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DOENÇA DE FABRY

A doença de Fabry, também chamada de doença de Anderson-Fabry é uma patologia hereditária rara, transmitida de modo recessivo pelo cromossoma X. Os pacientes com doenças de Fabry apresentam deficiência de uma enzima chamada alfa-galactosidase A.

Ok, sei que o primeiro parágrafo ficou difícil de entender. Vamos, então descomplicá-lo por partes.

Genética da doença de Fabry

Homens apresentam cromossomas sexuais X e Y e mulheres X e X. O pai passa seu cromossoma Y para seus filhos e o X para suas filhas. Já as mães passam sempre o cromossoma X, tanto para os filhos, quanto para as filhas.

Se a herança é recessiva ligada ao X, isso significa que as mulheres precisam receber os 2 cromossomas X (um do pai e outra da mãe) com o defeito para terem a doença. Como os homens só apresentam um cromossoma X, basta que este seja defeituoso para se desenvolver a doença de Fabry.

A doença de Fabry é uma patologia majoritariamente de homens, transmitida pelas mães, uma vez que o pai só transmite o cromossoma Y para seus filhos. Portanto, homens com Fabry não transmitem a doença para seus filhos, mas transmitem o gene X defeituoso para sua filhas.

Já as mães, em geral, não possuem Fabry pois só apresentam um X defeituoso. Porém, podem transmiti-lo para o seu filho, passando-lhe a doença.

O que causa a doença de Fabry?

Como já dito no início do texto, a doença de Fabry acontece por uma deficiência de uma enzima chamada alfa-galactosidase A (alfa-gal A). Esta é uma enzima presente dentro de nossas células e responsável pela eliminação de uma substância gordurosa chamada de globotriaosilceramida (GB3 ou GL-3). Eu sei que esses nomes parecem palavrões e que isso atrapalha um pouco o entendimento do assunto, mas infelizmente é assim mesmo que eles são chamados.

Na ausência da alfa-gal A, a GB3 se acumula dentro das células, depositando-se em vários tecidos, principalmente nas paredes dos vasos sanguíneos. Por isso, a doença de Fabry faz parte de um grupo de patologias chamado de doenças de depósito.

Todos os sinais e sintomas da doença de Fabry são derivados desse acúmulo de GB3, que podem obstruir vasos vasos sanguíneos, causando isquemias e infartos de órgãos e tecidos.

Sintomas da doença de Fabry

Os sintomas da doença de Fabry costumam seguir um certa ordem de aparecimento. Os primeiros sinais surgem na infância ou início da adolescência e incluem:

- Dores nos membros, principalmente mãos e pés, causados por acometimento dos nervos do sistema nervoso periférico. Normalmente este é o primeiro sintoma e pode ser desencadeado por estresse, frio, calor ou atividades físicas extenuantes.

- Lesões de pele: teleangiectasias são pequenos vasos da pele dilatados, também chamados de aranhas vasculares pelo seu formato. São comumente vistas em pessoas com varizes nas pernas (leia: VARIZES | Causas e Tratamento). Angioqueratomas são elevações puntiformes arroxadas.

Na doença de Fabry, as duas lesões costumam aparecer juntas principalmente nas coxas, quadril e em volta do umbigo.

Teleangiectasias
Teleangiectasias na doença de Fabry
Teleangiectasias na doença de Fabry

Angioqueratomas

Angioqueratomas na doença de Fabry

- Outro problema comum no Fabry é o acometimento das glândulas sudoríparas, responsáveis pela produção de suor. Os doentes podem apresentar baixa taxa de transpiração (hipoidrose), elevada temperatura corporal, fadiga intensa e intolerância ao calor.

- Depósitos de GB3 nos vasos da córnea dos olhos, causando a chamada córnea verticilata também podem ser detectados com exames oftalmológicos especiais (oftalmoscopia de lâmpada de fenda).

Córnea verticilata
Córnea verticilata - Doença de Fabry

- Sintomas gastrointestinais como dor após alimentação, náuseas e diarréia também são comuns.

Na idade adulta o paciente começa a sofrer as consequências da obstrução de vasos em órgãos nobres como rins, cérebro e coração.

1) Rins

50% dos pacientes com doença de Fabry apresentam acometimento renal. Os primeiros sinais são o aumento da produção de urina por incapacidade do rim em reter água. Depois surgem a proteinúria (leia: PROTEINÚRIA, URINA ESPUMOSA E SÍNDROME NEFRÓTICA) e finalmente insuficiência renal crônica (leia: INSUFICIÊNCIA RENAL CRÔNICA - SINTOMAS). Boa parte dos pacientes acaba por necessitar de hemodiálise.

2) Coração

O envolvimento cardíaco costuma se dar na forma de insuficiência cardíaca (leia: INSUFICIÊNCIA CARDÍACA - CAUSAS E SINTOMAS), arritmias cardíacas (leia: PALPITAÇÕES, TAQUICARDIA E ARRITMIAS CARDÍACAS), hipertrofia do ventrículo esquerdo e isquemia do miocárdio (leia: SINTOMAS DO INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO E ANGINA).

3) Cérebro

O acometimento do sistema nervoso central pode se dar através de ataques isquêmicos transitórios ou AVCs (leia: ENTENDA O AVC - ACIDENTE VASCULAR CEREBRAL), tonturas, vertigens e cefaléias (leia: DOR DE CABEÇA - ENXAQUECA, CEFALÉIA TENSIONAL E SINAIS DE GRAVIDADE).

Doença de Fabry nas mulheres

A maioria das mulheres portadoras de apenas um cromossoma X defeituoso apresenta poucos ou nenhum sintoma da doença de Fabry. Porém , por fatores ainda não bem conhecidos, existe um pequeno grupo que desenvolve a doença tal qual os homens.

Diagnóstico da doença de Fabry

Por ser uma doença rara e pouco conhecida, inclusive entre os médicos, muitas vezes os pacientes precisam esperar anos entre os primeiros sintomas e o diagnóstico definitivo. Quando há história familiar, o diagnóstico sai mais facilmente, pois a própria família já sugere a hipótese da doença ao médico.

A tríade de alterações renais + angioqueratomas + dor nos membros em crianças ou jovens do sexo masculino, deve sempre levantar a suspeita de doença de Fabry.

O diagnóstico pode ser confirmado através da dosagem da enzima alfa-galactosidase A. A maioria dos pacientes apresentam níveis indetectáveis ou muito reduzidos.

A biópsia de pele ou do rim pode fornecer o diagnósticos naqueles casos atípicos, onde o médico não pensa inicialmente na doença de Fabry como diagnóstico diferencial.

As mulheres portadoras do gene da doença podem ser assintomáticas e ter níveis de alfa-gal A normais. Nestes casos apenas testes genéticos podem confirmar se a mesma possui o gene da doença, sendo passível de transmissão para seus filhos. A análise genética ainda é feita em pouquíssimos laboratórios.

A doença de Fabry não tem cura. Porém, já existe uma forma sintética da enzima alfa-gal A para administração. As duas marcas atualmente comercializadas são a Replagal® e a Fabrazyme®.

Atualmente a expectativa de vida média está ao redor dos 50 anos. Os medicamentos são muito recentes e ainda não houve tempo para se comprovar diminuição da mortalidade apesar das evidências de que há redução dos depósitos de GB3 e retardamento da perda de função renal.

Quanto mais cedo for iniciado o medicamento, melhores os resultados. O tratamento é para vida toda.

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GONORREIA | CLAMÍDIA | Sintomas e tratamento

Corrimento vaginal e ureteral pode ser sinal de Gonorreia ou Clamídia.

A Gonorreia é uma DST (doença sexualmente transmissível) causada por uma bactéria chamada Neisseria gonorrhoeae (gonococo) (leia: DOENÇAS CAUSADAS POR BACTÉRIAS). A infecção acomete homens e mulheres igualmente.

A transmissão só é feita de 2 maneiras: via sexual (oral, vaginal e anal) ou entre mãe e filho durante o parto. Não há descrições de transmissão do Gonococo através banheiros públicos ou piscinas. A gonorréia pode ser transmitida mesmo quando assintomática ou quando não há ejaculação. A camisinha é o melhor método para diminuir a possibilidade de transmissão (leia: CAMISINHA | Tudo o que você precisa saber)

Seu período de incubação, ou seja, o período entre o contágio até o surgimento dos sintomas, varia de 2 a 8 dias.

Sintomas da gonorreia

O principal sintoma da gonorreia é a uretrite, inflamação da uretra, que é o canal que conduz a urina, iniciando-se na bexiga e terminado na ponta do pênis ou da vulva (veja ilustração abaixo).

A uretrite é caracterizada por um corrimento purulento, de aspecto leitoso, e ardência ao urinar, chamada de disúria (leia: DISÚRIA | DOR AO URINAR | Causas)

Sistema genito-urinário femininoA gonorreia costuma ser sintomática nos homens, mas é comum passar despercebido no sexo feminino. 90% dos homens apresentam sintomas, mas até 50% das mulheres podem apresentar a infecção assintomática. Essa particularidade faz com que as complicações sejam mais comuns no sexo feminino, uma vez que, se nada sentem, as mesmas não procuram tratamento médico.

O fato de não se ter sintomas não significa que o(a) parceiro(a) não possa ser infectado(a) ou que este não possa apresentar gonorréia sintomática.

Sistema genito-urinário masculinoNas mulheres o quadro de disúria (ardência ao urinar) é mais comumente causado por uma infecção da bexiga, chamada de cistite (leia: INFECÇÃO URINÁRIA ( CISTITE )), que nada tem a ver com doença sexualmente transmissível. Homens jovens, porém, raramente apresentam cistite, portanto, a presença de disúria (ardência ao urinar) neste grupo indica sempre a investigação de uma uretrite por uma DST.

Uma regra simples é :

- Mulheres jovens ou idosas com disúria, até que se prove o contrário, têm cistite
- Homens idosos com disúria, até que se prove o contrário, têm alguma doença da próstata (leia: CÂNCER DE PRÓSTATA E HIPERPLASIA BENIGNA DA PRÓSTATA)
- Homens jovens com disúria, até que se prove o contrário, têm uma DST ou prostatite (leia: PROSTATITE | Sintomas, causas e tratamento)

Obviamente, quando associado a ardência ao urinar, temos um quadro de corrimento de pus pela uretra, o diagnóstico fica mais fácil de ser feito, já que cistite não causa corrimento. Nas mulheres a gonorreia pode se apresentar com um quadro de corrimento vaginal purulento associado a sintomas de vaginite (leia: CORRIMENTO VAGINAL | VAGINITE).

Gonorreia-foto
Corrimento uretral purulento na gonorreia  
(clique para ampliar. Atenção: a imagem acima contém fotos que podem ser ofensivas para certas pessoas)

Outros sintomas da gonorreia são o prurido vaginal e escapes de sangue fora da menstruação.

Os órgãos genitais são os mais acometidos, mas pessoas que praticam sexo anal e oral podem apresentar infecção anal e faringite pela Neisseria gonorrhoeae. Os sintomas da gonorreia anal incluem corrimento, comichão, vermelhidão e dor para evacuar.

Quando não tratada, a gonorreia pode levar a grande número de complicações, como infecção dos testículos e próstata nos homens. Nas mulheres a pior complicação é a doença inflamatória pélvica, uma infecção grave dos órgãos reprodutores acometendo útero, ovários e trompas. Em ambos sexos pode ocorrer estreitamento da uretra e infertilidade.

O Gonococo não tratado também pode levar a disseminação da doença pelo corpo. A gonorreia disseminada causa:

- Artrites infecciosas em joelho, tornozelos e cotovelos
- Lesões de peles (pequenos pontos purulentos principalmente em mãos e pés)
- Acometimento do fígado com hepatite (leia: AS DIFERENÇAS ENTRE AS HEPATITES)
- Endocardite (infecção das válvulas do coração) (leia: O QUE É ENDOCARDITE?)
- Meningite (leia: MENINGITE)
- Osteomielite (infecção dos ossos)

Além da doença disseminada, a gonorreia não tratada em grávidas pode ocasionar parto prematuro e infecção do recém-nascido, principalmente lesões oculares.

Para ver mais fotos de gonorreia, clique no link: GONORREIA | FOTOS

Tratamento da gonorreia

O tratamento da gonorreia é simples e feito da mesma maneira para homens e mulheres. Atualmente indica-se o tratamento com dose única de antibióticos. Os esquemas mais comuns são com Ceftriaxona intramuscular ou Ciprofloxacino por via oral. Azitromicina  pode ser uma opção, mas os efeitos colaterais são comuns nas doses elevadas necessárias para tratar gonorreia.

O parceiro deve ser sempre investigado e tratado. Indica-se abstinência sexual até que todos os sintomas desapareçam. Nos casos assintomáticos, deve-se evitar relações por pelo menos 1 semana após o tratamento. É possível se contrair gonorréia mais de uma vez.

CLAMÍDIA

A clamídia é uma DST causada por uma bactéria chamada Chlamydia trachomatis. Estima-se que seja a doença sexualmente transmissível mais comum no mundo. Apresenta basicamente o mesmo quadro da gonorréia, porém, as infecções por clamídia tendem a apresentar menos sintomas. Talvez por isso, suas complicações sejam mais comuns. Enquanto que 90% dos homens apresentam sintomas de gonorréia, menos de 70% o fazem com clamídia. Nas mulheres, a faixa se situa abaixo dos 50%.

Assim como na gonorréia, a transmissão é por via sexual. Não se pega clamídia em banheiro ou piscinas públicas.

A diagnóstico diferencial entre a clamídia e gonorréia é feito somente através do exame microscópico do corrimento. Clinicamente, apenas, é impossível distinguir as duas DSTs.  As complicações das duas doenças são semelhantes.

A infecção por clamídia pode levar a uma outra infecção, além da uretrite, chamada de linfogranuloma venéreo, que se apresenta inicialmente como um nódulo inflamado o redor da região genital. Esse nódulo pode se transformar em uma úlcera. Se não tratado, o linfogranuloma venéreo atinge regiões mais profundas, acometendo linfonodos e órgãos reprodutores.

linfogranuloma venéreo
Linfogranuloma venéreo 
(clique para ampliar. Atenção: a imagem acima contém fotos que podem ser ofensivas para certas pessoas)

Tratamento da clamídia

Como o tratamento da infecção por clamídia também é simples, a distinção com a gonorréia, em geral não é necessária. O médico costuma prescrever um antibiótico que cure as 2 infecções, até porque, a co-infecção pelas duas bactérias é muito comum.

Azitromicina  em dose única é o antibiótico mais prescrito. A dose da azitromicina necessária para tratar clamídia é mais baixa que para gonorréia. Uma alternativa é usar Doxiciclina por 7 dias. Este último é a droga preferida nos casos de linfogranuloma venéreo.

O esquema clássico para o tratamento de uretrites com corrimento é Ceftriaxona + Azitromicina em dose única. Deste modo, cobre-se bem tanto infecções por gonococo, quanto por clamídia. É um tratamento simples, rápido e com alto índice de cura.

Como em qualquer DST, o uso de preservativos é essencial para evitar a contaminação.

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AVC | ACIDENTE VASCULAR CEREBRAL

O AVC (acidente vascular cerebral) possui vários nomes, o mais correto é AVE (acidente vascular encefálico), mas também pode ser chamado de infarto cerebral, isquemia cerebral, trombose cerebral ou o popular derrame cerebral. Neste texto abordaremos o AVC isquêmico e o AVC hemorrágico.

Para entender o AVC é preciso conhecer 4 conceitos básicos:

- Trombo = é um coágulo de sangue que se localiza dentro dos vasos sanguíneos, aderido à parede do mesmo, obstruindo a passagem de sangue. A obstrução pode ser parcial ou total. Quando o vaso é obstruído por um trombo, damos o nome de trombose.

- Êmbolo = é quando um trombo se solta e viaja pela corrente sanguínea até encontrar um vaso com calibre menor do que o próprio êmbolo, ficando preso e obstruindo a circulação do sangue. Quando um vaso é obstruído por um êmbolo, estamos diante de uma embolia. Um exemplo comum é a embolia pulmonar (leia: EMBOLIA PULMONAR)

- Isquemia = é a falta de suprimento de sangue para algum tecido ou órgão. Toda vez que a circulação de sangue não é suficiente para o funcionamento das células, ocorre a isquemia. É um processo reversível se tratado a tempo.

AVC - Trombose
Trombose
- Infarto = É a morte das células por uma isquemia prolongada. Ocorre em geral por obstrução da artéria por um trombo ou por um êmbolo. O infarto mais conhecido é o do miocárdio (músculo do coração), mas ele pode ocorrer em qualquer tecido ou órgão (leia: SINTOMAS DO INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO E ANGINA).

O AVC, portanto, nada mais é que um infarto de uma região do cérebro causado por um trombo que se forma em uma artéria cerebral ou por um êmbolo formado em algum lugar do corpo, que viaja na corrente sanguínea até se alojar em uma artéria do cérebro. Há também o AVC hemorrágico que será explicado mais abaixo.

AVC - Vascularização do cérebro
Vascularização do cérebro
Repare na vascularização do nosso cérebro (vasos em azul). Quando qualquer um desses vasos fica obstruído, ocorre uma isquemia e, consequentemente, um AVC.

a) AVC por trombose

O mecanismo da trombose cerebral é o mesmo do infarto do coração. A diferença é que o primeiro ocorre em artéria do cérebro e o outro em uma artéria coronária.

Pessoas com colesterol elevado apresentam deposição do mesmo na suas artérias em forma de placas de gordura. É em cima dessas placas que os trombos se desenvolvem. O trombo cresce silenciosamente em cima das placas de colesterol e só causa sintomas quando torna-se grande o suficiente para obstruir a passagem do sangue.

b) AVC por embolia

O AVC causado por um êmbolo normalmente tem origem no coração, mais especificamente no átrio esquerdo. Uma arritmia cardíaca chamada fibrilação atrial é a principal causa de embolia cerebral. O átrio quando está fibrilando não pulsa corretamente, com isso, o sangue dentro dele fica parado, o que favorece a coagulação e a formação de coágulos (Leia: PALPITAÇÕES, TAQUICARDIA E ARRITMIAS CARDÍACAS para entender melhor o conceito de arritmia).

Na foto abaixo podemos ver o coágulo (ou trombo) (ponto preto) se tornando um êmbolo ao sair do coração, ganhar a artéria carótida e se alojar em uma artéria cerebral, obstruindo a chegada de sangue para uma região do cérebro.
AVC - Fibrilação atrial e embolia cerebral
Acidente vascular cerebral causado por êmbolo cardíaco

c) AVC por choque circulatório

Além da trombose e da embolia, existe um terceiro tipo de infarto cerebral; é o causado por uma parada cardíaca ou um estado de choque circulatório prolongado (leia:SAIBA O QUE É CHOQUE CIRCULATÓRIO). Este tipo de acidente vascular cerebral é o mais grave, pois a falta de circulação sanguínea apropriada faz com que todo o cérebro sofra isquemia, e não apenas uma região como nos AVCs causados por trombo ou êmbolo.

Pacientes com parada cardíaca prolongada costumam sofrer danos irreversíveis no cérebro. Três minutos de parada cardíaca, sem atendimento médico, já provocam lesões cerebrais graves. A partir do quinto minuto a chance de morte cerebral é próxima de 100%. Mesmo quando iniciam-se rapidamente as manobras de ressuscitação (massagem cardíaca) existe um limite de tempo para sobrevivência do cérebro. Poucos são os casos que evoluem bem após mais de 10 minutos de manobras de ressuscitação sem resposta.

Estes 3 tipos de infarto cerebral são chamados de AVC isquêmico, pois o mecanismo que leva ao infarto é uma isquemia (perfusão do sangue insuficiente), seja por trombo, êmbolo ou choque circulatório.

Os principais fatores de risco para o acidente vascular isquêmico (AVC) são:

- Idade avançada
- Diabetes (leia: DIAGNÓSTICO E SINTOMAS DO DIABETES MELLITUS)
- Cigarro (leia: COMO E PORQUE PARAR DE FUMAR CIGARRO)
- Hipertensão (leia: SINTOMAS E TRATAMENTO DA HIPERTENSÃO)
- Colesterol alto (leia: COLESTEROL BOM (HDL) E COLESTEROL RUIM (LDL))
- Obesidade (leia: OBESIDADE E SÍNDROME METABÓLICA)
- Fibrilação atrial

O AVC é um quadro que ocorre tipicamente de pessoas acima dos 50 anos com os fatores de risco listados acima, mas pode ocorrer em jovens que tenham alterações na coagulação sanguínea ou doenças inflamatórias dos vasos, como, por exemplo, anticorpo antifosfolipídio, fator V de Leiden, Lúpus ou vasculites (leia: LÚPUS ERITEMATOSO SISTÊMICO e SAIBA O QUE É VASCULITE).

AVC hemorrágico

Além do AVC isquêmico, responsável por até 85% dos casos, existe ainda o AVC hemorrágico, causado pela ruptura de um vaso do cérebro, que leva ao sangramento intracraniano. Em geral, o AVC hemorrágico ocorre por uma fraqueza da parede de uma artéria cerebral.

As principais causas de AVC hemorrágico são:
AVC hemorrágico
AVC hemorrágico

- Hipertensão
- Tabagismo
- Uso de medicamentos que inibem a coagulação como heparina e varfarina (leia: INTERAÇÕES COM A VARFARINA)
- Traumas.
- Aneurismas no cérebro (leia: O QUE É UM ANEURISMA?)
- Malformações dos vasos cerebrais
- Vasculites (leia: VASCULITE | Causas e sintomas)

O AVC hemorrágico costuma ser um quadro mais dramático que o AVC isquêmico por atingir quase sempre uma área cerebral maior.

O crânio é uma caixa fechada que não tem capacidade de se expandir. Quando há hemorragias grandes, o sangue vaza para o cérebro forma hematomas que começam a comprimi-lo em direção à calota craniana. Esta compressão do cérebro contribui ainda mais para lesão dos neurônios e para o risco de morte.

Existem dois tipos de AVC hemorrágico: hemorragia intracerebral e hemorragia subaracnóide. A primeira, como o próprio nome diz, ocorre quando o sangramento se localiza dentro do cérebro. Já a hemorragia subaracnóide ocorre quando o sangramento se dá entre o cérebro e a meninge (membrana que cobre o cérebro). Leia SINTOMAS DA MENINGITE para entender melhor melhor o conceito de meninge.

O AVC hemorrágico, principalmente o intraparenquimatoso (intracerebral), costuma ter prognóstico ruim. A mortalidade chega a ser superior a 50% e apenas cerca de 10% ficam sem sequelas. Quando há hemorragias grandes e perda de consciência, a taxa de mortalidade chega a 90%.

Agora que você já entendeu os tipos de AVC, vamos à parte mais importante que é o quadro clínico.

Consequências, sinais e sintomas do AVC

Os sintomas do AVC dependem da área do cérebro atingida. Quanto maior a área, em geral, mais grave é o quadro. Infartos pequenos em áreas nobres também são graves. Os sintomas mais comuns do AVC são:

- Paralisias motoras, normalmente em apenas um lado do corpo.
- Diminuição a força em um membro ou em todo um lado do corpo.
- Perda de equilíbrio com incapacidade de se manter em pé e dificuldade para realizar tarefas simples, como apertar um botão, ligar a luz ou levar um copo ou garfo a boca.
- Alterações na marcha.
- Dificuldades na fala e boca torta.
- Alterações na musculatura da face ou desvio dos olhos.
- Alterações visuais como visão dupla, cegueira parcial ou total.
- Desorientação, comportamento estranho ou discurso incoerente de início súbito.
- Diminuição do estado de consciência.
- Crise convulsiva.
- Coma (leia: COMA INDUZIDO).
- Morte.

A diminuição da sensibilidade e/ou formigamento isolado em um dos membros, ou apenas em parte deles, não costuma ser sinal de AVC, mas sim de lesões nos nervos periféricos ou na coluna. Acidente vascular cerebral costuma causar paralisias e diminuição de força.

Quadros de ansiedade e histeria podem simular um AVC, porém, na maioria absoluta das vezes são facilmente distinguidos pelo médico pelo fato dos sintomas não seguirem um lógica do ponto de vista neurológico. O que para o paciente e sua família pode ser um evento com toda cara de AVC, para o médico é claramente um quadro histeria.

O acidente vascular cerebral não causa dor, exceto por uma excruciante cefaleia (dor de cabeça) que pode ocorrer nos casos de AVC hemorrágico (leia: DOR DE CABEÇA).

Até 1/3 dos derrames ocorrem durante o sono e o paciente só nota alteração ao acordar.

Nos AVCs hemorrágicos o quadro pode evoluir muito rapidamente dependendo da sua extensão e da área do cérebro acometida. O paciente se queixa de mal-estar e rapidamente pode evoluir para perda de consciência e parada cardiorrespiratória.

É muito comum o AVC cursar com pico hipertensivo. A falta de sangue em regiões do cérebro leva o corpo a aumentar a pressão arterial em uma desesperada tentativa de aumentar a perfusão de sangue para o cérebro. Não se deve tentar controlar a pressão nestes casos (principalmente se ela estiver abaixo de 200/110 mmHg), pois há um perigo de piorar a isquemia cerebral se a pressão baixar rapidamente.  Se houver suspeita de AVC, vá imediatamente a um hospital e deixe os médicos controlarem a pressão do modo correto.

Para saber mais sobre os sintomas do AVC, leia: 7 SINTOMAS DO AVC.

Ataque isquêmico transitório

O ataque isquêmico transitório, conhecido como AIT, ocorre quando os sintomas do AVC desaparecem com menos de 24 horas após o seu início. O AIT é um derrame incompleto, que ocorre quando a isquemia consegue ser revertida espontaneamente antes que ocorra o infarto da região acometida.

Quem teve um AIT apresenta elevado risco de apresentar um AVC futuramente e deve ser seguido de perto por um neurologista.

AGORA, A INFORMAÇÃO MAIS IMPORTANTE DO TEXTO:

Existe uma classe de medicamento chamada de trombolítico, que dissolve trombos e êmbolos e restaura a circulação cerebral, acabando com a isquemia e impedindo a ocorrência do infarto. Porém, ele só tem efeito nas primeiras 3 horas do AVC, sendo ainda mais efetivo se administrado na primeira hora e meia.

Obs: os últimos trabalhos científicos têm demonstrado benefícios dos trombolíticos até 4,5 horas após o início dos sintomas.

Ao primeiro sinal de AVC o paciente deve ser levado imediatamente a uma emergência para que se tenha tempo de salvar a área cerebral isquemiada.

Portanto, a pior coisa que se pode fazer quando surgem sintomas de AVC é esperar para ver se o quadro vai melhorar sozinho. Se há suspeita de derrame durante a madrugada não se deve esperar amanhecer para levar o paciente ao hospital. Se não houver carro disponível, chame uma ambulância imediatamente.

Não se automedique e não espere para ver se os sintomas irão desaparecer. Se houver dúvidas em relação ao momento exato do início do sintomas, leve o paciente assim mesmo a um setor de emergência e deixe os médicos avaliarem a indicação ou não do trombolítico.

Nunca deixe o paciente com suspeita de AVC conduzir o carro. O quadro pode evoluir e um grave acidente pode ocorrer.

Os trombolíticos só estão indicados no AVC isquêmico. NÃO SE USA TROMBOLÍTICOS NO AVC HEMORRÁGICO. O diagnóstico diferencial entre esses dois tipos de AVC é feito através da tomografia computadorizada do cérebro.

No AVC hemorrágico pode ser necessária uma cirurgia de urgência caso o cérebro esteja sendo comprimido pelo sangramento. O tratamento consiste na remoção cirúrgica do coágulo/hematoma e de parte da calota craniana para que o cérebro possa se expandir sem ficar comprimido.

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