado.

O procedimento destrutivo pode ser feito através da injeção de gentamicina ou dexametasona diretamente no ouvido médio.  A gentamicina é mais eficaz, mas há o risco dela agravar a perda auditiva naquele ouvido.

Nos casos graves e intratáveis, uma cirurgia para remoção do labirinto doente, chamada labirintectomia, é a opção.  Este procedimento porém, deve ser feito só em casos extremos, pois ele provoca surdez no ouvido afetado.

Uma opção menos extrema é a secção cirúrgica do nervo vestibular.  Este procedimento visa cortar o nervo que leva as informações do labirinto para o cérebro. Neste caso, a audição do ouvido afetado é preservada. O problema é que essa cirurgia é muito mais complexa e com maior taxa de complicações que a labirintectomia.

Uma forma de cirurgia não destrutiva  é a chamada descompressão do saco endolinfático. Neste procedimento, o cirurgião remove uma parte do osso mastoide, aumentado, assim, o espaço para expansão da endolinfa dentro do ouvido interno. Esse procedimento apesar de ser menos efetivo que as técnicas destruidoras, apresenta taxa de complicações muito menores. Em geral, ele é reservado para os pacientes com vertigem intratável, mas ainda com audição intacta.

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Médico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (U.F.R.J) em 2002. Especialista em Medicina Interna e Nefrologia. Títulos reconhecidos pela Faculdade do Porto, Ordem dos Médicos de Portugal e Colégio de Nefrologia Português.