PANCREATITE CRÔNICA E PANCREATITE AGUDA
Para se entender os sintomas da pancreatite, é importante conhecer as funções básicas do pâncreas.
Quais as funções do pâncreas?
O pâncreas é uma grande glândula de formato achatado, com mais ou menos 20cm de comprimento, localizado logo atrás do estômago. Apresenta íntima ligação com as vias biliares e o com duodeno.
O pâncreas possui 2 funções básicas: participa do processo de digestão de alimentos e produz hormônios importantes no controle da glicemia (taxa de glicose do sangue) como a insulina e o glucagon.

O pâncreas produz enzimas que auxiliam no processo da digestão de proteínas, gorduras e carboidratos. Essas enzimas são lançadas diretamente no duodeno (primeira parte do intestino delgado), onde encontrarão os alimentos recém saídos do estômago. O pâncreas também produz bicarbonato que serve para neutralizar a acidez dos alimentos vindo do estômago, que possuem um pH muito baixo.

Enquanto as enzimas digestivas são lançadas diretamente no trato intestinal, o pâncreas também produz hormônios que são lançados na corrente sanguínea. Os dois principais são a insulina e glucagon, produzidos por um grupo de células chamado de ilhotas de Langerhans.
A insulina é o hormônio que permite que as células captem a glicose do sangue e a use como fonte de energia. O principal estímulo para a produção de insulina é o aumento dos níveis sanguíneos de glicose que ocorrem geralmente após as refeições. Quando a glicose do sangue se eleva, a insulina produzida no pâncreas é liberada para a corrente sanguínea. Com insulina circulante há consumo da glicose pelas células, e, consequentemente, a taxa de glicose no sangue volta a normalizar.
Se por algum motivo não houver insulina, não há como as células consumirem glicose e a sua taxa sanguínea permanecerá constantemente elevada. Isso nada mais é que o famoso diabetes mellitus (leia: DIAGNÓSTICO E SINTOMAS DO DIABETES MELLITUS).
O glucagon é um hormônio antagonista da insulina, ou seja, faz a função inversa. Quando os níveis de glicose estão muitos baixos, o pâncreas impede a liberação de insulina e estimula a produção de glucagon, que além de impedir a captação da glicose pelas células, age no fígado, estimulando a produção de glicose pelo mesmo.
Quando os níveis de glicose voltam a subir, os níveis de glucagon começam a cair e os de insulina a subir novamente. Deste modo, o pâncreas consegue manter nossa taxa glicemia sempre na faixa entre 60mg/dl a 140 mg/dl. Isso mesmo após refeições ou períodos longos de jejum.
PANCREATITE AGUDA
As enzimas digestivas produzidas no pâncreas só se tornam ativas após chegarem ao duodeno. A pancreatite ocorre quando por algum motivo, essas enzimas se ativam quando ainda estão dentro do pâncreas, fazendo com que o mesmo comece a ser digerido.
Causas de pancreatite aguda
Em mais de 75% dos casos, a pancreatite aguda ocorre por abuso de bebidas alcoólicas (leia: EFEITOS DO ÁLCOOL E ALCOOLISMO) ou por uma pedra da vesícula que fica presa na saída do ducto pancreático, impedindo a drenagem das enzimas para o duodeno (leia: PEDRA NA VESÍCULA E COLECISTITE). Reparem na ilustração abaixo como o ducto biliar e pancreático se unem e desembocam como um só no duodeno, justificando o porquê das pedras na vesícula poderem levar a pancreatite.

Outras causas menos comuns de pancreatite aguda incluem:
- Hipertrigliceridemia - Pancreatite pode ocorrer quando os níveis de triglicerídeos ultrapassam 1000mg/dl (leia: COLESTEROL BOM (HDL) E COLESTEROL RUIM (LDL)).
- Hipercalcemia - Níveis elevados de cálcio sanguíneo .
- Drogas -Alguns medicamentos como azatioprina, corticóides, pentamidina, metronidazol, tamoxifeno, furosemida, enalapril e vários outros, já foram descritos como causas de pancreatite. É bem conhecida a relação entre consumo de cocaína e pancreatite aguda.
- HIV (leia: SINTOMAS DO HIV E AIDS (SIDA)) e outras infecções como citomegalovirose, caxumba, salmonelose, amebíase, toxoplasmose etc...
- Traumas abdominais.
- Malformações do pâncreas.
- Fibrose cística
- Lúpus eritematoso sistêmico (leia:LÚPUS ERITEMATOSO SISTÊMICO)
- Idiopático - Em alguns casos não se consegue identificar nenhum fator para a pancreatite.
O sintoma universal da pancreatite aguda é a dor abdominal. A dor costuma se localizar difusamente na parte superior do abdômen podendo irradiar para as costas. Normalmente é desencadeada pela alimentação. Ao contrário da cólica biliar que também costuma surgir após alimentação e dura de 6 a 8 horas, a dor da pancreatite aguda pode durar vários dias.
A dor costuma vir acompanhada de náuseas e vômitos em 90% dos casos e pode ser tão intensa que o paciente rapidamente procura atendimento médico. Porém, em casos mais leves, a dor pode ser mais branda, postergando a ida do paciente ao hospital.
A pancreatite aguda de origem alcoólica costuma surgir de 1 a 3 dias depois de um consumo excessivo de bebidas.
A pancreatite pode se transformar em uma emergência médica. Em alguns casos mais graves a inflamação pode ser tão intensa que leva o paciente ao um quadro de choque circulatório (leia: SAIBA O QUE É CHOQUE CIRCULATÓRIO) e falência de múltiplos órgãos.
Diagnóstico da pancreatite aguda
O diagnóstico da pancreatite costuma ser feito com a dosagem sanguínea de 2 enzimas pancreáticas que se encontram muito elevadas nos casos de inflamação do pâncreas: amilase e lipase.
A tomografia computadorizada (TC) é um exame complementar importante, não só para ajudar no diagnóstico dos casos duvidosos, mas também para avaliar a presença de complicações como necrose e abscessos. Através dos achados na TC gradua-se alfabeticamente a gravidade da pancreatite de A a E, sendo A o quadro mais leve e E um quadro grave com sinais de complicações.
A ressonância magnética nuclear (RMN) pode ser usada no lugar da TC. A ultrassonografia é muito inferior a TC e a RNM para avaliar o pâncreas.
Tratamento da pancreatite aguda
Em geral, todo paciente com pancreatite aguda deve permanecer internado.
Se o caso for leve a moderado, a resolução é espontânea. Administra-se soros e controla-se a dor.
Neste período inicial, o paciente deve se manter em jejum total por no mínimo 3 a 7 dias, uma vez que a alimentação estimula a produção das enzimas pancreáticas que acabam por lesar ainda mais o pâncreas. Para o paciente não desnutrir, é necessária alimentação enteral, onde introduz-se um tubo até o intestino delgado fazendo com que a comida chegue a um ponto após o duodeno, não havendo assim estímulo a produção de enzimas pancreáticas.
Se mesmo com a nutrição enteral o paciente apresentar sinais de atividade da pancreatite, a solução é a alimentação parenteral, administrada pelas veias.
Conforme o pâncreas vai se regenerando, a alimentação por via oral pode ser reintroduzida lentamente.
Se a causa for obstrução por cálculos biliares, o mesmos devem ser retirados por via cirúrgica ou endoscópica.
Em casos mais graves, com infecção e/ou necrose extensa do pâncreas, antibióticos e cirurgia para retirada do tecido morto podem ser necessários.
Como já citado anteriormente, às vezes o quadro é tão intenso que o doente desenvolve choque circulatório, complicações renais e pulmonares, necessitando ficar internado em uma UTI (leia: ENTENDA O QUE ACONTECE COM OS PACIENTES NA UTI)
PANCREATITE CRÔNICA
Se o quadro de pancreatite aguda for muito extenso ou se o paciente apresenta repetidos episódios de pancreatite, essa inflamação crônica pode levar a lesão irreversível do tecido pancreático, levando ao que chamamos de pancreatite crônica.
A principal causa de pancreatite crônica é o consumo exagerado de álcool. Porém, qualquer causa que imponha quadros repetidos de pancreatite pode levar a lesão permanente do mesmo.
Sintomas da pancreatite crônica
Assim como na pancreatite aguda, o principal sintoma da pancreatite crônica é a dor abdominal. Porém, na doença crônica, a dor é permanente e não melhora após alguns dias. O paciente costuma estar muito emagrecido pois alimenta-se mal devido a dor que o ato de comer exacerba.
Como há lesão permanente do tecido do pâncreas, este começa a diminuir progressivamente a secreção das enzimas responsáveis pela digestão dos alimentos. Com isso, mesmo que a dor não impessa a alimentação, o paciente não consegue digerir o alimento para poder absorvê-lo, acabando por emagrecer do mesmo modo.
Quando mais de 90% do tecido pancreático encontra-se lesionado o paciente perde completamente a capacidade de absorver as gorduras da dieta, surgindo um quadro de diarréia gordurosa chamado de esteatorréia.
Seguindo o mesmo raciocínio, o pâncreas também torna-se incapaz de produzir insulina e glucagon, levando o paciente a um quadro de diabetes mellitus.
Outras complicações da pancreatite crônica incluem a formação de cistos ao redor do pâncreas, obstrução das vias biliares e ascite (leia: O QUE É ASCITE?).
Na radiografia abaixo, podemos ver um pâncreas todo calcificado, um sinal de cicatrização do tecido por pancreatite crônica.

Tratamento da pancreatite crônica
O tratamento da pancreatite crônica visa o controle da dor e dos sintomas da falência pancreática. É imperativo suspender o consumo de álcool.
Pacientes com síndrome de má-absorção precisam tomar suplementos com enzimas pancreáticas. Doentes com diabetes precisam de insulina.
Em casos onde a dor não consegue ser aliviada com drogas, a cirurgia do pâncreas pode ser necessária.
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Leia também:
- ENTENDA A DOENÇA DE CROHN E A RETOCOLITE ULCERATIVA
- INDICAÇÕES E EFEITOS DA PREDNISONA E CORTICÓIDES
- INTERAÇÃO DO ÁLCOOL COM REMÉDIOS E ENERGÉTICOS
- ENTENDA A HEPATITE C
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