ENTENDA O QUE ACONTECE COM OS PACIENTES NA UTI
Entenda os eventos mais comuns em pacientes internados em uma CTI / UTI
Ter um parente internado em um hospital é uma experiência desagradável. Quanto esse internamento é em uma unidade de tratamento intensivo (UTI), o sentimento é ainda pior.
Estar internado em um CTI normalmente indica que o caso é grave. A quantidade de máquinas ligadas e de procedimentos médicos invasivos, associado ao pouco tempo permitido de visita, costumam deixar os familiares muito confusos, assustados e estressados.
Para tentar diminuir esse trauma, vou explicar o princípio das máquinas acopladas aos pacientes de um UTI e os procedimentos mais usados pelos médicos.
MONITOR
Todo paciente internado em uma UTI precisa estar monitorizado. O monitor serve para a equipe médica avaliar de modo contínuo e "ao vivo", os sinais vitais do doente. Através de eletrodos, aparelhos de pressão automáticos e sensores ligados ao paciente e a máquina, é possível acompanhar a frequência cardíaca e respiratória, a pressão arterial, a saturação de oxigênio do sangue e ter um traçado básico de eletrocardiograma.
Qualquer arritmia cardíaca, queda ou elevação abrupta da pressão arterial , ou queda nos níveis de oxigenação do paciente são logo detectados pelo monitor que imediatamente avisa a equipe médica ou de enfermagem.
Exemplo de um monitor de UTI
BOMBAS INFUSORAS
Pacientes internados em UTI frequentemente necessitam de drogas infundidas de modo contínuo. A bomba infusora permite a administração venosa de drogas em ritmo constante.
É muito comum os uso de bombas infusoras em paciente com sepse e choque circulatório (leia: O QUE É SEPSE? e CHOQUE CIRCULATÓRIO. O QUE É ISTO ?). Doentes em choque não conseguem manter níveis normais de pressão arterial e precisam de drogas para manter a perfusão adequada dos tecidos. As drogas mais usadas para elevar a pressão arterial são a noradrenalina e a dopamina. Como são drogas de curtíssima duração e com grandes efeitos, precisam ser administradas continuamente e de modo muito controlado.
Do mesmo modo, nas crises hipertensivas também podemos administrar drogas antihipertensivas por via venosa, controlados pela bomba infusora. Deste nodo conseguimos uma reduçã omais gradual e controlada da pressão arterial.
A bomba infusora também é usada nos casos em que precisamos manter os pacientes sedados, como naqueles que estão em ventilação mecânica (explico no próximo tópico). Essa sedação é conhecida popularmente como coma induzido (leia: COMA INDUZIDO). As drogas mais usadas para sedação são os benzodiazepínicos (ex: Midazolan), Fentanil ou Propofol.
Em doente diabéticos com níveis de glicose descontrolados, também se usa a bomba para se controlar a infusão de insulina.
Exemplo de bomba infusora na UTI
PUNÇÃO DE VEIA CENTRAL
O doente em UTI recebe basicamente todas as medicações pela via venosa. Porém, nem todas as drogas podem ser administradas nas pequenas veias periféricas que temos nos braços.
Dois exemplos comuns são as drogas usadas no choque circulatório, explicado acima, e a nutrição parenteral, usada nos casos dos doentes incapazes de se alimentarem.
Esses tratamentos só podem ser administrados em veias centrais de grande calibre. Para isso, os médicos lançam mão da punção de uma veia profunda, com implantação de um cateter. Normalmente punciona-se a veia subclávia (foto abaixo) ou a veia jugular interna ou a veia femoral.
Cateter implantado na veia subclávia
VENTILADOR MECÂNICO
Os doentes em UTIs muitas vezes apresentam falência do sistema respiratório e necessitam de um suporte extra de oxigênio. Este pode ser fornecido por máscaras, ou em casos mais graves, pela ventilação mecânica.
O ventilador mecânico é uma máquina que garante a entrada de oxigênio nos pulmões do doentes que apresentam insuficiência respiratória, isto é, incapacidade de manter boa oxigenação dos tecidos. O respirador mecânico é capaz de fornecer oxigênio mesmo que o paciente não seja capaz de respirar por conta própria.
Exemplo de ventilador mecânico da UTI
Para se acoplar o paciente em um ventilador mecânico é necessário primeiro que o mesmo seja submetido a intubação das vias respiratórias. A intubação orotraqueal consiste na introdução pela vias aéreas de um tubo plástico. Uma extremidade do tubo fica localizado bem ao final da traquéia, logo antes do início de ambos os pulmões, e a outra por fora da boca, onde será ligado o ventilador mecânico.
Procedimento de intubação orotraqueal.
Doentes que necessitam de ventilação mecânica por vários dias são normalmente submetidos a uma traqueostomia. Deste modo o tubo pode ser ligado diretamente a traquéia, não precisando mais passar pela boca. Isso reduz os riscos de complicações como lesões das cordas vocais, pneumonias e extubações involuntárias.
CATETERISMO VESICAL
Todo doente com sinais de instabilidade hemodinâmica é submetido ao cateterismo da bexiga. Deste modo conseguimos aferir precisamente o débito urinário do paciente. Além de ajudar na avaliação do funcionamento dos rins, que é um dos primeiros a sofrer quando há instabilidade, a quantidade de urina produzida em 24 horas nos auxilia no planejamento do volume de soro que será infundido ao longo do dia.
Cateter vesical
HEMODIÁLISE
A insuficiência renal aguda (leia: ENTENDA A INSUFICIÊNCIA RENAL AGUDA) é uma complicação comum nos pacientes em estado crítico internados em um CTI. A máquina de hemodiálise procura fazer o papel do rins, controlando o volume de água do corpo, os níveis de eletrólitos e filtrando as toxinas. Leia HEMODIÁLISE - Entenda como ela funciona para mais detalhes.
Existem vários outros procedimentos médicos invasivos realizados em uma UTI. Os que foram descritos são apenas os mais comuns. É importante frisar que o paciente que necessita de UTI normalmente apresenta falência de um ou mais órgãos vitais. Os procedimentos acima visam monitorar e substituir essas funções até que o organismo seja novamente capaz de desempenhar esse trabalho por conta própria.
POR QUE OS PACIENTES NA UTI FICAM INCHADOS?
Uma das coisas que mais chamam a atenção dos familiares de pacientes internados em um CTI é o edema (inchaço) generalizado que os doentes apresentam. (leia também: INCHAÇOS E EDEMAS)
Mas por que os pacientes incham tanto?
Primeiro é necessário entender 3 conceitos:
1- Nossos vasos sanguíneos apresentam poros microscópicos que permitem a passagem de água de dentro para fora e de fora para dentro. Toda vez que há um aumento da pressão dentro dos vasos, como por exemplo por excesso de água, ou quando há um estado de inflamação que aumente o tamanho dos poros, ocorre transferência de água dos vasos para os tecidos.
2- A água do corpo se localiza em 3 compartimentos: dentro dos vasos, dentro das células ou no interstício (espaço que existe entre uma célula e outra).
3- O edema é o acumulo de líquido no interstício. Pode ocorrer no cérebro, nos pulmões, nas cavidade abdominal etc... O mais visível e comum é o edema no interstício do tecido cutâneo (pele).
Em um indivíduo normal, 60% do peso é composto de água. Ou seja , uma pessoa de 70kg tem 42 kg ou litros (1L de H2O = 1kg) só de água. Desses 42 litros, 28L estão dentro das células, 11L no interstício e apenas 4L dentro dos vasos, diluindo o sangue.
O edema ocorre quando há um desbalanço nesta distribuição em favor do interstício.
Doentes internados em UTI apresentam vários fatores que favorecem a formação do edema.
- Pacientes em choque recebem uma quantidade enorme de líquidos na tentativa de elevar a pressão arterial. Recebem mais líquidos do que podem excretar. O excesso vai todo para o interstício.
- Muitas vezes os pacientes apresentam insuficiência renal o que impede a eliminação do excesso da água administrada.
- Doentes graves apresentam um estado inflamatório sistêmico, o que favores a saída de água dos vasos para o interstício e impede a sua recaptação.
Quando o edema é só na pele, não há grandes riscos. É basicamente uma consequência do estado grave do paciente. Conforme há melhora do quadro clínico, o organismo consegue restaurar a distribuição normal da água corporal. Em geral, quando recebem alta hospitalar, os pacientes já não estão mais inchados.
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Leia também:
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10 comentários:
Dr me chamo Ana paula e to passando por uma situaçao critica, fiz um tratamento de choque no rim direito e 2 dias depois foi detectado polienefrite aguda, ja enternei 5 dias tomando antibiotico venoso porem continuo morrendo de dor, to com medo DR.
Ana,
Vctem que continuar com os antibióticos. O importante é reavaliar o seu quadro diariamente. A pielonefrite pode causar muita dor mesmo, mas tem tratamento e cura.
abs e melhoras
Sobre a punção de veia central, tu exemplificas punção da subclávia, jugular int. e femoral. Esse tipo de procedimento não leva à fibrose da veia? Se sim, o retorno venoso de regiões como braço e perna não ficariam completamente prejudicado (já que são veias centrais) ou há algumas anastomoses aí que suprem? tô confuso!
A sua pergunta é muito boa, por favor se identifique para que eu possa respondê-lo
Oi, fui eu quem fez a perfunta. Meu nome é thiago, sou aluno de medicina (2º ano). Acompanho e gosto bastante do site.
Thiago,
A punção de veias centrais realmente pode levar a fibrose da mesma, principalmente se for feita repetidamente.
É comum doentes em hemodiálise que acabam sofrendo múltiplas punções, desenvolverem tromboses de veias subclávia ou jugular. Na maioria das vezes a circulação colateral consegue suprir o retorno venoso, mas alguns pacients desenvolvem síndrome da veia cava superior por causa dessas obstruções.
Em geral, uma única punção não é suficiente para causar danos maiores.
Bom dia!! Doutores...
bom, qurado atual..
estou com minha tia na UTI.
ela está entubada com a respiração muito fraca, e foi para A UTI por ter sido encontrada desmaiada em seu quarto....
ela tem um quadro psiquiatrico, seu litio está alto(agora baixando)...foi para o hospital com uma intoxicação de remedios, seus rins paralizaram , já teve febre(quase pneumo), agora esta respondo a estimulos melhor, porem não fala por estar entubada...
enfim, acho que podera ter afetado o quadro neurologico..
as perguntas:
* ela poderia fazer um ressonancia estando na UTI e entubada?
* é preciso saber qual o quadro real ? e isso pode ser feito? com ressonancia?
* na UTI poderiamos ter um fisioterapeuta para ajudar na respiração?
aguardo retorno
att
Maria
Maria,
1- Sim
2- Não tenho como avaliar isso à distância
3- Em geral os CTIs já possuem uma equipe de fisioterpia.
Caro Dr. Pedro Pinheiro,
a minha mãe (65 anos) está internada na UCIP faz hoje um mês,foi um edema pulmonar agudo q a levou para lá,entubaram-na e induziram-na em coma.Falaram logo em choque séptico e foram-lhe dados antibióticos de largo expectrum (?)e ao fim de 5 dias os resultados das culturas isolaram uma bactéria chamada listéria q terá causado isto tudo.Essa bactéria foi eliminada ao fim de 10/14dias e até hoje não despistaram mais nenhum tipo de infecção. Entretanto teve de levar transfusão de plaquetas e de sangue,os rins tinham começado a falhar e estava a fazer diálise,até que na semana passada voltaram a funcionar sozinhos e até lhe tiraram o catéter da diálise,isto ao mesmo tempo q as plaquetas começaram também a aumentar. Entretanto ontem á noite os rins voltaram ao mesmo e voltou à diálise.Assinei um termo de responsabilidade para he fazerem uma traqueostomia.
Pergunto-lhe se é normal os rins ficaram quase 10 dias a funcionar normalmente e depois haver este retrocesso.
Por outro lado 1 mês de entubação e só agr é q se passará à traqueostomia (para além de que agr terão de a estabilizar outra vez com isto da diálise...), quais são os tipos de lesões associados à ventilação mecânica durante tanto tempo?
Obrigada pela sua atenção
Ana Lourenço
Ana,
Os grandes problemas da ventilação mecânica são as lesões das cordas vocais, da traqueia e a pneumonia associada ao ventilador.
O quadro que vc descreve sugere uma sepsis grave. Esses altos e baixos são comuns de acontecer em doentes dessa gravidade. É preciso ter paciência, apesar de tudo.
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