Angioqueratomas - Fabry
Angioqueratomas

A doença de Fabry, também chamada de doença de Anderson-Fabry, é uma patologia hereditária rara, transmitida de modo recessivo pelo cromossoma X, o cromossoma sexual feminino. Os pacientes com doenças de Fabry apresentam problemas de saúde, pois têm uma deficiência de uma enzima chamada alfa-galactosidase A.

Neste artigo vamos explicar a doença de Fabry, abordando a sua transmissão genética, as suas causas, os sintomas e as opções de tratamento.

Genética da doença de Fabry

Todos os humanos possuem 2 cromossomas sexuais. Os homens possuem um cromossoma sexual Y e um cromossoma sexual X.  Já as mulheres possuem 2 cromossomas sexuais X e nenhum cromossoma Y.

Cada um dos cromossomas sexuais que possuímos foram transmitidos por um dos pais. Por exemplo, quando um casal tem um filho homem, isso significa que o menino recebeu o cromossoma Y do seu pai e o cromossoma X da mãe, formando, assim, o par XY. Quando o casal tem uma menina, ela recebe um cromossoma X do pai e um cromossoma X da mãe, formando o par XX. Portanto, como a mãe só é capaz de passar o cromossoma X para os seus filhos, quem “decide” o sexo da criança é sempre o cromossoma de origem paterna. Se o pai passar um Y, será um menino; se ele passar o X, será uma menina.

A doença de Fabry é uma doença transmitida por um cromossoma X defeituoso. Quando dizemos que o Fabry é uma doença transmitida de modo recessivo pelo cromossoma X, isso significa que  para a doença se manifestar nas mulheres elas precisam receber os 2 cromossomas X (um do pai e outra da mãe) com o defeito. Se um cromossoma X é saudável e o outro doente, a mulher não desenvolve a doença, pois o cromossoma saudável a protege desse defeito. Como os homens só apresentam um cromossoma X, eles não têm como ter um outro cromossoma X para protegê-lo. Portanto, basta um cromossoma X defeituoso para que ele desenvolva a doença de Fabry.

Pelo o que foi explicado até aqui, fica fácil entender porque a doença de Fabry é uma patologia que acomete muito mais os homens que as mulheres.  Também é fácil entender porque a doença nos homens é sempre herdada da mãe, uma vez que o humanos do sexo masculino obrigatoriamente recebem o cromossoma Y do pai e cromossoma X da mãe.

Seguindo esse raciocínio, podemos afirmar que os homens que possuem a doença de Fabry não são capazes de transmiti-la para seus filhos homens, ja que esses recebem apenas o seu cromossoma Y. Porém, as filhas mulheres de pais com Fabry irão obrigatoriamente receber um cromossoma X defeituoso. Porém, como já explicado, essas filhas só terão Fabry se receberem também um cromossoma X defeituoso da mãe.

Resumindo:

  • A doença de Fabry praticamente só ocorre em homens.
  • Para uma mulher ter Fabry, ela precisa que ambos os pais tenham o cromossoma X defeituoso*.
  • As mulheres costumam ser portadoras assintomáticas do cromossoma X defeituoso, pois o seu outro cromossoma X saudável a protege da doença.
  • São as mulheres portadoras assintomáticas do cromossoma X defeituoso que o transmitem o defeito para o seus filhos.

* Esse conceito tem vindo a mudar nos últimos anos, pois há casos reconhecidos de mulheres com apenas um cromossoma X defeituoso que apresentam graus distintos de manifestações clínica da doença de Fabry.

O que causa a doença de Fabry?

Como já dito no início do texto, a doença de Fabry acontece por uma deficiência de uma enzima chamada alfa-galactosidase A (alfa-gal A). Esta é uma enzima presente dentro de nossas células e responsável pela eliminação de uma substância gordurosa chamada de globotriaosilceramida (GB3 ou GL-3). Eu sei que esses nomes parecem palavrões e que isso atrapalha um pouco o entendimento do assunto, mas infelizmente é assim mesmo que eles são chamados.

Na ausência da alfa-gal A, a GB3 se acumula dentro das células, depositando-se em vários tecidos, principalmente nas paredes dos vasos sanguíneos. Por isso, a doença de Fabry faz parte de um grupo de patologias chamado de doenças de depósito.

Todos os sinais e sintomas da doença de Fabry são derivados desse acúmulo de GB3, que podem obstruir vasos vasos sanguíneos, causando isquemias e infartos de órgãos e tecidos.

Sintomas da doença de Fabry

Os sintomas da doença de Fabry costumam seguir um certa ordem de aparecimento. Os primeiros sinais surgem na infância ou início da adolescência e incluem:

– Dores nos membros, principalmente mãos e pés, causados por acometimento dos nervos do sistema nervoso periférico. Normalmente este é o primeiro sintoma e pode ser desencadeado por estresse, frio, calor ou atividades físicas extenuantes.

Angioqueratomas - Fabry
Angioqueratomas

– Lesões de pele: teleangiectasias são pequenos vasos da pele dilatados, também chamados de aranhas vasculares pelo seu formato. São comumente vistas em pessoas com varizes nas pernas (leia: VARIZES | Causas e Tratamento). Angioqueratomas são elevações puntiformes arroxadas.

Na doença de Fabry, as duas lesões costumam aparecer juntas principalmente nas coxas, quadril e em volta do umbigo.

– Outro problema comum no Fabry é o acometimento das glândulas sudoríparas, responsáveis pela produção de suor. Os doentes podem apresentar baixa taxa de transpiração (hipoidrose), elevada temperatura corporal, fadiga intensa e intolerância ao calor.

– Depósitos de GB3 nos vasos da córnea dos olhos, causando a chamada córnea verticilata também podem ser detectados com exames oftalmológicos especiais (oftalmoscopia de lâmpada de fenda).

– Sintomas gastrointestinais como dor após alimentação, náuseas e diarreia também são comuns.

Na idade adulta o paciente começa a sofrer as consequências da obstrução de vasos em órgãos nobres como rins, cérebro e coração.

1) Rins

50% dos pacientes com doença de Fabry apresentam acometimento renal. Os primeiros sinais são o aumento da produção de urina por incapacidade do rim em reter água. Depois surgem a proteinúria (leia: PROTEINÚRIA, URINA ESPUMOSA E SÍNDROME NEFRÓTICA) e finalmente insuficiência renal crônica (leia: INSUFICIÊNCIA RENAL CRÔNICA – SINTOMAS). Boa parte dos pacientes acaba por necessitar de hemodiálise.

2) Coração

O envolvimento cardíaco costuma se dar na forma de insuficiência cardíaca (leia: INSUFICIÊNCIA CARDÍACA – CAUSAS E SINTOMAS), arritmias cardíacas (leia: PALPITAÇÕES, TAQUICARDIA E ARRITMIAS CARDÍACAS), hipertrofia do ventrículo esquerdo e isquemia do miocárdio (leia: SINTOMAS DO INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO E ANGINA).

Teleangiectasias
Teleangiectasias

3) Cérebro

O acometimento do sistema nervoso central pode se dar através de ataques isquêmicos transitórios ou AVCs (leia: ENTENDA O AVC – ACIDENTE VASCULAR CEREBRAL), tonturas, vertigens e cefaléias (leia: DOR DE CABEÇA – ENXAQUECA, CEFALÉIA TENSIONAL E SINAIS DE GRAVIDADE).

Doença de Fabry nas mulheres

A maioria das mulheres é portadora de apenas um cromossoma X defeituoso, e, portanto, apresenta poucos ou nenhum sintoma da doença de Fabry. Porém , por fatores ainda não bem conhecidos, existe um pequeno grupo que desenvolve a doença tal como os homens.

Diagnóstico da doença de Fabry

Por ser uma doença rara e pouco conhecida, inclusive entre os médicos, muitas vezes os pacientes precisam esperar anos entre os primeiros sintomas e o diagnóstico definitivo. Quando há história familiar, o diagnóstico sai mais facilmente, pois a própria família já sugere a hipótese da doença ao médico.

A tríade de alterações renais + angioqueratomas + dor nos membros em crianças ou jovens do sexo masculino, deve sempre levantar a suspeita de doença de Fabry.

O diagnóstico pode ser confirmado através da dosagem da enzima alfa-galactosidase A. A maioria dos pacientes apresentam níveis indetectáveis ou muito reduzidos.

A biópsia de pele ou do rim pode fornecer o diagnósticos naqueles casos atípicos, onde o médico não pensa inicialmente na doença de Fabry como diagnóstico diferencial.

As mulheres portadoras do gene da doença podem ser assintomáticas e ter níveis de alfa-gal A normais. Nestes casos apenas testes genéticos podem confirmar se a mesma possui o gene da doença, sendo passível de transmissão para seus filhos. A análise genética ainda é feita em pouquíssimos laboratórios.

Tratamento da doença de Fabry

A doença de Fabry não tem cura. Porém, já existe uma forma sintética da enzima alfa-gal A para administração. As duas marcas atualmente comercializadas são a Replagal® e a Fabrazyme®.

Atualmente a expectativa de vida média está ao redor dos 50 anos. Os medicamentos são muito recentes e ainda não houve tempo para se comprovar diminuição da mortalidade apesar das evidências de que há redução dos depósitos de GB3 e retardamento da perda de função renal.

Quanto mais cedo for iniciado o medicamento, melhores são os resultados. O tratamento é para vida toda.

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Médico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (U.F.R.J) em 2002. Especialista em Medicina Interna e Nefrologia. Títulos reconhecidos pela Faculdade do Porto, Ordem dos Médicos de Portugal e Colégio de Nefrologia Português.