EMBOLIA PULMONAR | Sintomas e tratamento


A embolia pulmonar, também chamada de tromboembolismo pulmonar (TEP), é um  quadro grave que ocorre habitualmente quando um trombo (coágulo) localizado em uma das veias das pernas ou da pelve se solta, viaja pelo organismo e se aloja em uma das artérias do pulmão, obstruindo o fluxo de sangue. Dependendo do tamanho do trombo, a embolia pulmonar pode até causar morte súbita.

Neste artigo vamos abordar os seguintes pontos sobre a embolia pulmonar:
  • O que é a embolia pulmonar.
  • Causas de embolia pulmonar.
  • Sintomas da embolia pulmonar.
  • Diagnóstico da embolia pulmonar.
  • Prevenção e tratamento da embolia pulmonar.
  • Embolia gasosa, embolia gordurosa e embolia séptica
O que é embolia pulmonar?

Para entender a embolia pulmonar é preciso antes saber alguns conceitos básicos como: o que são trombose, embolia, isquemia e infarto. Leia com calma os conceitos abaixo que o resto do texto se tornará muito fácil.

Trombo é uma espécie de coágulo de sangue que se encontra aderido à parede de uma vaso sanguíneo, obstruindo a passagem de sangue. A obstrução pode ser parcial ou total. Quando um trombo se forma e obstrui o fluxo normal de sangue, chamamos esse evento de trombose.

Trombose
Trombose
Êmbolo é um trombo que se solta da parede do vaso e viaja pela corrente sanguínea. O êmbolo viaja pelo corpo até encontrar um vaso com calibre menor do que ele próprio, causando obstrução da circulação do sangue. Quando o êmbolo impacta em um vaso, damos o nome de embolia. Se o vaso obstruído estiver no cérebro, chamamos de embolia cerebral. Se for um vaso no pulmão, chamamos de embolia pulmonar.

A trombose costuma ser um processo mais lento, com crescimento progressivo do trombo. Os trombos costumam surgir em áreas do vaso sanguíneo onde já há depósito de colesterol. Já a embolia é um evento mais agudo, que causa uma obstrução súbita do vaso acometido.

Abaixo, um gráfico mostrando uma embolia pulmonar com origem nas veias do membro inferior esquerdo.

Embolia pulmonar
Embolia pulmonar - o êmbolo viaja na corrente sanguínea até parar em vaso de menor tamanho.
Isquemia é a falta de suprimento de sangue para algum tecido orgânico. Toda vez que a circulação de sangue não é suficiente para o funcionamento de um órgão ou tecido, ocorre a isquemia. É um processo reversível se tratado a tempo. Tanto um trombo quanto um êmbolo podem ser a causa da isquemia.

Infarto é a morte das células por uma isquemia prolongada. Se a trombose ou a embolia não forem tratadas a tempo, todo o tecido que recebia sangue pela artéria obstruída morre. Exemplos: se a trombose ocorre nas artérias coronárias, temos o infarto do miocárdio (ataque cardíaco; se ocorre em um vaso cerebral, temos um AVC; se ocorre no pulmão, como no tromboembolismo pulmonar, temos o infarto pulmonar.

A embolia pulmonar é, portanto, uma obstrução de uma das artérias do pulmão causada por um êmbolo, ou seja, um trombo que se soltou das pernas e viajou pela corrente sanguínea até o pulmão. A obstrução de uma artéria do pulmão causa isquemia e infarto do tecido pulmonar que dependia da artéria obstruída para receber sangue e oxigênio. Quanto mais extensa for a área de infarto pulmonar, mais grave será o quadro.

Mas se o trombo estava em uma veia da perna, como ele vai parar em artéria do pulmão?

Todo o sangue do corpo retorna ao coração pelas veias. Todas as veias do corpo acabam diretamente ou indiretamente escoando o sangue para a veia cava, que é a  nossa veia mais calibrosa, que termina no coração (ventrículo e átrio direito).

O sangue que as veias entregam ao coração é um sangue já "usado" pelos tecidos, ou seja, pobre em oxigênio e rico em gás carbônico. Assim que o sangue chega ao coração ele é imediatamente bombeado para a artéria pulmonar, que por sua vez irá distribui-lo por todo o pulmão para que este possa se encher novamente de oxigênio. Uma vez suprido de oxigênio, o sangue volta ao coração para ser bombeado novamente para o resto do corpo.

Um trombo pequeno costuma se alojar em artéria pequena e periférica do pulmão. Um trombo grande pode impactar logo após a saída do coração, obstruindo toda a passagem de sangue, levando à morte de todo um pulmão e falência do coração por incapacidade de bombear o sangue contra uma grande obstrução. Os grandes tromboembolismos pulmonares são causas comuns de morte súbita.

Quais são as causas de embolia pulmonar?

A principal causa de embolia pulmonar são os êmbolos que se originam de tromboses nas veias dos membros inferiores, um quadro chamado de trombose venosa profunda (TVP). São pedaços de trombos das veias das pernas, coxas ou pelve que costuma embolizar para os pulmões.

Trombose venosa profunda
Trombose venosa profunda
A trombose venosa profunda se manifesta como um quadro súbito de dor, inchaço e vermelhidão de uma das panturrilhas ou da coxas. Ao lado, uma imagem de uma  TVP. Reparem na assimetria das pernas. O lado inchado e avermelhado é onde ocorreu a trombose.

Vamos falar mais especificamente da TVP em um texto à parte, que será escrito nas próximas semanas.

Portanto, um fator quase que obrigatório para haver um tromboembolismo pulmonar é a presença de uma trombose venosa profunda dos membros inferiores. Consequentemente, os fatores de risco para TVP acabam também sendo fatores de risco para embolia pulmonar. São eles:
De todos os fatores de risco listados acima, gostaria de gastar algumas linhas sobre um deles: cirurgia recente. Cirurgias, principalmente do quadril ou membros inferiores apresentam elevado risco de surgimento de uma trombose venosa profunda das pernas nos primeiros dias de pós-operatório. Além do risco de formação de coágulos pela própria cirurgia, estes pacientes ainda ficam vários dias acamados sem poder andar, o que diminui a circulação de sangue nas pernas, favorecendo a formação de coágulos.

A morte súbita em pacientes submetidos a cirurgia recente é quase sempre causada por um embolia pulmonar de grande volume. Nem sempre a TVP que dá origem ao êmbolo consegue ser identificada, principalmente se o paciente já tiver tido alta do hospital.

A TVP após as cirurgias pode ocorrer  mesmo em pacientes jovens e sem outras doenças. Quanto mais fatores de risco um paciente acumular, maiores são suas chances de desenvolver uma trombose dos membros inferiores.

Sintomas da embolia pulmonar

Angiografia pulmonar
Angiografia pulmonar
Veja a imagem de uma angiografia pulmonar ao lado. Repare na vascularização do pulmão. Os sintomas da embolia pulmonar vão depender do tamanho do êmbolo e do tamanho da região que sofreu infarte.

Vamos descrever três quadros possíveis de embolia pulmonar. Acompanhe a numeração da imagem.

Começamos pela hipótese 3. Imaginemos um êmbolo pequeno que atravesse toda a circulação pulmonar e só obstrua um vaso de pequeno calibre, já na periferia do pulmão, responsável apenas por uma pequena área de parênquima pulmonar. Como o vaso acometido é pequeno e periférico, não há grandes repercussões na circulação de sangue para o resto do pulmão. Do mesmo modo, como a área morta de pulmão é pequena há pouca repercussão na capacidade de oxigenação do sangue. O paciente sente apenas uma dor na região tórax, que piora a inspiração profunda. Pode haver também uma tosse seca e eventualmente expectoração com sangue (leia: TOSSE E ESCARRO COM SANGUE).

Imaginemos agora um êmbolo um pouco maior e que obstrua os vasos pulmonares na altura do número 2. A obstrução por ser mais central vai acarretar em uma área maior de infarto pulmonar. Todos aqueles vasos após o número 2 vão deixar de receber sangue, levando à isquemia de uma área grande do pulmão. Este paciente além da dor e da tosse, apresentará também súbita falta de ar, palpitações e tosse com expectoração sanguinolenta. Quanto maior for a área infartada, mais grave será o quadro.

Para terminar, vamos ao exemplo 1. Esse é o chamado tromboembolismo maciço. O êmbolo é tão grande que obstrui a circulação sanguínea de praticamente todo o pulmão. Este quadro é gravíssimo, pois além de infartar todo um pulmão, o sangue que não consegue ultrapassar a barreira imposta pelo êmbolo volta para o coração, causando um súbito aumento da pressão dentro deste e uma rápida dilatação do mesmo. O paciente pode morrer em minutos por falência cardíaca aguda.

Diagnóstico do tromboembolismo pulmonar

O diagnóstico da embolia pulmonar é feito através de exames, como a angiotomografia computadorizada, cintilografia pulmonar ou angiografia pulmonar.

Uma vez diagnosticada a embolia, é importante investigar a causa para que se possa prevenir novas embolias. Quando o paciente foi submetido a uma cirurgia recentemente, a causa é mais ou menos óbvia e não é necessário grandes investigações. Por outro lado, há pacientes que apresentam quadros de embolia pulmonar sem nenhuma causa evidente.  Nestes pacientes é importante investigar trombofilias, ou seja, doenças do sangue que causam formação espontânea de trombos nas veias.

Tratamento da embolia pulmonar

Na maioria dos casos não há tratamento específico para a embolia pulmonar. O tratamento visa manter o paciente estável, controlando a pressão arterial e fornecendo oxigênio nos casos de hipoxemia (baixa de oxigênio no sangue).

Pacientes com pequenas embolias são tratados apenas com anticoagulantes para impedir novos episódios. A área infartada não tem salvação. O que morreu do tecido pulmonar não é recuperável. Em geral, o paciente fica tomando anticoagulantes por pelo menos 6 meses. O medicamento anticoagulante mais usado é a Varfarina (leia: VARFARINA (Marevan,Varfine, Coumadin) | Controle do INR).

Nos pacientes que não podem tomar anticoagulantes ou que continuam fazendo tromboses mesmo com a anticoagulação, um filtro pode ser implantado na veia cava, funcionando como uma espécie de coador, impedindo que trombos grandes passem em direção ao coração.

Nas embolias mais extensas pode ser indicado o uso de trombolíticos, substâncias que diluem o êmbolo, na tentativa de restaurar a circulação sanguínea na área afetada.  Os trombolíticos apresentam muitos efeitos colaterais e risco de causar sangramentos graves, inclusive sangramentos cerebrais. Por isso, seu uso só está indicado em casos graves, quando o benefício supera os riscos.

Nos casos graves outra opção é a remoção cirúrgica da obstrução. Também é um procedimento com alto grau de complicações.

Prevenção do tromboembolismo pulmonar

O mais importante no tromboembolismo pulmonar é a prevenção (profilaxia). Como a gravidade de uma embolia pulmonar é imprevisível e nos casos mais graves os pacientes sequer chegam ao hospital com vida, é imprescindível realizar a prevenção nos casos com maior risco, como nas cirurgias ortopédicas dos membros inferiores. Os pacientes no pós-operatório devem se levantar e andar assim que possível. O uso de meias elásticas especiais também está indicado para reduzir o represamento de sangue nas pernas.

A profilaxia é feita normalmente com anticoagulação, iniciada logo antes da cirurgia. A droga mais usada na prevenção é a heparina em doses baixas. Nos pacientes de alto risco, principalmente naqueles que já tiveram um episódio prévio de embolia pulmonar, pode-se indicar a colocação de um filtro na veia cava para evitar que possíveis êmbolos cheguem aos pulmões.

Pacientes internados e acamados por outras causas também devem usar heparina em baixas doses para prevenir a formação de trombos nas pernas.

Pacientes com antecedentes de doenças da coagulação (trombofilias) devem ficar anticoagulados para o resto da vida.

Outros tipos de embolia pulmonar

A principal causa de embolia pulmonar são as tromboses dos membros inferiores, porém, há outros tipos de embolias:

a.) Usuários de drogas injetáveis podem sofrer embolização por materiais presentes na droga. O paciente injeta uma droga não adequadamente diluída na veia e fragmentos viajam até o pulmão, funcionando exatamente como um coágulo.
b.) Embolia gasosa ocorre se injetarmos ar nas veias. No sangue não há ar livre e bastam 300 ml de ar para que a embolia gasosa seja fatal.
c.) Embolia gordurosa ocorre quando há fraturas de grandes ossos, como o fêmur ou ossos da pelve,  com liberação da medula óssea para a corrente sanguínea. Fragmentos da medula caem na corrente sanguínea e embolizam para os pulmões. A embolia gordurosa surge geralmente 24 a 72 horas após as fraturas.
d.) Embolia séptica ocorre quando pedaços de colônias de bactérias viajam pela corrente sanguínea. Este quadro ocorre principalmente na endocardite, infecções das válvulas do coração (leia: ENDOCARDITE | Sintomas e tratamento).

DIARREIA | Causas e tratamento


Diarreia é daquelas doenças que todo mundo vai ter pelo menos uma vez durante a vida. A maioria das pessoas apresenta pelo menos um episódio por ano. Na verdade, diarreia não é uma doença, mas sim uma manifestação comum de várias doenças diferentes do trato gastrointestinal.

Neste artigo vamos abordar os seguintes pontos sobre a diarreia:
  • O que é diarreia.
  • Como funciona a digestão.
  • Causas comuns de diarreia.
  • Sintomas da diarreia.
  • Sinais de gravidade da diarreia.
  • Tratamento da diarreia.

O que é diarreia?


Tecnicamente chamamos de diarreia toda vez que evacuamos mais de 200g de fezes por dia. Ninguém precisa pesar as fezes para saber se está com diarreia ou não. Prefiro a definição que diz que diarreia é a evacuação de fezes pastosas ou liquidas efetuada mais de três vezes por dia.

Identificar diarreia é muito fácil, mas por que ela ocorre?

Bom, mais uma vez, para entender uma doença, é necessário entender o funcionamento normal do organismo, neste caso, do sistema digestivo (ou digestório).

Como funciona a digestão?


Digestão é diferente de absorção. Digerir é o processo de quebrar compostos grandes em moléculas pequenas o suficientes para serem absorvidas. Primeiro se digere os alimentos para depois podermos absorvê-los. Se os alimentos não forem digeridos, os intestinos não conseguem absorvê-los, sendo os mesmos eliminados nas fezes.

Após ingerirmos um alimento qualquer, ele desce pelo esôfago até o estômago. O estômago tem três funções básicas: matar germes presentes nos alimentos através do seu pH baixo (muito ácido), quebrar moléculas grandes em moléculas pequenas para posterior absorção em outros segmentos do trato digestivo e armazenar comida, liberando para o duodeno os alimentos processados em velocidade constante.

Primeira parte do sistema digestivo
Esôfago-estômago-duodeno
Ao sair do estômago, o alimento chega ao duodeno, a primeira parte do intestino delgado. O duodeno recebe as secreções do pâncreas e da vesícula biliar.

O pâncreas libera o suco pancreático, um líquido rico em bicarbonato que ajuda a diminuir a acidez dos alimentos vindos do estômago. O suco pancreático também é rico em enzimas que fazem parte do processo de digestão de proteínas, carboidratos e gorduras (leia: PANCREATITE CRÔNICA E PANCREATITE AGUDA).

A vesícula biliar produz a bile, que é a responsável pela coloração das fezes e pela digestão de gorduras, colesterol e algumas vitaminas (A,D,E e K).

Após o duodeno, temos o jejuno e o íleo, respectivamente 2º e 3º partes do intestino delgado. Jejuno e íleo formam a maior parte do nosso sistema digestivo, podendo chegar a 6 metros de comprimento. Esta é a região onde ocorre a maior parte da absorção dos alimentos digeridos. O intestino delgado é responsável pela absorção de mais ou menos 1 litro de água.

Ao sair do intestino delgado, todo material que não foi absorvido chega ao cólon (intestino grosso). O cólon tem aproximadamente 1,5 metros e é colonizado por mais de 700 espécies de bactérias que participam da digestão dos elementos ainda não digeridos, principalmente fibras e polissacarídeos (carboidratos com moléculas complexas). Essa digestão realizada pelas bactérias do cólon é que causa os gases intestinais ( leia: GASES INTESTINAIS). Porém, a função básica do intestino grosso é reabsorver a água presente no conteúdo alimentar e eliminada nas secreções ao longo do trato digestivo, formando fezes sólidas ao final deste processo. O cólon reabsorve até 19 litros de água por dia.

Portanto, para resumir, podemos dizer que:
1. Estômago e o duodeno, com o auxílio do pâncreas e da vesícula, digerem os alimentos.
2. O intestino delgado (jejuno e íleo) absorvem grande parte dos nutrientes digeridos e um pouco de água.
3. O cólon absorve uma grande quantidade de água e um pouco de nutrientes digeridos.

Tudo o que não foi digerido ou absorvido ao final do cólon sai nas fezes.

Principais causas de diarreia:

1. Intoxicação alimentar


Mais de 200 tipos de germes, entre vírus, bactérias e parasitas podem causar quadros de diarreia por intoxicação alimentar. A diarreia pode ser causada pelo próprio germe ou por toxinas produzidas pelo mesmo. Quanto maior a concentração de toxinas ou micróbios, maior é a chance destes vencerem a acidez do estômago e alcançarem os intestinos. Algumas toxinas após sua produção não são destruídas no cozimento, por isso, o armazenamento de alimentos deve ser feito de modo correto antes e depois da preparação.

A intoxicação alimentar se apresenta de três maneiras diferentes:

1.1 Vômitos como principal manifestação

O início súbito de náuseas e vômitos, podendo ou não ser acompanhado de diarreia, menos de 12 horas após ingestão de alimentos contaminados (em geral menos de 6 horas), costuma indicar intoxicação por enzimas pré-formadas. Não é bactéria em si que causa a intoxicação, mas sim enzimas que elas produziram e ficaram depositadas nos alimentos. As toxinas agem principalmente no estômago, irritando sua mucosa e causando os vômitos.

Este tipo de intoxicação alimentar é normalmente causado por toxinas das bactérias Staphylococcus aureus (leia: Estafilococos aureus) e Bacillus cereus.

Outra causa de intoxicação alimentar com vômitos é um vírus chamado Norovírus. Esse vírus pode ser transmitido através de alimentos contaminados ou de pessoa para pessoa através de aerossóis como um resfriado.

Nos três casos acima a doença é autolimitada com 3 a 4 dias de duração e não necessita de tratamento específico além da hidratação e medicamentos para aliviar os sintomas.

1.2 Diarreia aquosa como principal manifestação

A diarreia aquosa causada por intoxicação alimentar é normalmente causada pela lesão da mucosa do intestino delgado pela própria bactéria ou por toxinas produzidas somente após a ingestão do germe. Neste caso os sintomas surgem somente após 24-48h da ingestão do alimento. Vários germes como Cyclospora cayetanensis, Escherichia coli e Clostridium podem ser a causa. Infecções virais também são causas de diarreia aquosa (leia: VÔMITO E DIARREIA | Gastroenterite viral). Pode haver febre baixa (menor que 38ºC).

Geralmente quando várias pessoas com contato social (trabalho, escola, etc.) desenvolvem diarreia, mas não apresentam ingestão de nenhum alimento suspeito em comum, costuma tratar-se de infecções virais, que se transmitem do mesmo modo que os vírus da gripe e do resfriado (leia: DIFERENÇAS ENTRE GRIPE E RESFRIADO).

As bactérias e toxinas agem na mucosa do intestino delgado, aumentado suas secreções e acelerando a velocidade com que os alimentos passam. O intestino delgado não consegue digerir e absorver os alimentos, que, deste modo, chegam em grande quantidade ao cólon. O volume de líquidos e nutrientes que chega ao intestino grosso é muito grande, impedindo sua absorção.

Mais uma vez, o quadro costuma ser autolimitado com duração de 3 a 4 dias. Não é necessário nenhum tipo de tratamento específico. O próprio corpo se encarrega de controlar a bactéria e sarar a mucosa do intestino.

A cólera é a infecção por uma bactéria chamada Vibrio cholerae, que causa uma severa diarreia aquosa. Os pacientes podem ter mais de 20 evacuações por dia e chegam a perder até 1L de água por hora. Nos casos mais graves é necessário internação para hidratação por via venosa.

1.3 Diarreia sanguinolenta ou com pus e muco

A diarreia que apresenta sangue, pus, muco ou febre alta associada deve ser sempre avaliada por um médico. Esse quadro é chamado de diarreia inflamatória ou disenteria e pode levar à sepse ou outras complicações graves (leia: O QUE SIGNIFICA E POR QUE TEMOS FEBRE ? e O QUE É SEPSE / CHOQUE SÉPTICO? )

A diarreia inflamatória é causada por bactérias como Salmonella, Shigella, Campylobacter e Escherichia coli enterohemorrágica, que acometem a mucosa do intestino grosso. Pode ser necessário o tratamento com antibióticos para controlar a infecção.

Todavia, é importante salientar que em casos de infecção por Escherichia coli o uso de antibióticos pode piorar a diarreia e favorecer o aparecimento de um grave doença chamada de síndrome hemolítica urêmica, que leva à anemia e insuficiência renal grave (leia. BACTÉRIA Escherichia coli | E.coli). Por isso, deve-se sempre realizar cultura das fezes para identificar o agente causador e indicar a necessidade ou não de antibióticos. Nunca se auto medique com antibióticos em caso de diarreias.

O uso mal indicado de antibióticos além de causar complicações, pode perpetuar a diarreia por impedir que a flora bacteriana original do intestino volte a crescer. Sem a flora natural não há digestão de alimentos no cólon e a diarreia não cessa.

Outro perigo dos antibióticos é a infecção pelo Clostridium difficile, uma bactéria que se aproveita da ausência da flora bacteriana normal para causar um diarreia inflamatória grave. A infecção pelo Clostridium difficile é a principal causa de diarreia em pacientes internados e em uso de antibióticos.

Diarreias causadas pela bactéria Campylobacter estão associadas ao surgimento da síndrome de Guillain-Barré (Leia: O QUE É A SÍNDROME DE GUILLAIN-BARRÉ?).

2. Diarreia crônica


Toda diarreia com mais de duas semanas de evolução deve levantar suspeitas sobre alguma doença do trato intestinal que não tenha origem em uma intoxicação alimentar. Diarreias com mais de um mês de evolução são considerada diarreias crônicas e devem sempre ser investigadas.

As principias causas de diarreia crônica são as doenças inflamatórias intestinais, como a Doença de Crohn e a retocolite ulcerativa (leia: ENTENDA A DOENÇA DE CROHN E A RETOCOLITE ULCERATIVA), SIDA (AIDS), infecção por amebas e outros parasitas (leia: VERMES E EXAME PARASITOLÓGICO DE FEZES), tumores e hipertireoidismo (leia: DOENÇAS E SINTOMAS DA TIREÓIDE).

2.1 Síndrome do intestino irritável

A síndrome do intestino irritável é uma causa comum de diarreia intermitente e dor abdominal. Não existe nenhuma doença orgânica que justifique o quadro. Normalmente o paciente se apresenta com diarreia e cólicas relacionadas a períodos de estresse emocional. Alguns pacientes alternam diarreia com constipação intestinal, outros apresentam pequenas quantidade de muco nas fezes. Excesso de gases intestinais também é frequente.

A síndrome do intestino irritável é uma doença benigna e pode apresentar melhora com algumas mudanças na dieta e no estilo de vida.

A presença de diarreia com sangue não ocorre na síndrome do intestino irritável. A sua presença indica a existência de outra causa para a diarreia.

2.2 Síndrome de má absorção

Existem algumas doenças dos intestinos que impedem a absorção de determinados nutrientes, levando à diarreia.

Um exemplo comum é a intolerância a lactose (derivados de leite). Ocorre devido a uma deficiência na produção da lactase, enzima que digere a lactose no intestino delgado.

Outro exemplo é a pancreatite crônica, onde a ausência do suco pancreático impede a digestão de vários nutrientes ingeridos.

A doença celíaca ocorre por incapacidade de absorver glúten, uma proteína presente no trigo e em vários outros cereais (leia: DOENÇA CELÍACA | Enteropatia por glúten).

A síndrome de má absorção também pode ocorrer por parasitoses, como na giardíase (leia: GIARDIA LAMBLIA | Sintomas e Tratamento).

Como se pode ver, existem dezenas de causas para diarreia. A maioria dos casos é autolimitado, causado por infecções viriais ou intoxicação alimentar.

Quando procurar um médico devido a diarreia?


Quando a diarreia apresentar algum sinal de gravidade é necessário procurar atendimento médico, pois a mesmo provavelmente não irá desaparecer espontaneamente e ainda pode evoluir para um quadro mais grave. São sinais de gravidade da diarreia:
  • Febre alta, normalmente maior que 38,5ºC.
  • Diarreia severa que não melhora após 48-72h.
  • Desidratação.
  • Diarreia com sangue.
  • Diarreia por mais de duas semanas.
  • Diarreia em pacientes idosos e/ou imunossuprimidos.
  • Crianças que recusam hidratação ou alimentação durante a diarreia.
Se não houver os sinais de gravidade acima, a diarreia deve ser tratada com ingestão generosa de líquidos. Quanto mais intensa for a diarreia, maior deverá ser a reposição de água. Já existem soluções prontas para hidratação à venda nas farmácias, como o Pedialyte®. Nas farmácias populares este soro é distribuído gratuitamente.

Uma opção para quem não pode sair de casa imediatamente é o soro caseiro, que pode ser feito com 3,5 gramas de sal e 20 gramas de açúcar diluídos em 1 litro de água filtrada ou fervida. Se você não tiver uma balança para medir a quantidade de sal e açúcar, o soro pode ser feito a partir da adição de uma colher de chá de sal mais uma colher de sobremesa de açúcar em um recipiente com 1 litro de água. Esta forma, porém, é a menos desejada, dado o risco de haver erros na dosagem. Em geral, o soro pronto adquirido nas farmácias é a melhor solução. Uma vez pronto, o soro deve ser consumido em no máximo 24 horas.

Deve-se evitar a todo custo o uso de medicamentos para interromper a diarreia. Se há uma bactéria ou toxina no trato intestinal, ela deve ser expulsa do corpo. A suspensão da evacuação em doentes infectados pode levar à sepse grave.

Remédios como o famoso Imosec® (Loperamida) só devem ser usados sob prescrição médica. Na maioria dos casos ele não está indicado, pois pode agravar a infecção. Na maioria dos casos, não é preciso nenhum remédio para a diarreia. Basta ingerir líquidos. Se houver vômitos, podem ser usados medicamentos para controlá-lo.

Medicamentos probióticos, como o Floratil® (Saccharomyces boulardii) podem ajudar a reduzir o tempo de diarreia em alguns casos, mas seu benefício é bastante questionado.

O paciente não precisa entrar em jejum quando tem diarreia. Na verdade, a alimentação ajuda a controlar a diarreia. Deve-se apenas evitar alimentos gordurosos ou à base de leite, pois durante uma infecção intestinal a mucosa do intestino delgado está muito inflamada e não consegue absorver nutrientes complexos. Refrigerantes e Gatorade não são bons para diarreia, pois contêm grande quantidade de açúcar.

Para diminuir a contaminação, deve-se sempre lavar as mãos antes de preparar alimentos ou iniciar refeições. Pacientes com diarreia não devem preparar alimentos para outras pessoas até que estejam curados.

Vérsion en español:  DIARREA | Causas y síntomas

CISTITE | Sintomas e tratamento


Cistite é o nome da infecção urinária que acomete a bexiga e a uretra, normalmente causada pela a bactéria Escherichia coli. Neste artigo vamos abordar as seguintes questões sobre a cistite:
  • O que é cistite.
  • Como se pega cistite.
  • Cistite nos homens x cistite nas mulheres.
  • Como evitar as cistites.
  • Fatores de risco para infecção urinária.
  • Sintomas da cistite
  • Diagnóstico da cistite
  • Tratamento da cistite
  • Infecção urinária na gravidez

O que é cistite?


A infecção urinária é uma doença extremamente comum, principalmente no sexo feminino. Cerca de 60% das mulheres adultas terão pelo menos um episódio de infecção do trato urinário (ITU) durante a vida.

Existem três tipos de infecção urinária:

Cistite = infecção da bexiga.
Pielonefrite = infecção dos rins (leia: PIELONEFRITE (INFECÇÃO DOS RINS )).
Uretrite = Infecção da uretra.

A cistite, tema deste artigo, é uma inflamação da bexiga (e também da uretra em muitos casos) causada por uma infecção bacteriana. A cistite é habitualmente uma doença de simples tratamento, porém, pode ser dolorosa e inconveniente.

A infecção da bexiga pode se tornar um grave problema de saúde se as bactérias se deslocarem para os rins, causando o que chamamos de pielonefrite. Enquanto a cistite é uma doença simples, a pielonefrite pode levar à sepse (leia: O QUE É SEPSE E CHOQUE SÉPTICO?) e consequentemente à morte por infecção generalizada.

Temos outros textos sobre infecção urinária que podem ser acessados através dos links abaixo:
- INFECÇÃO URINÁRIA | Sintomas da pielonefrite
- INFECÇÃO URINÁRIA NA GRAVIDEZ
- URETRITE| Gonorreia e Clamídia
- DISÚRIA | Dor ao urinar
- EXAME DE URINA | Leucócitos, nitritos, hemoglobina...
- EXAME UROCULTURA | Indicações e como colher
- BACTÉRIA Escherichia coli | E.coli
- INFECÇÃO URINÁRIA | Sintomas

Como se pega infecção urinária


Na verdade, a expressão "pegar infecção urinária" não é a mais apropriada, já que a cistite não é uma doença contagiosa, que se passa de uma pessoa para outra.

Mais de 80% das infecções urinárias são causadas por uma bactéria que vive no nosso intestino, chamada Escherichia coli (E.coli) (leia: BACTÉRIA Escherichia coli | E.coli). A infecção urinária ocorre quando essas bactérias, que deveriam permanecer no trato intestinal, conseguem colonizar a região ao redor da vagina. A colonização da região vaginal é o primeiro passo para o desenvolvimento da cistite. Bactérias vindas dos intestinos que conseguem se estabelecer ao redor da vagina têm mais facilidade em penetrar a uretra e alcançar a bexiga.

As cepas de E.coli que causam infecção urinária são inofensivas se permanecerem dentro do intestino. Elas só causam doença se atingirem outros órgãos do corpo, como a bexiga. Além da E.coli, outras bactérias do trato intestinal também podem causar cistite, entre elas: Proteus mirabilis e Klebsiella pneumoniae.

Cistite nos homens x cistite nas mulheres


Cistite - Anatomia geniturinária feminina
Anatomia geniturinária feminina
A imagem ao lado mostra a anatomia do trato urinário inferior  da mulher. Repare como a vagina e a entrada da uretra na mulher ficam muito próximas do ânus. A saída da uretra feminina fica muito mais próxima do ânus do que a masculina. Além disso, a uretra do homem é mais extensa, fazendo com que a E.coli tenha que percorrer um caminho maior até chegar à bexiga.

Isto significa que anatomicamente é muito mais fácil para as bactérias vindas do ânus alcançarem a bexiga da mulher do que a bexiga do homem. Portanto, a anatomia geniturinária explica o porquê das mulheres terem cistite com frequência e os homens não.

Há, entretanto, situações em que esta vantagem anatômica não é suficiente para proteger os homens da infecção urinária. Alguns exemplos:

1. Sexo anal ativo (homo ou heterossexual): a penetração do pênis no ânus elimina completamente essa distancia anatômica que protege os homens. A saída da uretra do pênis fica em contato direto com as bactérias intestinais. A E.coli neste caso é jogada diretamente na uretra, tendo apenas que atravessá-la para chegar a bexiga. O sexo anal ativo sem preservativo é, portanto, um atalho para infecção urinária.

Ainda assim, mesmo em homens que praticam sexo anal, a cistite não é uma doença comum. Além da barreira anatômica, há outros fatores que dificultam a cistite no sexo masculino. A região ao redor da uretra masculina é uma área menos úmida que nas mulheres, o que dificulta a colonização por bactérias. Além disso, no líquido prostático, eliminado durante o ato sexual, há substâncias antibacterianas.

2. Doenças da próstata: homens mais velhos costumam ter a próstata aumentada de tamanho, o que comprime a uretra e causa obstrução à saída de urina. O ato de urinar protege contra a cistite, pois a urina ajuda a carregar as bactérias que estejam alojadas na bexiga e uretra. Como a próstata obstrui, mesmo que parcialmente, a uretra, a bexiga fica sempre com um reserva de urina em seu interior, sendo um ótimo meio para multiplicação de bactérias.

Portanto, sempre que um homem adulto apresentar mais de um episódio de infecção urinária, deve-se pensar em algum alteração anatômica, como doenças da próstata ou lesões da bexiga.

Como evitar infecções urinárias


A maioria das pessoas costuma pensar que, se a cistite surge quando bactérias normalmente encontradas nas fezes colonizam a região vaginal, é só lavar bastante a vagina e a região ao seu redor para matar essas intrusas e impedir a infecção. A cistite seria, portanto, uma doença de gente que não se lava direito. Este raciocínio está ERRADO! Na medicina, nem sempre o mais lógico é o que acontece.

Vamos ao fatos. A vagina das mulheres apresenta sua própria flora de bactérias, que são inofensivas. Para uma bactéria vinda do ânus colonizar essa região, ela precisa competir com as que já vivem no local. Quando se faz uma higiene íntima excessiva  matamos a flora natural da vagina, facilitando muito o processo de colonização de germes que estão a chegar. O que a E.coli mais quer ao chegar na região em volta da vagina é poder se multiplicar à vontade, sem ter que "brigar" com outras bactérias por espaço e alimento.

Ter cistite não significa ter maus hábitos de higiene. Na verdade, os dois extremos favorecem a infecção urinária: pouca higiene ou muita higiene.

Sabendo como surgem as infecções da bexiga, podemos agora fornecer algumas dicas de como evitá-las.
  • Higiene íntima com moderação. Deve-se ter especial atenção à limpeza após as evacuações. Quem usa papel higiênico deve sempre realizar a limpeza da frente para trás, ou seja, na direção contrária à vagina. 
  • NUNCA realize ducha vaginal. Esse procedimento empurra as bactérias em direção à bexiga e favorece o aparecimento de cistite. A ducha anal pode ser usada, mas o ideal é tomar banho após a evacuação.
  • Dê preferência a banhos de chuveiro; evite tomar banhos em banheiras.
  • Evite desodorantes em spray na área genital ou qualquer outro produto de limpeza que possa irritar a vagina. Áreas inflamadas facilitam a aderência de bactérias.
  • Sempre urine após relação sexual. O coito favorece a entrada das bactérias na uretra e o ato de urinar ajuda a expulsá-las.
  • Beba bons volumes de líquidos ao longo do dia para urinar com frequência, "lavando" as bactérias da bexiga e uretra.
  • Não use camisinhas que contenham espermicidas, pois elas não apresentam eficácia maior e ainda aumentam o risco de cistites (leia: CAMISINHA | Tudo o que você precisa saber). O mesmo vale para os diafragmas.
  • O uso indiscriminado de antibióticos pode alterar a flora natural da vagina, facilitando infecções. Não tome antibióticos a não ser que seja realmente necessário. Nunca se automedique.
  • Mulheres na menopausa devem usar cremes vaginais à base de estrogênio para reduzir o ressecamento da mucosa vaginal (leia: MENOPAUSA | Sintomas e causas). A mucosa ressecada favorece o surgimento de lesões, que por sua vez propiciam a fixação de bactérias.

fatores de risco para cistite


Apesar de todos os cuidados, algumas pessoas apresentam uma predisposição para infecções urinárias. Algumas mulheres têm infecção urinária de repetição, com vários episódios durante o ano. Entre os fatores que podem aumentar os risco de cistite, podemos citar:

- Diabetes Mellitus (leia: DIABETES MELLITUS | Diagnóstico e sintomas).
- Vida sexual ativa. Quanto mais relações sexuais por semana, maior o risco.
- Fatores genéticos e história familiar de cistite.
- Novo parceiro sexual.
- Presença de sonda vesical.
- Incontinência urinária (leia: INCONTINÊNCIA URINÁRIA | Causas, tipos e diagnóstico).
- Doenças na próstata (leia: SINTOMAS DA PRÓSTATA).

Sintomas da cistite


A infecção da bexiga causa alguns sintomas típicos:

- Ardência ao urinar, chamado de disúria (leia: DISÚRIA | DOR AO URINAR | Causas)
- Urgência para urinar e dificuldade de segurar a urina.
- Vontade de urinar mesmo com a bexiga vazia.
- Sensação de peso na barriga.
- Presença de sangue na urina, chamado de hematúria (leia: HEMATÚRIA - URINA COM SANGUE).

Febre baixa e dor lombar também podem ocorrer, porém sempre que esses sintomas surgirem deve-se pensar em pielonefrite, principalmente se a febre for alta e vier acompanhada de vômitos, perda de apetite e mal estar geral.

Algumas pessoas associam uma urina com cheiro forte à infecção urinária. Isso na maioria das vezes não é real. A principal causa de cheiro forte é uma urina muito concentrada (leia: URINA COM CHEIRO FORTE). Se sua urina está com um amarelo muito forte e com mal cheiro, você deve ingerir mais líquidos. Normalmente isso resolve o problema e ajuda evitar a formação de cálculos renais (leia: SINTOMAS DO CÁLCULO RENAL / PEDRA NOS RINS).

Em homens jovens com disúria é sempre importante pensar em DST como diagnóstico diferencial, já que neste grupo este tipo de infecção é mais comuns do que cistites (leia: GONORREIA E CLAMÍDIA).

Em homens idosos, doenças da próstata podem causar sintomas semelhantes aos da infecção urinária, além de serem um fator risco para própria infecção urinária (leia: SINTOMAS DA PRÓSTATA).

Para saber mais detalhes sobre os sintomas da infecção urinária, leia: SINTOMAS DA INFECÇÃO URINÁRIA.

Diagnóstico da cistite


Na imensa maioria dos casos o diagnóstico da cistite é clínico e a maioria dos médicos prescreve tratamento sem solicitar nenhum tipo de exame. Se houver facilidade, pode-se solicitar uma rápida análise de urina para confirmar a presença de pus (leia: ENTENDA SEU EXAME DE URINA), mas esta não é obrigatória.

O exame definitivo para infecção urinária é a cultura de urina. Todavia, como esta demora entre dois a quatro dias para ficar pronta, e o quadro clínico costuma ser muito característico, na cistite este se torna um exame quase sempre desnecessário. A urocultura é muito mais importante na pielonefrite do que na cistite (leia: EXAME UROCULTURA | Indicações e como colher).

Na prática, mulheres jovens com ardência para urinar apresentam cistite até que se prove o contrário. Não está errado o médico prescrever antibióticos para infecção urinária sem pedir nenhum outro tipo de exame. em 99% dos casos, esta conduta irá curar a paciente. Apenas nos casos de cistite de repetição, infecções em homens ou quando há dúvidas em relação ao diagnóstico é que a urocultura é importante.

Não se deve pedir urocultura em pessoas sem sintomas (exceto grávidas, explico mais à frente). Algumas pessoas apresentam bactérias em sua urina sem necessariamente desenvolverem cistite. Este quadro é chamado de bacteriúria assintomática. Portanto, não se pede urocultura e não se indica tratamento para pessoas sem sintomas de infecção urinária. O tratamento destes casos não traz benefício nenhum e ainda facilita o desenvolvimento de bactérias resistentes aos antibióticos.

Tratamento da cistite


Toda cistite deve SEMPRE ser tratada com antibióticos para evitar recorrências e evolução para pielonefrite. Em geral, apenas três dias são suficientes. As drogas mais usadas são o Bactrim® (Sulfametoxazol + Trimetoprima), um dos antibióticos da família das quinolonas (em geral ciprofloxacina ou norfloxacina), um derivado de penicilina (por 5 dias) ou nitrofurantoína (por 7 dias). Em homens, o tratamento deve ser feito sempre por 7 dias, no mínimo.

Para mais informações sobre o tratamento da cistite, leia: TRATAMENTO PARA INFECÇÃO URINÁRIA.

Alguns medicamentos muito prescritos para cistites como o Cystex e a Pyridium não têm efeito antibiótico e servem apenas para aliviar temporariamente os sintomas da infecção urinária. Para tratar de verdade a cistite é preciso eliminar a bactéria, e isso só é possível com antibióticos.

A despeito de todos os cuidados listados neste texto, algumas mulheres apresentam infecções urinárias de repetição. São em geral pessoas com predisposição genética. Algumas dessas se beneficiam com a tomada de um comprimido de antibiótico após as relações sexuais. Nos casos mais graves, com várias infecções urinárias por ano, pode ser necessário cursos longos (até um ano) de antibióticos.

Para quem gosta de medicamentos naturais, uma frutinha chamada de Cranberry (oxicoco em português), da família das amoras, comprovadamente reduz o risco de infecções. Pode-se tomar o suco ou comprar pílulas já à venda em algumas farmácias.

Outra opção para prevenção da cistite é o Uro-Vaxom, uma espécie de vacina com 16 cepas diferentes de E.coli. Parece que o uso por três meses deste medicamento reduz a ocorrência de cistites. É importante salientar que essa droga só funciona para aqueles que tem infecções de repetição pela E.coli. Se outra bactéria for a responsável pelas cistites, a vacina não tem efeito.

Infecção urinária em grávidas


A presença de infecção urinária em grávidas está associado a parto prematuro e bebês com baixo peso ao nascimento. Portanto, mesmo as gestantes com bacteriúria assintomática devem ser tratadas.

As quinolonas (ciprofloxacino e norfloxacina) são contraindicadas na gravidez e o Bactrim deve ser evitado, principalmente no primeiro trimestre. As melhores escolhas são a nitrofurantoína, fosfomicina ou amoxacilina + ácido clavulânico.

Para saber mais sobre infecção urinária na gravidez, leia: INFECÇÃO URINÁRIA NA GRAVIDEZ

Vérsion en español:  INFECCIÓN URINARIA - CISTITIS

HIPOTIREOIDISMO | Tireoidite de Hashimoto


Hipotireoidismo é o nome que se dá quando a glândula tireoide funciona deficientemente, produzindo menos hormônios do que o necessário para o controle do nosso metabolismo. O hipotiroidismo é a doença mais comum da tiroide.

Neste artigo iremos explicar os seguintes pontos sobre o hipotiroidismo:
  • O que é hipotiroidismo.
  • Como funciona a tiroide
  • Causas do hipotiroidismo.
  • O que é tireoidite de Hashimoto.
  • Sintomas do hipotireoidismo
  • Diagnóstico do hipotiroidismo
  • Tratamento do hipotiroidismo
Depois de ler este texto, não deixe também de visitar nossos outros artigos sobre a tireoide e suas doenças:
- DOENÇAS E SINTOMAS DA TIREOIDE
- SINTOMAS DO HIPOTIREOIDISMO
- HIPOTIREOIDISMO | Peguntas e respostas
- HIPERTIREOIDISMO E DOENÇA DE GRAVES
- NÓDULO DE TIREOIDE | Diagnóstico e como diferenciá-lo do câncer

Como funciona a tireoide?


A tiroide (ou tireoide) é uma glândula em forma de borboleta que se localiza na base do pescoço, abaixo da laringe. A tireoide produz dois hormônios: triiodotironina (T3) e tiroxina (T4), que agem regulando o nosso metabolismo, ou seja, o modo como o corpo usa e armazena energia.

Hipotireoidismo - Funcionamento da tireóide
Funcionamento da tireoide
Hipotireoidismo é o nome que se dá quando a glândula tiroide produz uma quantidade insuficiente destes hormônios. Para entender como surge o hipotireoidismo é preciso saber como funciona a tireoide. O mecanismo explicado abaixo parece complicado, mas não é. Leia com calma que está tudo bem explicadinho.

1. Como acabei de explicar, a tireoide produz dois hormônios que controlam nosso metabolismo, chamados de T3 e T4.
2. A glândula hipófise, localizada na base do cérebro, controla o grau de produção de T3 e T4 pela tiroide através de um hormônio chamado TSH (em inglês, Hormônio Estimulador da Tireoide).

Quando existe pouco hormônio tireoidiano circulante, a hipófise aumenta a secreção de TSH, dando ordem para que haja uma maior produção de T3 e T4 pela tireoide. Quando existe muito hormônio circulante, a hipófise diminui a secreção de TSH, desestimulando a tireoide a produzir T3 e T4. Assim, o organismo consegue manter níveis sempre estáveis de T3 e T4, mantendo o nosso metabolismo controlado.

Hipotireoidismo primário x hipotireoidismo secundário


O Hipotiroidismo pode ser causado por um problema na tireoide que impeça a secreção de seus hormônios (hipotireoidismo primário) ou por um problema na hipófise que iniba a secreção de TSH, inibindo consequentemente a produção de T3 e T4 (hipotireoidismo secundário).

Portanto, hipotireoidismo primário ocorre por defeito na tireoide e hipotireoidismo secundário por defeito na hipófise.

A distinção entre hipotireoidismo primário e secundário é muito fácil, sendo feita através do doseamento do TSH e do T4 no sangue:
  • Quando a tiroide tem um problema e começa a produzir pouco hormônio, a hipófise aumenta progressivamente sua produção de TSH para tentar contornar esse déficit. Portanto, no hipotireoidismo primário encontramos o TSH elevado e o T4 baixo.
  • Se o problema for central, na hipófise, encontraremos um TSH baixo por falta de secreção e um T4 também baixo por falta de estímulo para sua produção.
95% dos casos de hipotiroidismo são de origem primária. As principais causas são a tireoidite de Hashimoto, a remoção cirúrgica da tireoide (tireoidectomia) e a destruição da glândula por irradiação.

Tireoidite de Hashimoto


A tireoidite de Hashimoto é uma doença autoimune (leia: DOENÇA AUTOIMUNE), que ocorre por destruição da glândula pelos nossos próprios anticorpos.

A tireoidite de Hashimoto é a principal causa de hipotiroidismo. É sete vezes mais comum nas mulheres e apresenta uma clara relação familiar.

A tireoidite de Hashimoto ocorre da seguinte maneira:

Por motivos ainda desconhecidos, o nosso organismo passa a produzir anticorpos contra a própria glândula tireoide. O processo de destruição é lento e dura vários anos.

Conforme as células da tiroide vão sendo destruídas, a capacidade da glândula produzir  T4 e T3 vai caindo. Notando que há uma queda nos níveis de hormônios tireoidianos, a hipófise aumenta a secreção de TSH, estimulando as células da tireoide que ainda existem a aumentar sua produção de hormônios.

Este aumento do TSH é suficiente para normalizar os níveis de T3 e T4. Por isso, nas fases inicias da tireoidite de Hashimoto o paciente não apresenta sintomas, já que seus níveis sanguíneos de T3 e T4 permanecem normais. Entretanto,  nas análises de sangue já conseguimos detectar um TSH mais alto que o normal. Esta fase é chamada de hipotireoidismo subclínico.

Conforme mais células vão morrendo, mais TSH vai sendo secretado pela hipófise, até o ponto que as células remanescentes são tão poucas que já não conseguem mais produzir o T3 e T4 necessários para manter um nível sanguíneo desejado. Quando os hormônios da tireoide ficam em níveis baixos, começam a surgir os sintomas do hipotireoidismo.

O nome tiroidite é dado porque a ação dos anticorpos na tiroide causa uma irritação da mesma. É possível que o paciente desenvolva hipertiroidismo nas fases inicias, já que a glândula irritada pode começar a liberar mais hormônios que o desejado. O paciente pode evoluir com hipertireoidismo inicialmente, e só em fases avançadas passar a ter hipotireoidismo.

Sintomas do hipotireoidismo

- Aumento do volume da tireoide, chamado de bócio.
- Fraqueza, desânimo e cansaço fácil.
- Intolerância ao frio.
- Diminuição do suor.
- Perda de cabelo (leia: CALVÍCIE | QUEDA DE CABELOS | Causas e tratamento).
- Ganho leve de peso (hipotireoidismo não leva a grandes ganhos de peso).
- Pele seca.
- Unhas fracas.
- Dor nas articulações.
- Redução do paladar.
- Anemia (leia: ANEMIA | Sintomas e causas).
- Síndrome do túnel do carpo (leia: SÍNDROME DO TÚNEL DO CARPO | Sintomas e tratamento).
- Constipação intestinal (prisão de ventre).
- Aumento do colesterol (leia: colesterol HDL, colesterol LDL e triglicerídeos).
- Alterações da menstruação (para mais ou para menos).
- Infertilidade.
- Disfunção erétil (leia: IMPOTÊNCIA SEXUAL | Causas e tratamento).
- Perda da libido.
- Redução dos pelos da sobrancelha.
- Hipertensão (leia: HIPERTENSÃO ARTERIAL | Sintomas e tratamento).
- Inchaços (em casos mais graves).
- Coma (em casos graves e não tratados).

O hipotireoidismo leva a ganho de peso, mas NÃO É CAUSA DE OBESIDADE. É muito comum as pessoas justificarem sua obesidade pelo hipotireoidismo, quando na verdade essa condição leva ao ganho de apenas poucos quilos, no máximo 5 ou 6. Além disso, o ganho de peso é em boa parte por retenção de líquidos e não por ganho de gordura. Ninguém ganha peso suficiente para ficar obeso só porque está com hipotireoidismo. A obesidade só ocorre naqueles pacientes que já se encontravam em situação de sobrepeso anteriormente, já próximo de serem obesos.

Em crianças o hipotireoidismo leva a um quadro de baixo crescimento e retardo mental chamado de cretinismo (daí a origem da palavra cretino). Os hormônios tireoidianos são essenciais para o desenvolvimento do cérebro. O teste do pezinho serve para diagnosticar hipotireoidismo nos recém-nascidos.

O hipotireoidismo causado pela remoção ou irradiação da tireoide apresenta os mesmos sintomas do hipotireoidismo causado pela tireoidite de Hashimoto. A diferença é que seu início é abrupto na remoção da tiroide, e lento e progressivo no Hashimoto.

Outra causa de hipotireoidismo é a carência de iodo, substância necessária para produção dos hormônios. Hoje existe suplementação de iodo no sal de cozinha, sendo esse tipo de hipotireoidismo raro nas áreas urbanas.

Alguns medicamentos, como a amiodarona, interferon e lítio também podem causar alterações no funcionamento da tireoide, causando hipotireoidismo.

Para saber mais detalhes sobre os sintomas do hipotireoidismo, leia: SINTOMAS DO HIPOTIREOIDISMO.

Diagnóstico do hipotireoidismo


O diagnóstico é feito com a dosagem de TSH, T4 livre e dos anticorpos contra tiroide (anti-TPO e anti-tireoglobulina).

Em geral, o diagnóstico de hipotireoidismo é dado aos pacientes com sintomas de hipotiroidismo que tenham TSH maior que 4 mU/L. Existe ainda o grupo que cai na definição de hipotireoidismo subclínico, ou seja, TSH maior que 4 mU/L, mas sem sintomas da doença. Neste último caso, o tratamento só é necessário caso o paciente tenha colesterol elevado, TSH maior que 10 mU/L, caso a paciente esteja grávida, ou se tiver os anticorpos contra tireoide positivos (anti-TPO e anti-tireoglobulina).

A presença de anti-TPO ou anti-tireoglobulina em um paciente com hipotireoidismo indica que a causa é a doença de Hashimoto.

Hoje, graças à identificação dos hipotireoidismos subclínicos, já somos capazes de diagnosticar a doença antes dela apresentar sinais clínicos. Uma das primeiras alterações é a elevação do colesterol, que pode preceder em anos o início do hipotireoidismo franco.

Atenção, não existe hipotiroidismo com análises normais. Se você acha que tem sintomas de hipotiroidismo, mas seu TSH e T4 são normais, as suas queixas têm outra causa.

Todos os pacientes acima de 50 anos devem ter seu TSH dosado, mesmo que não apresentem nenhum sintoma de hipotireoidismo. Se houver história familiar positiva, o rastreio pode começar aos 35 anos, principalmente nas mulheres.

Tratamento do hipotireoidismo


Não existe cura para a doença de Hashimoto, mas felizmente já existem hormônios tireoidianos sintéticos. O tratamento do hipotiroidismo consiste na simples administração diária destes. A droga usada normalmente é a Levotiroxina (Puran®, Synthroid®, Letter®), que é um T4 sintético.

A Levotiroxina é administrada uma vez por dia e deve ser tomada sempre com estômago vazio (1 hora antes de comer ou 2 horas depois) . O objetivo do tratamento é manter o TSH dentro da faixa de normalidade, que varia entre 0,4 e 4,0 mU/L. Para isso o seu médico pode ter que alterar as doses do medicamento de vez em quando.

As dosagens dos comprimidos de levotiroxina são em microgramas e não em miligramas, como a maioria dos remédios. Por isso, a levotiroxina não deve ser feita em farmácia de manipulação,para que não haja erros na dosagem.

Os sintomas costumam regredir já com duas semanas de tratamento. O objetivo é manter o paciente com TSH normal e livre de sintomas.

O tratamento é feito por toda vida e não pode ser interrompido.

Tratamento do hipotiroidismo subclínico


Não há dúvidas de que pacientes com TSH elevado e sintomas de hipotiroidismo devam ser tratados com reposição de hormônios. A dúvida surge nos casos de hipotiroidismo subclínico.

Neste grupo, o tratamento só é necessário caso o paciente tenha colesterol elevado, TSH maior que 10 mU/L, caso a paciente esteja grávida, ou se tiver os anticorpos contra tireoide positivos (anti-TPO e anti-tireoglobulina).

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SOLUÇO | Causas e tratamento


O soluço é o resultado de uma súbita e involuntária contração do músculo diafragma, que fica localizada entre o tórax e o abdômen. Neste artigo vamos explicar:
  • O que é o soluço.
  • Classificação dos soluços.
  • O que causa o soluço.
  • Como parar o soluço.
  • Soluço nos bebês
O que é o soluço?

O diafragma é um músculo que fica localizado entre o tórax e o abdômen, sendo o principal músculo da respiração. Graças à movimentação do diafragma, conseguimos encher e esvaziar nossos pulmões com ar.

Diafragma - soluço
Diafragma
O soluço surge quando o nosso diafragma sofre uma rápida e involuntária contração, fazendo-nos inspirar ar. Como este movimento respiratório é indesejado, também involuntariamente, as nossas cordas vocais subitamente se fecham, impedindo a entrada do ar, causando o conhecido som do soluço, parecido com um estalo.

O fechamento das cordas vocais impede o ar de chegar aos pulmões, fazendo-o, por vezes, ir para o estômago. Por isso algumas pessoas engolem ar durante o soluço.

Como são classificados os soluços?

A maioria dos quadros de soluço dura poucos minutos, desaparecendo espontaneamente ou após algumas manobras, como beber água gelada ou prender a respiração. Em algumas pessoas, os soluços podem demorar vários minutos para desaparecer.

Os soluços comuns raramente têm algum significado clínico, não sendo necessária a avaliação média para os mesmos.

Mais raramente, um episódio de soluço pode durar por várias horas. Quando o soluço demora mais de 48 horas ele é chamado de soluço persistente. Quando dura mais de um mês, é denominado soluço intratável. Tanto o soluço persistente quanto o intratável são habitualmente causados por alguma doença e devem ser sempre avaliados por um médico.

O que causa o soluço?

1. Soluços comuns

Não sabemos exatamente por que surgem os soluços simples, que duram poucos minutos e desaparecem espontaneamente. Imagina-se que os soluços sejam causados por situações que de algum modo irritem o diafragma. Em 80% dos casos, os soluços ocorrem por espasmos apenas na porção esquerda do diafragma. Por que isso ocorre, não sabemos.

As situações que mais frequentemente desencadeiam crises de soluços são:

- Comer muito até ficar com o estômago muito cheio.
- Comer muito rápido.
- Mudanças bruscas na temperatura do corpo.
- Estresse emocional.
- Ansiedade.
- Engolir ar.
- Comidas com muita pimenta.
- Beber refrigerantes ou outras bebidas gasosas.
- Beber álcool.
- Fumar.
- Privação do sono.
- Febre.

O porquê das situações acima funcionarem como gatilho para os soluços em algumas pessoas, e só em determinados momentos, ainda é desconhecido. Se você costuma apresentar soluços com frequência, tente descobrir qual o gatilho mais comum para evitá-lo. Às vezes, pequenas mudanças nos hábitos, como comer com mais calma, são suficientes para diminuir a frequência com que surgem os ataques de soluços.

2. Soluços persistentes ou intratáveis

Soluços que duram mais de 48 horas podem ser causados por uma variedade de fatores, que são geralmente agrupados nas seguintes categorias:

2.1. Irritação dos nervos do diafragma.

Como qualquer músculo do nosso corpo, o diafragma é controlado pelo nosso cérebro, que envia suas ordens através do nervo frênico e do nervo vago. Irritações desses nervos podem causar movimentos indesejados do diafragma, causando um quadro de soluço prolongado. As principais situações que podem causar irritações dos nervos que servem o diafragma são:

- Refluxo gastroesofágico (leia: Refluxo gastroesofágico | Sintomas).
- Úlceras do estômago ou duodeno.
- Tumores na região do tórax ou do pescoço.
- Bócio (leia: SINTOMAS DA TIREOIDE).
- Faringite ou amigdalite (leia: DOR DE GARGANTA | FARINGITE | AMIGDALITE).
- Irritações do tímpano ou objetos estranhos dentro do ouvido.
- Pneumonia (leia: PNEUMONIA | Sintomas e tratamento).
- Pericardite (inflamação do pericárdio, membrana que envolve o coração) .

2.2. Doenças do sistema nervoso central

Algumas lesões do cérebro podem acometer a área que controla o movimento do diafragma, levando a soluços persistentes. As principais causas são:

- AVC (leia: AVC | ACIDENTE VASCULAR CEREBRAL).
- Esclerose múltipla (leia: ESCLEROSE MÚLTIPLA | Sintomas e tratamento).
- Meningite (leia: MENINGITE | Sintomas e vacina).
- Tumores cerebrais.
- Traumatismos cranianos.

2.3. Alterações metabólicas

Alterações no nosso metabolismo, nos níveis de hormônios ou de outras substâncias no sangue, como eletrólitos (sais minerais) e glicose, também podem levar a quadros de soluços prolongado. As causas mais comuns são:

- Diabetes mal controlado (leia: SINTOMAS DO DIABETES).
- Insuficiência renal crônica (leia: INSUFICIÊNCIA RENAL CRÔNICA | Sintomas e tratamento).
- Alterações nos níveis sanguíneos de potássio, sódio ou cálcio.
- Alcoolismo crônico.

2.4. Medicamentos

Algumas drogas estão associadas a crises de soluços prolongados, entre elas:

- Anestésicos usados em anestesia geral (leia: ANESTESIA GERAL | Quais os riscos?).
- Corticoides (leia: PREDNISONA E CORTICOIDES | Indicações e efeitos colaterais).
- Ansiolíticos da classe benzodiazepínicos (diazepam, alprazolam, lorazepam...).
- Levodopa.
- Nicotina.
- Ondansetrona.
- Alfa metildopa.

Como parar o soluço?

Os soluços comuns não são considerados problemas médicos e não precisam de tratamento específico, já que duram, habitualmente, poucos minutos, desaparecendo mesmo que nada seja feito.

Todavia, ninguém gosta de ter soluços e a maioria das pessoas acaba procurando uma maneira para abreviar as crises. Como os soluços costumam ocorrer por uma irritação do diafragma ou dos seus nervos, algumas manobras simples, que estimulem pelo menos umas dessas duas estruturas, servem para abortar as crises.

Muitas das soluções caseiras para os soluços realmente funcionam e apresentam base cientifica para tal. Por exemplo:

- Quando tomamos um susto, aumentamos subitamente a liberação de um hormônio chamado adrenalina, que entre centenas de outras ações, age diretamente na contração do diafragma.
- Quando prendemos o ar e ficamos alguns segundos sem respirar, o nível de gás carbônico (CO2) no sangue se eleva, sendo este um forte estímulo para que o cérebro ative os nervos do diafragma, obrigando-o a se contrair.
- Quando bebemos água gelada, o nervo vago, que age sobre o diagrama, mas que também inerva desde a garganta até o estômago, é estimulado pela brusca mudança de temperatura.

Outras dicas caseiras para parar o soluço incluem:
  • Gargarejar com aguá gelada.
  • Chupar gelo.
  • Beber água quente (cuidado para não ser tão quente que possa queimar a boca).
  • Respirar dentro de um saco de papel.
  • Chupar limão.
  • Comer gengibre.
  • Tracionar a língua.
  • Tocar na úvula (sininho da garganta) com um objeto, tipo um canudo.
  • Comer uma colher cheia de açúcar ou mel.
  • Dobrar os joelhos e abraçar as pernas, comprimindo o peito.
  • Beber líquidos enquanto de pressiona o nariz.
  • Experimentar um pouco de vinagre.
Como tratar soluços persistentes ou intratáveis

Os soluços que duram mais de 48 horas devem ser investigados, pois fatalmente são causados por algum problema médico. Nestes casos, o tratamento dos soluços passa pelo tratamento da causa de base. Se o paciente tem uma infecção do ouvido,o tratamento é com antibióticos; se tem níveis de sódio no sangue muito baixos, a reposição de sódio faz o soluço parar;  se a causa for um medicamento, suspende-se o remédio, etc.

Nem sempre, porém, o problema por trás dos soluços persistentes é facilmente identificável. Em outros casos, a doença que causa o soluço não possui um tratamento específico, como nos pacientes que tiveram um AVC ou um traumatismo craniano. Portanto, muitas vezes o médico precisa usar algumas drogas que inibam os soluços, sem necessariamente agir diretamente na sua causa. Alguns medicamentos usados para parar soluços persistentes são:
  • Clorpromazina (droga mais usada e mais estudada para tratar soluços).
  • Haloperidol.
  • Baclofen.
  • Metoclopramida.
  • Gabapentina.
Outras opções para o controle dos soluços persistente são a acupuntura e a hipnose.

Em casos extremos - muito raros, por sinal -, a cirurgia pode ser necessária, com a implantação de um estimulador elétrico no diafragma, parecido com os marca-passos usados no coração.

Soluço em bebês

Mais de 80% dos bebês apresentam episódios frequentes de soluços. Na verdade, os bebês começam a soluçar ainda quando fetos, dentro do útero. Acredita-se que os soluços são importantes para o desenvolvimento dos sistema respiratório dos fetos, servindo como exercícios para o diafragma e outros músculos respiratórios.

Quanto mais imaturo for o sistema nervoso, mais comuns serão as crises de soluços. Bebês prematuros têm mais soluços que bebês nascidos a termo, que por sua vez têm mais soluços que bebês maiores que 6 meses.

Os soluços dos bebês causam muito mais incômodo nos pais do que nos próprios. O bebê com soluço não sente dor nem fica irritado. Os bebês não se incomodam com os soluços como nós adultos.

Como evitar os soluços nos bebês?

É impossível evitar que bebês tenham soluços, principalmente nos recém-nascidos. Todavia, algumas dicas ajudam a minimizar as crises.

Os soluços nos bebês geralmente são desencadeados pela alimentação ou pela diminuição da temperatura corporal. Bebês que mamam muito rápido e engolem muito ar costumam ter mais soluços. Procure deixar seu bebê sempre bem aquecido e com a pega do peito bem feita para minimizar o aparecimento dos soluços. Após a mamada, deixe-o em posição vertical para que ele arrote e diminua a quantidade ar no estômago.

Não use as dicas para parar os soluços dos adultos em bebês; elas não funcionam e ainda podem fazer mal.  Não dê sustos, não pressione seus globos oculares, não puxe sua língua e não aperte sua fontanela. Lembre-se que os bebês não se incomodam com os soluços, tenha paciência que após alguns minutos ele desaparecerá. Conforme o bebê vai crescendo, as crises vão se tornando cada vez menos comuns.

Os soluços nos bebês só causam preocupação se estiverem atrapalhando seus atividades habituais como dormir ou se alimentar, ou se forem persistentes, não passando após alguns minutos. Soluços frequentes em bebês acima de um ano também não são habituais. Nestes casos, mencione o fato ao pediatra que ele saberá o que fazer para descobrir se há algum problema por trás dos soluços, como refluxo gastroesofágico, por exemplo.

Vérsion en español:  HIPO | Causas y tratamiento

MONONUCLEOSE INFECCIOSA | DOENÇA DO BEIJO


A mononucleose infecciosa, também conhecida como doença do beijo, é uma doença contagiosa, causada por um vírus da família do herpes (leia: HERPES LABIAL E GENITAL) chamado vírus Epstein-Barr (EBV), transmitido através da saliva. A mononucleose é mais comum em adolescentes e adultos jovens e se caracteriza pelos sintomas de febre, dor de garganta e aumento dos linfonodos.

Neste texto vamos abordar os seguintes pontos sobre mononucleose infecciosa:
  • Como se pega mononucleose.
  • Quanto tempo o paciente permanece contagioso.
  • Sintomas da mononucleose.
  • Doenças com sintomas semelhantes à mononucleose.
  • Diagnóstico da mononucleose.
  • Tratamento da mononucleose.

Transmissão da mononucleose infecciosa


O vírus Epstein-Barr é transmitido de humano para humano através da saliva. Por este motivo ganhou a alcunha de "doença do beijo". Além do beijo, a mononucleose pode ser transmitida através da tosse, espirro, objetos como copos e talheres ou qualquer outro modo onde haja contato com a saliva de uma pessoa contaminada.

Um indivíduo infectado pelo Epstein-Barr pode manter-se com o vírus na sua orofaringe por até 18 meses após a resolução dos sintomas, podendo contaminar pessoas com quem mantenha algum contato íntimo, principalmente se prolongado. É por isso que a maioria das pessoas que desenvolve mononucleose não se recorda de ter tido contato com alguém doente: A própria pessoa que transmite o vírus também nem sequer imagina que ainda possa transmiti-lo.
Doença do beijo
Doença do beijo

Não é de se estranhar, portanto, que apesar da baixa infectividade, em alguns países mais de 90% da população adulta já tenha tido contato com o vírus da mononucleose.

Você já deve estar pensando: 18 meses!  Posso transmitir mononucleose por 18 meses! Isso significa que não posso beijar ninguém por quase dois anos?

Não é bem assim. Vamos explicar.

Na maioria dos casos, as pessoas têm o primeiro contato com o vírus da mononucleose ainda quando criança. Esta infecção passa despercebida porque o vírus da mononucleose não costuma causar doença quando adquirido na infância. Na verdade, menos de 10% das crianças que se contaminam com o Epstein-Barr desenvolvem algum sintoma. Portanto, a imensa maioria da população já teve contato com o vírus da mononucleose e já possui anticorpos, estando imunes ao vírus.

Os casos de mononucleose na adolescência e juventude ocorrem naquela minoria que por acaso não foi contaminada ainda quando criança. Ao contrário do que ocorre nas crianças, nos adolescentes e adultos jovens a mononucleose infecciosa costuma causar os sintomas clássicos, que serão explicados mais à frente neste texto.

Também é importante salientar que apesar do modo de transmissão ser semelhante ao da gripe, o Epstein-Barr é um vírus menos contagioso, o que faz com que seja possível haver contato com pessoas infectadas e não se infectar. A infecção só ocorre após contato prolongado de uma pessoa contaminada com outra que nunca tenha sido exposta ao vírus..

Portanto, quando se soma o fato da maioria da população já ser imune à mononucleose com a natural baixa taxa de contaminação do vírus, o risco de transmissão entre jovens e adultos é muito baixo. Logo, uma vez curado dos sintomas, não há motivos para impedir ninguém de voltar a namorar.

Sintomas da mononucleose


Como acabei de explicar, quando adquirida na infância, a mononucleose costuma passar despercebida. Menos de 10% das crianças infectadas apresentam sintomas. Essa incidência começa a subir com o passar dos anos, atingindo seu ápice entre os 15 e 24 anos. Esta é a faixa etária que mais costuma apresentar infecção sintomática. A mononucleose é rara após os 30 anos, uma vez que virtualmente todos neste grupo já terão sido expostos ao vírus em algum momento da vida.

Nas pessoas que desenvolvem sintomas, o período de incubação, ou seja, desde o contato até o aparecimento da doença, é em média de 4 a 8 semanas.

Os sintomas típicos da mononucleose incluem febre, cansaço, dor de garganta e aumento dos linfonodos do pescoço (ínguas). É um quadro muito semelhante às faringites comuns causadas por outros vírus e bactérias (leia: DOR DE GARGANTA - FARINGITE E AMIGDALITE). Outros sintomas inespecíficos, como dor de cabeça, dores musculares, tosses e náuseas também são comuns. Na mononucleose a fadiga costuma ser intensa e persiste por semanas após a resolução do quadro.

O aumento dos linfonodos na mononucleose infecciosa é um pouco diferente dos linfonodos da faringite comum, acometendo preferencialmente as cadeias posteriores do pescoço e frequentemente se espalhando pelo resto do corpo. Uma dica para o diagnóstico diferencial entre as faringites bacterianas e a mononucleose é que neste último pode haver o aparecimento de uma rash (manchas vermelhas) pelo corpo após o início de antibióticos, principalmente amoxicilina.

Rash da Mononucleose - Lesões de pele
Rash da mononucleose
Uma situação clássica é o paciente procurar o médico por infecção de garganta e receber uma prescrição de amoxicilina para tratamento. O paciente começa a tomar os antibióticos e horas depois surgem manchas vermelhas difusas pelo corpo.

Outro sinal característico da mononucleose é o aumento do baço, chamado de esplenomegalia. Quando este ocorre, é necessário manter repouso, devido ao risco de ruptura do mesmo. A ruptura esplênica (ruptura do baço) é rara, mas quando acontece leva a risco de morte devido ao intenso sangramento que se sucede. O baço aumenta tanto de tamanho que pode ser palpável abaixo das costelas à esquerda do abdômen..

O acometimento do fígado não é incomum, podendo levar a um quadro de hepatite com icterícia em até 20% dos casos. (leia: AS DIFERENÇAS ENTRE AS HEPATITES e ICTERÍCIA NO ADULTO E ICTERÍCIA NEONATAL). Outras complicações descritas, porém, menos comuns, são a síndrome de Guillain-Barré (leia: O QUE É A SÍNDROME DE GUILLAIN-BARRÉ ?) e a paralisia facial (leia: PARALISIA FACIAL | PARALISIA DE BELL | Causas e Tratamento).

A mononucleose não costuma causar maores problemas quando adquirida durante a gravidez. Não há evidências de aumento do risco de má-formação, aborto ou parto prematuro.

Síndrome de mononucleose x doença mononucleose

Um fato que causa confusão, inclusive entre médicos, é a diferença entre a doença mononucleose infecciosa e a síndrome de mononucleose. O primeiro é causado pelo Epstein-barr vírus e é o alvo de discussão deste artigo. Já a síndrome de mononucleose engloba todas doenças que podem cursar com dor de garganta, aumento de linfonodos, febre e aumento do baço. Entre elas destacam-se o HIV, citomegalovírus, linfomas e toxoplasmose. Portanto, ter mononucleose infecciosa é diferente de ter uma síndrome de mononucleose.

Diagnóstico da mononucleose infecciosa


O diagnóstico da mononucleose é feito através do quadro clínico e é confirmado por análises de sangue.

No hemograma da mononucleose um achado típico é o aumento do número de leucócitos (leucocitose), causado pela maior produção de linfócitos (linfocitose), ou seja, o paciente apresenta leucocitose e linfocitose (leia: HEMOGRAMA - Entenda os seus resultados).

Quando o fígado é acometido, pode haver elevação das enzimas hepáticas, chamadas de TGO e TGP (leia: O QUE SIGNIFICAM AST (TGO), ALT (TGP) E GAMA GT?).

O diagnóstico definitivo, porém, é feito através da sorologia, com a pesquisa de anticorpos. O mais comum e simples é um exame chamado monoteste.

Tratamento da mononucleose


O tratamento baseia-se em sintomáticos e repouso. Não há droga específica para o vírus e o quadro costuma se resolver espontaneamente em duas semanas.

Devido ao risco de ruptura do baço, recomenda-se evitar exercícios por pelo menos quatro semanas.

Durante muitos anos se associou a mononucleose com a síndrome da fadiga crônica (leia: SÍNDROME DA FADIGA CRÔNICA). Porém, hoje sabe-se que a fadiga da mononucleose é diferente. O cansaço prolongado que pode ocorrer normalmente não vem associado com os outros sintomas da síndrome e normalmente ocorre por reativações mais fracas do vírus.

Vérsion en español:  MONONUCLEOSIS INFECCIOSA

ANEMIA | Sintomas e causas


Anemia é um dos distúrbios mais frequentes na medicina. Apesar de ser uma condição comum, ela é muitas vezes mal diagnosticada, mal tratada e quase sempre mal explicada aos pacientes.

 Neste texto vamos explicar os seguintes pontos sobre a anemia:
  • O que é anemia.
  • O que são hematócrito e hemoglobina.
  • Diagnóstico da anemia.
  • Causas de anemia.
  • Tipos de anemia.
  • Sintomas da anemia.
  • Relação entre anemia e leucemia.
O que é anemia?

Popularmente a anemia é conhecida como falta de sangue. Na verdade, este conceito não está de todo errado, mas podemos ser um pouco mais precisos. Anemia é a redução do número de glóbulos vermelhos (também chamados de hemácias ou eritrócitos) no sangue. As hemácias são as células que transportam o oxigênio, levando-o para todos os órgãos e tecidos do corpo.

Para ficar mais fácil de entender, vamos explicar do que é feito o sangue:

Composição do sangue
Composição do sangue
O sangue pode ser dividido didaticamente em duas partes: plasma e células.

O plasma sanguíneo é a parte líquida, correspondendo a 55% do volume total de sangue. O plasma é basicamente água (92%), com alguns nutrientes diluídos, como proteínas, anticorpos, enzimas, glicose, sais minerais, hormônios, etc.

Os outros 45% do sangue são compostos por células: hemácias, leucócitos e plaquetas. Destas células, 99% são hemácias.

A anemia surge quando o percentual de hemácias no sangue fica reduzido, deixando-o mais diluído (as causas serão explicados mais à frente).

O diagnóstico da anemia é feito basicamente pela dosagem das hemácias no sangue, realizada através de em um exame de sangue chamado hemograma (leia: ENTENDA OS RESULTADOS DO SEU HEMOGRAMA). Na prática, a dosagem das hemácias é feita através dos valores do hematócrito e da hemoglobina.

Para entender como se diagnostica uma anemia é preciso estar familiarizado com os termos hematócrito e hemoglobina. Vamos a eles, então.

O que são o hematócrito e a hemoglobina?

a.) Hematócrito

O hematócrito é o percentual do sangue que é ocupado pelas hemácias (glóbulos vermelhos). O hematócrito normal fica ao redor de 40 a 45%, indicando que 40 a 45% do sangue são compostos por hemácias.

As hemácias são produzidas na medula óssea e têm uma vida de apenas 120 dias. As hemácias velhas são destruídas pelo baço (órgão situado à esquerda na nossa cavidade abdominal). Isso significa que após quatro meses nossas hemácias já foram todas renovadas. A produção e a destruição das hemácias  são constantes, de modo a se manter sempre um número estável de hemácias circulantes no sangue.

b.) Hemoglobina

A hemoglobina é uma molécula portadora de ferro que fica dentro da hemácia. A hemoglobina é o componente mais importante da hemácia por ser ela a responsável pelo transporte de oxigênio pelo sangue.

O ferro é um elemento essencial da hemoglobina. Pessoas com carência de ferro não conseguem produzir hemoglobinas, que por sua vez são necessárias para a produção das hemácias. Portanto, uma diminuição das hemoglobinas obrigatoriamente leva a uma diminuição das hemácias, ou seja, à anemia.

Na prática, a dosagem de hemoglobina acaba sendo a mais precisa na avaliação de uma anemia, uma vez que o hematócrito pode ser influenciado por uma sangue mais ou menos diluído.

Diagnóstico da anemia

O diagnóstico de anemia é feito quando os valores da hemoglobina e do hematócrito estão abaixo do valor de referência:

- Hematócrito normal = 41% a 54% nos homens ou 35% a 47% nas mulheres
- Hemoglobina normal = 13 a 17 g/dL nos homens ou 12 a16 g/dL nas mulheres

Portanto, estamos diante de uma anemia quando os valores se encontram abaixo dos fornecido acima. É importante salientar que os valores de referência podem variar de um laboratório para o outro, e resultados um pouco abaixo do normal devem ser interpretados pelo seu médico, uma vez que não necessariamente indicam doença. Mulheres com grande fluxo menstrual podem ter valores menores que estes, sem causar qualquer dano à saúde. Uma leve anemia em mulheres pode não ter relevância clínica.

Bom, explicado o básico, vamos ao que interessa.

Causas de anemia

A anemia tem três causas básicas:

- Pouca produção de hemácias pela medula óssea.
- Elevada destruição de hemácias pelo corpo.
- Perda de hemácias e ferro através de sangramentos.

O CONCEITO MAIS IMPORTANTE QUE DEVE SER APRENDIDO É QUE ANEMIA NÃO É UMA DOENÇA, MAS SIM UM SINAL DE DOENÇA. Ao se deparar com um hemograma evidenciando uma anemia, o médico deve investigar qual das três causas acima é a responsável pelo quadro. Não basta prescrever ferro e achar que está tudo bem.

Exemplos de causas de anemia que não se resolvem apenas com reposição de ferro:

1- Um câncer de intestino pode causar sangramentos e perda de hemácias, levando à anemia. Esta anemia é causada por perda de sangue e, apesar do paciente realmente ter carência de ferro, uma simples reposição não irá estancar o sangramento, nem tratar o tumor. Na verdade, repor ferro sem investigar a causa da anemia pode melhorar os valores do hematócrito temporariamente, levando à falsa impressão de resolução do problema, o que só irá atrasar o diagnóstico final.

2- Uma infecção que atinge a medula óssea impede a produção de hemácias, levando à anemia. Anemia neste caso ocorre por falta de produção de hemácias na medula. Do mesmo modo, repor ferro não irá tratar a causa.

3- Um medicamento que seja tóxico para as hemácias e cause sua destruição antes de 120 dias, também leva à anemia. Anemia por rápida destruição das hemácias também não vai ser tratada com ferro.

Portanto, o simples diagnóstico de anemia não encerra a investigação. Pelo contrário, ele é apenas o primeiro passo para se obter o diagnóstico final. Se o paciente tem uma anemia, existe uma causa por trás.

A reposição de ferro só está indicada nos casos de anemia por carência ferro, chamada de anemia ferropriva. Ainda assim, a reposição não elimina a necessidade de se investigar o que está causando a perda de ferro. O paciente pode perder sangue por úlceras no estômago, tumores no intestino, sangramento vaginal, etc. Para saber mais sobre anemia por carência de ferro, leia: ANEMIA FERROPRIVA | Carência de ferro.

Abaixo, uma demonstração do número de doenças que podem causar anemia e ficarão sem diagnóstico se não forem investigadas:

- Neoplasias (leia: CÂNCER | Sintomas e tipos).
- Insuficiência renal (leia: INSUFICIÊNCIA RENAL CRÔNICA).
- Leucemias (leia: LEUCEMIA - Sintomas e Tratamento).
- Linfomas (leia: O QUE É UM LINFOMA ?).
- Mieloma múltiplo (leia: ENTENDA O MIELOMA MÚLTIPLO).
- Doenças do trato gastrointestinal.
- Hipotireoidismo (leia: HIPOTIREOIDISMO (TIREOIDITE DE HASHIMOTO)).
- Deficiências de vitaminas como B12 e ácido fólico (leia: MITOS E VERDADES SOBRE VITAMINAS).
- Toxicidade da medula óssea por drogas.
- Doenças do fígado (leia: AS DIFERENÇAS ENTRE AS HEPATITES).
- Infecções.
- Lúpus (leia: LÚPUS ERITEMATOSO SISTÊMICO).
- Síndrome hemolítica urêmica.
- SIDA (AIDS) (leia: SINTOMAS DO HIV E AIDS (SIDA)).
- Alcoolismo (leia: EFEITOS DO ÁLCOOL | Tratamento do alcoolismo).
- Sangramento digestivo (leia: SANGUE NAS FEZES E HEMORRAGIA DIGESTIVA).

Na verdade, qualquer doença que curse com inflamação crônica pode inibir a função da medula óssea e cursar com queda das hemácias, uma situação que chamamos de anemia de doença crônica. Portanto, qualquer doença mais arrastada pode causar anemia.

Anemias primárias

Na maioria dos casos, a anemia surge devido a alguma doença, como nos exemplos citados acima. Todavia, existem também as anemias primárias, ou seja, causadas por defeitos próprios na produção das hemácias. As anemias primárias são aquelas que não são causadas por outras doenças, elas são a própria doença.

Estas anemias são normalmente doenças de origem genética. As mais comuns são:

- Anemia falciforme (leia: ANEMIA FALCIFORME (DREPANOCÍTICA))
- Talassemia
- Anemia sideroblástica
- Esferocitose
- Hemoglobinúria paroxística noturna
- Deficiência de G6PD

Apenas para reforçar os conceitos: na anemia primária, o paciente tem um defeito genético que o impede de produzir hemácias saudáveis. O paciente nasce com esse problema. Nas anemias secundárias, o paciente passa a apresentar anemia depois de contrair algum problema de saúde ao longo da sua vida.

Anemia vira leucemia?

NÃO! nenhuma anemia causa leucemia, assim como nenhuma anemia vira leucemia. Na verdade, anemia não só não vira leucemia como nenhum outro tipo de câncer. Entretanto, como já foi explicado, a anemia pode ser um sinal da existência de um câncer, entre eles a própria leucemia. Portanto, a leucemia leva à anemia e não o contrário.

Sintomas da anemia

Como as hemácias são as transportadoras de oxigênio do nosso corpo, a falta delas leva aos sintomas de uma oxigenação deficiente dos nossos tecidos. O principal sintoma da anemia é o cansaço. A anemia pode ser tão grave que tarefas simples como pentear o cabelo ou mudar de roupa tornam-se extenuantes.

Quanto mais rápido se instala a anemia, mais cansaço e fraqueza o paciente sente. Anemias que se instalam lentamente dão tempo ao paciente se adaptar e podem só causar sintomas em fases bem avançadas. Apenas como exemplo, se o paciente perde sangue rapidamente e sua hemoglobina cai de 13 para 9,0 g/dL em dois ou três dias, o paciente sentirá um cansaço grande. Se por outro lado houver um sangramento pequeno mas constante, fazendo com que a hemoglobina caia de 13 para 8,0 g/dL em três ou quatro meses, o paciente pode não notar muito cansaço a não ser que tente fazer esforços mais intensos.

Anemia - Conjuntiva
Anemia
Outro sinal de anemia é a palidez cutânea, muitas vezes identificadas até por leigos. Em pacientes de pele negra, a palidez cutânea é difícil de ser identificada.

Um jeito simples de identificar a anemia é olhar a conjuntiva, a membrana que recobre o olho e a região de dentro da pálpebra. Em pessoas normais ela é bem vermelhinha. Já em anêmicos ela é quase da cor da pele.

Além do cansaço e da palidez cutânea, outros sintomas da anemia incluem palpitações, falta de ar, dor no peito, sonolência, tonturas e hipotensão. Nos idosos pode haver algum grau de perda da atenção e dificuldades no raciocínio.

Para saber mais sobre os sintomas da anemia, leia: SINTOMAS DA ANEMIA.

Conclusão

Como se pôde notar, a anemia é uma situação complexa que pode indicar dezenas de doenças diferentes.
O importante é procurar ajuda médica sempre que houver suspeita de anemia.

Não se satisfaça apenas com o diagnóstico de anemia e a prescrição de ferro para tratamento. Pergunte ao seu médico qual é a causa da sua anemia e o que está sendo feito para diagnosticá-la e tratá-la.

Vérsion en español:  ANEMIA | Síntomas y causas