O QUE É ARTROSE?


A artrose, também conhecida como osteoartrite, osteoartrose ou artrite degenerativa, é a forma mais comum de artrite (inflamação da articulação), sendo resultado da degeneração da cartilagem que protege a articulação.

Neste texto vamos abordar as seguintes questões sobre a artrose:
  • O que é a artrose?
  • O que é artrite?
  • O que causa a artrose?
  • Quais são os sintomas da artrose?
As opções de tratamento para a artrose serão abordadas neste outro texto:

O que é artrose?

Para entender a artrose é preciso conhecer um pouquinho a anatomia das articulações.

Articulação é a região onde há conexão entre dois ou mais ossos distintos. Exemplos: O joelho é uma articulação que liga os ossos fêmur e tíbia (conecta a coxa à perna), o cotovelo é uma articulação que liga o osso úmero aos ossos ulna e rádio (conecta o braço ao antebraço) e o tornozelo é uma articulação que liga os ossos tíbia, fíbula e tálus (conecta a perna ao pé).

As articulações citadas acima são móveis, ao contrário, por exemplo, das articulações que conectam os diversos ossos do crânio, que são fixas (o nosso crânio não é formado por um único grande osso, mas sim por vários ossos conectados uns aos outros).

As articulações moveis possuem cartilagem e uma bolsa cheia de líquido, chamado líquido sinovial. A cartilagem é um tecido escorregadio aderido às extremidades dos ossos ligados pelas articulações. Quando há movimento na articulação, graças ao lubrificante líquido sinovial e à amortecedora cartilagem, os ossos deslizam entre si com mínimo atrito.

Joelho normal e joelho com artrose.
Osteoartrite - Artrose
A artrose é um processo onde há degeneração da cartilagem. Nas fases inicias da artrose a cartilagem torna-se mais áspera, aumentando o atrito durante a movimentação da articulação. A artrose grave surge quando a cartilagem é completamente destruída, fazendo com que o atrito entre os dois ossos cause desgaste dos mesmos.

Este atrito nas articulações provoca uma inflamação da mesma,  que se caracteriza por um quadro de artrite, daí o nome de osteoartrite (artrite = inflamação da articulação). Existem cerca de 100 doenças que podem causar artrite; a artrose (osteoartrite) é a mais comum. Se você quiser mais informações sobre as diferenças entre a artrite da artrose e as artrites de outras doenças, leia: ARTRITE e ARTROSE | Sintomas e diferenças.

Causas e fatores de risco da artrose

A osteoartrose é muito rara antes do 40 anos e muito comum após os 60 anos. Durante muito tempo pensou-se que a degeneração da articulação, e consequentemente a artrose, era um processo natural do envelhecimento. Sabe-se hoje que a idade é um dos principais fatores de risco, mas não é o único.

Além da idade outros fatores de risco para osteoartrite são a obesidade (principalmente para artrose do joelho) (leia: OBESIDADE | Definições e consequências), ser do sexo feminino (mulheres têm até 3x mais chances de desenvolver osteoartrite que homens), falta de prática de exercícios (exceto os de alto impacto nas articulações, que podem levar à artrose), predisposição genética, etc.

A artrose pode ser primária, quando não há uma causa aparente além da idade, ou secundária, quando surge devido a traumas nas articulações, deformidades ósseas, obesidade, diabetes (leia: DIABETES MELLITUS | Diagnóstico e sintomas), etc.

Resumindo, os principais fatores de risco para artrose são:
  • Idade
  • Sexo feminino
  • Obesidade
  • Não ter osteoporose (ossos fortes na velhice aumentam o risco de artrose)
  • Ocupação (trabalhos que forcem as articulações cronicamente)
  • Atividades desportivas de alto impacto
  • Traumas nas articulações
  • Doenças musculares
  • Predisposição genética
  • Deformidades ósseas
  • Diabetes Mellitus
 Sintomas da artrose

As articulações mais acometidas pela osteoartrose são as mãos, joelhos, quadril e coluna.

O principal sintoma da artrose é a dor, que normalmente piora com esforço físico e alivia com repouso. A dor costuma ser pior no final do dia e após longos períodos de imobilização, como em viagens de avião ou em poltronas de cinema. Alguns pacientes apresentam piora da dor com mudanças no clima. Conforme a osteoartrite avança, a dor pode surgir com atividades cada vez menos intensas, podendo, por fim, ocorrer mesmo em repouso e durante a noite. A artrose em fases avançadas é uma doença incapacitante.

A dor não é  causada diretamente pela lesão na cartilagem uma vez que esta não apresenta inervação. Isso significa que alguns pacientes com lesões graves da cartilagem, visíveis na radiografia, podem apresentar poucas queixas de dor, enquanto outros com lesões menos visíveis podem ter sintomas de artrose mais evidentes.

Rigidez também é uma queixa comum em pacientes com artrose. A rigidez das articulações doentes é comum nos primeiros minutos após o paciente acordar, melhorando após cerca de meia hora. Durante o dia também podem haver episódios de rigidez articular, principalmente após períodos de inatividade.

A articulação acometida pela osteoartrite costuma apresentar uma mobilidade menor e pode estar inchada, quente e apresentar crepitações à movimentação.

Segunda parte do texto:

Vérsion en español:  ARTROSIS | Síntomas y causas

INFECÇÃO URINÁRIA NA GRAVIDEZ


A infecção urinária, principalmente a infecção da bexiga, chamada de cistite, é uma complicação relativamente comum nas gestantes. A gravidez provoca mudanças hormonais e físicas no corpo da mulher que, junto à dificuldade com a higiene devido a uma barriga distendida, aumentam a frequência de infecções do trato urinário. Neste texto vamos falar sobre a infecção urinária na gravidez.

Chamamos de infecção urinária qualquer infecção que acometa rins, bexiga e/ou uretra. A infecção dos rins recebe o nome de pielonefrite, a infecção da bexiga chama-se cistite e infecção da uretra é a uretrite.
Temos no site outros artigos relacionados à infecção urinária, que podem ser acessados nos links abaixo:
- INFECÇÃO URINÁRIA | Cistite
- INFECÇÃO URINÁRIA | Pielonefrite
- URETRITE | Gonorreia e Clamídia
- DISÚRIA | Dor para urinar
- EXAME DE URINA | Leucócitos, nitritos, hemoglobina...
- EXAME UROCULTURA | Indicações e como colher
- BACTÉRIA Escherichia coli | E.coli
- INFECÇÃO URINÁRIA | Sintomas
- TRATAMENTO PARA INFECÇÃO URINÁRIA

Infecção urinária na gravidez - Bacteriúria


O nosso trato urinário habitualmente é estéril, ou seja, não contém germes. Todavia, algumas pessoas podem ter bactérias detectáveis em seu exame de urina, chamada de bacteriúria, sem que isso necessariamente indique uma infecção urinária. A presença de bactérias na urina sem a ocorrência de sintomas de infecção urinária é chamada de bacteriúria assintomática. Na maioria das pessoas a bacteriúria assintomática não possui relevância clínica e não precisa ser tratada. Entretanto, a gravidez é uma das poucas exceções a esta regra.

GravidezMulheres grávidas apresentam um maior risco de desenvolverem infecção urinária quando apresentam bacteriúria. Alterações hormonais e da musculatura dos órgãos urinários favorecem o refluxo de urina e a dilatação dos ureteres, fatos que aumentam o risco de bactérias da bexiga chegarem aos rins, provocando pielonefrite.

Além do maior risco de pielonefrite, a bacteriúria assintomática na gravidez tem sido associada a um risco aumentado de nascimento prematuro, baixo peso do feto e aumento da mortalidade perinatal.

Portanto, ao contrário do que ocorre nas mulheres não grávidas, nas gestantes indica-se a pesquisa de bactérias na urina mesmo que as mesmas não apresentem queixas urinárias. Se for detectada bacteriúria, mesmo que não haja uma cistite ou pielonefrite, antibióticos estão indicados para esterilizar o trato urinário e evitar complicações na gravidez. Se não tratadas a tempo, cerca de 40% das gestantes com bacteriúria assintomática desenvolverão pielonefrite.

Cistite na gravidez


A cistite, infecção da bexiga, ocorre em aproximadamente 1 a 2% das mulheres grávidas. Como o risco de ascensão das bactérias em direção aos rins é maior nas gestantes, a cistite da grávida é considerada um quadro mais grave que as cistites das mulheres não grávidas.

A cistite na gestante é causada pelas mesmas bactérias das cistites comuns, com especial ênfase para a bactéria E.coli. O mecanismo de contaminação do trato urinário por bactérias é semelhante ao que ocorre em mulheres não gestantes, com o agravante de que o aumento do útero atrapalha o esvaziamento da bexiga, favorecendo o acúmulo de urina por mais tempo que o habitual, o que aumenta o risco de multiplicação de bactérias.

Os mecanismos, os fatores de risco e a prevenção da cistite, tanto em grávidas como em não grávidas, podem ser lidos no texto: INFECÇÃO URINÁRIA | Sintomas da cistite.

Os sintomas da cistite na grávida são os clássicos:
  • Dor ou ardência para urinar.
  • Vontade de urinar frequentemente.
  • Dificuldade em segurar a urina.
  • Vontade de urinar mesmo com bexiga vazia.
  • Dor ou sensação de peso na bexiga.
  • Sangue na urina.
O diagnóstico da cistite é feito através da urocultura. 

    Pielonefrite aguda na gravidez


    A pielonefrite é a complicação mais comum do trato urinário em mulheres grávidas, ocorrendo em aproximadamente 2% de todas as gestações.

    Assim como na cistite, a pielonefrite é geralmente causada pela bactéria E.coli. Como já explicado, as alterações hormonais e físicas da gravidez favorecem a ascensão de bactérias da bexiga para os rins, provocando infecção dos mesmos. A pielonefrite é uma infecção bem mais grave que a cistite e pode levar à sepse grave, com choque circulatório e insuficiência respiratória (leia: O QUE É SEPSE E CHOQUE SÉPTICO?).

    Os sintomas pielonefrite são febre, calafrios e dor no flanco. Náuseas, vômitos e ardência ao urinar também podem estar presentes.

    Assim como na cistite, o diagnóstico da pielonefrite também é feito através da urocultura.

    Se quiser mais informações sobre pielonefrite, leia: INFECÇÃO URINÁRIA | Sintomas da pielonefrite.

    Tratamento da infecção urinária na gravidez


    Toda grávida deve colher uma urocultura na primeira visita ao obstetra ou entre a 12ª e 16ª semana de gestação. Também é comum o obstetra solicitar nova urocultura no terceiro trimestre.

    Toda gestante com urocultura positiva deve ser tratada com antibióticos, independente de ter sintomas ou não. Na grávida, a bacteriúria assintomática é encarada como uma cistite.

    a) Bacteriúria assintomática ou cistite

    Antibióticos da classe quinolonas, como ciprofloxacino, norfloxacino e ofloxacino (leia: ANTIBIÓTICOS | Tipos, resistência e indicações), muito usados para tratar infecção urinária, são contraindicados na gravidez. O Bactrim também não deve ser usado como primeira opção.

    Atualmente as opções seguras para tratar bacteriúria assintomática ou cistite na grávida são:
    • Nitrofurantoína (Macrodantina ®) (100 mg por via oral cada 12 horas durante 5-7 dias) 
    • Amoxicilina (500 mg por via oral cada 12 horas durante 3-7 dias)
    • Amoxicilina-clavulanato (500 mg por via oral cada 12 horas durante 3-7 dias)
    • Cefalexina (500 mg por via oral cada 12 horas durante 3-7 dias)
    • Fosfomicina (3 g por via oral em dose única).
    Uma semana após o término do tratamento deve-se repetir a urocultura para se confirmar a eliminação da bactéria. Se a urocultura se mantiver positiva, o tratamento deve ser repetido, desta vez por mais tempo.

    Após a comprovada eliminação da bactéria, a urocultura deve ser repetida todo mês até o final da gestação.

    Pacientes com mais de dois episódios de bacteriúria durante a gravidez podem se beneficiar de um tratamento profilático com macrodantina, um comprimido de 100mg diariamente, até o fim da gravidez.

    Em mulheres com história de cistite de repetição antes da gravidez, o uso de antibióticos profiláticos também pode ser usado. Nas mulheres com aumento da incidência de cistite após relação sexual, indica-se uma dose de antibióticos pós-coito como medida profilática.

    b) Pielonefrite

    Com base no maior risco de complicações em mulheres grávidas, a pielonefrite tem sido tradicionalmente tratada com hospitalização e antibióticos intravenosos até que a paciente encontre-se assintomática e afebril por pelo menos 48 horas. Após este período a paciente pode ter alta hospitalar com antibióticos por via oral visando completar 14 dias de tratamento.

    OTITE EXTERNA | Dor de ouvido


    Otite externa é nome que damos à inflamação da porção externa do ouvido, chamada também de orelha externa. Neste texto vamos explicar a anatomia da orelha externa, os sintomas da otite e o seu tratamento.

    Falamos sobre otite média em um texto à parte, que pode ser acessado neste link: OTITE MÉDIA AGUDA

    Anatomia do ouvido externo

    Para entender o que é a otite externa e quais suas potenciais complicações é preciso antes conhecer um pouco da anatomia do ouvido externo.

    O ouvido externo é composto pela pavilhão auricular (orelha) e pelo canal auditivo, terminando na membrana timpânica. Após o tímpano, inicia-se a região do ouvido médio. Quando há uma inflamação em qualquer parte do ouvido externo, damos o nome de otite externa. Quando a inflamação ocorre após o tímpano, chamamos de otite média.

    Apenas como curiosidade, a nomenclatura mais correta não é ouvido externo, mas sim orelha externa. Antigamente chamava-se de orelha o pavilhão auricular (a parte externa e visível do órgão auditivo) e ouvido a parte interna. Desde 2001 o nome mudou e o termo ouvido já não é mais usado. O correto agora é orelha externa (pavilhão auricular + canal auditivo) e orelha média. Todavia, como esse site é voltado para leigos, e para que não haja confusão com os termos, manterei os termos orelha e ouvido como todos conhecem.

    Ouvido externo - dor de ouvido
    Ouvido externo

    O canal auditivo externo é um ducto cilíndrico com mais ou menos 2,5cm de comprimento e 1cm de diâmetro. Inicia-se na orelha e termina na membrana timpânica.

    A parte mais externa do canal auditivo é revestida por uma pele mais grossa com numerosas estruturas anexas, como glândulas que produzem cerume, glândulas sebáceas e folículos pilosos. A porção interna do canal, mais próxima do tímpano, contém uma pele fina e frágil, sem tecido subcutâneo. A pele nesta área está em contato direto com o osso subjacente. Deste modo, inflamações mínimas ou instrumentação do canal (como uso de objetos para coçar o ouvido) são capazes de provocar dor significativa e/ou ferimentos.

    Como se pega otite externa?

    O nosso canal auditivo possui alguns mecanismos de defesa intrínsecos que dificultam a ocorrência de infecções:

    - A própria anatomia da orelha já é protetora, pois ela cobre parcialmente o canal auditivo, dificultando a entrada de objetos estranhos. Outro fator que impede a entrada de objetos estranhos é o fato do canal auditivo apresentar uma área mais afinada, o que impede, por exemplo, o dedo de chegar até o tímpano. A presença de pelos na região mais externa do canal auditivo também age como barreira.

    - A produção de cerume também é essencial, pois além da barreira física, ela causa uma diminuição do pH do canal auditivo, inibindo o crescimento de fungos e bactérias. O cerume também é uma substância hidrofóbica, o que ajuda a diminuir a umidade dentro do ouvido.

    - O ouvido é um órgão "autolimpante". A pele do canal auditivo cresce de dentro para fora, o que vai naturalmente empurrando as sujeiras, o excesso de cera e a descamação da pele para fora do ouvido.

    - Assim como várias regiões do nosso organismo, o canal auditivo possui sua própria flora de bactérias, que normalmente não causam problemas de saúde e ainda dificultam a chegada de bactérias mais agressivas. Feridas no canal auditivo podem facilitar a penetração de bactérias para tecidos mais profundos, causando infecções. A maioria das otites externas são causadas pela bactéria Pseudomonas aeruginosa,  uma bactéria invasora que normalmente não coloniza o canal auditivo. Das bactérias que normalmente habitam o ouvido, o Staphylococcus aureus é aquela que mais causa otite, principalmente se houver uma ferida na pele do canal do ouvido (leia: STAPHYLOCOCCUS AUREUS | Quais os riscos desta bactéria?).

    Fatores de risco para otite externa

    A otite externa costuma surgir quando algum desses sistemas de proteção citados acima é quebrado.

    - Exposição à água é um fator de risco bem documentado para otite externa. Excesso de umidade leva à maceração da pele e à quebra da barreira de cerume, mudando a microflora do canal do ouvido, favorecendo o crescimento de bactérias que causam a otite. A otite externa é também conhecida como a otite do nadador.

    - Traumas, tais como limpeza excessiva (ou agressiva) do ouvido, não só removem cerume, mas também podem criar escoriações ao longo da fina camada de pele no canal auditivo, permitindo que bactérias tenham acesso aos tecidos mais profundos. Além disso, parte de um cotonete pode soltar-se ou um pequeno pedaço de papel tecido pode ser deixado para trás no canal do ouvido; esses resquícios podem causar uma reação cutânea grave, levando à infecção.

    - O uso de cotonete mais empurra o cerume para dentro do canal do que o remove. Esse cerume comprimido pode agir como uma rolha e só sai com o auxilio de um otorrinolaringologista. Como já dito, o ouvido não precisa ser limpo, ele mesmo é capaz de expulsar o cerume e as impurezas. O cotonete além de poder ferir o canal auditivo, ainda impede a "autolimpeza" do ouvido (leia: CERÚMEN | Cera do ouvido).

    - Uso frequente de dispositivos que ocluem o canal do ouvido, como aparelhos auditivos, fones de ouvido (auriculares) ou tampões de mergulho também predispõem à otite externa.

    - Dermatite de contato alérgica pode levar à otite externa (por exemplo, alergia a brincos ou produtos químicos em cosméticos ou shampoos), assim como outras condições dermatológicas, como, por exemplo, psoríase ou dermatite atópica.

    A otite externa pode surgir em qualquer idade, mas é mais comum em crianças entre 7 e 12 anos.

    Sintomas da otite externa

    Os sintomas mais comuns da otite externa são dor, coceira, sensação de entupimento e corrimento de líquido do ouvido. A dor de ouvido na otite externa costuma ser muito forte e piora quando se puxa ou aperta a orelha. É possível surgirem alguns linfonodos palpáveis no pescoço do lado do ouvido acometido.

    Ao exame com o otoscópio é possível notar o canal auditivo muito edemaciado e avermelhado, sinais típicos de inflamação.

    A febre só costuma surgir nos casos mais graves.

    Otite externa necrotizante (Otite externa maligna)

    Otite externa maligna, também chamada de otite externa necrotizante, é uma complicação grave e potencialmente fatal de otite externa bacteriana aguda. Mais comum em pacientes diabéticos, idosos e imunocomprometidos, ela ocorre quando a infecção se espalha a partir da pele aos ossos e espaços da medula da base do crânio (também envolvendo tecidos moles e da cartilagem da região temporal).

    Pacientes com otite externa necrotizante normalmente têm dor forte e corrimento purulento. Edema, vermelhidão e franca necrose da pele do canal auditivo podem ser evidentes ao exame otoscópico. Paralisia de nervos cranianos são um sinal de mau prognóstico.

    A otite externa maligna pode levar a abscesso cerebral e à meningite bacteriana.

    O diagnóstico é auxiliado pela ressonância magnética ou tomografia computadorizada, mostrando progressão da infecção para as estruturas ósseas. Pacientes suspeitos de terem otite externa maligna devem ser imediatamente encaminhados a um otorrinolaringologista.

    Tratamento da otite externa

    A maioria das pessoas com otite externa pode ser tratada em casa.

    Em alguns casos, seu médico vai lavar o ouvido com água e peróxido de hidrogênio antes de começar o tratamento. Este procedimento acelera a cura, removendo as células mortas da pele e o excesso de cera do ouvido.

    A prescrição de medicamentos em gotas para ouvido servem para reduzir a dor e inchaço causado pela otite externa. Essas gotas normalmente contêm uma combinação de corticoides, antifúngicos e antibióticos. Não use medicamentos por conta própria, antes de pingar qualquer remédio no ouvido para tratar uma otite é preciso ter certeza que o tímpano não está perfurado.

    A aplicação correta das gotas é essencial para que estas atinjam o canal do ouvido:
    • Deite-se de lado ou incline a cabeça para o ombro oposto.
    • Preencha o canal do ouvido com gotas.
    • Deite-se de lado por 20 minutos e coloque uma bola de algodão no canal do ouvido.
    Você deve começar a se sentir melhor dentro de 36 a 48 horas o início do tratamento. Se a sua dor piorar ou não houver sinais de melhora neste período de tempo, ligue para seu médico. Analgésicos ou anti-inflamatórios  em comprimidos podem ser usados para alivio da dor.

    Evite molhar os ouvidos  durante o tratamento. Durante o banho, você pode colocar uma bola de algodão revestido com vaselina na orelha. Evite nadar por pelo menos dez dias após início do tratamento. Evite também usar aparelhos auditivos e fones de ouvido até a dor desaparecer.

    Vérsion en español:  OTITIS EXTERNA

    SINTOMAS DO LÚPUS


    Lúpus eritematoso sistêmico (LES) é uma doença autoimune de causa ainda desconhecida que pode afetar a pele, articulações, rins, pulmões, sistema nervoso e vários outros órgãos do corpo. Uma doença autoimune é aquela onde o sistema imunológico equivocadamente passa a produzir anticorpos contra estruturas do nosso próprio corpo. São chamados de auto-anticorpos. Para saber mais sobre doenças autoimunes, leia: DOENÇA AUTOIMUNE.

    Neste texto iremos focar nos principais sintomas do lúpus. Temos um texto mais abrangente sobre a doença, abordando não só os sintomas, mas também diagnóstico e tratamento, que pode ser acessado neste link: LÚPUS ERITEMATOSO SISTÊMICO | Sintomas e tratamento

    É importante frisarmos que os pacientes com lúpus não necessariamente apresentam todos os sintomas descritos abaixo. O curso clínico do lúpus é muito variável e pode ser caracterizado por períodos de remissões e recidivas. A doença pode piorar ou melhorar ao longo dos anos, e sintomas que nunca existiram podem surgir de uma hora para outra.

    A gravidade do lúpus depende de quais e quantos órgãos são afetados. Há também uma escala de gravidade em relação ao acometimento de um mesmo órgão, por exemplo, o lúpus pode causar lesões renais muito graves ou praticamente assintomáticas. Pacientes com  lesões graves de vários órgãos costumam apresentar um mau prognóstico. Já pacientes com  lesões leves e restritas a um ou poucos órgãos podem ter uma vida praticamente normal por décadas.

    Sintomas do lúpus

    1.Sintomas constitucionais

    Chamamos de sintomas constitucionais o grupo de sinais e sintomas inespecíficos, que atingem vários sistemas do organismos e são comuns a várias doenças. A principal característica dos sintomas constitucionais é nos dar ideia de que há algo de errado com a saúde sem, todavia, indicar precisamente o origem do problema.

    O lúpus eritematoso sistêmico é uma doença que habitualmente manifesta-se com sintomas constitucionais na sua fase inicial. Entre eles os mais comuns são:
    • Cansaço e a intolerância ao exercício - são sintomas extremamente comuns e acometem mais de 80% dos pacientes com lúpus (para ler sobre cansaço: CANSAÇO | FADIGA | Principais causas).
    • Dor muscular e sensação de fraqueza.
    • Perda de peso - ocorre de forma não intencional  e geralmente está associada à perda do apetite.
    • Febre (para ler sobre febre: O QUE É A FEBRE ? Por que ela surge?).
    Sobre a febre vale a pena falarmos um pouco mais. A febre no lúpus pode ocorrer quando a doença está em atividade ou porque há uma infecção em curso. A febre própria do lúpus, ou seja, causada pela doença e não por uma infecção, costuma ser baixa e associada aos outros sintomas do lúpus que serão explicados ao longo do texto.

    Pacientes com lúpus apresentam maior susceptibilidade a doenças infecciosas, podendo a febre ser um sinal de infecção em andamento. A febre causada por uma infecção costuma ser mais alta e associada a outros sintomas típicos, como, por exemplo, tosse e expectoração na pneumonia, rigidez de nuca na meningite, dor lombar nas infecções renais (pielonefrite), etc.

    Se o paciente já tem o diagnóstico de lúpus, é provável que ele esteja sob tratamento com anti-inflamatórios ou corticoides, medicamentos que diminuem a inflamação do lúpus e inibem a febre. Neste grupo de pacientes a presença de febre deve levantar a suspeita de uma infecção em curso, sendo pouco provável uma febre apenas por atividade da doença.

    2. Alterações articulares

    Aproximadamente 95% dos pacientes com lúpus apresentarão acometimento das articulações em algum momento da sua vida. As manifestações articulares mais comuns são a artralgia (dor nas articulações sem sinais inflamatórios) e a artrite (inflamação das articulações) e costumam estar presentes já nas fases inicias do lúpus (Se você quiser saber mais sobre as diferenças entre artrite e artralgia, leia: ARTRITE e ARTROSE | Sintomas e diferenças).

    A artrite no lúpus apresenta algumas características:
    • É uma poliartrite - acomete mais de quatro articulações ao mesmo tempo.
    • É uma artrite simétrica - costuma acometer ambos os joelhos, cotovelos, tornozelos e outras articulações simultaneamente.
    • É migratória - a inflamação de uma articulação pode desaparecer em apenas 24 horas e surgir em outra.
    • Não costuma causar deformidades graves nem cursa rigidez matinal prolongada, como na artrite reumatoide (leia: ARTRITE REUMATOIDE | Sintomas e tratamento).
    • A dor é desproporcional à aparência física das articulações.
    3. Lesão dos rins

    Até 75% dos pacientes com lúpus irão desenvolver alguma lesão renal durante o curso de sua doença. O achado mais comum é a perda de proteínas na urina, chamada de proteinúria, caracterizada por uma espumação excessiva da urina (leia: PROTEINÚRIA, URINA ESPUMOSA E SÍNDROME NEFRÓTICA).

    Outros sinais e sintomas do acometimento renal pelo lúpus são:
    O acometimento renal mais comum é a glomerulonefrite (lesão do glomérulo renal) causada pelos auto-anticorpos (leia: O QUE É UMA GLOMERULONEFRITE ?). Existem basicamente cinco tipos de glomerulonefrite pelo lúpus, reunidas pelo termo nefrite lúpica. São elas:

    Nefrite lúpica classe I - Glomerulonefrite mesangial mínima
    Nefrite lúpica classe II - Glomerulonefrite proliferativa mesangial
    Nefrite lúpica classe III - Glomerulonefrite proliferativa focal
    Nefrite lúpica classe IV - Glomerulonefrite proliferativa difusa
    Nefrite lúpica classe V - Glomerulonefrite membranosa

    As classes III, IV e V são as mais graves, sendo a glomerulonefrite proliferativa difusa (classe IV) a que apresenta pior prognóstico. A glomerulonefrite mesangial mínima (classe I) é a mais branda.

    A nefrite lúpica é classifica em classes porque cada uma dessas lesões apresenta prognóstico e tratamentos distintos. Por isso, a identificação de qual tipo de nefrite lúpica o paciente possui é de grande importância.

    Apenas com os dados clínicos não é possível se estabelecer qual tipo de nefrite lúpica estamos lidando, já que proteinúria, hematúria e insuficiência renal são achados comuns nas nefrites tipo II, III,IV e V. Portanto, todo paciente com lúpus manifestando sinais de doença nos rins deve ser submetido à biópsia renal (leia: ENTENDA A BIÓPSIA RENAL) para se identificar qual tipo de lesão no glomérulo que os auto-anticorpos estão causando.

    É perfeitamente possível que um paciente apresente mais de uma classe de nefrite lúpica ao mesmo tempo.

    As classes I e II não costumam necessitar de tratamento específico, porém, as classes III, IV e V como apresentam pior prognóstico e grande risco de insuficiência renal terminal, são normalmente tratadas com drogas imunossupressoras pesadas. As mais comuns são corticoides (cortisona), ciclofosfamida, ciclosporina, micofenolato mofetil e azatioprina.

    Os pacientes não tratados ou que não apresentam boa resposta às drogas, inevitavelmente acabam precisando de hemodiálise (leia: O QUE É HEMODIÁLISE? COMO ELA FUNCIONA?).

    4. Lesões de pele

    Rash em asa de borboleta do lúpus
    Rash malar do lúpus
    Outro órgão muito frequentemente acometido é a pele. Até 80% dos pacientes com lúpus apresentam algum tipo de envolvimento cutâneo, principalmente nas áreas expostas ao sol.

    As lesões típicas incluem o rash malar ou rash em asa de borboleta. Trata-se de uma área avermelhada que encobre as bochechas e o nariz como pode ser visto na foto ao lado.

    O rash malar aparece em pelo menos 50% dos pacientes, costuma durar alguns dias e recorre sempre que há exposição solar. Exposição prolongada a luzes fluorescentes também pode desencadear lesões cutâneas..

    Outra lesão dermatológica comum é o lúpus discoide, que se caracteriza por placas arredondadas e avermelhadas, mais comuns na face, pescoço e couro cabeludo.

    O lúpus discoide pode fazer parte do quadro do lúpus sistêmico, ou ser a única manifestação da doença. Neste último caso, o prognóstico é melhor, já que não há envolvimento de outros órgãos.

    Lúpus discóide
    Lúpus discoide (clique para ampliar)
    Pacientes com lúpus discoide isolado apresentam 10% de chance de evoluírem para o lúpus eritematoso sistêmico. Quanto mais numerosas forem as lesões discoides, maior o risco de evolução para outros órgãos.

    Outras lesões dermatológicas comuns são a perda de cabelo, que pode acometer não só o couro cabeludo, mas também sobrancelhas, cílios e barba (leia: ´CALVÍCIE | QUEDA DE CABELOS | Causas e tratamento).

    Ulceras orais semelhantes às aftas são comuns, porém, com a diferença de serem normalmente indolores (leia: CAUSAS E TRATAMENTO DA AFTA).

    5. Anemia e outras alterações hematológicas

    Os auto-anticorpos também podem atacar as células sanguíneas produzidas pela medula óssea. A alteração mais comum é a anemia, que ocorre não só pela destruição das hemácias, mas também pela inibição da produção na medula óssea (leia: ANEMIA | Sintomas e causas).

    Outra alteração hematológica comum é a diminuição dos glóbulos brancos (leucócitos), chamada de leucopenia. O mecanismo é o mesmo da anemia, destruição e inibição da sua produção. Seguindo o mesmo raciocínio também podemos encontrar a redução do número de plaquetas, chamado de trombocitopenia.

    Quando temos queda das três linhagens sanguíneas ao mesmo tempo (hemácias, leucócitos e plaquetas) damos o nome de pancitopenia. Estas alterações podem ser detectadas pelo exame de hemograma (leia: HEMOGRAMA | Entenda os seus resultados).

    Qualquer uma dessas alterações nas células do sangue pode ser fatal, seja por grave anemia , por infecções devido à baixa contagem de glóbulos brancos ou por sangramentos espontâneos devido à queda das plaquetas.

    Aumento dos linfonodos e do baço também são um achado comum no lúpus e podem ser confundidos com linfoma (leia: O QUE É UM LINFOMA ?).

    6. Vasos sanguíneos

    Os vasos sanguíneos, principalmente as artérias, também são frequentemente acometidos pelo lúpus.

    O fenômeno de Raynaud é uma alteração na coloração dos membros, geralmente mãos ou pés, causado por espasmos dos vasos sanguíneos. O espasmo das artérias provoca uma súbita falta de sangue deixando a mão pálida. Se o espasmo persistir, a falta de sangue faz com que a mão que estava pálida comece a ficar arroxeada. Esta isquemia pode causar muita dor. Quando o espasmo desaparece, o rápido retorno do sangue deixa a pele quente e bem avermelhada.

    O fenômeno de Raynaud não é exclusivo do lúpus e pode ocorrer mesmo em pessoas sem doença alguma diagnosticada. Frio, cigarro e cafeína podem ser gatilhos para esse sintoma.

    Outro problema vascular comum no lúpus é o surgimento de tromboses. A síndrome do anticorpo antifosfolípide é uma doença que ocorre com frequência nos pacientes com lúpus e está associada à formação de múltiplos trombos, tanto nas artérias como nas veias, podendo levar a quadros de AVC, infarto renal, isquemia dos membros, trombose venosa das pernas e embolia pulmonar (leia: EMBOLIA PULMONAR).

    Além das tromboses que ocorrem com a síndrome do anticorpo antifosfolípide, os auto-anticorpos do lúpus podem atacar os vasos sanguíneos diretamente, causando o que chamamos de vasculite. A vasculite pode acometer qualquer vaso do corpo, podendo lesar pele, olhos, cérebro, rins... Para saber mais sobre vasculite, leia: SAIBA O QUE É VASCULITE

    7. Alterações oculares

    Os olhos são outros órgãos frequentemente afetados pelo lúpus. A manifestação mais comum é a ceratoconjuntivite sicca, conhecida também como síndrome do olho seco, muito comum na doença de Sjögren, mas que pode ser também um sintoma de lúpus (leiam ias em: SÍNDROME DO OLHO SECO E FALTA DE LÁGRIMAS).

    Outros sintomas do lúpus relacionado à visão são a vasculite da retina, uveíte anterior (inflamação da íris, parte colorida dos olhos) e a episclerite (inflamação da esclera, parte branca dos olhos).

    8. Alterações neurológicas

    O lúpus pode cursar com síndromes neurológicas e psiquiátricas.

    As lesões neurológicas ocorrem por tromboses e vasculites, que acabam por provocar AVC (leia: ENTENDA O AVC - ACIDENTE VASCULAR CEREBRAL).

    Alterações psiquiátricas também podem ocorrer devido ao lúpus. As mais comuns são a psicose, onde o paciente começa a ter pensamentos bizarros e alucinações, e a demência, com perda progressiva da memória e da capacidade de efetuar tarefas simples.

    9. Alterações pulmonares

    O pulmão e a pleura também são órgãos susceptíveis ao lúpus. Derrame pleural (leia: DERRAME PLEURAL | Tratamento, sintomas e causas), pneumonite, doença intersticial pulmonar, hipertensão pulmonar e hemorragia alveolar são as manifestações pulmonares mais comuns. Como explicado acima, a embolia pulmonar é uma complicação que pode surgir em pacientes com anticorpos antifosfolípides.

    10. Alterações cardíacas

    Doenças cardíacas são comuns entre pacientes com lúpus eritematoso sistêmico. O envolvimento cardíaco pode se manifestar como:

    ESQUISTOSSOMOSE | Sintomas e tratamento


    A esquistossomose, também conhecida por barriga d'água ou doença do caramujo, é uma infecção causada por parasitas do gênero Schistosoma. Neste texto vamos abordar os sintomas e tratamento da esquistossomose causada pelo Schistosoma mansoni (S. mansoni), a espécie de Schistosoma responsável pela doença  no continente americano.

    Esta é a segunda parte do artigo sobre esquistossomose. Na primeira abordamos a transmissão, o ciclo de vida do parasita e a prevenção da esquistossomose: .

    Transmissão da esquistossomose

    Apenas resumindo o que foi explicado em detalhes na primeira parte,  a esquistossomose é uma doença causada por um parasita que habita os vasos sanguíneos do sistema intestinal. Lá ele libera milhares de ovos que são eliminados nas fezes. O embrião contido nestes ovos, chamado miracídio, precisa da água para se libertar e do caramujo para se multiplicar. Grandes reservas de água doce parada, como lagos e represas, que sejam habitadas por caramujos, são os locais ideais para a proliferação da esquistossomose. Após a multiplicação dentro do caramujo, o miracídio se transforma em larva, chamada de cercária, e retorna para a água. Qualquer pessoa que se banhe ou beba água contaminada com cercárias pode se infectar. A larva penetra a pele, atinge os vasos sanguíneos e vai em direção ao fígado e aos vasos dos intestinos, onde coloca seus ovos, reiniciando o ciclo.

    Sintomas da esquistossomose
    Coceira do nadador - esquistossomose
    Pontos de penetração da cercária na

    a. Infecção inicial

    Os primeiros sintomas da infecção pelo Schistosoma podem ocorrer imediatamente após a invasão da pele pelo parasita. A penetração da pele por cercárias pode provocar a chamada "coceira do nadador". Trata-se de uma ou mais lesões, tipicamente nas pernas ou pés, em forma de pápulas vermelhas que causam intenso comichão.

    Nem todas as pessoas infectadas pelas cercárias apresentam esta lesão de pele. Quando ela ocorre, um formigamento imediato e um comichão no local de entrada podem surgir, seguidos por uma erupção papular pruriginosa (veja foto ao lado) que aparece dentro de 12-24 horas, podendo durar mais de uma semana.

    É importante salientar que a coceira do nadador também pode ser causada por outras espécias de Schistosomas, que infectam aves e outros mamíferos, não sendo capazes de infectar o ser humano. Nestes casos a cercária invade a pele mas é eliminada pelo organismo após algumas horas sem causar maiores consequências. No continente americano apenas  as cercárias do S.mansoni são capazes de sobreviver e causar esquistossomose em humanos.

    A maioria das pessoas que vivem em regiões endêmicas do S.mansoni são contaminadas ainda na infância e permanecem com o parasita em seus sistema digestivo silenciosamente por muitos anos. Às vezes, os sintomas inicias são pouco importantes e acabam sendo confundidos com algumas doenças comuns da infância.

    b. Febre de Katayama

    O período de incubação da esquistossomose, ou seja, o intervalo entre a contaminação e os primeiros sintomas da doença em si, é de um a dois meses, que corresponde à fase de penetração das cercárias, seu amadurecimento até a forma adulta e a instalação dos S. mansoni adultos no interior dos vasos sanguíneos do hospedeiro definitivo.

    A Febre de Katayama é a fase aguda da esquistossomose, sendo causada por uma reação do sistema imune à migração e à produção de ovos do parasita no organismo. Ocorre entre duas a oito semanas após a exposição. A fase aguda surge habitualmente em viajantes que não vivem em áreas endêmicas e nunca tiveram contato prévio com o parasita. Indivíduos que vivem em áreas endêmicas e já foram expostos ao  S. mansoni durante a infância não costumam apresentar sintomas iniciais.

    Os sintomas da febre Katayama incluem febre, calafrios, dor muscular, dor nas articulações, tosse seca, diarreia, perda do apetite e dor de cabeça. Durante o exame físico podem ser encontrados aumento de linfonodos (gânglios) e hepatoesplenomegalia (inchaço do fígado e do baço). Os sintomas geralmente desaparecem espontaneamente durante um período de algumas semanas. Em raros casos, se houver uma invasão maciça de parasitas e a reação imunológica for muito intensa, o paciente pode evoluir para o óbito.

    c. Infecção crônica pela esquistossomose

    Ao contrário do que ocorre na fase aguda, as complicações relacionadas à esquistossomose crônica são mais comuns em áreas endêmicas, onde os indivíduos estão em maior risco de uma elevada carga de parasita e contaminações frequentes. Porém, é importante salientar que nem todos os pacientes contaminados com o parasita desenvolvem sintomas da esquistossomose crônica. Alguns pacientes permanecem contaminados, eliminando ovos nas fezes, mas sem apresentar sinais de doença.

    A forma crônica inicia-se a partir do sexto mês após a infecção, podendo durar vários anos. A gravidade da forma crônica está relacionada com a quantidade de parasitas e a localização onde eles depositam seus ovos.

    O Schistosoma geralmente se localiza nas veias mesentéricas, que são os vasos que drenam o sangue dos intestinos.  As veias mesentéricas drenam o sangue em direção à via porta, que é uma grande veia que recebe todo o sangue do sistema digestivo e o leva até o fígado.

    Os ovos do parasita são geralmente depositados nas veias mesentéricas, mas podem migrar tanto para o intestino quanto para a veia porta e fígado.

    A esquistossomose crônica, que é muito mais comum do que a forma aguda da infecção, é causada pela reposta imune do organismo aos ovos, resultando em intensa inflamação dos tecidos acometidos e evolução para granulomas e fibrose (substituição do tecido normal por tecido cicatricial).

    A forma crônica da esquistossomose apresenta as seguintes formas:

    Esquistossomose intestinal 

    A retenção de ovos na parede do intestino causa diarreia sanguinolenta, cólicas e emagrecimento. A intensa resposta inflamatória do corpo contra os ovos pode causar ulcerações na parede do intestino, granulomas e obstrução à passagem das fezes.

    Esquistossomose hepatoesplênica 

    Cirrose
    Ascite e circulação colateral  (clique para ampliar)
    Pacientes contaminados com uma grande carga de parasitas são mais propensos a produzir a doença no fígado. Os ovos do parasita tendem a migrar e se depositar na veia porta, causando inflamação e obstrução a passagem do sangue por fibrose.

    Como todo o sangue vindo sistema gastrointestinal passa pela veia porta antes de chagar ao figado e ir em direção ao resto do corpo, uma obstrução nesta região causa um imenso "engarrafamento" de sangue, que leva ao que chamamos de hipertensão portal. Se o sangue não chega ao fígado ele tem que arranjar outras vias para chegar ao resto do corpo, formando uma circulação colateral (veja foto ao lado).

    A hipertensão portal é a responsável pelas complicações da forma hepatoesplênica da esquistossomose, entre elas, ascite (barriga d'água - leia: ASCITE | Causas e tratamento), esplenomegalia (aumento do baço) e varizes do esôfago. As varizes do esôfago são uma complicação temida da hipertensão porta, pois podem romper-se causando grave hemorragia digestiva e vômitos sanguinolentos.

    Diagnóstico da esquistossomose

    Como muitos pacientes contaminados pelo S. mansoni permanecem assintomáticos, a suspeita da infecção muitas vezes surge por acaso através de exames rotineiros de sangue. No hemograma é possível detectar anemia e aumento dos eosinófilos (leia nosso texto sobre hemograma para entender mais estes resultado: HEMOGRAMA | Entenda os seus resultados.), dois dados que falam a favor de uma infecção por parasitas.

    O diagnóstico é feito através do exame parasitológico de fezes (leia: VERMES | EXAME PARASITOLÓGICO DE FEZES), que é capaz de detectar os ovos do Schistosoma. O parasitológico, porém, só costuma detectar ovos após seis semanas de contaminação. Se a suspeita de esquistossomose for grande, mas o exame de fezes for negativo, a biópsia do reto (porção final do intestino logo antes do ânus)  pode detectar os ovos.

    Nos pacientes com sinais clínicos de hipertensão portal, a ultrassonografia pode ser útil em identificar a fibrose na veia porta causada pela deposição dos ovos do Schistossoma.

    Análises de sangue específicas contra o S. mansoni estão em desenvolvimento, mas ainda não estão disponíveis para a população.

    Tratamento da esquistossomose

    O Praziquantel é o medicamento de escolha contra a esquistossomose. A dosagem recomendada é de 60mg/kg para crianças até 15 anos e 50mg/kg para adultos, ambos em dose única. O medicamento é apresentado em comprimidos de 600mg, divisível em duas partes iguais, de modo a facilitar a adequação da
    dose.

    Uma alternativa ao Praziquantel é o Oxamniquine, recomendado na dosagem de 15mg/kg para adultos e 20mg/kg para crianças até 15 anos, ambos também em dose única. Existem duas apresentações: cápsulas de 250mg e suspensão contendo 50mg por cada ml.

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    ESQUISTOSSOMOSE | Ciclo e prevenção


    A esquistossomose, também conhecida por barriga d'água ou doença do caramujo, é uma infecção causada por parasitas do gênero Schistosoma.

    Existem seis espécies de Schistosoma, a saber: S. mansoni, S. hematobium, S. intercalatum, S. japonicum, S. malayensis e S. mekongi. Neste texto vamos nos ater apenas ao Schistosoma mansoni (S. mansoni), já que das seis espécies esta é a única presente no continente americano.

    Informação para trabalhos escolares: o verme causador da esquistossomose no Brasil é o Schistosoma mansoni, um helminto pertencente à classe dos Trematoda, família Schistosomatidae e gênero Schistosoma.

    Esta é a primeira parte do artigo sobre esquistossomose. Aqui abordaremos a transmissão e o ciclo de vida do S. mansoni. Na segunda parte falaremos sobre sintomas, diagnóstico e tratamento: .

    Segundo o Ministério da Saúde, estima-se que cerca de duzentos milhões de pessoas em todo mundo estejam infectadas pelo Schistosoma mansoni, que é encontrado em 54 países da África, Ásia e América do Sul. Nas Américas, registra-se área endêmica na Venezuela, nas ilhas do Caribe e no Brasil.

    No Brasil, estima-se que aproximadamente 25 milhões de pessoas sob risco de contrair a doença e que até 6 milhões já se encontram infectadas. A esquistossomose é endêmica nos Estados de Alagoas, Maranhão, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba, Sergipe, Espírito Santo e Minas Gerais. No resto do país a transmissão é pequena, não atingindo grandes áreas.

    Ciclo da esquistossomose 

    O S. masoni é um parasita que apresenta um hospedeiro intermediário: o caramujo, e um hospedeiro definitivo: o ser humano.

    Veia portaVamos iniciar a explicação do ciclo com o exemplo de um humano contaminado.

    O S.mansoni adulto vive nas veias mesentéricas, as responsáveis por drenar o sangue dos intestinos, rico em alimentos digeridos, e levá-lo para o fígado. Esta informação é importante para entender os sintomas da esquistossomose explicados no próximo texto (a ser publicado nos próximos dias).

    Estando hospedado nestas veias, o S.mansoni produz milhares de ovos que conseguem atravessar as paredes dos vasos sanguíneos em direção aos intestinos, sendo, assim, eliminados nas fezes.

    A partir deste ponto, duas condições se fazem necessárias para a continuação do ciclo. A primeira é o contato dos ovos com a água, pois é nesse momento que eles eclodem, liberando o seu embrião, que recebe o nome de miracídio. A segunda condição é a presença do caramujo do gênero Biomphalaria nas águas contaminadas, pois somente dentro deles é que os miracídios conseguem chegar à forma de larva.

    Os locais mais perigosos para a transmissão da esquistossomose são lagos e represas que recebem esgoto não tratado e que abrigam caramujos. Além do despejo de esgoto, se pessoas contaminadas evacuarem próximo às margens do lago, também há risco de contaminação da água.

    Após invadirem o caramujo, os miracídios se multiplicam e em 3 a 6 semanas se transformam na larva infectante, chamada de cercária. Uma vez formadas, as cercárias abandonam o caramujo e sobrevivem por até 48h à procura do hospedeiro definitivo (homem). Os caramujos infectados eliminam cercárias por toda a vida, que é aproximadamente de um ano.

    O horário no qual as cercárias são vistas em maior quantidade na água e com maior atividade é entre 10 e 16h, quando a luz solar e o calor são mais intensos. As primeiras horas na água são o momento no qual as cercárias estão mais infectantes.

    invasão da cercária na pele
    Locais da pele onde houve penetração da cercária
    Ao encontrar um ser humano, as cercárias são capazes de penetrar profundamente a pele até encontrarem um vaso sanguíneo (ver foto ao lado). Pés e pernas são os pontos mais frequentemente invadidos. A cercária é capaz de penetrar pele sã. Não é preciso haver feridas para que a larva consiga invadir o corpo.

    Além do contato direto com a pele, o ingestão de água contaminada com cercárias também é uma via de contaminação pelo S. mansoni.

    Estas duas são as únicas vias de contaminação do homem. O contato direto com fezes contaminadas não é capaz de transmitir a esquistossomose. O ovo precisa da água para liberar o miracídio, que por sua vez precisa do caramujo para  se transformar na larva infectante.

    Após penetrar a pele e encontrar sangue, a larva viaja pelas veias, passa pelo coração, atinge os pulmões e por fim, chega ao fígado. Durante essa viagem, que dura vários dias,  as cercárias sofrem  nova transformação, sendo agora chamadas de esquistossômulos.

    No fígado os esquistossômulos finalmente atingem a maturidade, sendo agora as formas adultas machos e fêmeas capazes de se acasalarem. Após o acasalamento, macho e fêmea migram para as veias mesentéricas onde serão depositados os ovos, reiniciando todo o ciclo descrito.

    A ilustração abaixo resume o ciclo da esquistossomose.
    ciclo esquistossomose
    Ciclo da esquistossomose - clique para ampliar

    O ser humano infectado pelo S. mansoni começa a eliminar ovos a partir de 5 semanas após a infecção. Se não tratado, o indivíduo pode permanecer eliminando ovos por até 20 anos (média de 6 a 10 anos).  Os caramujos infectados eliminam cercárias por toda a vida, que é aproximadamente de um ano.

    Prevenção da esquistossomose

    A suscetibilidade ao verme é universal, isto é, qualquer pessoa, independente de idade, sexo ou grupo étnico, que entre em contato com as cercárias pode contrair a doença. Não existe vacina, portanto, a forma ideal de prevenir a esquistossomose é evitando o contato com o parasita.

    Para evitar que lagos e represas se contaminem é importante não haver despejo de esgoto não tratado. É preciso também conscientizar a população que não se deve evacuar em áreas próximas a águas onde as pessoas se banham ou bebem.

    Locais de água doce parada apresentam maior risco. Lagos e represas onde vivem caramujos são os locais mais perigosos. Rios e riachos também podem ser locais de contaminação, mas a corrente tende a dificultar o encontro do miracídio com o caramujo e da cercária com humanos.

    Se o contato com água contaminada for inevitável, use calças, botas e luvas de borracha. Dê preferência a horários com menos luminosidade e calor.

    Uma vez identificado o local de transmissão da esquistossomose, cabe às autoridades sanitárias a destruição do habitat das larvas e a vigilância para o diagnóstico e tratamento precoce das pessoas infectadas.

    Nos próximos dias escreveremos a segunda parte deste texto, abordando os sintomas e tratamento da esquistossomose.

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